Catedral de São Pedro: um breve histórico do mais antigo templo sul-rio-grandense
A cidade do Rio Grande, a mais antiga comunidade sul-rio-grandense, é também a detentora do mais antigo templo gaúcho - a Catedral de São Pedro que, no ano de 2005, completou dois séculos e meio de existência. Esta Igreja tem sido uma sobrevivente a uma avalanche de obstáculos representados pela ação do tempo, pelas intempéries e, principalmente, pelos interesses humanos. Não foi fácil chegar aos 250 anos. Edificada em meio a um quadro geral de dificuldades, era suntuosa para a época de sua fundação, destacando-se no espaço urbano em recente construção. Resistindo ao clima, às areias e às guerras, o templo chegou ao século XIX e, com os avanços urbanos advindos do crescimento econômico calcado no comércio, ele sofreria com as primeiras interrogações a respeito de sua anacronia em relação a estes novos tempos. Ao longo de toda aquela centúria, autoridades públicas manifestaram-se e comissões foram formadas no intuito de dotar a cidade de uma nova Matriz. Este espírito que visava reformar o sítio urbano, calcado na idéia da modernização desenfreada, tendo em vista os progressos da comuna, agora acelerados com a industrialização, no que tange à Igreja, afirmou-se nas primeiras décadas do século XX e teve seu ápice nos anos trinta, chegando-se bem perto da demolição do templo. A tendência modernizadora enfrentaria resistências, baseadas na tradição histórica e na defesa do patrimônio, a qual se tornaria vencedora com o tombamento do prédio religioso. A incessante batalha contra as dificuldades permaneceria, mas a Igreja manteve seu papel, vindo a tornar-se Catedral e um verdadeiro símbolo da conquista humana no ambiente gaúcho, preservando, seja no seu solo, em seus bancos, suas paredes e imagens, e, enfim, em todo o seu entorno, significativos fragmentos da memória coletiva dos rio-grandenses-do-sul.
Este trabalho busca apresentar um panorama histórico introdutório acerca do mais antigo a ainda ativo templo erguido no cenário sul-rio-grandense. Ponto chave do patrimônio histórico local, regional, nacional e, por que não, internacional, a Matriz de São Pedro consiste um formidável depositário de vivências históricas que, de modo indelével, atuou e interagiu num processo histórico de construção de memórias coletivas. As lembranças de rio-grandinos, rio-grandenses, brasileiros e estrangeiros que estiveram no interior ou à sombra da Igreja amalgamam-se num cadinho multifacetado de inter-influências, ou seja, templo e homem interagiram entre si, cada qual mexendo com a história do outro.
A articulação entre patrimônio e memória está no cerne deste ensaio, buscando-se identificar os lugares da memória e da história1 de um templo edificado há dois séculos e meio e que, ao longo de todo este período, exerceu um papel significativo, por vezes decisivo na vida em coletividade das diferentes épocas abarcadas pela sua existência. De acordo com esta perspectiva, memória é vida e seus portadores sempre são grupos de pessoas vivas, e por isto a memória está em permanente evolução, ou seja, estando sujeita à dialética da lembrança e do esquecimento, inadvertida de suas deformações sucessivas e aberta a qualquer tipo de uso e manipulação, ela às vezes fica latente por longos períodos, depois desperta subitamente2.
A casa, o povoado, a vila, a cidade, a metrópole, a organização urbana, enfim, como espaço histórico3, constitui por excelência um lugar de construção de memórias coletivas. Neste contexto de formação de uma memória social4 no ambiente urbano, o patrimônio histórico desempenha relevante papel, por sua natural imanência de historicidade, ou seja, a cidade histórica conserva, por motivo de sua amplidão e de seu longo passado, uma coleção maior e mais variada de espécimes culturais do que se poderia encontrar em qualquer outra parte5. Neste quadro, na órbita do urbano, as gerações herdam uma riqueza de recursos culturais que encarna a memória coletiva de comunidades de todo o mundo e proporciona sentido de identidade em períodos de incerteza, de modo que os objetos culturais tornaram-se importantes depositários da identidade cultural e da memória coletiva6.
No contexto das inter-relações entre o urbano, o histórico, a memória coletiva e o patrimônio, se dá a construção dos lugares, a qual jamais termina, num dinamismo onde a memória social e o patrimônio cultural se constituem e se destacam como direitos dos homens. Desta forma, um lugar é onde os indivíduos deixam as marcas de sua passagem e os lugares da memória concentram intensa carga afetiva e organizam de modo significante a cidade7. Assim, a vida de uma cidade é um acontecimento contínuo, que se manifesta ao longo dos séculos por obras materiais, traçados ou construções que lhe conferem sua personalidade própria e dos quais emana pouco a pouco a sua alma. Ou seja, são testemunhos preciosos do passado que serão respeitados, a princípio por seu valor histórico ou sentimental, depois, porque alguns trazem uma virtude plástica na qual se incorporou o mais alto grau de intensidade do gênio humano, fazendo parte do próprio patrimônio desta humanidade, e aqueles que os detêm ou são encarregados de sua proteção têm a responsabilidade e a obrigação de fazer tudo o que é lícito para transmitir intacta para os séculos futuros essa nobre herança8.
De acordo com estas perspectivas, o presente estudo tem o objetivo de abordar as relações entre a Igreja de São Pedro e a comunidade em que esteve e está inserida, quer seja, um sítio urbano com um importante patrimônio histórico, gerando memória coletiva no cerne das populações que com o templo conviveram e recebendo influências diretas/indiretas desta mesma memória. Neste sentido, o templo, ao ser erguido e por muitos anos seria reconhecido pelo epíteto de "catedral", denominação hierarquicamente indevida; progressivamente, à medida em que o núcleo urbano evoluía, a Matriz passaria a, cada vez mais, receber ao lado de seu nome a alcunha de "velha", no sentido de anacrônica, quase vindo a ser derrubada para edificar-se uma nova Matriz. Prevaleceria a visão preservacionista do patrimônio e a velha Matriz, ainda incólume em seus traços, granjeava a condição de edifício tombado e, posteriormente, de Catedral. Estas várias denominações refletem exatamente a memória coletiva em ação, criando lugares e sendo por eles transformada.
Nascida no século XVIII, a povoação do Rio Grande de São Pedro está inclusa num processo histórico mais amplo demarcado pelo avanço luso em direção ao extremo-sul da América Meridional. A própria ocupação humana do território sul-rio-grandense foi antecedida pela organização religiosa, sendo ali criada uma freguesia por Provisão de agosto de 1736, portanto sete meses antes de Silva Paes fundar o presídio do Rio Grande9. Surgia assim a paróquia pioneira do Rio Grande, a qual foi de suma importância para a fixação e expansão da Igreja no chamado Continente do Sul. Estabelecida naquele ano, ela seria efetivada em abril de 1738 e, por muitos anos foi a única paróquia do sul, abrangendo enorme extensão, pois se estendia por 100 léguas de comprido e 80 de largo, até Viamão10. O forte que demarcaria a ocupação portuguesa no sul foi edificado com uma ermida que receberia a invocação de Jesus-Maria-José.
Neste sentido, no jovem povoado, a cruz e a espada atuavam lado a lado no intento de consolidar a conquista. Junto dos fortes foram também erigidas várias capelas As precariedades que marcavam a vida no Rio Grande de então não deixariam de se abater sobre os templos que sofreram constantemente com a ação das intempéries, surgindo exaustivos trabalhos de manutenção e reparos. A situação do povoado entranhado nas terras sulinas iria passar por algumas transformações a partir do final da década de quarenta, num processo que culminou com a assinatura do Tratado de Madri. Nesta época, a povoação do Rio Grande seria elevada à categoria de vila e teria papel destacado, como centro administrativo no sul, nas atividades de demarcação das fronteiras. Foi nesta conjuntura que ocorreu a gênese da edificação da Igreja de São Pedro, notadamente a partir da presença do representante da Coroa, Gomes Freire de Andrada, em terras rio-grandinas, lançando-se a pedra fundamental de uma igreja a ser construída no centro do povoado, a 25 de agosto de 1754.
Uma ano depois nascia a mais antiga igreja do Rio Grande do Sul, através da ação conjunta da população, das autoridades, dos funcionários e dos engenheiros que acompanhavam Gomes Freire no Rio Grande. A pequena vila formada por residências em sua maioria ainda pouco estruturadas, com a edificação da nova Matriz alcançava um ponto fundamental em seu, ainda incipiente, processo de urbanização. Enraizada no centro da recente povoação, a igreja passaria a exercer um papel preponderante como foco irradiador e elemento de concentração de sociabilidade no seio da comunidade rio-grandina. O templo constituía uma obra vultuosa para a época e, principalmente para o lugar, de modo que a Matriz de São Pedro pela imponência que, para o momento, apresentava, era referenciada pelo conjunto da população pela denominação de "catedral" e, no seu derredor, foi aninhando-se a vila e dentro de suas paredes reuniam-se aqueles que tinham de enfrentar, na guerra ou na paz, as agruras daqueles difíceis tempos.
O espírito de conciliação que norteara a assinatura do Tratado de Madri não perduraria e, em seguida, Portugal e Espanha, mais uma vez, se colocariam em posições antagônicas. Mais uma vez as guerras européias trariam conseqüências profundas para o extremo meridional da América, levando os hispânicos a novamente tomarem a Colônia do Sacramento e, desta vez, avançando pelo território sul-rio-grandense, ultrapassando as fortificações lindeiras, chegaram à Vila do Rio Grande. Iniciava-se em 1763 o período da dominação espanhola que se estenderia até 1776 e deitaria raízes profundas sobre a formação histórica rio-grandina, caso do processo de urbanização que sofreu forte retrocesso, resultando, ao final daquele domínio, uma povoação que teve de ser praticamente reconstruída11. A Matriz de São Pedro também sofreria fortes seqüelas a partir da invasão hispânica, fosse pela ação do invasor, fosse pelo espírito de terror que antecedeu a própria invasão.
Quando chegou à Vila a notícia de que os espanhóis haviam ultrapassado Castilhos, na fronteira, o pânico generalizou-se entre a população, o que se agravou com a chegada dos soldados do sul, originando um ambiente de desespero, confusão e desordem absoluta. Uns queriam resguardar-se, outros fugirem e, outros ainda depredarem e dilapidarem o que achassem pelo caminho, em nome de uma política da terra arrasada, alguns chegaram a aproveitar-se do mal estar reinante em benefício próprio. Ao desmoronar a resistência lusa no extremo-meridional, cambaleavam e morriam as esperanças, avassalando os espíritos e contaminando a todos com o medo geral da avalanche espanhola. Com isto, desencadeou-se o saque do comércio e das casas abandonadas, não escapando nem mesmo a Igreja, cujas alfaias eram levadas por soldados e paisanos, irmanados no apanhar o que pudessem, bem como os armazéns reais eram arrombados, indo de roldão a Tesouraria, num quadro em que a onda saqueadora nada queria deixar para os invasores12.
Os treze anos de domínio hispânico trouxeram conseqüências severas para a comunidade rio-grandina, através dos retrocessos socioeconômicos e urbanísticos e mormente com a perda do caráter de centro administrativo das terras do sul. A Matriz de São Pedro, além da dilapidação promovida pelos próprios luso-brasileiros, também sofreria perdas a partir da presença dos espanhóis. Tornou-se o templo também uma presa de guerra, utilizado como hospital e despojado de vários objetos de culto13. O templo rio-grandino constituiu uma das peças de resistência, pois, apesar das perdas, permaneceria como principal elemento constitutivo da organização urbana do povoado, desfigurada ao longo da invasão. A retomada do Rio Grande consistiu num projeto lento, intentado e praticado ao sabor das disputas luso-hispânicas na Europa e na América. A conclusão dos fatos ocorreria em abril de 1776, quando, após operações terrestres e navais, os luso-brasileiros obteriam a reconquista das terras rio-grandenses-do-sul. A Matriz de São Pedro exerceria papel preponderante no simbolismo da reconquista, realizando-se um Te-Deum, para consagração e comemoração do feito histórico.
Encerrado o domínio espanhol, a Vila do Rio Grande promoveria sua reconstrução e, progressivamente, iria se afirmar ao longo do século XIX, tornando-se o centro mercantil gaúcho. A chamada "catedral" do Rio Grande, aos poucos, viria a conviver com esta nova urbe, cujos espaços modificavam-se constantemente e as próprias imagens construídas acerca de sua Matriz passariam por drásticas transformações. Este clima geral de mudanças, progressos, evoluções e transformações faria sentir seus efeitos. Crescentemente, a localidade passaria a destacar-se como o principal pólo mercantil sul-rio-grandense, servindo como escoadouro à produção pecuário-charqueadora, base da economia gaúcha. Os avanços comerciais gerariam riqueza para certos segmentos da sociedade, dando-se inclusive a elevação da vila à categoria de cidade, em 1835, e mesmo que por vezes refreado pelas várias guerras, principalmente as advindas das revoluções Farroupilha e Federalista, o crescimento mercantil traria em si modificações nos hábitos, costumes, padrões de consumo e na própria visão quanto à organização do sítio urbano da cidade. A modernização oriunda do progresso passava a ser a palavra-chave e muito se buscou realizar no sentido de aformosear - para utilizar-se expressão então reinante - a comuna portuária, de modo a adaptá-la aos padrões então predominantes, intentando demonstrar-se que a mesma poderia ser inserida no rol das comunidades bafejadas pelos ares da civilização, no caso, aquela baseada nos moldes europeus.
De acordo com esta visão, buscou-se, a partir da ação das autoridades públicas e da iniciativa privada, empreender uma série de melhoramentos urbanos na cidade do Rio Grande, de modo a torná-la mais confortável aos transeuntes e agradável à perspectiva do visitante. Estabeleciam-se nesta época os primórdios de um espírito modernizador que nortearia os caminhos da organização urbana rio-grandina a partir de então e a Matriz de São Pedro não fugiria a esta regra. No final dos anos quarenta iria inaugurar-se um processo histórico quase secular caracterizado por uma perspectiva de dotar-se a urbe de uma nova Matriz. A proposta constituía exemplo marcante da idéia do espírito pragmático e da modernização a qualquer custo que orientou o pensamento então reinante, sem medir-se maiores conseqüências, como no caso em que se chegou a propor a mudança do papel do prédio do templo para a função de empório de armas. Relatórios, projetos, comissões, subscrições, apelos às autoridades provinciais e doações de terrenos foram atos recorrentes ao longo do século XIX que demarcaram o esforço em prol da nova Matriz.
Já no século XX, a cidade do Rio Grande se consolidaria como centro comercial e daria passos decisivos em direção à industrialização. A partir destes caminhos progressistas, as visões quanto a uma possível remodelação do sítio urbano ganhavam espaço. A tendência à modernização passava a ser a marca registrada destes tempos e, de acordo com esta perspectiva, os projetos em torno de dotar-se a comuna de uma nova Matriz tornar-se-iam, cada vez mais, a ordem do dia. às argumentações propostas no século anterior, quanto à falta de capacidade física da igreja em suportar o crescimento populacional, seria somada, de acordo com o caráter modernizante, a suposta necessidade de erguer-se um templo mais suntuoso, de modo a estar mais coadunado com o progressismo então reinante na conjuntura citadina.
A idéia de construir-se um novo templo teria a sua fase de ação mais veemente na década de 1930. Nesta época empreendeu-se verdadeiro embate no interior da sociedade rio-grandina, cujo tema básico era, de um lado, a edificação de uma nova igreja, mais vistosa e afeita aos novos tempos de progresso e, de outro, a preservação da "antiga Matriz", levando em conta o que ela representava para a comunidade municipal e estadual, e até nacional e mundial. A discussão em torno do assunto era o reflexo material e ideológico da oposição entre a perspectiva da modernização - que, muitas vezes, de forma desenfreada e impensada pregava o rompimento com o passado considerado anacrônico - e a tradição histórica - que levava em consideração o registro e a manutenção das vivências históricas de uma sociedade e seu papel junto às gerações do porvir.
A tomada de posição quanto ao estabelecimento de um patrimônio histórico nacional teria no Brasil, institucionalmente, os primeiros ecos em 1936, com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN). Na cidade do Rio Grande, tendo em vista os já recorrentes projetos de erguimento de uma nova Matriz, houve um fortalecimento na mobilização que intentava preservar o histórico templo. Como que estabelecendo uma reação aos ideais preservacionistas que ganhavam corpo, os defensores do projeto de uma nova Matriz passaram a mobilizar-se com maior ênfase, visando adiantar-se ao desenrolar dos acontecimentos e, de acordo com esta meta, chegou a ser publicado junto à imprensa um edital convidando os profissionais interessados na destruição do prédio
Ocorria no Rio Grande, um risco que atingia muitas partes do mundo, nas quais a crença exagerada nos paradigmas modernistas na arquitetura e na urbanização conduzia à demolição de importantes patrimônios14. Desta forma, o crescimento de uma cidade, pode criar uma situação perigosa, levando a um impasse do qual só se sairá mediante alguns sacrifícios, ou seja, quando a demolição é apontada como solução para suprimir um possível obstáculo, torna-se fundamental a percepção se esta medida não poderá também acarretar a destruição de verdadeiros valores arquitetônicos, históricos ou espirituais, diante do que, mais vale, sem dúvida, procurar uma outra solução15. O embate entre a defesa da tradição histórica e os projetos calcados na perspectiva modernizadora, presentes no contexto rio-grandino dos anos trinta refletia um panorama internacional.
Neste sentido, é presumível que os primeiros esforços dirigidos a revalorizar o patrimônio monumental encontrem uma ampla zona de resistência na órbita dos interesses privados, tendo em vista anos de incúria oficial e um impulsivo afã de renovação que caracterizava as nações em processo de desenvolvimento, os quais contribuiriam para a difusão de um menosprezo por todas as manifestações do passado que não se ajustam ao molde ideal de um moderno estilo de vida. Desta forma, carentes da suficiente formação cívica para julgar o interesse social como uma expressão decantada do próprio interesse individual, incapazes de apreciar o que mais convém à comunidade a partir do remoto ponto de vista do bem público, os habitantes de uma população contagiada pela febre do progresso não podem medir as conseqüências dos atos de vandalismo urbanístico que realizam alegremente, com a indiferença ou a cumplicidade das autoridades locais16.
A batalha entre tradição histórica e projeto modernizador se estenderia nos meses seguintes, com algumas escaramuças e poucos expressivos resultados de parte a parte. No entanto, o ideal preservacionista ganhava corpo em termos nacionais, consolidando-se, em 1937, o conceito de patrimônio histórico e artístico brasileiro. A vitória da tradição histórica e do espírito de conservação da Matriz de São Pedro tornou-se um caminho sem volta, desencadeando-se as tratativas para a inclusão do templo nos anteparos da lei, culminando com o tombamento da Matriz de São Pedro no Livro das Belas Artes do SPHAN, em maio de 1938. A partir deste tombamento, se desencadearia um processo de revalorização da Matriz de São Pedro. Não que ela tivesse sido esquecida até então, mas o debate "nova X antiga Matriz" havia polarizado segmentos da sociedade e, após o triunfo da idéia da conservação, viria a renovar-se o espírito de valorização dos significados da Igreja Matriz no interior da memória coletiva dos rio-grandinos.
Os responsáveis pela Matriz passaram a buscar fazer valer os possíveis benefícios do tombamento, pressionando o órgão responsável no sentido de enviar recursos para conservação do prédio, solicitações atendidas normalmente com lentidão. Em agosto de 1955, chegaria o bicentenário da Matriz rio-grandina, acontecimento que encontraria forte repercussão junto à imprensa, num quadro em que a efeméride do segundo centenário da Matriz serviria para consolidar a perspectiva preservacionista de modo que se buscou plasmar junto à comunidade várias das identidades históricas do templo, sendo revivificados e revalorizados diversos dos elementos constitutivos que compunham a memória coletiva dos cidadãos que se inter-relacionaram com o templo. Neste sentido, o tombamento era já aceito como coisa natural e as seculares propostas de uma nova Matriz tinham ficado esquecidas ao longo da última década e meia. Solidificara-se a perspectiva de que o espírito modernizante de uma cidade, calcado no progressismo, poderia e deveria conviver com a tradição do passado, onde o antigo e o novo poderiam coexistir em harmonia. Em 1971 se daria uma culminância desta valorização, com a criação do Bispado do Rio Grande, transformando-se a Matriz em Catedral de São Pedro, o nome adotivo da época das origens transformara-se em denominação oficial.
Ao final do século XX, época em que a globalização, o imediatismo e a pouca reflexão diante da realidade ganhavam campo constantemente, a Catedral de São Pedro foi cada vez mais imbuída de uma função social muito bem definida, a de representar um importante repositório da memória coletiva dos rio-grandinos. Progressivamente, a figura do templo passaria a constituir verdadeiro símbolo da cidade do Rio Grande, chegando a incorporar em si a representatividade de um lugar. único prédio remanescente do século em que foi criada a comunidade rio-grandina, a velha Matriz constitui com plenitude a noção de um monumento histórico, ou seja, uma criação arquitetônica que dá testemunho de uma civilização particular, de uma evolução significativa ou de um acontecimento histórico os quais podem dar-se não necessariamente junto às grandes criações, mas também às obras modestas, que tenham adquirido, com o tempo, uma significação cultural17.
A singeleza do templo não impedia assim a expressão de seu significado. Ainda que valorizada a Catedral de São Pedro enfrentava novos e velhos desafios. Dentre eles o crescimento urbano e a valorização imobiliária de seu entorno, de modo que a quantidade de prédios cresceu a seu redor, ofuscando em parte a presença do templo na paisagem. Além destas questões envolvendo o conjunto do sítio urbano, a Catedral sofria com os problemas intrínsecos ao próprio prédio com o constante desgaste promovido pela ação do tempo, não constituindo atividade simples a manutenção do edifício histórico. O reconhecimento do papel histórico e simbólico do templo no imaginário dos rio-grandinos era já um fenômeno inexorável, mas isto não bastava para garantir a sua manutenção, chegando ela, ao final da década de oitenta, a uma situação bastante precária. Várias foram as tentativas de estabelecer mobilizações públicas em prol da causa da Igreja, conclamando-se a união entre a população em geral e as várias "forças vivas" do município, num movimento para que a Catedral não viesse a derruir,
Somente em março de 1994, seriam anunciados os trabalhos visando a restauração da Catedral de São Pedro, iniciando-se, paulatinamente, o processo de planejamento e efetivação do restauro, estabelecido essencialmente através de doações. O convívio quase que epidérmico da comunidade com o seu passado histórico através da Catedral de São Pedro, tornou-se ainda mais íntimo durante a restauração. Se as pessoas estavam acostumadas a passar pelo templo, no seu dia-a-dia apressado, por vezes, sem notá-lo, as obras serviram para um despertar e, inclusive, uma revalorização daquele prédio-testemunho. Além disto, a Igreja passou a ser tema recorrente dos vários órgãos da mídia impressa e eletrônica, colocando a necessidade da preservação do patrimônio histórico como pauta das conversas.
No quadro geral de dificuldades pelas quais passava a cidade do Rio Grande, a reabertura da Catedral que se daria em outubro de 1997 teria um sentido mais amplo, demonstrando que certa potencialidade ainda restava à comuna portuária. Assim, a restauração da Catedral de São Pedro teve um amplo significado para as inter-relações com a comunidade rio-grandina, servindo para revigorar este íntimo contato da população para com o prédio, o templo e todas as suas representações, vivências e sentidos para a vida dos cidadãos. Completo o restauro, a Catedral retomaria seu curso normal. No que tange à sua função social, a velha Matriz, denominação que não foi esquecida por muitos, permaneceu, dentro de suas paredes e em seu entorno como ponto de intersecção da sociedade rio-grandina. Esta presença acompanhou a virada do milênio e, já em 2004, iniciaram-se os preparativos para as comemorações do ano jubilar da Catedral, que completou dois séculos e meio de plena e intensa existência em 2005.
As três últimas décadas do século XX e a virada para o novo milênio constituiu uma época marcada por diversas crises, as quais atingiam com mais veemência os elos mais fracos da corrente global, caso do Brasil e de algumas de suas regiões que se empobreceram mais acentuadamente, como a zona meridional do Rio Grande do Sul. A cidade do Rio Grande, que já fora o centro administrativo do sul, com uma função estratégico-militar, evoluíra para tornar-se o mais importante entreposto comercial do Rio Grande do Sul e, posteriormente, um pólo industrial do Estado, passaria a amargar uma variada gama de percalços e sobressaltos em sua existência. Neste ambiente de pouca auto-estima entre a população em geral, a história permanecia como um dos pontos pelos quais os rio-grandinos ainda poderiam buscar uma auto-valorização e, neste quadro, a Catedral de São Pedro, exerceria um relevante papel, ocupando lugar especial na memória coletiva rio-grandina, a ponto de tornar-se um verdadeiro símbolo da urbe portuária18.
Notas
1 LE GOFF, Jacques. História e memória. 4.ed. Campinas: Ed. da UNICAMP, 1996.
2 NORA, Pierre citado por: HOBSBAWM, Eric J. A Era dos Impérios (1875-1914). 2.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989. p. 13.
3 RAMINELLI, Ronald. História urbana. In: CARDOSO, C. F. & VAINFAS, R. (orgs.). Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. 3.ed. Rio de Janeiro: Campus, 1997. p. 185-202.
4 DUARTE, Luiz Fernando Dias. Memória social. In: SILVA, B. (coord.). Dicionário de Ciências Sociais. 2.ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1987. p. 740-741.
5 MUMFORD, Lewis. A cidade na história: suas origens, transformações e perspectivas. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991. p. 605.
6 CUÉLLAR, Javier Pérez de. Nossa diversidade criadora - Relatório da Comissão Mundial de Cultura e Desenvolvimento. Campinas: Papirus; Brasília: Ministério da Cultura/UNESCO, 1997. p. 231 e 269.
7 ESTANISLAU, Lídia Avelar. O papel do Estado democrático na proteção dos lugares de memórias. In: A construção da cidade. Brasília: Departamento de Patrimônio Histórico e Artístico do Distrito Federal, 1998. p. 65-66.
8 CARTA de Atenas - Assembléia do Congresso Internacional de Arquitetura Moderna - 1933. In: Cartas patrimoniais. Brasília: Ministério da Cultura/IPHAN, 1995. p. 59.
9 SPALDING, Walter. A Igreja no Velho Continente de São Pedro do Sul - Freguesias, Vigararias, Curatos e Varas da fundação do Rio Grande à República. In: Anais do III Congresso Sul-Rio-Grandense de Geografia e História. Porto Alegre: Globo, 1940. v. 1. p. 13.
10 RUBERT, Arlindo. História da Igreja no Rio Grande do Sul (época colonial - 1626-1822). v. 1. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1994. p. 59-61.
11 QUEIROZ, Maria Luiza Bertuline. A Vila do Rio Grande de São Pedro (1737-1822). Rio Grande: Ed. da FURG, 1987. p. 127-129.
12 MONTEIRO, Jônathas da Costa Rego. A dominação espanhola no Rio Grande do Sul (1763-1776). In: Anais do Simpósio Comemorativo do Bicentenário da Restauração do Rio Grande (1776-1976). Rio de Janeiro: Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Instituto de Geografia e História Militar, 1979. v. 4. p. 101-104.
13 ROCHA, Daoiz de la. Catedral de São Pedro. Rio Grande: s/editora, 2004. p. 8.
14 CUÉLLAR. p. 242.
15 CARTA de Atenas - Assembléia do Congresso Internacional de Arquitetura Moderna - 1933. In: Cartas patrimoniais... p. 60.
16 NORMAS de Quito. Reunião sobre conservação e utilização de monumentos e lugares de interesse histórico e artístico. In: Cartas patrimoniais... p. 136.
17 CARTA DE VENEZA - Carta Internacional sobre conservação e restauração de monumentos e sítios. In: Cartas patrimoniais. Brasília: Ministério da Cultura/IPHAN, 1995. p. 109.
18 Texto elaborado a partir de: ALVES, Francisco das Neves. Uma Igreja, uma comunidade: os 250 anos de história da Catedral de São Pedro. Rio Grande: Ed. da FURG, 2005.




