Sociabilidades letradas no Recife: a revista Estudos Universitários
Este trabalho faz parte de um esforço maior de pesquisa, cujos objetivos podem ser sintetizados em três: a) mapear o ambiente intelectual/cultural do Recife, no intervalo que cobre o fim do Estado Novo e o advento do Regime Militar; b) identificar os grupos e figuras mais relevantes deste cenário a fim de verticalizar o conhecimento disponível acerca deles; c) compreender, a partir dos dados levantados, como se articulavam os principais grupos atuantes na cidade, quais questões mobilizavam suas atenções, qual a natureza de suas produções, como as tornavam públicas, quais recursos artísticos/intelectuais arregimentavam (suas influências, pressupostos, etc.), como, enfim, percebiam a si e como concebiam o trabalho que realizavam. Essas são questões que venho tentado desenvolver desde a elaboração de meu trabalho de doutoramento, O movimento e a linha: presença do Teatro do Estudante e d’O Gráfico amador no Recife (1946-1964), que se constituiu em meu primeiro esforço de configuração desse campo cultural. O que pretendo com esse estudo não é outra coisa que dar prosseguimento a essa linha de investigação e, tanto quanto possível, aprofundar algumas reflexões que naquele primeiro momento foram apenas esboçadas. Com vistas a isto é que este projeto pretende debruçar-se sobre a revista Estudos Universitários e, por extensão, sobre o grupo que a produziu.
A proposta deste trabalho faz parte de um esforço maior de pesquisa, cujos objetivos podem ser sintetizados em três: a) mapear o ambiente intelectual/cultural do Recife, no intervalo que cobre o fim do Estado Novo e o advento do Regime Militar; b) identificar os grupos e figuras mais relevantes deste cenário, a fim de verticalizar o conhecimento disponível acerca deles; c) compreender, a partir dos dados levantados, como se articulavam os principais grupos atuantes na cidade, quais questões mobilizavam suas atenções, qual a natureza de suas produções, como as tornavam públicas, quais recursos artísticos/intelectuais arregimentavam (suas influências, pressupostos, etc.), como, enfim, percebiam a si e como concebiam o trabalho que realizavam.
Essas são questões que venho tentado desenvolver desde a elaboração de meu trabalho de doutoramento, O movimento e a linha: presença do Teatro do Estudante e d’O Gráfico amador no Recife (1946-1964), que se constituiu em meu primeiro esforço de configuração desse campo cultural. O que pretendo com esse projeto de pesquisa não é outra coisa que dar prosseguimento a essa linha de investigação e, tanto quanto possível, aprofundar algumas reflexões que naquele primeiro momento foram apenas esboçadas. Com vistas a isto é que este trabalho pretende debruçar-se sobre a revista Estudos Universitários e, por extensão, sobre o grupo que a produziu1.
A revista Estudos Universitários circulou pela primeira vez em setembro de 1962. Sua criação foi um dos desdobramentos das orientações que Paulo Freyre imprimiu à SEC (Serviço de Extensão Universitária), da Universidade do Recife2. Sob mais de um aspecto, a revista representava uma iniciativa pioneira. A começar por sua apresentação gráfica que, tendo ficado sob os cuidados de Orlando da Costa Ferreira e outros antigos Gráficos Amadores, trazia muitas das marcas do arrojado design que tanto distinguiu O Gráfico Amador. A par com sua apresentação gráfica ? que indicava um periódico de perfil contemporâneo ao seu tempo, desafiador de tradições arcaizantes ?, tinha-se o conjunto de suas contribuições (artigos, pequenos ensaios, resenhas, etc.) que se caracterizava por esse mesmo recorte de dialogar com os temas contemporâneos, de possuir um acentuado pendor para o debate crítico com as tendências e teorias mais recentes do mundo acadêmico, ao mesmo tempo em que, por outro lado, abria-se para discutir as questões mais candentes da sociedade da época. Daí advir o terceiro traço com que se distinguia das revistas em circulação no Recife da primeira metade dos anos 1960: a Estudos Universitários foi sugada pelo vórtice das disputas políticas da época.
Talvez tudo isso fique melhor compreendido se olharmos para o panorama mais amplo do campo cultural da cidade, no intervalo de tempo que nos interessa, e procurarmos situar o grupo da revista Estudos Universitários frente ao conjunto maior de grupos então atuantes. Observe-se que se requer aqui uma dupla mirada: de um lado está a paisagem cultural do Recife na época, do outro está o lugar específico que este grupo ocupou (e que, necessariamente, só pode ser devidamente apreciado quando confrontado com os demais componentes deste quadro maior). Atente-se, também, para o fato de que a preocupação que orienta este trabalho está sempre voltada para apreender a lógica em torno da qual se organizavam os grupos de intelectuais então atuantes na cidade e, simultaneamente, para seus espaços de sociabilidades.
A expectativa é, de um lado, descortinar os princípios organizativos desses grupos, compreender com mais clareza toda sorte de pressupostos que esses produtores culturais tinham em consideração. Como, e a partir de que elementos, construíram suas referências cognitivas, culturais, afetivas, educacionais, sociais, políticas; suas lealdades, suas afinidades; as redes de relações que estabeleceram; os adversários, implícitos e explícitos, que elegeram; as estratégias que utilizaram nos seus embates; em suma, tudo aquilo que, ainda que inconscientemente, participa do processo de criação cultural enquanto uma modalidade de prática social3. De outra parte, centrar a atenção nas sociabilidades significa, exatamente, enfatizar essa dimensão da produção cultural como uma prática social. Quer dizer, o que se abre, aqui, é a possibilidade de se entender os processos formativos mediante os quais se estruturam esses horizontes comuns de percepção e apreciação. Como afirmou um autor, seria "errôneo associar as preocupações intelectuais que partilhavam [os mandarins alemães - intelectuais e professores universitários das áreas de humanidades e ciências sociais] exclusivamente aos antecedentes teóricos ou filosóficos que tinham em comum. [...] Foi uma certa constelação de atividades e emoções que os uniu, contagiando até mesmo sua linguagem e seus métodos de discussão"4. Ora, por trás dessa constelação de atitudes e emoções está a "experiência de uma vida que se passa entre determinados tipos de coisas", aquilo que dá a "textura de um padrão de vida específico", que é, no fim das contas, o que permite a essa vida sentir, reagir, relacionar-se de um modo determinado5.
Tendo isto em vista, caberia registrar que, como já notou mais de um observador da vida cultural do Recife, nela ocupava uma posição saliente a antiga Faculdade de Direito. isto se devia a, pelo menos, dois fatores. Em primeiro lugar, considerado o sistema intelectual da cidade, sua posição era muito mais consolidada. Nenhuma das outras escolas superiores - medicina, engenharia, belas artes, etc. - eram capazes de concorrer com o prestígio e reconhecimento social que o curso jurídico propiciava e, conseqüentemente, não tinham o mesmo poder de atrair jovens estudantes, fossem eles da própria capital, do interior, fossem, sobretudo, de outros estados. Estes últimos, quando acorriam ao Recife com fins de estudo, o faziam principalmente para a Faculdade de Direito. Por outro lado, seria preciso considerar que à Faculdade de Direito cumpria a função de proporcionar uma formação humanística. Portanto somente quando passou a sofrer a concorrência dos cursos que futuramente ficariam abrigados nos institutos de arte (Arquitetura, Música, Teatro, etc.) e humanidades (Filosofia, História, Ciências Socais, etc.) da Universidade é que a vetusta Faculdade foi gradualmente perdendo muito da posição predominante que desfrutava. Para os anos iniciais da década 1960, contudo, os ambientes agenciados a partir ou através da Faculdade de Direito continuavam sendo vitais para o sucesso de qualquer empreitada cultural.
Paralelamente, a despeito de tudo, de todos os obstáculos e entraves interpostos ao pleno exercício (e fruição) da condição de intelectual, a cidade não era um terreno de todo árido. Havia mesmo, como sói acontecer, uma ambiência peculiar a esses espíritos cultivados. Toda uma geografia de ruas e travessas onde, mercê das livrarias, sebos e representantes de casas editoras, essa curiosa fauna habitualmente encontrava-se e mutuamente saciava-se em conversas e tertúlias literárias.
De fato, não há como desconsiderar que, para essa camada de letrados, o Recife não chegava a ser um tédio irremediável. Não obstante suas expectativas naturalmente mais elevadas, a cidade tinha uma dinâmica cultural bastante razoável. Para os melômanos, havia três sociedades (a Cultura Musical, a de Amigos da Sinfônica e a Pró-Música) que atuavam primordialmente promovendo a vinda de alguns dos muitos músicos eruditos que viviam em turnês internacionais. Uma dessas sociedades, a Pró-Música, tinha inclusive um perfil vanguardista, devendo-se a ela as primeiras apresentações de músicos filiados à escola schoenberguiana no Recife. Havia ainda a possibilidade de uma audição reservada em uma das cabines bem equipadas que a DDC (Diretoria de Documentação e Cultura) disponibilizava ao público em geral - gratuitamente - através de sua discoteca.
Sob a rubrica da DDC, encontrava-se também a Orquestra Sinfônica do Recife. Criada por iniciativa de um músico gaúcho radicado na cidade, maestro Vicente Fittipaldi, a Orquestra recebia, de um público mais purista, habituais críticas em função de suas limitações técnicas. Realmente não devia ser muito simples manter uma Orquestra de primeiro time numa cidade que não se notabilizava pela prodigalidade de seu orçamento municipal. Todavia, todos concordavam que a Orquestra cumpria um papel de relevo: suas audições públicas, em hospitais, praças, sedes de entidades profissionais, etc., freqüentemente se constituíam em uma das raras chances, para muitos, de ter contato com um repertório erudito.
Os cinéfilos, por sua vez, podiam contar com um conjunto de salas de exibição em que, o que contava, eram menos os interesses da grande indústria do cinema norte-americano e mais aqueles próprios aos apreciadores da arte cinematográfica. A partir de 1950 a ampliação desses espaços tornou-se mais significativa. Entidades as mais diferentes entre si passaram, de uma forma ou outra, a promover sessões especiais: colégios, paróquias, clubes sociais, entidades profissionais e estudantis, e, claro, os cineclubes. à altura de 1954, contabilizava-se a existência de seis cineclubes na cidade (Cine Clube do Recife, Vigilante Cura, Cine Clube do Estudante Universitário, Cine Clube Universitário, Cine Clube do Náutico e o Cine Clube do Iate). De atividade mais ou menos regular, essas sociedades de aficionados por cinema eram mais que simplesmente espaços de exibição para uma filmografia menos comercial, ou dirigida segundo os interesses dominantes entre os associados. Funcionavam também, como não poderia deixar de ser, como um fórum privilegiado para o aprendizado, o debate, a reflexão, a troca de impressões e concepções sobre a sétima arte.
Um circuito relativamente ativo de conferências, palestras e exposições, normalmente promovidas ou patrocinadas pela DDC, atuava de modo a complementar os espaços dedicados à sociabilidade dos letrados. Eram, essas, oportunidades de crescimento intelectual mas também de choque; de confirmação de convicções e de surpreender-se com o desconhecido; de reconhecer-se pertencendo a uma ou outra família intelectual mas também, por isso mesmo, de insurgir-se contra os não convertidos; enfim, eram momentos de formação e afirmação, assim como de descobrir-se preso nas estreitas fronteiras de uma província intelectual6. Sendo eventos de freqüência obrigatória para o aspirante a intelectual, também o era para o medalhão e o dandi intelectual. Por tais eventos, em uma ocasião ou outra, virtualmente circulavam todos aqueles jovens que estavam seriamente empenhados em expandir ou solidificar seus horizontes culturais (gente como, entre outros, Osman Lins, Jorge Wanderley, Sebastião Uchoa Leite, Luiz Costa Lima, João Alexandre Barbosa, Eduardo Portella). Lá se defrontariam com aqueles intelectuais já reconhecidos e estabelecidos (Olívio Montenegro, Luis Delgado, Mauro Mota, etc.), além dos indefectíveis representantes do mandarinato intelectual local (Gilberto Freyre, Aníbal Fernandes e uns poucos mais - que nunca são muitos). Encontrariam-se também com um sem-número de parvenus intelectuais, para quem, no fundo, tudo não passava de uma obrigação social a mais, a que se ia porque era de bom-tom.
Aqui, como em tudo o mais, coube aos jornais fazer eco a toda essa movimentação. Suas edições dominicais, com seus suplementos culturais, somados às várias revistas de perfil lítero-cultural que eram editadas na cidade, é que se constituíram no centro aglutinador para onde convergiam - e a partir de onde eram verdadeiramente vocalizados - todos os debates que de algum modo se ocupavam das coisas da cultura. Ninguém jamais ousaria em ganhar o reino dos céus sem antes se batizar nas águas dessas publicações. Como eram várias, muitas eram também as presumidas "panelinhas". Porquanto houvesse uma grita generalizada contra a escolha não criteriosa dos colaboradores, o fato é que, dada a multiplicidade de opções, ver impresso um pequeno ensaio crítico, poema, entrevista, ou coisa que o valha, não era um feito que requeresse esforço extraordinário. Realmente, a existência de suplementos culturais nos principais jornais da cidade, concomitante à circulação de revistas como Contraponto, Nordeste e Região, compunha um apreciável campo aberto a diletantes (no bom sentido do termo) e profissionais da cultura. Por outro lado, era nessas publicações que todos aqueles dotados de algum verniz cultural encontravam um certo alento (ainda que fosse, tão somente, para ostentar sua ilustração)7.
Precisamente, eram tais "panelinhas", ou grupos, que dinamizavam a vida cultural da cidade. Eram suas ambições artísticas e intelectuais ? e as formas que escolhiam para expressá-las, torná-las públicas ? o que, efetivamente, davam um caráter múltiplo e dinâmico a esse cenário. Era, mais ainda, como coletivos que logravam fazer eco a seus pontos de vistas, o que, eventualmente, permitia-lhes interferirem no curso das disputas culturais, balizarem suas respectivas fronteiras, emergirem, enfim, como protagonistas nesse cenário. Por isso mesmo é que não basta ter essa visão panorâmica, tal como, resumidamente, foi exposto nos parágrafos anteriores. é preciso que se adentre e se entenda a lógica interna desses grupos. A lógica em torno da qual se organizavam ? e se articulavam ?, que delineava seus horizontes de atuação e de expectativas, que mobilizava seus integrantes e dava-lhes o élan necessário para manter viva, a despeito de tudo, essa indefinível força que os atraia para as lides culturais. E, para isso, é preciso que se investiguem, um a um, os principais grupos então atuantes. Este é bem o caso do grupo que editou a revista Estudos Universitários.
Relativamente à especificidade deste grupo, uma primeira observação a ser feita diz respeito a certo caráter "derivado" que possuía. A revista, como dito, nasceu como um dos desdobramentos das ações de Paulo Freire à frente da SEC. Tinha, por conseguinte, uma proximidade muito grande com as diretrizes com que Paulo Freire procurou revestir as ações a serem desenvolvidas pela SEC ? de extensão universitária propriamente dita, onde predominava uma postura de abrir-se para o público extra-universitário, mantendo perante, e voltado para ele, uma proposta de envolvê-lo num tipo de programa em que se sobressaía sua dimensão "instrutiva", de ampliar seu cabedal intelectual. Por outro lado, porém, tendo Luís Costa Lima como secretário ? ou, mais propriamente, editor, porque era esse seu papel?, a revista foi concebida dentro de um característico corte acadêmico, sem muita concessão às platitudes do pensamento-por-palavras-de-ordem, ao engajamento sectário e rasteiro. Pelo contrário, melhor seria caracterizá-la como aguda e intransigente, em seus fundamentos, refinada e profundamente atual, em sua forma. Não obstante, como acima indicado, possuía uma vocação para o debate das questões postas em pauta pela ordem do dia.
Essa duplicidade, por assim dizer, é bem ilustrativa do caráter compósito (ou derivado) do grupo que a produzia. Era, simultaneamente, como intelectuais e cidadãos que eles viam a si mesmo. E o tipo de intervenção e produção que eles estavam prontos a oferecer tinha essa marca. Contudo, diferente de outras iniciativas assemelhadas, suas incursões nos debates político-sociais da época não se restringiam a reproduzir uma perspectiva reificante ou simplificadora das questões. As duras críticas que faziam às realidades cultural, social, política e econômica do país não eram de ordem a fazê-los obscurecer as complexas mediações que a superação desse estado de coisas exigia. isto fica mais claro quando os situamos dentro daquele quadro maior que se falou atrás.
Com efeito, se olharmos para o Recife de princípios dos anos 1960 encontraremos quatro importantes grupos de artistas/intelectuais a demarcar o campo cultural da cidade. Um deles, muito influente ? e que tinha em Gilberto Freyre não apenas seu principal representante, mas quase que único, posto que os demais, acólitos basbaques, apenas repetiam o "refrão" que ouviam cantar ?, adotava um posicionamento acentuadamente conservador, garantidor do status quo, e, à medida que as disputas culturais e políticas se acirraram, passou a fazer eco a todos os "mantras" do reacionarismo anticomunista e denuncista, tão característico da época. Os outros três grupos, que com ênfases diferentes posicionavam-se criticamente seja ao establishment cultural, seja ao político, estavam organizados em torno d’O Gráfico Amador (OGA), do Movimento de Cultura Popular (MCP) e de Paulo Freire. Havia muitas áreas de interseção entre eles. A própria circulação de seus membros participantes por mais de um desses grupos, a mútua simpatia com que se referiam uns aos outros, e a colaboração que ofereciam a uma ou outra das iniciativas que empreendiam, são por si mesmas suficientemente esclarecedoras do compartilhamento de pressupostos e perspectivas.
Ao mesmo tempo, porém, é preciso ver que esses grupos não se confundiam. Assim como tinham convergências em determinados pontos de vista, tinham também diferenças que os distinguiam. Essa divergência se mostrava de maneira mais enfática no tipo de intervenção cultural que estavam dispostos a fazer. Quanto a isto, talvez seja interessante chamar a atenção para o fato de que, não obstante a diferença do escopo de suas propostas, era na forma como concebiam a relação entre aquilo que estavam dispostos a realizar, em termos artístico-intelectuais, com o campo político o que em boa medida os distinguia. Ainda que não seja adequado reduzir as ações do MCP a interesses político-eleitorais, ou acusá-lo de fazer subsumir a especificidade da esfera cultural em favor de uma diretriz política, em que ganharia relevo certo caráter instrumental da cultura (o mesmo podendo ser dito a respeito do trabalho desenvolvido por Paulo Freire), não restam dúvidas de que ao OGA coube uma preocupação mais acentuadamente cultural (intelectual e artisticamente falando) que política. Ou, mais precisamente, a luta política que estavam dispostos a travar tinha por arena o campo das idéias.
As informações disponíveis até o momento indicam que o grupo que fez a Estudos Universitários tinha justamente esse duplo compromisso ético. Porém, acima de tudo, era como intelectuais que queriam ir à pugna. Se não ignoravam o imediatismo das lutas políticas, nem a urgência e gravidade da hora que viviam, nem por isso, em momento algum, perderam de vista seus compromissos com uma crítica cultural mais funda e abrangente. Na ante-sala do abril de 1964, entretanto, nada disso fazia muita diferença. Refinamento intelectual à parte, seus posicionamentos receberam a indelével marca da política. No fim das contas, podiam não se sentir à vontade no figurino do intelectual engajado, mas não tiveram como (nem quiseram) contornar o fato de que, naquele momento, não havia possibilidade de disputa cultural que não fosse concebida como uma modalidade de luta política. Não fugiram dela, e foram por ela tragados. Daí porque conhecê-lo mais a fundo é tão importante para quem queira compreender o ambiente cultural/intelectual do Recife nessa época. é uma espécie de chave, que permite entrever uma paisagem muito mais complexa do que se tem notícia.
Notas
1 é preciso, desde já, alertar o leitor para o fato de que este texto é tão somente uma primeira e precária aproximação do papel desempenhado pela Estudos Universitários no cenário cultural do Recife de princípios dos anos 1960. Trata-se, em verdade, de uma pesquisa que está dando seus passos iniciais.
2 As outras duas iniciativas foram os cursos oferecidos ao público extra-universitário e a criação da rádio Universitária. Todas, essas, iniciativas de algum modo relacionado com seu trabalho de alfabetização de jovens e adultos.
3 é, pois, trabalhar, justamente, com grupos de artistas ou intelectuais, com movimentos, escolas, sociedades culturais, enfim, todas aquelas formas de organizações culturais que Raymond Williams chamou de formações. Cf. Raymond WILLIAMS. Cultura; Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. Ver, também, nessa mesma linha, Heloisa PONTES. Destinos mistos: os críticos do Grupo Clima em São Paulo (1940-1968); São Paulo: Cia. das Letras, 1998.
4 Fritz K. RINGER. O declínio dos mandarins alemães; São Paulo: Edusp, 2000, p. 20.
5 Clifford GEERTZ. O saber local; Petrópolis (RJ): Vozes, 1997, p. 20.
6 Um evento exemplar quanto a isto, até porque reuniu exposição, conferências e muita, muita polêmica, deu-se por ocasião da exposição de Cícero Dias, ocorrida em meados de 1948. Depois de bons anos sem expor no Brasil, e tendo transitado de um figurativismo com toques surrealistas para o abstracionismo, Cícero Dias preocupou-se em organizar sua exposição segundo um certo critério pedagógico. Procurava, exatamente, fazer com que o visitante acompanhasse sua trajetória evolutiva, introduzindo-o em seu novo universo pictórico de forma menos traumática. Paralelamente, algumas personalidades importantes do mundo cultural do país (Mário Pedrosa, Anibal Machado, Origenes Lessa, Rubem Braga), que vieram a convite da DDC, deram entrevistas e fizeram conferências sobre as novas tendências da arte moderna e o trabalho de Cícero Dias. Tudo em vão. Seguramente que existiram aqueles para quem aquilo tudo era uma oportunidade impar, quase como uma revelação. Mas a tônica, e não só no Recife, frise-se, mas também no Rio, para onde a exposição seguiu depois, foi de escárnio e da mais rude incompreensão. Pessoas saiam xingando o artista e a obra, tratando a exposição como um ato de provocação - pura empulhação. O destempero ressoava pelos jornais (um respeitado cronista da cidade, Mário Melo, começou assim seu artigo sobre a exposição: "Vi e horrorizei-me..."), alimentado aqui e ali por malquerenças e disputas externas ao mundo das artes. Contudo, era no choque de convicções que se encontrava o cerne de tão desmedida polêmica. Só ele explica o fato de tantos terem se sentido agredidos por uma mera exposição de arte, ao passo que para outros não poderia haver prova mais cabal e definitiva das mentes e espíritos tacanhos que empestavam o meio local. Ver Jornal do Commercio, 15.08.48, p. 02, e 22.08.48, 2º Caderno; DP, 06.08.48, p. 03, e 08.08.48, pp. 01 e 04.
7 No que se refere às sociabilidades dos letrados, os suplementos culturais parecem ter ocupado um lugar bem especial (conferiam prestígio intelectual a seus colaboradores, "atualizava" seus leitores quanto aos debates culturais, servia de palco para polêmicas, exercitava os iniciantes nas lides intelectuais, etc.). Nem sempre, porém, no sentido de atender apenas a finalidades as mais "elevadas". Muitos dos apetites mais mundanos tinham-no como justificativa para convescotes. Veja-se esta espirituosa, e um tanto maldosa, crônica de Paulo do Couto Malta (ele, em si, já uma figura assaz curiosa): "O marido de madame, ao contrário de madame, nunca se interessou pelas letras, a não ser as de câmbio. Ao contrário de madame, nunca foi a um concerto, nunca comprou um quadro. Enquanto madame lê de cabo a rabo os suplementos literários dos domingos, o marido quando pega as edições domingueiras, joga-os logo de lado. No entanto, ninguém mais inclinado aos prazeres da boa mesa e dos bons vinhos que o marido de madame. As qualidades intelectuais de madame, a própria madame as considera augustas em oposição às culinárias do marido, demasiadamente vulgares. Desgosta à madame, às suas ilustrações, às suas letras, à sua sensibilidade artística, um marido impermeável a qualquer satisfação que não se exprima em termos de secos e molhados. E, para evitar a si maiores vexames, sugeriu-lhe, com precauções de linguagem, que não lhe ia bem as incursões no terreno das letras, pintura ou música com gente cuja especialidade [está] nesses assuntos, e que ela sempre tem à mesa aos domingos. O marido resolveu então não mais fazer sala às reuniões da esposa e muito menos aos apetitosos almoços dos domingos; em tais momentos está sempre fora cumprindo compromissos inadiáveis. isto satisfaz as veleidades artísticas de madame, seu bom gosto e suas luzes, com sua necessidade de ter um ‘ambiente’ propício à vocação perdida pelo casamento com aquele homem tão terra-a-terra. Madame continua fresca e saudável com suas inclinações, mas, infelizmente, os almoços já não são tão degustáveis e o vinho, para desgraça nossa, seus comensais, menos correspondentes às qualidades dos pratos". DP, 03.11.53, p. 06.




