O Egito antigo na rota dos navegadores: do começo ao fim do Novo Mundo.
É natural nos depararmos com um obelisco da época faraônica no aeroporto do Cairo e rumar à cidade ao longo de uma avenida chamada Três Pirâmides. Tais monumentos foram criados ali há mais de três mil anos e, junto, com as esfinges são os mais importantes símbolos do antigo Egito, na atualidade. Entretanto, a visão e o uso de obeliscos, longe do Egito, ainda causa surpresa! Essa é a sensação do viajante que, em busca da história e da cultura peruana, encontra no aeroporto de Cusco, um obelisco com asas! Qual a explicação dessa criação? Na verdade, o que ele está vendo é mais do que um simples obelisco: trata-se de uma prática de egiptomania! A egiptomania é uma das três maneiras de se manifestar interesse pelo Egito antigo. As outras duas são a egiptologia, ciência criada no século XIX à partir da decifração dos hieróglifos por Champollion, que estuda tudo que é relativo ao antigo Egito e a egiptofilia, que consiste no gosto pela arquitetura, objetos e textos egípcios ou que versam sobre eles. A egiptomania é o fenômeno mais antigo dos três e se constitui na transculturação, isto é, na apropriação de elementos de uma cultura por outra, fato que implica, sempre, em mudança, transformação de conteúdo ou de expressão. A presença de pirâmides, esfinges, além dos obeliscos, também é comum tanto na península ibérica quanto no continente americano, na arquitetura, nas artes, na propaganda e com objetivos cívicos e/ou comerciais. Em geral de proporções monumentais, os obeliscos, por exemplo, assinalam episódios, personalidades e marcam fronteiras regionais e/ou nacionais. Em Ushuaia há um imponente obelisco, que eterniza a primeira vez que foi hasteada a bandeira argentina na "terra do fim do mundo", em 1884. E, no mesmo país, o monumento mais central e internacionalmente mais conhecido da cidade é o obelisco da Av. 9 de julho. No Brasil há uma centena de obeliscos! Um dos mais significativos está na Av. Rio Branco, no Rio de Janeiro, onde os gaúchos amarraram os seus cavalos, ao final da Revolução de 1930. Essa comunicação visa apresentar e discutir diferentes exemplos de transculturação de elementos do antigo Egito na península ibérica e na América do Sul.
Esta comunicação - O Egito antigo na rota dos navegadores: do começo ao fim do Novo Mundo - propõe um estudo pioneiro na historiografia sobre a egiptomania. Ela busca comparar os desdobramentos de dois exemplos semelhantes de práticas de egiptomania, produzidos em países de língua portuguesa e espanhola. Os pontos de partida dessas investigações foram as imagens de obeliscos estampadas em um mesmo suporte material: as capas de dois livros publicados em Portugal e na Argentina, respectivamente.
A idéia deste trabalho nasceu em Coimbra, em fevereiro de 2006, com a descoberta de um livro que exibia na capa a foto de um obelisco, de proporções monumentais, existente no centro da capital portuguesa. A publicação tem um título instigante: O imaginário de Lisboa nos romances. O achado lembrou-me outro, ocorrido há alguns anos atrás, e que também me causou espanto: um Guia da cidade de Buenos Aires que exibia na capa um casal dançando tango, tendo como pano de fundo a imagem do gigantesco obelisco situado na Av. 9 de julho, a mais importante da capital portenha. A questão atualizada a partir dessas duas capas de livros levou a sua comparação: a busca de saber qual o significado possível, qualitativo e diferencial dos usos de um elemento do antigo Egito em livros que versam sobre assuntos específicos de outros lugares,qual seja o turismo em Buenos Aires e a Lisboa em romances?
Tekhen era o nome conferido pelos antigos egípcios aos obeliscos e significava, textualmente,’raio de sol’. Foram os gregos que lhes deram o nome de obeliskos que, em sua língua, significava ‘agulha’ ou ‘pino’. Na origem, o obelisco era um monumento de pedra afilado, em forma de agulha e com o topo entalhado no formato de pirâmide, seguindo basicamente o modelo da antiga pedra benben, no templo do deus sol, em Heliópolis, considerada sagrada pelos egípcios desde a primeira dinastia (3100 - 2890 a.C).
Quem chega ao Cairo acha natural deparar-se com um desses obeliscos da época faraônica ainda no aeroporto e rumar à cidade ao longo de uma avenida chamada Três Pirâmides. Tais monumentos foram construídos ali há mais de três mil anos e, junto com as esfinges, são os mais importantes ícones do antigo Egito, na atualidade.
Entretanto, a percepção desses símbolos longe do Egito, mesmo se sabendo que são produzidos na atualidade, pode causar surpresa, devido ao inusitado da imagem fora do contexto e ao desconhecimento do significado dessas construções, consagradas como os primeiros suportes materiais da história escrita! Esse é o caso do visitante que, em busca de traços da história e da cultura peruana, encontra no aeroporto de Cusco, situada no alto da cordilheira dos Andes, um obelisco, que, além de ser um monumento sem vínculos com a cultura local, ainda apresenta uma inovação extraordinária: o monólito tem duas asas! De imediato, o turista se pergunta o porquê dessa criação exótica. Na realidade, o que o visitante está vendo é muito mais que um simples obelisco: trata-se de uma prática de egiptomania!
A egiptomania é uma das três maneiras de se manifestar interesse pelo Egito antigo. As outras duas são a egiptologia, ciência criada no século XIX, a partir da decifração dos hieróglifos por Champollion, que estuda tudo que é relativo ao antigo Egito, e a egiptofilia, que consiste no gosto pela arquitetura, objetos e textos egípcios ou que versam sobre eles. A egiptomania é o fenômeno mais antigo dos três: constitui-se na transculturação, isto é, na apropriação de elementos de uma cultura por outra, fato que implica, sempre, em mudança, transformação de conteúdo ou de expressão.
A partir da descoberta do livro portenho, busquei o significado da construção do monumento da capa, em Buenos Aires. E, com isso, fui encontrando outras práticas de egiptomania naquele país. Verifiquei que o obelisco da Av. 9 de julho tem uma história polêmica, foi construído para dar maior brilho aos festejos do quarto centenário da primeira fundação da cidade de Buenos Aires, sob os protestos de alguns cidadãos argentinos.
A execução do projeto do obelisco foi confiada a Alberto Prebisch (1899-1970), considerado então o mais importante representante da arquitetura racionalista moderna na Argentina. Prebisch havia ido, em finais de 1933, aos Estados Unidos, com uma bolsa de estudos do Instituto Cultural Argentino Norteamericano. Lá ficou até 1934, tendo visitado muitas cidades e certamente Washington, aonde se concluíam os trabalhos de urbanização, havendo ali, desde 1833., um obelisco de 167m. de altura, escolhido através de concurso, como forma de homenagear George Washington.
Na verdade, com o passar do tempo, as querelas foram sendo postas de lado e o obelisco de Buenos Aires foi adquirindo um status excepcional, tornando-se um dos símbolos da capital Argentina. Dessa forma, sua imagem é multiplicada e vendida aos turistas em diferentes suportes e, como tal, em imans de geladeiras, por exemplo.
No Cemitério da Recoleta, ponto de visitação obrigatório, há belas sepulturas, com decorações inspiradas no Egito antigo. Uma loja de finos artigos de couro, situada na rua Florida, uma das dez mais importante do mundo, tem o nome de Sobek, nome do deus crocodilo do Egito antigo. Esfinges coloridas alegram a visita ao zoológico de Buenos Aires; outra vigia os freqüentadores de um shopping center que tem nas vizinhanças uma sofisticada casa noturna, cuja decoração mistura hieróglifos com cenas de Indiana Jones, em elegante bairro da cidade!
Em nova viagem a Argentina, em fevereiro de 2005, continuei encontrando outros exemplos de práticas de egiptomania até mesmo em Ushuaia. Além de uma loja, e logotipos com nomes de faraós, entre outros, encontrei um imponente obelisco. Esse monólito eterniza a primeira vez que foi hasteada a bandeira argentina na terra do fim do mundo, em 1884. Esse achado é valorizado no título desta comunicação pelo enorme circuito marítimo percorrido por esse monólito, das terras nilóticas às geleiras, na atualidade!
Essa pesquisa revelou que, na construção de um obelisco, entram em jogo poderes que o transformam em seu instrumento e símbolo. E isto se aplica ao âmbito jurídico e político. E implica em fazer uma série de desdobramentos das práticas individuais em busca do conjunto de fenômenos de cada criação. Assim, vejamos quantos questionamentos cabem na análise de um obelisco:
1) Qual o discurso político que sugeriu/impôs o projeto de construção do obelisco e qual a razão da escolha deste monumento e não de outro;
2) Que discurso legal escolheu/impôs o que, quando, como e onde a o obelisco devia lembrar e como isto foi gravado no suporte monumental?
3) Qual a autoria do monumento: quais as identidades dos proponentes e dos construtores?
4) Quais os critérios eruditos e/ou estéticos estão presentes no monumento;
5) Qual a recepção da comunidade, elite política/econômica/mídia ao monumento?
De um modo ou de outro, o imaginário sobre a civilização nilótica chegou a este continente um tanto junto com os colonizadores europeus e/ou com os imigrantes de várias origens, um e outro cadinho pela imprensa, e, principalmente, pelo sistema de ensino, como já foi apontado em etapas anteriores desse projeto. Por exemplo, na pesquisa sobre egiptomania brasileira, que realizo desde 1995, sobressaiu-se a participação da família real portuguesa na introdução de elementos do antigo Egito. No 1° projeto de urbanização do Rio de Janeiro, em 1783, o passeio público foi planejado de forma a configurar um jardim ao gosto aristocrático, em que havia largos espaços representando antigas tradições paradisíacas orientais. Os monarcas D. Pedro I e II apareceram como os responsáveis pela criação da mais importante coleção de peças egípcias da América do Sul. Tais fatos nos levaram a afirmar que a rota da egiptomania brasileira passava por Portugal.
Para confirmação dessa hipótese, foi fundamental o achado do livro antes referido, em Coimbra, que versa sobre o imaginário de Lisboa nos romances de Thomas Mann e de Hanns-Josef Ortheil. Essa publicação do Centro Interuniversitário de Estudos Germanísticos traz, na própria introdução, uma interessante alusão às possíveis razões da escolha da imagem do obelisco para sua capa. Ela explica que a palavra "imaginário", contida no título do trabalho, provém de uma outra, "imagem", que se trata de "um vocábulo de origem latina (imago) que, adaptado das artes visuais, tem vindo a ser preferido pelos críticos literários das últimas décadas para designar grosso as representações do estrangeiro na literatura de um determinado país, tendo mesmo dado origem a uma tendência particular no domínio mais vasto dos estudos literários: a imagologia comparatística". O obelisco, nessa ótica, estaria a simbolizar a presença do estrangeiro em Portugal, em lugar de elemento tradicional?
Essa reflexão do autor me fez resgatar o simbolismo e examinar os lugares destinados aos obeliscos no mundo ocidental e à própria essência das criações da egiptomania. E a ilação do autor começou a fazer um sentido, para meu estudo, pois as origens do emprego de elementos egípcios no mundo ocidental remontam à construção de um novo espaço urbano no ocidente: o Império Romano. Segundo o pensamento do antiguista François Guizot segui a história de Roma e vereis que foi a história da conquista e da construção de cidades! A partir da vitória de Otávio Augusto no Egito, foram levados à capital imperial, que hoje exibe o maior número de obeliscos originais, fora do Egito. O exemplo foi seguido pelas capitais mais poderosas da modernidade: Paris, Londres e Nova York, que exibem monólitos originais em lugares nobres e representativos da sua modernidade.
Washington, capital norte americana, Buenos Aires, a portenha, o Rio de Janeiro, em meados do milênio passado, na falta dos originais egípcios, construíram os seus próprios obeliscos. O primeiro deles é tão monumental que pode ser visto de qualquer lugar da cidade!
A capa do livro lisboeta motivou uma longa viagem pelo país na busca de saber se a imagem estampada era do único monólito português. Logo ficou comprovado que não! Encontrei outros obeliscos em Faro, em óbidos, na vila de Batalha , onde também localizei a loja Pirâmide, de moda feminina.
O mais antigo obelisco encontrado em Portugal situa-se na Vila Real de S. Antonio e foi construído, em 1775, em homenagem ao rei D. José I , por iniciativa do comércio de pescarias da vila e foi executado, em cinco meses, sob a supervisão zelosa de Pombal. A placa de bronze contém os agradecimentos da Vila ao monarca, considerado o restaurador das armas, das letras, da agricultura e o reparador da glória e da felicidade pública.
Vemos que, entre os símbolos egípcios mais presentes no mundo ocidental, destacam-se os obeliscos. Em geral de proporções monumentais, esses monólitos são usados como suportes da memória de episódios, personalidades e marcam fronteiras regionais e/ou nacionais. Mas existiriam outras práticas de egiptomania na península ibérica?
A resposta afirmativa foi logo encontrada nas ruas de Lisboa e em outras cidades da região! Nelas, além dos obeliscos, outros elementos egípcios foram se tornando visíveis quando abrimos os olhos à egiptomania!. Uma das mais impressionantes dessas aparições foi a imagem de imponente estátua do deus sol egípcio, Hórus, em concreto, com cerca de dois metros da altura, em frente da Fundação Calouste Gulbenkian. A imagem do pássaro sagrado foi construída à imitação da escultura que ainda existe no Templo de Edfu, no Egito. O mais interessante dessa prática de egiptomania foi o seu caráter compósito: sentada na frente do deus mitológico foi colocada uma escultura de Calouste Sarkis Gulbenkian. Esse milionário arménio naturalizado britânico deixou em testamento, datado de 18 de Junho de 1953, significativa parte de sua fortuna pessoal à criação de uma instituição particular de utilidade pública geral, com sede em Lisboa. A doação perpétua e dotada de personalidade jurídica, foi um agradecimento à acolhida que ele recebeu na velhice, em Portugal,

Na Espanha, também há, obeliscos, mas o exemplo de egiptomania mais surpreendente é a presença, na rótula de entrada da cidade de Torremolinos, de um monumento de saudação aos turistas. Além das boas vindas, ele nos alegrou pela nova e inusitada prática de egiptomania: o pilar de saudação ao turista estava enfeitado com a presença de quatro esplendidas esfinges egípcias!
Em Gibraltar, solo de dominação britânica na península ibérica, chega-se a última visão européia dos marinheiros que daqui partiam, na época das grandes navegações. O turista encontra um lugar para comprar ‘souvenirs’ com o sugestivo nome de última loja da Europa. Na frente do prédio, foi construída uma pirâmide de pedra, de proporções grandiosas, com placas de bronze, onde há inscrições em dois dos lados do monumento. No primeiro está escrito:.
última loja na Europa começou sua vida como tal magazine n°56 em 1844. Construída como loja
Assim, temos aqui um fenômeno típico da egiptomania. A pirâmide - que foi, na origem, o ponto principal dos complexos funerários dos reis egípcios - teve sua imagem reutilizada, talvez na eternização do lugar como marco histórico e de trocas culturais, com atribuições de um sentido bem diverso do original: a tumba do faraó egípcio. Também pode-se especular que, assim como as pirâmides que foram construídas considerando os pontos cardeais, a de Gibraltar tem um significado semelhante, relativo às navegações!
No placa do outro lado da pirâmide, lê-se uma sentença de cunho histórico e uma importante informação:
Europa aponta a borda do antigo mundo conhecido onde dizem que Hercules dividiu a Europa da áfrica e onde o Atlantico e o Mediterrâneo se encontram. 70.000 navios cruzam o estreito a cada ano
é importante lembrar que as chamadas Colunas de Hércules eram apenas ponto de chegada e/ou de partida da rota das grandes navegções. O circuito total era longo, variado e quase sempre triangular. Através dos marinheiros, trocavam-se informações, objetos, costumes e práticas, que se misturavam com as populações portuárias e eram levadas á distância por parentes e amigos. Entre esses gostos em formação, encontra-se o fascínio pelas misteriosas criações egípcias, por seus hieróglifos ilegíveis até o século XIX e, principalmente, pela sua crença na eternidade.
Desde meados do século XVII, os contatos entre oriente e ocidente se multiplicavam, pelo mar Mediterrâneo, Vermelho e índico. Eles se explicam notadamente pelo impulso das missões ao oriente, pela criação de embaixadas turcas e persas e do olhar de grandes companhias de comércio. Com o desenvolvimento da imprensa, as narrações dos testemunhos foram registradas e multiplicadas, chegando à América. Elas acendiam a imaginação das pessoas que liam ou ouviam as histórias sobre as grandes pirâmides, as esfinges e os obeliscos monumentais!
A pirâmide da loja de Gibraltar foi construido em 1965. Ela tem um importante significado para esta pesquisa, porque testemunha um elemento egípcio ainda lembrado, em solo europeu. Neste sentido, as pirâmides, as esfinges, bem como os obeliscos das capas dos livros, também assinalam de um lado a linha de continuidade da egiptomania, que caracteriza um movimento de longa duração de cunho transcultural entre a Egito, a Europa e a América. De outro, tais imagens podem levar à busca das especificidades de cada uma dessas criações. isto faria entender os porquês das contínuas inovações em torno dos elementos egípcios, ao longo dos milênios. Explicaria, por exemplo, o fenômeno da criação de um obelisco alado de Cusco! Em rápida pesquisa, tomamos conhecimento de que as asas homenageam ao herói nacional da aviação peruana, Alejandro Velazco Astete, que morreu de forma trágica e estóica ao aterrizar na cidade de Puno, ao norte do Perú, depois de fazer a primeira travessia aérea da cordilheira andina.
Finalmente, a comparação dos usos dos obeliscos nas capas dos livros estabeleceu os graus possíveis de semelhança e diferença dos significados do uso de uma mesma imagem, em suportes iguais, na egiptomania. Em uma das capas, o monumento egípcio representa o olhar estrangeiro sobre a capital portuguesa, e, na outra, o obelisco simboliza a própria Buenos Aires. Se somarmos a essas descobertas as outras práticas citadas como o obelisco alado de Cusco, as esfinges saudando turistas na Espanha, a pirâmide de Gibraltar eternizando o cruzamento de caminhos, podemos avaliar a riqueza deste estudo transcultural. Ele implica a necessidade de se buscar a história cultural de, pelo menos, seis países para desvendar a gênese do potencial criativo do imaginario coletivo sobre o Egito antigo existente do começo ao fim do novo mundo, na atualidade.
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Imagem http://pt.wikipedia.org/wiki/Calouste_Gulbenkian 9/6/2006, 17:30h




