As artimanhas da verdade: uma experiência com o uso da literatura como fonte de pesquisa histórica
Nas últimas décadas, o emprego de fontes de natureza literária na pesquisa histórica tem sido referendado por diversas referências teóricas, que convidam a repensar as noções de verdade, ficção e fato, assim como a própria natureza do fazer historiográfico. Pretendemos relatar a experiência realizada ao longo de alguns anos de trabalho com fontes de pesquisa de natureza literária, sem preocupação específica com a discussão teórica, mas concentrando-nos na apresentação de alguns aspectos cruciais de nosso trabalho em particular. Tais aspectos podem ser enfeixados em torno das seguintes questões: a formação do intelectual, as influências, o internacionalismo, as referências teóricas e estéticas; as alternativas de colocação do letrado e os diversos derivativos da atividade intelectual; as condições sociais da produção literária no país e o status da atividade literária; o intercâmbio entre as diferentes formas de representação cultural; a elaboração ficcional e a manipulação do enredo; a auto-imagem do intelectual; o imaginário e a escrita modelar; os acervos.
1. As artimanhas da verdade
Nas últimas décadas, o emprego de fontes de natureza literária na pesquisa histórica tem sido afiançado por diversas referências teóricas, que convidam a repensar as noções de verdade, ficção e fato, assim como a própria natureza do fazer historiográfico. Várias questões teóricas apresentam-se aí. Uma delas é a similitude da história com a literatura, uma vez que ambas são formas narrativas, possuindo uma contigüidade no âmbito formal, ainda que cuidadosamente ressalvado o compromisso da história com a verdade. Outra questão é o uso da literatura como fonte de pesquisa histórica. Destaca-se, neste sentido, a importância do fenômeno literário na construção de identidades coletivas, na expressão de projetos políticos, na projeção de desejos e utopias, na fabulação de narrativas que encarnam visões de mundo e representam determinadas concepções do real, referendando e contribuindo para a manutenção de um dado status quo, mas também apresentando projetos alternativos.
Entre os diversos autores que trataram desta questão, escolhemos tomar como base teórica a obra de Paul Ricoeur, filósofo hermeneuta que trata a narrativa como manifestação discursiva de uma forma específica de consciência temporal ou de estrutura de tempo. Este não é o espaço apropriado para explorar desenvolvimentos teóricos complexos como os de Ricoeur, mas é possível reter dele alguns subsídios importantes para referendar uma abordagem da história a partir da obra literária. Segundo ele, toda história, mesmo aquela que se realiza através de esquemas e modelos estruturalistas é, fundamentalmente, uma narrativa, entendida como a forma como a experiência humana no tempo é organizada. Para Ricoeur, a ficção e a história originam-se do mito, sendo a narrativa um mecanismo de formulação da experiência do tempo. isto se dá por meio dos procedimentos de escolha e ordenamento próprios à composição da narrativa, condicionados antes de tudo pela criação de uma estória elaborada de acordo com os recursos disponíveis dentro de um determinado repertório cultural. História e literatura são, assim, definidos por Ricoeur como formas de linguagem capazes de sintetizar e reconstituir a experiência do homem. Ao historiador, especificamente, cabe ainda submeter estes processos a uma intenção de escrever segundo a verdade do passado. Portanto, como forma simbólica que permite organizar a trajetória humana no tempo, a narrativa possibilita ordenar as muitas transformações possíveis, inserindo a ação do homem em um enredo onde eventos são concatenados. Este processo confere uma ordem à instabilidade e à descontinuidade do real, o que possibilita considerar a história e a ficção como formas narrativas que operam no sentido de compor categorias de tempo diferentes num único plano de inteligibilidade.
O autor desenvolve, a partir daí, a exegese de uma relação de reciprocidade entre narrativa e temporalidade, estabelecida por um processo definido como mimese. Ao fim, a história passa a ser definida como uma quase-literatura, já que ela depende de um processo de ficcionalização, ou seja, de recriação do passado pela imaginação do historiador, de modo que este possa ser transmitido ao leitor, que é convertido em testemunha de um passado representado da forma como aconteceu. Similarmente, a literatura também é uma quase-história, uma vez que é capaz de representar fatos que para a voz narrativa realmente se passaram, servindo-se do que o autor denomina um efeito de real. Ambas têm em comum uma demanda de verossimilhança, ou seja, de uma semelhança com o real que permita ao leitor reconstituir uma trajetória humana através da narrativa.1 A partir de referências como estas, pode-se melhor compreender o valor da literatura como representação do passado, do que foi e do que poderia ter sido, de subjetividades e sensibilidades, de percepções do real nem sempre consagradas pelo tempo ou sobreviventes a ele, mas igualmente participantes de uma história a ser escrita.
Um marco teórico como este nos ajuda a adotar um novo olhar sobre a literatura, de uma perspectiva diversa daquela dos estudos propriamente literários. Neste ponto, passamos da teoria à experiência, tendo por base a literatura brasileira produzida entre 1870 e 1922. Serão indicados alguns problemas para análise e apresentadas algumas das alternativas metodológicas adotadas. Em primeiro lugar, tomaremos por base um estudo sobre a obra Os sertões, de Euclides da Cunha, publicada em 19022. A seguir, adotando um olhar mais panorâmico, vamos nos dirigir ao conjunto da produção literária brasileira no período acima citado. Para tanto, foi feita uma seleção a partir de um recorte temático: a representação da natureza na produção intelectual do país.3 Em ambas as análises, a literatura assume o papel de fonte primária da pesquisa, como produto cultural onde uma dada representação da sociedade se realiza, podendo ser a partir daí historicamente interpretada. Ela é simultaneamente vista como objeto de pesquisa, uma vez que o interesse pela produção intelectual de uma dada época demanda também o esforço de buscar um conhecimento extenso acerca do conjunto desta produção, o que o convida à exploração dos acervos bibliográficos disponíveis.
2. Uma "arqueologia intelectual"
Dentro da tradição cultural brasileira, talvez o livro que evoque mais diretamente a problemática das relações entre literatura e história seja Os sertões, de Euclides da Cunha, fonte primordial, ainda que não única e nem incontroversa, para o estudo da Guerra de Canudos. A princípio, uma obra literária não-ficcional e de propósito explicitamente histórico não parece ser o melhor exemplo das possibilidades do uso da literatura como fonte de pesquisa histórica, pelo excesso de obviedade. O livro pode, contudo, ser explorado para além de seu conteúdo factual, como objeto cultural específico que carrega em si um universo de percepções, conhecimentos e contradições, altamente expressivo da sensibilidade e dos dilemas de seu tempo. A obra representa para os historiadores um desafio que, no princípio, não é muito diverso daquele enfrentado pelo leitor comum. Um bem-sucedido leitor que, depois de cruzar um semi-árido de paradoxos, preciosismos vocabulares, termos científicos, arcaísmos e imagens barrocas, chegue à última frase d’Os sertões sedento por um sentido final pode decepcionar-se de vez ao encontrar o lacônico: "é que ainda não existe um Maudsley para as loucuras e crimes das nacionalidades..."4 Em casos de maior persistência, o recurso a uma enciclopédia pode revelar algo mais sobre aquele que serviu de modelo, afinal, para o desejado desvendamento das mazelas nacionais. Mas, se encontrado, um verbete curto sobre a obra do psiquiatra inglês pode trazer, para um leitor curioso, mais perguntas que respostas.
Afinal, o imenso estoque de conhecimento manipulado por Euclides da Cunha para composição de sua obra permite definir o texto a partir do adjetivo "cientificista". Um intérprete perspicaz como Francisco Foot Hardman foi capaz de perceber, na produção intelectual de Euclides da Cunha, uma visão da história marcada por um indelével fundo romântico, perceptível na representação dramática da natureza e do tempo histórico, no discurso socialmente engajado, na recorrente imagética das ruínas.5 No caso d’Os sertões, entretanto, sobre esta base foi construída uma sólida criação científica, a partir da qual o autor inseriu-se em um vivo debate acerca dos rumos da sociedade brasileira no início do período republicano. O fato é que, se o leitor atual enfrenta inúmeras dificuldades de reconhecer as questões postas em discussão, e materializadas em conceitos anacrônicos, termos técnicos e científicos, livros e autores hoje pouco conhecidos, supõe-se que aqueles que primeiro se defrontaram com a obra, o público culto a quem escritor se dirigia e com o qual debatia, compartilhava com o escritor um universo mental que uma leitura historiográfica d’Os sertões pode ajudar a reconstituir.6 A partir de uma re-inserção no seu repertório cultural, o texto adquire então novas dimensões, remetido a uma ampla produção intelectual que, no caso, servia-se do discurso científico como linguagem e visão de mundo.
Um dos caminhos possíveis a percorrer a partir daí é uma espécie de "arqueologia intelectual" da obra literária, na busca de compreendê-la a partir de seus próprios termos. Este trabalho depende do conhecimento do processo de formação do intelectual e suas instituições, das modas científicas e literárias, dos temas e polêmicas em curso, da concepção de história em vigor e do fluxo de idéias e livros. Seguir as pistas deixadas pelo próprio texto pode ser o passo seguinte desta pesquisa, ainda que nem sempre totalmente seguro, uma vez que a ética da citação bibliográfica não se estabelecia nos mesmos termos de hoje, e que determinadas idéias e conceitos tornavam-se por vezes tão difundidos que sua origem se perdia no senso comum. isso sem contar que, de acordo com o padrão intelectual do período, as obras de síntese e divulgação, grandes best-sellers, algumas vezes tornavam mais célebres os divulgadores que os verdadeiros autores. Idéias são, muitas vezes, captadas de segunda, talvez de terceira mão, convertendo-se em termos vagos e imprecisos, o que os fazia ainda mais úteis ao discurso ideológico, por mais flexíveis. Raça e evolução, com seus diversos derivativos, são os melhores exemplos. Saliente-se também que, neste panorama, a filiação de intelectuais a uma ou outra corrente científica ou ideológica não deve ser feita de forma rígida, pois o mais comum é um uso eclético das referências teóricas, o que conduziu inclusive à adoção simultânea de doutrinas contraditórias entre si, como, exemplarmente, liberalismo (ou spencerismo) e darwinismo social.
Antes de qualquer coisa, uma exegese como tal exige que os próprios termos da discussão sejam devidamente definidos, o que no caso desta pesquisa específica em torno d’Os sertões apontou o recurso à leitura de alguns autores estrangeiros citados como autoridades pelo escritor e seus contemporâneos. Tais autores referendavam a interpretação sociológica do Brasil aí desenvolvida, a partir dos parâmetros da chamada geração de 1870. Este trabalho de desencavar as idéias avidamente sorvidas pelos intelectuais brasileiros não pode sugerir, entretanto, uma passiva assimilação de idéias. No contexto brasileiro, outras eram as condições sociais e históricas e, portanto, outras eram as questões em debate. O problema racial é com certeza o exemplo mais eloqüente. No caso europeu, as teorias raciais dividiam-se em duas correntes: uma, que pode ser definida como a "teoria da alteridade", tratava da caracterização dos tipos étnicos com que se defrontavam os impérios europeus em suas conquistas pelo mundo - negros e orientais; a outra corrente, a da "identidade", voltava-se para a definição das diferenças étnicas no interior da raça branca, o que definia as peculiaridades nacionais nos países europeus. No caso brasileiro, a teoria racial foi construída a partir de uma fusão destas duas correntes, o que a fazia paradoxal por natureza. Neste esforço, em grande parte das vezes o resultado foi a defesa da superioridade da elite branca de origem lusa em relação ao povo mestiço. isto exigiu um uso bastante seletivo das teorias raciais, o que envolvia uma certa dose de distorção dos conceitos originais, de acordo com sua conveniência e em seguida a um processo de "aclimatação".
A circulação de idéias similares entre diversos intelectuais demonstra que, a partir dos mesmos princípios científicos, os autores chegavam com freqüência a conclusões diferentes. Seguir os rastros de alguns conceitos e idéias entre obras diferentes pode contribuir para delinear discussões mais genéricas que nem sempre são explicitadas nos textos. Voltando ao livro de Euclides da Cunha, um bom exemplo disto é a inserção do escritor no debate sobre a possibilidade de formação de uma raça eminentemente brasileira, ponto em que suas especulações se chocam com a célebre teoria do branqueamento apresentada por Sílvio Romero em sua História da Literatura Brasileira. Ainda que Romero fosse à época a referência para tais especulações, ele não é citado, mas sua "sombra" pode facilmente ser percebida na leitura d’Os sertões.7
Escrito como testemunho da história, o texto d’Os sertões envolve uma intrincada fabulação. Seu conteúdo historiográfico e científico não se opõe à imaginação, como se pode observar a partir do uso flexível dos conceitos, da criação de genealogias sociais, do traçado de trajetórias no espaço geográfico, da concepção de formas de simbiose entre os grupos humanos e seu ambiente, de encenações dotadas de intenso simbolismo religioso, do privilégio do paradoxo e do oxímoro. Este discurso do conhecimento e do convencimento implica na manipulação de elementos comuns à história e à literatura para a criação de uma realidade textual que pertence a ambas, como narrativas dotadas de uma inteligibilidade que organiza o real de modo verossímil. O próprio Euclides da Cunha descreveria em seu discurso de recepção na Academia Brasileira de Letras um sentimento de confusão entre a realidade concreta e a imaginada, ao referir-se à percepção do poder de criação e transformação conferido ao homem pela ciência e pela técnica.8 O conteúdo místico e transfigurador deste discurso evidencia o intenso desejo de transformação do real característico do pensamento modernizador, embora uma obra como Os sertões seja, por outro lado, o melhor exemplo de suas bases conservadores do ponto de vista social, no caso brasileiro.
3. Ficção e identidade social
Um dos eixos temáticos em que se organiza a obra de Euclides da Cunha é a representação da natureza brasileira sob o ponto de vista da formação nacional, o que nos conduziu à percepção da importância deste tema na vida intelectual do país no período compreendido entre 1870 e 1922. Passamos assim ao segundo momento de nosso estudo: refletir especificamente sobre o uso do discurso ficcional na pesquisa histórica. O trabalho com a literatura de ficção representa novos desafios, uma vez que envolve a incorporação da trama romanesca à interpretação historiográfica. No caso de um estudo sobre a produção intelectual das últimas décadas do século XIX e primeiras do século XX, este trabalho pode parecer à primeira vista especialmente facilitado pela incorporação da dimensão histórica e científica pelo próprio paradigma literário então dominante. O historiador que se debruça sobre esta literatura é obrigado a levar em conta o papel programático e a pretensão sociológica e historiográfica explicitamente assumida por tal literatura, e suas concepções subjacentes de sociedade e história. Torna-se assim possível explorar sua própria função didática, em seus mecanismos de interpretação da realidade e de persuasão. Tais recursos não são óbvios, sobretudo quando são trazidas à tona questões relacionadas à identidade nacional e aos conflitos sociais, ao engajamento político, à visão do povo e da cultura popular e, em especial, a projetos diversos de transformação do real numa sociedade de modernização incipiente.
é expressivo que um dos escritores mais estudados do ponto de vista da interpretação historiográfica da literatura seja Machado de Assis, cuja obra se insere predominantemente, em termos cronológicos, no período realista-naturalista. Os títulos dos estudos de John Gledson "Machado de Assis: ficção e história" e Sidney Chalhoub, "Machado de Assis, historiador", são sugestivos do desafio representado pela obra deste escritor ao olhar histórico: profundamente arguto na representação de seu tempo, ele foi capaz de transcendê-lo. Sua obra tem tido uma sobrevida, do ponto de vista da capacidade de despertar vocações especulativas, bem maior que a da grande maioria de seus contemporâneos. O olhar do historiador sobre a literatura pode, contudo, assumir a direção contrária, e buscar a grande maioria de escritores que, exatamente por muito colados a seu tempo, foram soterrados por ele, podendo ser recuperados pela pesquisa histórica. Do ponto de vista dos estudos literários, talvez poucos testemunhos sejam tão sinceros a respeito das dificuldades desta proposta quanto o de Lígia Chiappini Moraes Leite, que ao término de seu texto hoje clássico sobre a literatura regionalista gaúcha da República Velha, refere-se à dificuldade de "aceitar o ruim como objeto", recordando a advertência de Paulo Emílio Salles Gomes sobre o tom assumido por sua escrita, "uma espécie de azedume com que trato os contos gaúchos, deixando de perceber ou de enfatizar aquilo que a má literatura é potencialmente capaz de transmitir"9.
Se a advertência é válida para um estudioso da literatura, talvez o seja ainda mais para o historiador. Quando toma como conjunto documental a produção literária de uma época, e se propõe a analisá-la do ponto de vista do discurso social, o historiador não tem escolha senão abraçar o ruim, ler o ilegível e ainda por cima prevenir-se de todas as formas para expressar-se de modo que seu próprio discurso não seja confundido com o de sua fonte, particularmente quando em questão estão posicionamentos político-ideológicos. Neste último caso, é necessário equilibrar-se entre o olhar distanciado que permite a compreensão do discurso de outrem e o desejo de explicitar uma posição contrária. No tocante à literatura naturalista-realista, estamos lidando com o período de auge da visão darwinista da sociedade, o que reproduziu à exaustão, na sociedade brasileira recém-egressa do regime escravista, um discurso elitista e discriminatório, incorporado por parte significativa da produção intelectual do país, aí inclusa a literatura de ficção. Qualquer estudioso que se debruça extensivamente sobre a produção intelectual desta época tem que aprender a conviver com esta visão de mundo e com sua linguagem, o que demanda, antes de tudo, uma compreensão adequada dos termos do debate intelectual e dos próprios conceitos em uso, tanto no que diz respeito a seu significado, quanto à sua carga simbólica, sob o risco de anacronismo. Adquirir a capacidade de ver do ponto de vista dos outros não significa concordar com eles, mas esta capacidade é necessária para desmontar o discurso e estabelecer sua crítica. isto torna dispensável a simpatia pelo objeto.
A necessidade, nesse tipo de pesquisa, de "aceitar o ruim como objeto" pode conduzir, aliás, a uma progressiva mudança de percepção, à medida que o estudioso desenvolve alguma familiaridade com os códigos e valores da literatura em estudo. Explorar a produção literária de uma época significa mergulhar em seu imaginário, sonhos, sensibilidades, valores, obsessões e projetos, o que permite captar possíveis históricos não concretizados e compreender também as bases intelectuais daqueles que se concretizaram, e que existiram antes na imaginação. A literatura de ficção é uma fonte privilegiada à medida que a fabulação dos cenários, a criação de estereótipos, a descrição dos personagens e das relações entre eles, assim como a narração dos eventos, permitem entrever uma representação da sociedade e de suas potenciais transformações. Uma visão de conjunto da produção intelectual do período entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX exibe a dramatização das grandes questões sociais brasileiras.10 A ficção narrou trajetórias de retirantes da seca, imigrantes, caipiras e ex-escravos, acompanhou as transformações do mundo rural, documentou as atribulações do cotidiano da plebe urbana, defendeu projetos reformistas, fabulou utopias, questionou práticas e mentalidades, alimentou o imaginário das raízes brasileiras, descreveu o "Brasil profundo" do interior, demonstrou o impacto da incipiente modernização, estabeleceu a suposta superioridade das oligarquias e, sobretudo, fundiu diversas realidades conflitantes. Como se pode perceber, não apenas da "literatura-sorriso-da-sociedade" viveu a belle-époque brasileira.
Muitas vezes é impossível escapar da reprodução do enredo na elaboração do texto historiográfico, uma vez que os próprios movimentos da narrativa - conflitos, afinidades, percursos, sucessos, frustrações - podem ser vistos como trajetórias exemplares, construídas com um nítida intenção pedagógica. A natureza da literatura realista-naturalista, em sua pretensão de registro, contribui certamente para tal tipo de análise. Some-se a isto o que Luís Costa Lima chamou de "veto ao ficcional", ou seja, o privilégio da observação e do registro documental, traço marcante do romantismo brasileiro, com continuidade na fase realista.11 Tal aspecto certamente contribuiu para suavizar a fronteira entre a literatura, inclusive a de ficção, os estudos sociológicos e antropológicos, a historiografia, o texto jornalístico e a crítica literária, forjando uma categoria que poderia ser amplamente compreendida como "pensamento social" e que englobaria, por exemplo: Os sertões, de Euclides da Cunha, Canaã, de Graça Aranha, História da Literatura Brasileira, de Sílvio Romero, A América Latina, de Manoel Bomfim, Urupês e Problema vital, de Monteiro Lobato, Populações meridionais do Brasil, de Oliveira Viana, entre muitas outras obras.
Se por um lado o cumprimento da função documental prevista no programa naturalista-realista caracteriza a produção intelectual do período em questão, por outro lado devem ser também observadas as diversas "fraturas" na incorporação deste modelo, sobretudo pelo ecletismo que marca a formação do intelectual no Brasil. isto é particularmente sensível no tocante à herança romântica, associada à criação de um sentimento de identidade social fundado no apego à terra, ao mundo rural, ao passado colonial, à infância e, não é de se espantar, à escravidão. Some-se a isto o já mencionado processo de aclimatação de idéias, que permite que as modas literárias estrangeiras sejam tingidas de traços muito próprios ao Brasil. Exemplo disto é a incorporação pela literatura brasileira da obsessão da Europa finissecular pela temática da decadência. Enquanto no contexto europeu os padrões de conhecimento estabelecidos no decorrer do século XIX eram objeto de freqüente questionamento, colocando em suspeição a crença no progresso contínuo do mundo capitalista e na solução da questão social que perturbava a sociedade urbana e industrial, a temática da decadência invadia a literatura brasileira, dirigindo-se sobretudo ao mundo rural. Surge daí uma literatura melancólica, fantasmagórica e obcecada pelas ruínas, que em seu passadismo pode ser lida como precoce epitáfio da sociedade tradicional, num país em que o processo de modernização e urbanização era ainda incipiente.
Certamente, a literatura possibilita refletir sobre a identidade de um dado grupo social, ou pelo menos aquela que uma parcela específica da população, no caso a elite letrada, se propõe a conceber e difundir. Neste ponto, qualquer esforço interpretativo demanda manter em mente uma adequada noção das condições de produção e difusão da cultura escrita, o que não elimina a possibilidade de comunicação da produção intelectual da elite com a cultura popular, nos dois sentidos. A posição central da literatura na vida intelectual brasileira leva a refletir sobre os mecanismos de aceitação, reconhecimento e de inserção na comunidade dos homens cultos, numa sociedade em que o mercado editorial não havia ainda se constituído plenamente, e que a condição de letrado qualificava o acesso a cargos e posições na esfera pública. E ajuda também a questionar a auto-imagem do intelectual e sua pretensa função social.
Por sua vez, tal condição tem implicações na linguagem literária, por exemplo, na demonstração de erudição materializada no uso de termos anacrônicos, abundantes referências mitológicas e construções verbais extravagantes. isto certamente dificulta ao leitor atual o acesso a este universo literário, mas muitas vezes este elemento assumia grande importância no reconhecimento do valor de um literato. A melhor encarnação da excentricidade verbal no período em questão é a obra de Coelho Neto, naquele momento um dos mais aclamados e prolíficos escritores brasileiros, hoje relegado ao esquecimento. Os excessos de seu estilo podem ter afastado este autor dos estudos literários, mas o historiador interessado na vida intelectual do final do século XIX e início do século XX esbarra a todo momento em sua figura, verdadeira referência de uma época, mas tão fixado a ela que chega a se tornar, para muitos, ilegível. Resta ao historiador aprender a lê-lo, como a tantos outros de seus contemporâneos que expressam o pensamento da elite brasileira, mas fogem a critérios atuais de valoração literária: Alberto Rangel, Rodolfo Teófilo e Alcides Maya são alguns deles.
Por último, ressalte-se que o desvio da atenção do historiador dos acervos arquivísticos para as bibliotecas apresenta suas próprias dificuldades. A maior delas é o pouco valor muitas vezes conferido a livros que, não antigos o suficiente, são relegados à condição de "livros velhos", tornando-se fortes candidatos ao descarte. Acervos como os da Biblioteca Municipal Mário de Andrade e do Instituto de Estudos Brasileiros, em São Paulo, e da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, representam oportunidades excepcionais de trabalho, mas não são a regra. Muitas vezes instituições de ensino e mesmo bibliotecas públicas, potenciais depositários privilegiados de coleções representativas da circulação intelectual de uma época, tiveram seus acervos desfeitos ou desmembrados, certamente para conferir espaço aos livros de maior atualidade. isto dificulta a realização das pesquisas dos historiadores interessados na literatura e no pensamento social, e também compromete estudos similares nas áreas da história da educação e da ciência. Fica prejudicada também a escrita de uma história da leitura que constitui importante subsídio para pesquisas sobre a formação intelectual no Brasil.
Notas
1 RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. Tradução Constança Marcondes César, Roberto Leal Ferreira. Campinas: Papirus, 1997. 3 t.
2 MURARI, Luciana. Brasil, ficção geográfica: ciência e nacionalidade n’Os sertões. 1995. Dissertação (Mestrado) - Belo Horizonte, Universidade Federal de Minas Gerais, 1995.
3 MURARI, Luciana. Tudo o mais é paisagem: representações da natureza na cultura brasileira. 2002. Tese (Doutorado) - São Paulo, Universidade de São Paulo, 2002.
4 CUNHA, Euclides da. Os sertões. São Paulo: Brasiliense, Secretaria de Estado da Cultura, 1985. Edição crítica por Walnice Nogueira Galvão. 1. ed. 1902. p. 573.
5 HARDMAN, Francisco Foot. Brutalidade antiga: sobre história e ruína em Euclides. In: Estudos Avançados. vol.10 nº.26. São Paulo Jan./Abr. 1996.
6 Ressalte-se, aliás, que mesmo na época acusações de "nefelibatismo científico" fizeram parte da recepção da obra, o que demonstra que também os contemporâneos ressentiram-se da excentricidade de sua linguagem literária e de seu uso de conceitos científicos. CUNHA, Euclides da. Op. cit. nota 4, p. 577-584.
7 Isto pode ser percebido, especialmente, na negação da idéia de que o mulato seria o tipo tipicamente brasileiro, criticada por Euclides da Cunha a partir da afirmação de que a influência africana no Brasil estaria sendo superestimada. A partir daí, ele esboça sua própria teoria racial, em confronto com a de Romero. CUNHA, Euclides da. Op. cit. nota 4, p. 141-162.
8 CUNHA, Euclides da. Discurso de recepção na Academia Brasileira de Letras. In: Contrastes e confrontos. Porto: Chardron, 1907.
9 LEITE, Lígia Chiappini Moraes. Regionalismo e modernismo: o "caso" gaúcho. São Paulo: ática, 1978. p. 252.
10 A este respeito, ver: HARDMAN, Francisco Foot. Antigos modernistas. In: NOVAES, Adauto (Org.). Tempo e história. São Paulo: Companhia das letras; Secretaria Municipal de Cultura, 1992. p. 289-305.
11 LIMA, Luís Costa. O controle do imaginário: razão e imaginação no Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 1984. p. 152. Ver também KOTHE, Flávio R. O cânone republicano. V. 1. Brasília: Editora da UnB, 2003. p. 33.




