As Ruas da Cidade: a alma do lugar e seus personagens
O estudo procurou analisar a identidade nominativa de mais de oitenta ruas de Campo Grande - MS, por meio de fontes visuais: fotos e imagens, tratadas com sensibilidade e vida, a partir do estudo do lugar e sua memória, possibilitando a reconstrução histórica patrimonial na territorialidade do espaço urbano. As imagens dos personagens nomeados nas ruas retratadas podem oferecer um amplo campo de investigação para aqueles que desejarem se aprofundar em estudos da história local, uma vez que se pode tomar uma imagem pela realidade, inferindo que as fotos nunca são evidências da história: mas é a própria história. Além das imagens, várias outras fontes (primários e secundários) foram analisadas numa demonstração de que a história se faz principalmente com documentos. Muitas pessoas passam pelas ruas sem relacioná-las com seu nominativo, mesmo porquê a memória coletiva não tem se preocupado com esse fragmento social.
O estudo procurou analisar a identidade nominativa de mais de oitenta ruas de Campo Grande - MS, por meio de fontes visuais: fotos e imagens, tratadas com sensibilidade e vida, a partir do estudo do lugar e sua memória, possibilitando a reconstrução histórica patrimonial na territorialidade do espaço urbano. As imagens dos personagens nominados nas ruas retratadas podem oferecer um amplo campo de investigação para aqueles que desejarem se aprofundar em estudos da história local, uma vez que se pode tomar uma imagem pela realidade, inferindo que as fotos nunca são evidências da história: mas é a própria história (BURKER, 2004). Além das imagens, osarquivos públicos e particulares (fontes primários e secundários), serviram de pano de fundo para o estudo, numa demonstração de que a história se faz principalmente com documentos. O entusiasmo por este estudo nasceu da necessidade de se buscar bases tangíveis nos quais se pode apoiar o sentimento de identidade local.
Muitas pessoas passam pelas ruas sem relacioná-las com seu nominativo, mesmo porquê a memória coletiva não tem se preocupado com esse fragmento social.
O encanto pelas ruas se deve às qualidades inerentes dos hábitos arraigados e ao direito de cidadania, que os habitantes têm de manter seus costumes contra as forças da inculturação.
Na visão de Le Goff (1998), a cidade, bela e rica, é também, fonte de idealização: a de uma convivência harmoniosa entre as classes.
Cada rua é uma pequena parte de uma área construída, onde seus moradores têm uma experiência íntima com cada uma delas, criando um sentimento de lugar, uma vez que a cidade é um lugar, um centro de significados, símbolos (visíveis e invisíveis) de domínio público.
A pesquisa pode ser dimensionada por um caminhar da multiplicidade de identidades nominativas de ruas, conhecendo e interpretando significações (biográficas ou não), procurando reconstruir a ordem de um labirinto de nomes que só o desejo pessoal poderá penetrar, com sentimento e entusiasmo.
Assim, o trabalho verificou as representações da cidade por meio da identidade de algumas ruas da CIDADE MORENA, mesmo porquê, ao se analisar as imagens constata-se uma espécie de ponte, entre a realidade retratada nas imagens com outras realidades, não só do passado, mas também do presente. A análise das imagens dos personagens no contexto da territorialidade urbana de Campo Grande é tão importante, como demonstra Morelli (1890, in: BURKE, 2004, p. 25), ao enfatizar que "se você deseja compreender cabalmente a história da Itália, analise cuidadosamente os retratos. Há sempre no rosto das pessoas alguma coisa da história da sua época a ser lida, se soubermos como ler".
De acordo com Lefébvre (1991), a rua se repete e muda como a cotidianidade: reitera-se na troca incessante das pessoas, os aspectos, os objetos e as horas. A rua oferece um espetáculo e é só espetáculo; aquele que se afoba, com pressa para chegar ao seu trabalho ou a um encontro, não vê este espetáculo, é um simples extra.
Para Bakhtin (1976, IN: BURKE, 2004) a memória coletiva tira sua força da duração pelo fato de ter por suporte um conjunto de homens, não obstante eles são indivíduos que lembram, enquanto membros do grupo moradores de uma localidade. Dessa massa de lembranças comuns, e que se apóiam umas sobre as outras não são as mesmas que aparecerão com mais intensidade para cada um deles. Cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, que este ponto de vista muda conforme o lugar que o morador ocupa e, que este lugar muda segundo as relações que se mantém com outros meios. Não se deve admirar que do instrumento comum, nem todos aproveitam do mesmo modo. Entretanto, quando se pode explicar essa diversidade, verifica-se a combinação de influências que são todas, de natureza social. Por isso, torna-se importante que o morador conheça o espaço onde vive e saiba como estabeleceu ao longo do tempo as funções das ruas no espaço urbano, seu processo produtivo e sua conotação histórica. Para Milton Santos (1993) o morador é o único que tem a alma do lugar.
Parte da população de Campo Grande desconhece a origem dos nomes das ruas, inclusive o porquê da nominação da rua onde reside.
Buscou-se em outra dimensão, o valor histórico de seus personagens, datas e nomes, destacando também a importância do sagrado no contexto do espaço local.
é importante observar que a legislação federal e municipal relacionadas à denominação de ruas sofreu alterações principalmente no período de 1968 a 1996, destacando-se:
Lei Municipal nº 50 de 10 de janeiro de 1968, que dispõe sobre a denominação de ruas só depois de constatada a inexistência de nome idêntico com outra via pública;
Decreto Municipal nº 4.075 de 14 de janeiro de 1977, que aprova a nova numeração dos prédios e a reformulação geral da nomenclatura de logradouros públicos de Campo Grande;
Lei Federal nº 6.454 de 24 de outubro de 1977, que dispõe sobre a denominação de logradouros, obras e serviços e monumentos públicos;
Decreto Municipal nº 6.298 de 31 de maio de 1991 que regulamenta a Lei nº 2801 de 21 de março de 1991, que dispõe sobre a concessão de exploração de serviços de publicidade para a colocação de placas indicativas de nome de ruas e logradouros públicos;
Lei Municipal nº 3.100 de 05 de dezembro de 1994, que insere um parágrafo à Lei 2209/84, que veda atribuir nomes de pessoas não nascidas em Campo Grande a logradouros, praças e bens públicos do Município, e de pessoas vivas, exceto nomes de reconhecida personalidade;
Lei Municipal nº 3.315 de 26 de dezembro de 1996, que veda a colocação de nomes em ruas e avenidas, que causem constrangimento aos seus moradores.
As ruas pesquisadas tiveram como embasamento documental o Decreto Municipal nº 4.075 de 14/01/1977 e por essa razão não se nomeou o decreto específico de cada rua, com exceção apenas daquelas que foram nomeadas após 1977, como é o caso da Avenida Ricardo Brandão, onde se localiza a Câmara de Vereadores do Município em tela.
Detectou-se que existem muitas ruas com nomes de pessoas provenientes de outros estados e cidades, sendo escassas as ruas com nome de mulheres, o que demonstra o conservadorismo dos vereadores municipais. O mesmo ocorrendo com a nominação dos santos católicos de aparecem majoritariamente, sobre os nomes de santas. Muitos vultos históricos brasileiros compõem o nominativo das ruas, sendo que há ênfase para os homens e a mulher novamente fica em segundo plano nesse quesito. Outro destaque foi para a homenagem que os vereadores fizeram aos ex-presidentes da República Federativa do Brasil, não importando se estes presidentes foram ou não ditadores, numa demonstração de que o político prevaleceu sobre o social no contexto dimensionado.
Vale ainda ressaltar que em 1909, por ocasião do desenho das ruas de Campo Grande, à Rua 14 de Julho por iniciativa do vereador Miguel Garcia Martins, em homenagem à queda da Bastilha (Revolução Francesa), propôs o nome para o simples beco como era chamada, porque ali existia apenas, um trilheiro deserto, curto e sem saída (MACHADO, 1991). Entretanto, pelo Ato Municipal nº 40 de 21 de junho de 1930, o Intendente Geral do Município de Campo Grande, usando das atribuições que a lei lhe conferia o cargo, substituiu a denominação da Rua 14 de Julho para Rua Dr. Aníbal de Toledo (Deputado Federal) e determinou que o almoxarife fizesse a aquisição urgente das placas, em bronze. Anos mais tarde a população campo-grandense exigiu o retorno da nominação para 14 de Julho, o que foi prontamente atendida pelas autoridades locais. Esta rua é a principal via comercial do município citado.
No Brasil de um modo geral o político se sobrepõe ao social. Segundo Da Mata (1997), os domínios culturais institucionais são capazes de despertar emoções, reações, leis, orações, músicas e imagens esteticamente emolduradas e inspiradas, na maneira de ser do homem. Assim, a cidadania caminha a passos lentos, mas nossa cultura, nos permite sonhar por uma cidadania plena e voltar para ações concretas de cada cidadão objetivando alcançar, uma sociedade justa e igualitária, onde todos possam ter uma boa qualidade de vida, assegurando uma democracia plena com todos os direitos, civis, políticos e sociais, garantindo a participação do indivíduo na riqueza coletiva do homem brasileiro (PINSKY, 2004).
Sugere-se que o legislador municipal de Campo Grande ao propor a nominação de uma rua ou avenida, deixe um acervo documental sobre a referida nominação e se possível criar um site na Câmara Municipal de Campo Grande sobre as ruas da cidade. Seria interessante colocar na placa de rua ou avenida, a profissão ou cargo do nominado, a exemplo do que é feito em São Leopoldo-RS, facilitando assim, que o cidadão conheça um pouco mais sobre as ruas de sua cidade. Como há uma carência de placas com nomes de ruas na cidade, propõe-se a administração da Prefeitura Municipal que incentive e mobilize comunidade local, no sentido de suprir essa falha que dura mais de um século.
O orgulho urbano é feito da imbricação entre a cidade real e a cidade imaginada, sonhada por seus habitantes e por aqueles que a trazem à luz, detentores de poder e da paz (LE GOFF, 1998). A partir daí tem-se a percepção de que a função inovadora da cidade é ameaçada por uma espécie de tendência intrínseca, mas que pode ser modificada por paisagens urbanas próprias da dignidade humana, afirmando-se que é preciso salvaguardá-la na memória, para que ela seja testemunha de uma harmonia e de uma beleza sem igual. Dessa forma a sociabilidade, o prazer de se estar com o outro que estabelece em definitivo a diferença urbana, a urbanidade. é exatamente o que se deseja para a capital de Mato Grosso do Sul.
Bibliografia
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