Da vacina curativa aos antibióticos: a coqueluche, suas terapêuticas e pesquisa no Brasil
Este trabalho trata-se de um projeto de pesquisa em andamento sobre a Historia Eclesiástica do Brasil elaborada pelo padre Gonçalo Soares da Franca, e apresentada na Academia Brasílica dos Esquecidos, em 1724. o texto é extremamente rico em informações sobre a importância da evangelização na formação da América Portuguesa. Tratando-se de uma obra histórica vinculada ao projeto da historia do Império Português realizada pela Academia Real de Historia fundada em 1720 em Lisboa, a História Eclesiástica do Brasil nos aponta para uma concepção singular dos habitantes da América Portuguesa sobre a Igreja do Brasil e sua vinculação ao Império Português.
No ano de 1906, o periódico Brazil-Medico (vol. 20, p. 333) afirmava: "Se há moléstia que gosta de desafiar a terapêutica e descontentar o médico, essa moléstia é, sem dúvida, a coqueluche. Por isso, em quase todos os números de jornais de medicina encontra-se algo a respeito dela. Parece que os médicos estão feridos no seu amor próprio e, daí, essa abundância de medicamentos, recomendados no tratamento de tão perigosa quão fatigante infecção."1
A seguir, a nota detalhava outro possível tratamento, que parecia inspirar maiores esperanças aos redatores do periódico:
Tendo estes médicos cloroformizado uma criança que estava acometida de coqueluche, com o fim de lhe praticarem uma operação, observaram que as quintas desapareceram, como por encanto, desde o dia seguinte ao da operação. Aplicando o mesmo processo em nove crianças atacadas também de coqueluche, notaram que em algumas o mesmo fato se reproduziu, isto é, as quintas desapareceram completamente logo no primeiro dia; em outras, porém,o efeito não foi tão rápido. (...)
Infelizmente, esse processo de tratamento não terá fácil aplicação prática por causa da relutância que o médico encontrará da parte dos pais dos doentinhos. É uma dessas novidades que causam horror às famílias e cuja utilização dificilmente passará das enfermarias dos hospitais. (Id.)
Passados dois anos, em sua 18a edição, o Guia medico de Chernoviz2 assim detalhou a respeito da coqueluche, por ele também denominada de tosse convulsa:
Tosse violenta e convulsiva, que acomete sobretudo as crianças desde a nascença até a segunda dentição; aparece por acessos, com intervalos mais ou menos longos, consistindo em muitas expirações sucessivas, seguidas de inspiração sonora e particular. É contagiosa e epidêmica (...).
A coqueluche exige ser tratada muitíssimo a sério, pois que bastantes vezes pode vir acompanhada de complicações mais ou menos graves: a) Complicações mecânicas (causadas pelo esforço dos acessos de tosse), ruptura do tímpano, hemorragia meníngica ou cerebral, hérnias, prolapso retal; b) Complicações infecciosas: é sobretudo a bronco-pneumonia, que muitas vezes traz consigo a morte. Otite média; c)Complicações nervosas: convulsões generalizadas, espasmo da glote. (Chernoviz, 1908, p. 1554-1555)
Em seguida à descrição daquele quadro, detalhava os muitos medicamentos e terapêuticas então recomendados. Consistiam eles, na ordem listada naquela obra, em chá de folhas de laranjeira ou de tília, vomitórios de poaia, xarope de Trousseau, xarope de éter, poção contra a coqueluche de Davreux, xarope de lactucário, xarope de lactucário opiado, xarope de ipecacuanha composto, xarope de codeína, xarope e pasta de Regnauld, xarope de clorofórmio, xarope de quina, café, infusão de erva cidreira e de hortelã, clister de assafétida, inalações de essência de terebintina, evitar emoções e contrariedades, cloral bromuretado Dubois, tintura de drosera e, finalmente, aquele que então se indicava como o mais eficaz, o bromofórmio (Ibid., p. 1555).
Referindo-se ao assunto, o médico Leonel Gonzaga pintou com cores pouco atraentes a situação por ele enfrentada com os pacientes acometidos daquele mal, pelo menos até o ano de 1918, segundo afirmou. O relato por ele fornecido acrescentava elementos àquele oferecido por Chernoviz. Segundo Gonzaga, quando o quadro avançava para as convulsões, quase se tinha a certeza da sentença de morte. "As convulsões eram mesmo chamadas terminais", apontou, acrescentando que certo médico descrevera, na Alemanha, que de "cento e tantos casos com essa complicação", todos teriam se feito seguir pelo "êxito letal". em seguida, detalhou:
Diante de complicações tão sérias, quase não merecem citação as de menor importância e intensidade encontradiças então, como as hemorragiAs conjuntivais, as epistaxes, os vômitos que podiam levar à desnutrição, a hoje ausente ulceração do freio da língua etc.
(...) em nenhuma outra doença se usaram mais remédios. Certo autor, conforme cito em trabalho meu de 1931, catalogou, àquela época, cerca de 400, todos falhos ou inseguros. Assisti à falência de todos... (Gonzaga, 1956, p. 36)
Havia, portanto, uma demanda proveniente da sociedade e outra originária do campo médico brasileiro - que se dizia carente de pesquisas originais - em favor do desenvolvimento de novas medicações e terapêuticAs para aquela, assim como para outras enfermidades.
A data de 1918, destacada por Leonel Gonzaga como muito importante na terapêutica daquele mal, foi por ele indicada para referir-se ao fato de, naquele ano, um pesquisador médico brasileiro na área da bacteriologia ter obtido um novo e, segundo afirmou, eficaz medicamento para o tratamento daquela enfermidade. O nome do médico era Aleixo Nóbrega de Vasconcellos (1885-1961). O do novo medicamento, Pertussol.
O presente estudo dedica-se a acompanhar o desenvolvimento desse produto, apoiado em relatos do período. Tendo-se por pressuposto que, se o bacteriologista se revela capaz de desvendar minúsculos seres sob as lentes de seus microscópios e outros instrumentos de que se serve a sua área de conhecimento, é a partir do momento em que essas formas de vida são postas a interagir na sociedade, na condição de causadoras de doenças, que elAs passam a ter algum significado para a mesma. Conforme detalha Norbert elias (1994, p. 23):
em virtude dessa inerradicável interdependência das funções individuais, os atos de muitos indivíduos distintos, especialmente numa sociedade tão complexa quanto a nossa, precisam vincular-se ininterruptamente, formando longas cadeias de atos, para que as ações de cada indivíduo cumpram suas finalidades. Assim, cada pessoa singular está realmente presa; está presa por viver em permanente dependência funcional de outras; ela é um elo nAs cadeias que ligam outras pessoas, assim como todas as demais, direta ou indiretamente, são elos nas cadeias que a prendem. EssAs cadeias não são visíveis e tangíveis, como grilhões de ferro. São mais elásticas, mais variáveis, mais mutáveis, porém não menos reais, e decerto não menos fortes. E é a essa rede de funções que as pessoas desempenham umas em relação a outras, a ela e nada mais, que chamados ‘sociedade’.
Reflexões estas aplicáveis com igual intensidade ao agente que se tornou conhecido e reconhecido como cientista e à sua atividade extremamente social, extremamente relacional, a qual faz parte de uma ampla, complexa e diversificada rede de funções interdependentes. destarte, mais que no laboratório, as atividades científicAs têm lugar na sociedade.
Segundo propõe o sociólogo francês Bruno Latour (2000), o conhecimento produzido não pode ficar circunscrito ao laboratório. Ele deve despertar o interesse simultâneo tanto dos demais cientistas, quanto do Estado e da sociedade como um todo. De nada adianta obter esplêndidos resultados dentro do laboratório, defende o sociólogo, se não se é capaz de se realizar um eficiente trabalho no seu exterior, mobilizando outros segmentos da sociedade em favor de sua aceitação e/ou consumo e de sua continuidade.
Tendo em vista tais pressupostos, a seguir pretende-se acompanhar como Vasconcellos desenvolveu seu novo medicamento. Além disso, são analisados os argumentos mobilizados em seu favor, particularmente diante da ameaça representada pelo avanço dos antibióticos. isso pode ser feito a partir dos relatos que o próprio Vasconcellos e outros agentes sociais, médicos ou não, deixaram a respeito.
Aleixo de Vasconcellos: médico pediatra, bacteriologista, pesquisador
Aleixo de Vasconcellos cursou medicina na faculdade carioca. Ao mesmo tempo, desenvolveu pesquisas no Instituto de Proteção e Assistência à Infância, dirigido por Moncorvo Filho, e no Instituto de Manguinhos, sob a orientação de Oswaldo Cruz. Esse investimento nas três instituições conferiu-lhe não apenas habilidades e conhecimentos, mas também Legitimidade para dedicar-se às pesquisas bacteriológicas. Esta última, um domínio cujo desenvolvimento era extremamente recente, não apenas no Brasil, mas também nos países mais desenvolvidos economicamente naquele início do século XX.
Formado médico no ano de 1908, Logo em seguida fundou, ao lado de Fernandes Figueira, a Policlínica de Crianças da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, o primeiro hospital infantil do Distrito Federal. Passou assim a atuar como pediatra, outra área ainda incipiente no país.
No mesmo período, em 1910, o médico Paul Ehrlich desenvolveu um novo medicamento, o Salvarsan, com o qual, segundo Ackerknecht (1973, p. 139), inaugurou-se uma nova era na terapêutica. O medicamento passou a ser empregado no tratamento da sífilis, enfermidade que afligia o homem há pelo menos 4 séculos. Além de não atacar somente seus sintomas, combatia a sua causa e havia resultado de um metódico trabalho cientificamente realizado. começava a firmar-se a quimioterapia, ou seja, a farmacologia amparada em procedimentos de natureza científica e transformada em mais um ramo da medicina.
No correr da primeira metade da década de 1910, conforme havia aprendido em Manguinhos, Vasconcellos dedicou-se a estudos relacionados às causas de váriAs doenças, humanas e animais. Não avançou, contudo, em direção ao desenvolvimento de novos produtos terapêuticos. Entre outras enfermidades, produziu pesquisas em torno da disenteria, da sífilis, da malária, da tuberculose bovina.
Com a coqueluche, foi mais adiante. em novembro de 1917, diante do grande número de casos da doença observados na Policlínica de Crianças, o pediatra e bacteriologista realizou estudos visando produzir um novo medicamento. Este, segundo relatos seus e de outros agentes, passou a ser empregado com grande sucesso na terapêutica daquela doença.
Animado por recentes trabalhos desenvolvidos no exterior e diante da imposição de ter que tratar um mal para o qual não havia medicamentos eficazes e disponíveis, serviu-se dos recursos que tinha à mão, tanto no seu laboratório, quanto na Policlínica.
Embora tendo constituído uma novidade e um avanço naquele momento, o Pertussol é hoje completamente ignorado. Transcorridas pouco mais de três décadas, viria a ceder lugar ao tratamento através do emprego de antibióticos. Ameaça à utilização de suas vacinas que ele percebeu de forma crescente nos anos subseqüentes à Segunda Guerra Mundial.
Conforme Velho Sobrinho (1937, p. 177), Aleixo de Vasconcellos foi aquele que introduziu no Brasil a "vacinoterapia da coqueluche". Vasconcellos, resume o autor, teria obtido aquela vacina "empregando a flora microbiana dos exsudatos da faringe e um filtrado".
Embora no senso comum o emprego da expressão vacina se faça habitualmente mais associado aos produtos destinados à prevenção de determinadas doenças, conferindo imunidade a elas, o produto desenvolvido por Vasconcellos atuava como uma vacina terapêutica. Conforme explicou em 1917, tratava-se de empregar os agentes causadores da doença, atenuados ou mortos, também "como instrumentos de cura" (Vasconcellos, 1927, p. 328).
O Pertussol consistia em uma suspensão dos bacilos descritos em 1907 pelo bacteriologista belga Jules Bordet, ganhador do Prêmio Nobel de medicina em 1919, e pelo francês Octave Gengou. Esses bacilos eram atenuados pela ação de fluoretos e adicionados da antitoxina de Kraus.3 Esta última substância cumpriria função de minimizar as reações negativas decorrentes da injeção de substâncias microbianas, tais como dor e exacerbação da tosse.
Reunindo a experiência resultante dos estudos realizados por bacteriologistas estrangeiros àquela que pode empreender na Policlínica de Crianças, Vasconcellos concluiu em favor da eficácia do seu Pertussol, embora não negasse que o fazia sem dispor de observações tão precisas quanto aquelas exigidas pela ciência. esse aspecto foi destacado por outros médicos que acompanharam os ensaios. Foi o caso de Fernandes Figueira, seu chefe na Policlínica.
Vasconcellos acrescentava ainda a informação de ter utilizado a vacina no tratamento de Crianças da Santa Casa de Misericórdia e da Casa dos Expostos. Esta última abrigava crianças abandonadas. em outras palavras, o desenvolvimento de sua medicação resultou da experimentação com crianças. Aliás, na época não existiam princípios internacionalmente aceitos e adotados quanto ao uso de seres humanos em semelhantes ensaios.
Acrescente-se que o criador do medicamento não percebia naquele um experimento que envolvesse maiores riscos, pois já havia relatos de sucesso produzidos pelos pesquisadores nos quais Vasconcellos apoiou-se.
Pertussol: produto de uma ciência extremamente social
Acompanhando seus relatos sobre a obtenção do produto, percebe-se que eles evidenciam que Vasconcellos pretendeu demonstrar que não se ateve exclusivamente às conclusões resultantes de um único experimento. Ao contrário disso, esclarecia que, adaptando variadas experiências e somando-as a outras por ele mesmo realizadas, produziu e administrou um medicamento novo nas criançAs doentes de coqueluche.
Experimentos anteriormente empreendidos, somados àqueles por ele realizados deram-lhe segurança para, encontrados os agentes, atenuados estes, acrescidas outras substâncias, ter a convicção de que estava pronta uma nova e confiável vacina. Com esta, Dirigiu-se às crianças enfermas, pleno de "fé eterna na ciência", como aprendera com Oswaldo Cruz.4 E elas foram curadas! Ao menos assim atestavam seus trabalhos e outros testemunhos favoráveis ao Pertussol.
Surgem, portanto, algumas questões, não necessariamente relacionadas à eficácia ou não da vacina, mas aos pressupostos científicos que possibilitaram a obtenção do produto. Pressupostos estes que não foram e não são exclusividade do modo de fazer ciência adotado por Vasconcellos, das pesquisAs em torno da coqueluche, nem daquele momento particular do desenvolvimento das ciências médicas, no Brasil ou no exterior. A começar pelo primeiro elemento motivador daquela série de ações, conforme descritas pelo médico: a sua "fé" na ciência. Pois foi a partir dela, dessa fé nos métodos e na eficácia da bacteriologia, amplamente proclamada por Vasconcellos, que o agente colocou-se em ação.
Fé e confiança amparavam, portanto, uma postura que dificilmente poderia se sustentar como científica, pois evidenciavam uma avaliação individual apoiada na confiança em prévias avaliações, também sustentadas por outras e nem todas elas tidas ainda como totalmente fidedignas.
Na ciência e para os cientistas, "Quando as coisas se sustentam elas começam a se transformar em verdade" (LATOUR, 2000, p. 28). E para que se sustentem, Necessitam da aquiescência dos demais pares-concorrentes. isto é, de cientistas em número suficiente e dotados de legitimidade para emprestarem credibilidade àquilo que é apresentado como novidade, o que se faz em meio a uma sucessão de verdades amparadas de forma similar.
Surge assim algo razoavelmente bEm definido pela noção de fé, embora se diga que seja pautado exclusivamente na observação e na experimentação. Afinal, embora a ciência tenha por pressuposto a possibilidade sempre presente de se repetir reiteradas vezes o mesmo experimento, em condições semelhantes, isso dificilmente é feito, por uma série de razões, conforme indica o sociólogo Bruno Latour (Ibid., p. 101-104). Resta assim, em muitas situações, apenas a crença.
Foi o que fez Vasconcellos. É bem certo, conforme consta no seu relato, que ele retornou ao laboratório, buscando reproduzir aquilo que outros pesquisadores já haviam realizado. isso não está em questão. Ocorre que, uma vez alcançado o resultado por ele almejado, com a produção da vacina, o passo seguinte foi testar a vacina diretamente em seres humanos. Todos os seus relatos que detalhavam o ensaio reafirmavam esse gesto.
Talvez essa fé e essa predisposição para arriscar diante de incertezas sejam mesmo algumas das marcas mais características da farmacologia, uma vez que, por mais que determinada droga tenha sido testada, isso não afasta a imprevisibilidade: "há sempre uma incerteza sobre a medicação", salienta Jane Dutra Sayd (1998, p. 163). Afinal, conforme acrescenta a autora, "mesmo a análise in vivo é apenas parcialmente generalizável; de uma pessoa para outra, de um momento para outro, em cada uma, as reações também podem ser heterogêneas".
No caso do produto inicialmente ministrado às crianças afetadas pela coqueluche, aquilo de que Vasconcellos dispunha era algo produzido segundo indicações de alguns pesquisadores e, logo em seguida, por ele readaptado. Dito nos termos propostos por Bruno Latour (2000, p. 104), o que se teve foi "a palavra de muitos homens bem equipados" dando sustentação à crença de Vasconcellos na vacina por ele produzida em conformidade com indicações daqueles.
A ciência assim praticada se revela não apenas social, mas extremamente relacional, profundamente inserida em ampla rede de interdependência entre funções. Vasconcellos, ao desenvolver e ministrar o Pertussol, assumia não apenas a função de médico pediatra, mas a de bacteriologista e farmacologista. Ou seja, era percebido e reconhecido como um verdadeiro cientista. Papéis estes em cujo exercício tinha garantida a legitimidade para propinar, a quase uma centena de crianças, mesmo que em caráter experimental, o seu novo medicamento.
Um cientista, por isso mesmo, somente se torna reconhecido enquanto tal no seio de uma ampla rede de relações, tecida não apenas no interior do campo científico, com seus pares-concorrentes, mas com a sociedade Como um todo. Incontáveis "laços invisíveis", para empregar expressão de Norbert Elias, se estabelecem entre agentes e instituições, articulados sempre de forma muito específica e particular em cada sociedade. Laços que, embora responsáveis por sustentarem toda a trama social, muitas vezes são ignorados por aqueles que a eles estão sujeitos.
Portanto, é na urdidura dessa ampla rede, observando, experimentando e, não menos, amparando-se em determinados pressupostos partilhados pelos cientistas, que Vasconcellos fez-se, ele também, conhecido e reconhecido como um homem de ciência.
Considerações Finais: do Pertussol a antibioticoterapia
Se na década de 1930 houve uma tendência a emprestar credibilidade à terapêutica por intermédio da vacina, ou vacinoterapia da coqueluche, logo em seguida, ou seja, uma década após, os antibióticos tornaram-se reconhecidos como os medicamentos mais indicados e eficazes naqueles casos, como no de tantas outras doenças. não sem contestação.
Velhos amigos, desde os tempos do ensino secundário, realizado no Colégio Pedro II, aleixo de Vasconcellos e Leonel Gonzaga, já na segunda metade da década de 1950, insistiam na defesa da vacinoterapia. defendiam seu emprego em conjunto com os novos e cada vez mais acreditados antibióticos. Contudo, o faziam dando sempre certa primazia à vacinoterapia.
Sua estratégia? Pôr em questão ou, no mínimo, relativizar a intensa e Crescente euforia diante das possibilidades terapêuticAs atribuídas aos antibióticos, os quais pareciam capazes de quase tudo curar. Euforia da qual Vasconcellos e Gonzaga não compartilhavam inteiramente, ou, pelo menos, não o faziam sem impor restrições.
Discorrendo à Sociedade Brasileira de Pediatria em torno da coqueluche e do seu tratamento, Leonel Gonzaga asseverou: "não encontro na literatura moderna elementos convincentes que me levem a abandonar o emprego das vacinas curativas, pois com elas assisti à espetacular modificação do quadro da doença no correr dos tempos" (Gonzaga, 1956, p. 40).
Observação, experimentação, ausência de consenso, disputas, controvérsias, acrescidos de certa dose de fé. A farmacologia e a medicina amparadas em bases científicas não deixaram de dar lugar às polêmicas, à defesa apaixonada, à parcialidade. Tornaram-se reconhecidamente Científicas, por isso mesmo não se fizeram menos sociais e relacionais.
Ao findar o ano de 1961, Aleixo de Vasconcellos faleceu. Desapareceu o criador, tanto quanto sua criação. Não mais se ouviu falar no Pertussol. Já os antibióticos, assim como os microorganismos que a eles podem se tornar resistentes, prosseguiram em expansão. A ciência médica persiste em sua busca, mas a cura definitiva teima em se fazer inacessível.
As disputas e controvérsiAs médicas e farmacológicas têm assim continuidade garantida no domínio extremamente social e relacional daquelAs ciências.
Notas
1 Também conhecida como "tosse comprida", e, na língua espanhola, como "tos ferina", a coqueluche, denominação derivada do francês, é doença infecciosa aguda, que tem como principal agente etiológico a bactéria Bordetella pertussis, constituindo causa importante de morbi-mortalidade infantil.
2 Trata-se de popularíssimo guia de medicina editado pelo médico polonês Pedro napoleão Chernoviz e cuja primeira edição data de 1841. Sobre o autor e a obra, cujo interesse não se restringiu aos agentes não portadores de um diploma em medicina, consultar Guimarães (2005).
3 Em referência aos sobrenomes daqueles que conseguiram isolá-la em 1906, a bactéria causadora da coqueluche era também referida como bacilo de Bordet-Gengou. Denominação esta empregada por Vasconcellos e aqui mantida.
4 "Fé eterna na ciência" era a ex-libris de Oswaldo Cruz, o qual, conforme observado, foi orientador de Aleixo de Vasconcellos em Manguinhos. Este último reiterou em diversas ocasiões sua crença na confiabilidade dos produtos da ciência. Em 1913, como orador oficial da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, ele assim se pronunciou: "Feliz é o povo que pode contar entre os seus concidadãos espíritos livres e perscrutadores, e que vê na ciência, ao mesmo tempo que uma conselheira de tolerância e de modéstia, o auxiliar indispensável do progresso e a companheira inseparável da verdade! (...) Todos os grandes feitos da medicina nascem no laboratório. As hipóteses fantasistas, as composições acadêmicas, As explicações oportunistas, o magister dixit não são mais para a nossa época. Quando tiverdes conhecimento de novas concepções no domínio da medicina, só as aceiteis quando vos apresentarem a sanção da experimentação, overedictum do laboratório. Segui nas vossas pesquisas o caminho mais simples que a razão vos indicar. E, na execução do método experimental, procedei com inteira isenção de especulação metafísica. Embora a consciência reivindique algumas vezes o direito de afirmar condições espiritualistas e religiosas, é preciso reclamar para a ciência todas as prerrogativas da liberdade, com a maior energia. Só desta maneira, poderá o espírito agir sem preconceitos" (Vasconcellos, 1914, p. 24).
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