O Cinema na Metropolis: São Paulo (1930-1960)
O cinema foi o primeiro grande médio de comunicação de massas que transformou o mundo numa vila global e deu inicio à denominada indústria cultural. Visto em seus começos pelas as elites cultas como um produto da ciência e um instrumento de progresso o público escolheu o cinema como sua distração preferida. Como diversão urbana o cinema foi, sem duvida, a mais popular atraindo crianças, jovens e adultos de ambos sexos. Uma de suas primeiras manifestações foi influenciar os padrões de comportamentos e os hábitos de consumo dos espectadores. Para mostrar a relevância do estudo do cinema para a História, o presente trabalho se propõe analisar o impacto do cinema nos habitantes da cidade de São Paulo. A analise das salas de cinema na cidade de São Paulo e o tamanho de sua audiência, as estatísticas sobre o tipo, número e origem das películas que passaram pela censura e a produção cinematográfica nacional permitem mostrar a importância que teve o cinema na vida cotidiana das pessoas, fazendo do cinema um estudo relevante para analisar e compreender as sociedades passadas.
Um dos aspectos do cinema como meio de comunicação de massas tem que ver com seu impacto sobre a audiência. é aceita a idéia que o cinema como diversão urbana foi a mais popular, independentemente da idade e o sexo da platéia, influindo diretamente sobre os padrões de comportamento e hábitos de consumo dos espectadores. Para mostrar a relevância do cinema para o estudo do passado o presente trabalho tem por propósito responder várias questões, tomando a cidade de São Paulo como objeto de análise. As primeiras questões a serem respondidas são relativas a salas de cinema em termos de numéricos, o tamanho das mesmas em função das entradas vendidas e sua evolução arquitetônica desde 1896 até 1960. A analise estatística sobre o tipo, número e origem dos filmes que foram aprovados pela censura oferece respostas a questões relativas á importância dos gêneros cinematográficos mais populares e inferir numericamente a possível relevância do cinema na vida cotidiana das pessoas. Finalmente, dois tipos de questões trataram de ser respondidas. Qual foi a importância da produção nacional de filmes em função dos principais estúdios cinematográficos localizados em São Paulo e Rio de Janeiro? E, qual foi o impacto do cinema sobre a intelectualidade paulista que levou a criação de uma cultura cinematográfica em termos institucionais?
Salas de Cinema em São Paulo
Segundo José Inácio de Melo Souza, a primeira exibição cinematográfica na cidade de São Paulo tomou lugar em agosto de 1896, quando películas realizadas pelos irmãos Lumière foram mostradas ao público pelo fotógrafo Georges Renouleau. O desenvolvimento do cinema, naturalmente, dependeu da expansão da rede elétrica urbana, que no Brasil foi lenta. Por tal razão, as empresas francesas Pathé Frères e Gaumont ofereciam os equipamentos necessários para exibir os filmes juntamente com os aparelhos para gerar eletricidade.1 De forma similar que em outras cidades, até o iniciou do novo século, o progresso do cinema esteve nas mãos de exibidores e mascates ambulantes, que projetavam películas juntamente com cenas de magia e ilusionismo. Foi comum que donos de pequenos comércios alugaram seus locais a exibidores ambulantes, quando ficavam ociosos durante a noite ou os fins de semana.2
Com o a popularização do cinema a demanda por filmes aumentou e teatros foram alugados. Os primeiros, abertos em 1900, foram o teatro Santana, com uma capacidade de aproximadamente 1.277 espectadores e o Salão Paris, operado pelo exibidor ambulante Vittorio di Maio. Mais tarde, outra sala de teatro, L’Incroyable, foi aberta em 1903. Com a inauguração do Politeama Concerto, em 1901, posteriormente conhecido como Cassino Paulista, iniciou-se a exibição de filmes em cafés e restaurantes. O sucesso do negocio levou à apertura de outros estabelecimentos entre os anos 1906 e 1907, como o Moulin Rouge, no Largo de Paysandú, o Salão Progredior, a Confitaría Fasoli e a Rôtisserie Sportsman. Demorou até agosto de 1907, para que o espanhol Francisco Serrador inaugurara na avenida São João o Bijou-Theatre, a primeira sala de cinema na cidade, ao lado do Teatro Politeama.3 Segundo Carla Miucci Ferraresi, citando a Guia do Estado de São Paulo de 1912, o centro da cidade tinha, alem do Bijou-Theatre, outras duas salas de cinema: o Radium e o íris Theatre.4 Nos bairros existiam outras salas de cinema como o High Life e o Smart (Vila Buarque), o Rio Branco e o Brasil (Santa Efigênia), o Edison e o éden (Luz), o Pavilhão dos Campos Elíseos (Campos Elíseos), o íris, o Popular e o Piratininga (Brás) e o Avenida (Liberdade). A partir de 1912 novos teatros e cinemas-teatros (teatros adaptados para projeções cinematográficas) foram abertos. As melhores salas estavam localizadas no centro da cidade. No bairro da Sé se encontravam os seguintes cinemas: Mafalda (1912), Olímpia (1920), Santa Helena (1923), São Bento (1927) y Alambra (1928). No bairro da República os cinemas Central (1912), Avenida (1919), República (1921) e Colyseo Paulista (1929). No distrito do Brás se localizavam o Brás Polytheama (1917), o Glória (1925) e o Oberdan (1927) e no bairro da Liberdade os cinemas São Paulo (1914) e Capitolio (1927). Outras salas importantes foram abertas fora do centro da cidade, como o cinematógrafo São Pedro (1917) em Barra Funda, o Colombinho (1923) em Bom Retiro, o Odeon (1926) na Consolação e o Paulistano (1928) na Vila Matilde.5 Nesse período, muitas das salas de cinema eram adaptações precárias e sem conforto e outras eram teatros adaptados à exibição de películas. Foi comuns nestes estabelecimentos a precariedade das condições sanitárias e a deficiência na higiene. A grande maioria dos estabelecimentos foram empreendimentos familiares ou dirigidos por empresários do ramo de diversões. O panorama muda a partir de 1926, com a apertura do cinema Odeon, cujo edifício mostra signos de sofisticação e luxo e se expande com a introdução do cinema sonoro, em 1929, que muda o padrão técnico para la exibição de películas. Mais importante, os circuitos exibidores, como o de Francisco Serrador, progressivamente se consolidaram.
As transformações que tomaram lugar foi um sinal que o cinema se converteu no passatempo favorito dos habitantes da cidade de São Paulo. O cinematógrafo foi visto como um corolário da modernidade. Os filmes mostraram aos espectadores o modo de vida nos países mais avançados introduzindo modas, formas de comportamento e os avanços tecnológicos da vida urbana, impondo sobre a audiência a racionalização de condutas e padronização dos costumes e hábitos de consumo. Desta maneira, os elementos e situações mostradas na tela se transformaram em modelos para a modernização de uma cidade que procurou equiparar-se com Nova Iorque, Berlim, Paris o Londres. Imitando as grandes metropolis de Europa e dos Estados Unidos, com a chegada do cinema sonoro, começou a construção de palácios majestosos dedicados exclusivamente à exibição cinematográfica. No dia 4 de abril de 1929, com a película parcialmente sonora Alta Traição (Betrayal), dirigida por Lewis Milestone e atuando Emil Jannings e Gary Cooper, o cinema Paramount foi inaugurado. Seis meses depois foi aberto o cinema Rosário. O cinema Paramount estava localizado na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio 411, no bairro da Sé e a poucos quarteirões do centro velho de São Paulo. O estilo de sua construção foi descrito como neoclássico afrancesado, sobriamente decorado, com um excelente sistema de ventilação e iluminação. Mais luxuoso ainda foi o cinema Rosário, situado no arranha-céu Martinelli (outro símbolo da modernização), considerado o edifício mais alto de América Latina. Em estilo art nouveau, suas paredes internas eram revestidas em mármore, seu interior foi decorado com ostentosas cabeças de animais realizadas em bronze, os assentos foram estofados e os banheiros para ambos sexos suntuosamente decorados. Deve também se mencionar que a chegada do som ao cinema levou ao desemprego de artistas e músicos que anteriormente foram parte da programação.
O cinema sonoro deu lugar ao surgimento no centro da cidade uma região que vai ser conhecida como a "Cinelandia Paulista", localizada entre a Avenida São João, o Largo de Paysandú, a rua Santa Efigênia e a Avenida Ipiranga. Nessa zona foram construídos os principais cinemas da cidade. Na Avenida São João estavam localizados os cinemas Avenida (1935), o Ufa-Paláce (1935) - chamado de Art-Paláce a partir de 1942, por razões da Segunda Guerra Mundial - Metro (1938), Broadway (1941) e Ritz (1943). No Largo de Paysandú, o Bandeirante (1939) e na rua Santa Efigênia o Paratodos (1935). Finalmente, na Avenida Ipiranga se localizavam o Ipiranga (1943) e o Marabá (1945). O seguinte quadro oferece um resumo das atividades das principais salas na Cinelandia Paulista.
Quadro 1.
Salas de Cinema na Cinelandia Paulista, por Ano de Fundação, Empresas e Audiência em Milhares de Espectadores 6

Fora da região da Cinelandia, outras salas importantes foram abertas. No bairro do Brás, os cinemas de maior número de espectadores foram às salas Universo e Piratininga, ambas inauguradas em 1943. No ano 1945, assistiram ao cinema Universo 1.034.000 espectadores e ao Piratininga um público de 998.000 pessoas. Mais tarde, em 1949, abriu suas porta o cinema Cairo, localizado na rua Formosa, com uma audiências de 729.000 espectadores em 1957. Os cinemas Marrocos (1951), na rua Conselheiro Crispiniano, e o República (1952), localizado na praça do mesmo nome, também foram freqüentados por um grande público. Em 1957, o Marrocos contou com uma audiência de 1.350.000 espectadores e na sala República assistiram 1.638.000 fregueses.7
Considerando a cidade de São Paulo em sua totalidade, pode afirmar-se que o número de espectadores aumento simultaneamente com o número de seus habitantes.
Quadro 2.
População da Cidade de São Paulo por Ano, Número de Lugares nas Salas de Cinema e Público Anual 8
| Ano | População (000) | Número de Lugares | Público (000) |
| 1940 | 1.317 | 95.754 | 19.526 |
| 1950 | 2.198 | 158.000 | 35.846 |
| 1960 | 3.635 | 224.669 | 44.357 |
A cidade de São Paulo ocupou um lugar privilegiado em termos de audiência. Em 1957, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou para o Brasil a existência de 3.303 salas de cinema, que ofereceram semanalmente 25.546 sessões atendidas por 6.885.760 espectadores. Nesse mesmo ano, São Paulo possuía 178 cinemas que proporcionaram por semana 2.661 sessões a uma platéia de 1.088.368 pessoas. Somente a cidade de Rio de Janeiro, na época o Distrito Federal, teve uma audiência semanal maior (1.164.000 de espectadores) nas 3.952 sessões, apesar de contar somente com 162 cinemas.9 Entretanto, deve ser lembrado que o Distrito Federal contou com um número maior de habitantes que a cidade de São Paulo.
O Mercado Cinematográfico
A analise das estatísticas da censura oferece uma aproximação ao tamanho do mercado cinematográfico brasileiro. Três momentos podem identificar-se no Quadro 3. O primeiro período compreende de 1935 a 1939, quando o número de películas que desfilaram pela censura aumento nos três primeiros anos. Só diminuiu em 1938 em 194 películas, em relação ao ano anterior. A média aritmética dos filmes aprovados pela censura foi de 2.350 por ano. O segundo momento abrange de 1942 a 1945, os anos da Segunda Guerra Mundial. Nesses anos o número de películas aprovadas pela censura diminuiu, sendo a média aritmética de 2.217 filmes por ano. O terceiro momento vai de 1946 até 1961. O mesmo pode considerar-se o período de ouro do cinema no Brasil, em termos de espectadores e número de películas exibidas. A média anual de filmes censurados foi de 3.280 películas. Segundo a classificação por gêneros cinematográficos, as estatísticas mostram que os denominados "dramas" prevaleceram entre 1935 e 1961. Também é de notar que os seriados, películas projetadas em capítulos, foram às favoritas de um público jovem.
Quadro 3:
Censura Cinematográfica no Brasil.
Total de Películas Censuradas e Aprovadas s egundo seu Gênero 10

O Quadro 4 relaciona a média aritmética anual das películas censuradas por período e paises de origem. Nos três períodos mencionados a produção de Hollywood dominou a exibição de películas de longa metragem de ficção. Os números indicam que o total de películas, incluindo trailers, noticiários, curtos metragens e outros tipos de filmes. Quando se analisam as películas de ficção o cinema norte-americano dominou até 1950 com 90 a 95 por cento do total de filmes exibidos no país. O primeiro período, que compreende os anos 1935-1939, as películas da Alemanha de Hitler sobressaem numericamente entre os filmes europeus, superando à França (68) e a Itália (20). Não foi surpresa que em 1936, a empresa estatal UFA inaugurara o cinema Ufa-Palace, na Avenida São João, com capacidade para 3.139 espectadores. O cinema por suas linhas ultramodernas foi um marco arquitetônico na cidade de São Paulo. Sua construção pode ser considerada como uma arma a mais na luta ideológica que caracterizaram os anos anteriores à Segunda Guerra Mundial. Com o inicio do conflito seu nome foi mudado para Art-Palace em 1942.11
O segundo período abrange os anos de 1942 a 1945. A Segunda Guerra Mundial determinou que o cinema norte-americano perdera em os mercados em territórios ocupados pelas forças inimigas em Europa, áfrica e ásia. Uma situação que fez do Brasil o terceiro país em número de espectadores e, conseqüentemente, num mercado decisivo para a industria cinematográfica dos Estados Unidos.12 Também existiram razões políticas para a
Quadro 4: Censura Cinematográfica no Brasil.
Media Anual de Películas Censuradas por Período e País de Origem 13

preponderância do cinema norte-americano durante a guerra. Hollywood foi um instrumento para que Washington implementara a Política de Boa Vizinhança. Basta lembrar a visita de Walt Disney ao Brasil e seus filmes com Zé Carioca e o Pato Donald e películas musicais com Carmen Miranda.14 Como mostra o Quadro 4, as películas dos países do Exo foram quase inexistentes. Com a França ocupada, os filmes de Inglaterra ocuparam um lugar significativo, com uma média anual de 96 películas. Deve destacar-se a influencia do cinema Argentino no Brasil, com uma média de 18 filmes anuais e o incremento das películas mexicanas. A importação de filmes de Argentina e México não foi resultado da guerra somente, mas da atração do público brasileiro por melodramas que narraram histórias próximas à realidade do Brasil, diferentes dos melodramas produzidos por Hollywood.
O terceiro período vai desde o final da Segunda Guerra Mundial até 1961. Anos que podem considerar-se a época dourada do cinema na maioria dos países do mundo. A média anual de películas norte-americanas que foram aprovadas pela censura foi de 1.545. Os filmes europeus também aumentaram sua participação, especialmente os franceses (123), os italianos (84) e os ingleses (79). As películas japonesas tiveram uma amplia recuperação alcançando uma média anual de 51 filmes. Seguramente para atender a importante colônia japonesa existente no país, especialmente em São Paulo. é de notar o incremento das películas mexicanas, que representaram uma media anual de 67 filmes. O cinema argentino também aumento comparado com o período anterior, subido a média de 18 a 28 películas por ano, mas superado numericamente pelo cinema mexicano.
A Indústria Cinematografia Nacional
A produção de películas de longa metragem no Brasil foi inferior às de México e Argentina. Entre 1935 e 1939, Brasil realizou uma média anual de 38 filmes. Durante os anos da guerra (1942-1945), a média anual desceu a 24 películas, seguramente pela falta de filme virgem, que na época era importando em sua totalidade. Entre 1946 e 1961 a produção média foi de 27 películas por ano.15 O lento progresso da indústria pode atribuir-se à ênfase dado ao cinema educativo, principalmente à produção de curtas e médias metragens de caráter didático. Tal estratégia foi resultado da política sustentada pelos intelectuais intimamente associados à política de desenvolvimento do governo de Getúlio Vargas.16 Desta forma, a produção de películas de longa-metragem, especialmente de ficção, foi descartada abrindo o mercado à importação de películas estrangeiras, especialmente às produzidas em Hollywood. A primeira legislação sobre cinema foi promulgada em 1932, durante o governo provisório de Getúlio Vargas. A lei 21.240 deu impulso à produção de curtas-metragens ao diminuir os impostos sobre a importação de filme virgem e decretar a exibição obrigatória de uma curta metragem nacional, quando uma longa metragem estrangeiro fora exibido. Mais tarde, em 1939, foi decretada uma lei que obrigou a cada sala de cinema a exibir um mínimo de uma película de longa metragem nacional por ano. Finalmente, a lei 20.493 promulgada em 1946, aumento a três o número de películas nacionais a ser exibida anualmente em cada sala de cinema.
Os dois grandes centros de produção cinematográfica foram Rio de Janeiro e São Paulo. O cinema chegou a Rio de Janeiro em julho de 1896, poucos meses depois da famosa exibição em Paris pelos irmãos Lumière. Dois anos mais tarde foram registradas as primeiras imagens da Bahia de Guanabara por Afonso Segreto, um imigrante italiano que desembarcou com uma câmara Lumière. Novos empresários surgiram não somente no Rio de Janeiro, mas também no resto do país, registrando atualidades e festas populares e, juntamente com esses empresários, foram criados circuitos de exibição. A produção cinematográfica nacional foi reduzida a poucos longas-metragens, a maioria sendo documentários e atualidades realizados em forma artesanal. Uma das primeiras tentativas de industrializar o cinema tomou lugar quando o fotografo Antonio Leal construiu um estúdio para realizar a película de aventuras, Lucíola, em 1916.17 Apesar do sucesso da película, o empreendimento de Leal não foi continuado. Somente com a criação em Rio de Janeiro de Cinédia em 1930, por Adhemar Gonzaga, o projeto de criar uma indústria cinematográfica nacional nos moldes de Hollywood teve êxito.18 Gonzaga construiu um estúdio moderno, equipado com laboratórios próprios, importou equipamentos e criou sua própria distribuidora. Cinédia se especializou com êxito em películas carnavalescas e comédias românticas, permitindo à empresa sobreviver até 1951. Outro estúdio que surgiu na década de 1930 foi a Brasil Vita Filmes, propriedade da atriz, produtora e diretora portuguesa Carmen Santos, que realizou entre outras, a película Favela de meus amores (1935). Um filme que por primeira vez retratou no cinema os morros cariocas e seus habitantes. Em 1941, Moacyr Fenelon fundou a produtora Atlântida em Rio de Janeiro que se especializou no cine-jornal Atualidades Atlântida e em melodramas de fundo social.19 Vai a ser com musicais carnavalescos que depois da Segunda Guerra Mundial, a empresa começo a produzir comédias ambientadas no meio artístico denominadas de chanchadas, seu maior êxito comercial.20 A Atlântida também realizou filmes policiais. Parte do êxito da empresa foi resultado das leis que criaram a primeira reserva de mercado para a produção cinematográfica nacional. O último filme realizado pela Atlântida foi O Homem do Sputnik, em 1959.
Em São Paulo, a primeira empresa cinematográfica de êxito foi a Rossi Filmes. Criada em 1919, seus fundadores foram José Medina e Gilberto Rossi. Ao começo o empreendimento se especializou em atualidades e documentários de curta duração e, mais tarde, realizou três filmes de longa metragem.21 Outro estúdio criado na década de 1920 foi a empresa Visual Filmes. Fundada pelo empresário Adalberto de Almada Fagundes, a Visual Filmes realizou uma única película, Quando Elas Querem, em 1925.22 Em 1929 foram produzidas em São Paulo dois filmes que marcaram a história do cinema mudo brasileiro. A primeira, Fragmentos da Vida era uma co-produção entre a Visual Filmes e a empresa Medifer de José Medina e Carlos Ferreira. Inspirada no conto do escritor norte-americano O. Henry, seu diretor José Medina adaptou o conteúdo da obra à paisagem urbana da cidade de São Paulo. A segunda película foi o documentário São Paulo, a Sinfonia da Metrópole, realizada pelos húngaros Rodolfo Rex Lustig e Adalberto Kemeny e inspirada na obra do alemão Walter Ruttmann, Berlin die Sinfonie der Grosstadt, de 1927.23 Outro intento de produzir filmes tomou lugar no final da década de 1930. Um grupo de fazendeiros paulistas criou a Companhia Americana de Filmes, construíram um estúdio e importaram equipamentos e material cinematográfico. Associados com a empresa carioca Cinédia realizaram um único filme A Eterna Esperança, que depois de três anos de trabalhos ficou pronta em 1940. A película foi um fracasso de bilheteria e a empresa fechou seus estúdios.
A produção de filmes de longas metragens em São Paulo se consolidou quando em 1949, foi criada a Companhia Cinematográfica Veracruz pelos empresários Franco Zampari e Francisco Matarazzo Sobrinho. A empresa foi a maior tentativa de reproduzir no Brasil uma indústria cinematográfica similar aos estúdios de Hollywood.24 Para tal fim, foram importados equipamentos, técnicos e diretores acompanhando o processo de instalação com um grande esquema publicitário. Com o filme O Cangaceiro, dirigido por Lima Barreto e premiado no Festival de Cannes em 1953, a Veracruz iniciou um novo tipo de películas cujo fundo foi a região rural do nordeste do país e seus habitantes marginados. Muitas vezes esses filmes foram comparados com os de faroeste produzidos em Hollywood. Apesar do êxito de algumas películas, a Veracruz quebrou em 1954 e de suas cinzas foi criada outra empresa, a Brasil Filmes (1955-1959). Também na década de 1950 foram criadas duas outras empresas cinematográficas em São Paulo: a Companhia Cinematográfica Maristela (1950-1958) e a Multifilmes (1952-1954).
A Cultura Cinematográfica
O impacto do cinematógrafo sobre a intelectualidade paulista foi importante. Para seus membros o cinema era mais uma arte que um simples espetáculo. Uma visão que tomou forma institucional quando em 1940 foi criado o Clube de Cinema por iniciativa de Paulo Emílio Salles Gomes e onde participaram Décio de Almeida Prado, Ruy Coelho, Antônio Candido e Lourival Gomes Machado entre outros.25 Possivelmente inspirados em seu similar carioca Chaplin Clube (1928-1930) a instituição era uma organização informal devido às restrições impostas pelo Estado Novo. Seu maior público consistiu de professores e estudantes da Faculdade de Filosofia da USP. Resultante dessa atividade surgiu em 1941 a revista Clima (1941- 1944), onde seus colaboradores exerceram a crítica sistematizada sobre a sétima arte como também ensaios sobre teatro, música, arte, economia e política. A experiência do Clube de Cinema foi interrompida em 1943 pela intervenção do Departamento de Imprensa e Propaganda. Foi com a queda do Estado Novo que em 1946 o Clube de Cinema retomou suas atividades institucionais, agora de maneira formal. Três anos mais tarde se transformou na Filmoteca do Museu de Arte Moderno de São Paulo e, finalmente, no embrião da Cinemateca Brasileira, criada em 1956. Por outra parte, a crítica cinematográfica sistemática tomou forma a mediados da década de 1940, quando jornais como O Estado de São Paulo e o Correio Paulistano, começaram a manter colunas de críticas cinematográficas. A especialização dos críticos levou à criação da Associação Brasileira de Cronistas Cinematográficos (ABCC) em 1946. Entre os críticos e ensaísta de maior renome figura Anatol Rosenfeld autor de Na Cinelandia Paulistana (São Paulo: Perspectiva, 2002) e Cinema: Arte & Industria (São Paulo: Perspectiva, 2002). Ambos livros oferecem uma coletânea sobre críticas de filmes e uma visão histórica do cinema.
Durante mais de trinta anos o cinema foi a principal forma de recriação coletiva dos habitantes da cidade de São Paulo, superando em número de espectadores qualquer outra forma de divertimento incluindo o futebol. Com os olhos fixos na tela os espectadores encontraram padrões de hábitos de consumo e comportamentos, fontes de inspiração para imitar bigodes, penteados e roupas como também maneiras de fumar, enamorar e caminhar. Por tal razão, a analise dos filmes permitem inferir as fontes dos modelos de conduta e consumo da população de uma cidade que encontro na tela modelos de modernização para poder comparar-se com os habitantes das principais metropolis do mundo.
Notas
1 Ver, SOUZA, José Inacio de Melo. "Francisco Serrador e a Primeira Década do Cinema em São Paulo". Mnemocine - Memória e Imagen. 10 de Fevereiro de 2001. www.mnemocine.com.br/cinema/histindex.htm.e GOMES, Paulo Emilio Salles. "Panorama do cinema brasileiro: 1896/1906", em sua obra, Cinema. Trajetória do subdesenvolvimento. São Paulo: Paz e Terra, 1980, p. 41.
2 Acerca dos primeiros tempos do cinema no Brasil, Vicente de Paula Araújo escreveu dois livros: A Bela época do Cinema Brasileiro. São Paulo: Perspectiva, 1976 e Salões, circos e cinemas. São Paulo: Perspectiva, 1981.
3 Francisco Serrador foi o primeiro a compreender que o cinema como negocio se sustentou na distribuição de películas. Em 1911, Serrador fundou a Companhia Cinematográfica Brasileira. A empresa distribuía e exibia películas tanto no interior de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais quanto nas cidades de São Paulo e o Distrito Federal e seus representantes cobriam a maior parte do país.
4 "Cinema Hollywoodiano no Processo de Construção da ‘Civilidade Moderna’" - São Paulo, 1920, Mnemocine - Memória e Imagen. www.mnemocine.com.br/cinema/histindex.htm.
5 Para uma visão totalizadora sobre a evolução das salas de cinema em São Paulo, ver, SIMõES, Inimá. Salas de Cinema em São Paulo. São Paulo: PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado de Cultura, 1990, especialmente pp. 158-161 e GOMES, "Panorama do cinema brasileiro: 1896/1906, p. 41.
6 SIMõES, Salas de Cinema em São Paulo, p. 89.
7 Ibid, p. 89.
8 Ibid, p. 89.
9 1957. Situação Cultural. Diversões Pública II. Número de Sessões e de Espectadores Segundo o Gênero dos Espetáculos, por Unidades da Federação e Municípios das Capitais. - 1957. IBGE. Estatísticas do Século XX. Cultura1959_aeb091.xls. www.ibge.gov.br.
10 IBGE. Estatísticas do Século XX. Em www.ibge.gov.br consultar los seguintes arquivos: cultura1936_aeb.xls, cultura1938_aeb.xls, cultura1935_40_aeb.xls, cultura1948_aeb.xls, cultura1949_me.aeb74_l.xls, cultura1955_aeb94.xls, cultura1958m_aeb122_1xls, culturaq959m_aeb110.xls e cultura1962_aeb08.xls. Os números do total de películas entre 1935 y 1947 incluem todo tipo de filmes. é de notar que a partir de 1948, são considerados somente no total de películas censuradas, os filmes de longa metragem. Finalmente, entre 1958 e 1961 o total de películas incluem curtos e longas metragens. Juntamente com os dramas, as comedias e os seriados, outros filmes foram classificados como Revista, Desenhos Animados, "Jornal", "Short", Propaganda e "Trailers".
11 SIMõES. Salas de Cinema em São Paulo, pp. 10, 35-40.
12 USABEL, Gaizka S. The High Noon of American Films in Latin America. Michigan: UMI Research Press, Michigan Studies in Cinema, nº 17, citado por MENEGUELLO, Cristina. Poeira de Estrelas. O Cinema Hollywoodiano na Mídia Brasileira das Décadas de 40 e 50. São Paulo: Editora da UNICAMP, 1996, p. 12.
13 IBGE. Estatísticas do Século XX. Em www.ibge.gov.br consultar los seguintes arquivos: cultura1936_aeb.xls, cultura1938_aeb.xls, cultura1935_40_aeb.xls, cultura1948_aeb.xls, cultura1949_me.aeb74_l.xls, cultura1955_aeb94.xls, cultura1958m_aeb122_1xls, culturaq959m_aeb110.xls e cultura1962_aeb08.xls.
14 Entre os filmes de Carmen Miranda devem mencionar-se Uma Noite em Rio (That Night in Rio - 1941) e Aconteceu em Havana (Weekend in Havana - 1941). O mais famoso de Walt Disney foi Você já foi à Bahia? (The Tree Caballeros - 1945), onde Zé Carioca, Pato Donald e Panchito realizam um viajam pela América Latina, como parte da Política de Boa Vizinhança.
15 Ver NETO, Antônio Leão da Silva. Dicionário de Filmes Brasileiros.São Paulo: A. L. Silva Neto, 2002, pp. 919-939.
16 Entre os que favoreceram o cinema educativo devem mencionar-se Joaquim C. Mendes Almeida, autor do livro Cinema contra Cinema (1931), uma obra totalmente oposta ao cinema de ficção, Fernando de Azevedo, autor da primeira lei de estimulo ao cinema educativo, sancionada em 1928 e Gustavo Capanema, Ministro de Educação. Ver: OROZ, Silvia. Melodrama. O Cinema de Lágrimas da América Latina. 2º ed. Rio de Janeiro: Funarte, 1999, p. 194-196.
17 VIANY, Alex. Introdução ao Cinema Brasileiro. 2. ed. Rio de Janeiro, Alhambra/Embrafilme, 1987, p. 45. Sobre a indústria cinematográfica brasileira, ver: JOHNSON, Randal. The film industry in Brazil. Pitsburgh: Pithsburgh University Press, 1987 y RAMOS, Fernão (Org). História do Cinema Brasileiro. São Paulo, Arte Editora, 1987.
18 Ver: GONZAGA, Alice. 50 Anos de Cinédia. Rio de Janeiro: Record, 1987.
19 AUTRAN, Artur. A Atlântida de 1950 a 1960. http://www.mnemocine.com.br/cinema /histindex.htm.
20 VIEIRA, João Luiz. "A Chanchada e o Cinema Carioca" IN: RAMOS, História do Cinema Brasileiro.
21 Entre os filmes mais conhecidos de curtas-metragens figuram Exemplo Regenerador (1919) e Fragmentos de una Vida (1929) e as películas de longas-metragens foram Perversidade (1920), Do Rio a São Paulo Para Casar (1922) y GigiI (1925).
22 O diretor da película Eugênio C. Kerrigan, previamente havia dirigido Sofrer para Gozar, um filme de aventura realizado em Campinas, interior de São Paulo, em 1923. NETO. Dicionário de Filmes Brasileiros, p. 727.
23 Una versão sonora fui lançada em 1933 com o título São Paulo em 24 Horas.
24 Sobre a Vera Cruz, ver: GALVãO, Maria Rita Eliezer. Burguesia e Cinema: o caso Vera Cruz. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981.
25 Ver: XAVIER, ismael. "Paulo Emílio e a Cultura do Cinema". http://utopia.com.br/cineclube/movimento/paulo_emilio.html COUTINHO, Angélica. "Modernismo em Palavras e Imagens". http://www.estacio.br/graduacao/cinema/digitagrama/numero1/02.asp Primeiro Semestre de 2003 e CALIL, Carlos Augusto e MACHADO, Maria Teresa. Paulo Emílio: Um Intelectual na Linha de Frente. São Paulo: EMBRAFILME/Ministério de Cultura/Brasiliense, 1986, pp. 111-116.




