A gramática da alimentação: interdições e permissões
A gramática da alimentação está estreitamente ligada às maneiras da sociedade. Partido desta premissa o presente estudo envolve a análise sobre a relação entre o controle dos gestos e os alimentos. Nesse sentido, quer conhecer algumas das principais regras impostas no sentido de controlar os excessos e evitar os constrangimentos, tanto no que diz respeito à ingestão dos alimentos, quanto aos conceitos referentes às boas maneiras à mesa. Utiliza-se para tal, manuais de civilidade e de economia doméstica que circulavam no Brasil na primeira metade do século XX, pois estes são veículos de contenção, poder e urbanidade.
Temas relacionados à História da Alimentação têm despertado crescente interesse nos últimos anos, tanto no que diz respeito à comunidade acadêmica, quanto em relação ao público em geral. Esse assunto apresenta uma larga possibilidade de reflexão multi e interdisciplinar, bem como proporciona ampliação no que diz respeito às fontes, responsáveis pela construção de novas pesquisas históricas.
A alimentação, a ingestão de determinados alimentos, implica em maneiras adequadas de consumi-los a partir de um código que regulamenta as habilidades dos convivas à mesa. A gramática da alimentação está estreitamente ligada às maneiras da sociedade. O comportamento à mesa revela ao mesmo tempo a ética e a estética da conduta do homem em suas relações com seus semelhantes. O espaço compartilhado da mesa configura-se num palco onde corpo e alma, matéria e espírito se relacionam. Regido por guias de conduta, esse espaço exige um controle dos gestos e dos movimentos do corpo, que devem estar adequados às exigências das circunstâncias. A refeição é uma ocasião carregada de significado social, à mesa o corpo encontra-se inserido num meio que o condiciona e ao qual ele deve se adaptar. Com o estabelecimento do lugar exclusivo das refeições e a implantação gradual dos utensílios de uso pessoal, os princípios que regem os aspectos externos tornam-se mais e mais severos. Gradualmente a mesa tornou-se um lugar onde todos os cuidados devem ser tomados, onde tudo o que é desagradável, vulgar, capaz de trazer sofrimento ou desgosto, deve ser banido.
Partido desta premissa o presente estudo envolve a análise sobre a relação entre o controle dos gestos e os alimentos. Nesse sentido, quer conhecer algumas das principais regras impostas no sentido de controlar os excessos e evitar os constrangimentos, tanto no que diz respeito à ingestão dos alimentos, quanto aos conceitos referentes às boas maneiras à mesa. Utiliza-se para tal, manuais de civilidade e de economia doméstica que circulavam no Brasil na primeira metade do século XX, pois estes são veículos de contenção, poder e urbanidade.
O Brasil do início do século XX, frente à implementação das reformas urbanas que são empreendidas nas principais capitais do país, vive o sonho de seguir o percurso da "civilização", para tanto era necessário extirpar quaisquer reminiscência de um passado "selvagem". Com isso era preciso seguir cada vez mais de perto os preceitos que regiam os padrões de sociabilidade burguesa, hábitos e costumes ligados ao passado colonial, à antiga sociedade imperial e às tradições populares deveriam ser rejeitados.
Uma das metas desses "novos" tempos ligava-se irremediavelmente à civilização, cuidados com as condições morais e espirituais do homem. A natureza humana deveria continuar seu processo de aperfeiçoamento, ao priorizarem-se os relacionamentos era preciso polir os gestos e as posturas para aprender a conviver em sociedade. isso se faria tanto no que diz respeito ao controle dos instintos, como diria ELIAS (1990), no ensinamento das "boas maneiras" para exercício das sociabilidades no espaço privado, como em relação a um âmbito maior, por meio da organização e da intervenção do Estado e suas exigências legais nos espaços públicos.
Desse modo, implementa-se todo um aparato de regras de "boa educação", um código que deve ser seguido pelas classes que desempenham as funções sociais mais importantes. No centro de um clima de civilização e modernidade era fundamental seguir modelos capazes de conferir distinção, normas que seguidas seriam capazes de assegurar a escolha do "certo" em detrimento do "errado".
Desde o final do século XIX já era possível verificar-se mudanças significativas em nível nacional, transformações socioeconômicas, urbanísticas, físicas e demográficas. A modernidade se instalava lentamente com seus avanços científicos (biologia, medicina, higiene, profilaxia) e tecnológicos (veículos automotores, telégrafo, telefone, iluminação elétrica, cinema, e uma ampla gama de utensílios e aparelhos domésticos).
Estamos nos referindo a uma sociedade recém egressa de uma monarquia escravista. Entramos num período republicano que toma o sentido de veículo do tão almejado progresso. Crescem os desejos de prestígio e de distinção, em meio a tudo isso, o polimento das maneiras encontrará inúmeras estratégias que garantam a visibilidade de tais valores.
No impulso de identificação com as classes mais altas o controle apurado dos gestos transforma-se numa das maneiras mais eficazes de distinção. Assim como a moda analisada por Gilda de Mello e SOUZA (1987), as boas maneiras desempenham um importante papel padronizador, concedendo ao indivíduo uma identificação com os elementos de seu grupo social, bem como garantindo que ele não se confunda com a massa populacional.
Nessa sociedade, onde está presente o afrouxamento de barreiras, pois, se tornou possível ascender socialmente, bem como descer na escala social, é preciso buscar novos símbolos que garantam a diferenciação e a valorização do pertencimento a uma elite. A posse do dinheiro tornou possível adquirir-se bens de consumo, ícones da modernidade, nesse momento é que se faz necessário criar-se novas barreiras entre as classes, dificuldades ainda maiores do que as impostas pela ostentação da riqueza pelo consumo conspícuo tornam-se evidentes, é preciso polir as maneiras. Como prevê PADILHA (2001 :134) : "A distinção econômica do luxo cede lugar à distinção estética da elegância. [...] o olhar apurado tem de distinguir a femme comme il faut da burguesa, o aristocrata do homem rico das finanças, e mesmo a nobreza antiga da nobreza do Império".
Uma mesa compartilhada possibilita a aproximação de elementos oriundos de diferentes grupos e camadas sociais, encerra dentro de um espaço restrito a pessoas de diferentes origens, configurando-se em um momento de exceção, por isso, cada gesto é analisado pelos demais. Nesse espaço, um deslize eventual pode transformar-se em um elemento que denigra a imagem do conviva, assim como uma atitude de controle absoluto e de naturalidade calculada diante das mais diversas situações elevam-no imediatamente aos olhos dos outros. Tal como a festa, o banquete adquire a qualidade permitir que o jogo social aconteça, jogo no qual as qualidades pessoais de cada um demonstram os atributos de sua classe, favorecendo a identidade e o reconhecimento mútuo.
Esse cenário urbano em constante desenvolvimento recebeu os manuais de civilidade, de administração do lar. Orientadores de uma estética comportamental, certamente serviram como parâmetro aos distintos habitantes das cidades que se encontravam no cotidiano das recepções que se desenrolavam nas salas de jantar, palcos dos espetáculos do bom comportamento, do exercício efetivo da arte da conversação, da etiqueta, do bom convívio social, enfim, do jogo dos poderes.
A literatura das civilidades nos traz importantes informações a respeito da codificação e da ritualização das maneiras de comer. Visando domesticar os modos controlando os instintos naturais e tendo em mente uma melhor utilização social e pessoal em relação aos alimentos, impõem-nos dois grandes ensinamentos em relação ao corpo que devia se limitar à extensão da mesa: o respeito aos contatos em sociedade e a comensalidade da refeição.
Que atitudes à mesa são permitidas pelos manuais de civilidade e de administração do lar que circulavam no Brasil na primeira metade do século XX? Pretende-se analisar nesse artigo o que os manuais de civilidade e de administração do lar prevêem em especial às atitudes em relação a algumas das funções corporais. O que seriam considerados "maus modos" nesse sentido?
"O Lar Domestico" CLESER (1906 : 254), por ser um livro de administração do lar, trata das questões relativas às normas de etiqueta numa parte que chama "Como se põe a mesa familiar". Depois de enumerar normas de higiene e cuidados com utensílios entre outras coisas, passa a enumerar os cuidados que os pais devem ter em relação à educação de seus filhos, sem as quais, segundo ela, "as crianças são excessivamente insupportaveis". Além da exigência da limpeza do corpo, passa logo a outras determinações, primeiramente quanto à postura e mais adiante diz: "que não tussam nem se assoem de modo que todos o percebam, etc". Aqui o "etc" poderia bem estar relacionado a outras funções físicas a serem reprimidas nas crianças quando aprendem a comer, que por alguma razão não foi mencionada, possivelmente porque um adulto sabe muito bem o que reprimir numa criança, não sendo necessário enumerá-los. Sendo, contudo, interessante deixar o "etc", que nesse caso pode dizer todo o resto: "não arrotar", "não soltar gases".
Da mesma forma que Cleser no início do século, o guia de administração do lar "Economia doméstica e puericultura, de Henrique Grechi e Helena Rossi Penna, da década de 1950, também traz um capítulo especial denominado "arrumação da mesa". Nele, bem como Cleser, os autores se preocupam em oferecer conselhos práticos para o cotidiano das refeições, sem deixar de mencionar a importância destes para o preparo de uma vida em sociedade. é bom não perder de vista o ditado: "Os costumes de casa vão à praça".
Nesse sentido, indica o guia de GRECHI e PENNA (1957:45):
Mesmo nos dias comuns, a refeição deve ser servida em mesa arrumada e limpa. As crianças apresentar-se-ão com as mãos, rostos lavados e cabelos penteados. Deve-se ensina-las, desde cedo, a comerem utilizando-se de talheres próprios, sem derramarem nada na toalha e a portarem-se convenientemente. Deve-se observar às crianças que não se deve encher muito a bôca, que o pão se parte com a mão, a carne aos bocados, à medida que se vai comendo, que não se apóiam os cotovelos sôbre a mesa".
No mesmo período, compartilhando das mesmas idéias de Grechi e Penna, Irene ALBUQUERQUE (1951 :85), prevê: "Nunca se deve comparecer à mesa, sem estar bem penteado e asseado. Não devemos causar, com a nossa presença, desagrado aos demais comensais; mesmo que êsses sejam nossos irmãos, pais ou filhos. Mesmo às crianças não se pode perdoar tal falta".
Em "Uma chícara de chá", o Padre DUTRA (1926:158) indica que "se alguém começa a soluçar, é conveniente que se retire até que passe o soluço. Pois o cerimonial à mesa nos recommenda muito asseio, a sobriedade, a modéstia e a caridade".
Carmem D’áVIla (1946:46) fala tão somente sobre o controle de algumas funções físicas, o espirro e o bocejo, que ela classifica como "casos mais complicados" de controlar, mas não os menciona num capítulo referente à mesa, relacionando-os às atitudes em sociedade, inclusive à mesa. A autora acredita que, sobre os espirros ocasionais, assim como sobre os bocejos, seja possível exercer controle perfeito. Apenas os espirros imprevistos, "desses que não dão tempo de nos prevernirmos contra a sua impetuosidade, pode-se ainda, colhendo-os no ar com o lenço usado com presteza, torna-los discretos. Quanto aos outros, tomem eles o tom de um baixo profundo, ou qualquer tonalidade lírica". Em relação às atitudes a serem tomadas diante de tais cenas, "considere-o um acidente desgracioso, sobre o qual não se chama a atenção com votos de felicidade, fortuna, etc.".
Quando fala sobre atitudes à mesa a autora finaliza seus conselhos dizendo que lhe resta dar apenas alguns lembretes, que segundo ela, quando "esquecidos, desfazem a elegância de um banquete". Para D’áVIla (1946:142) são eles: não se agradece o lugar que nos foi indicado pela dona da casa; não se recusa a honra de ser servido em primeiro lugar; e lá está o que nos interessa nesse momento, "não se aceita um convite quando se esteja resfriado".
Da mesma forma aconselha Léa SILVA (1965261): "estando resfriado não aceites convites para tomar parte em refeições". Por que este lembrete? Ora, talvez seja para prevenir os chamados "espirros previstos", pois estando resfriado o menos que podemos esperar são espirros, e já que os esperamos, e dificilmente poderiam ser evitados, aconselha que em tais condições há que se rejeitar um convite.
O tio Silas de WALDVOGEL (s.d:118), nos anos 1960, ensina que se não puder controlar a coriza, "nunca se deve assoar-se ruidosamente à mesa". E ainda, "evitar o mais possível espirrar ou tossir".
Tal como tio Silas, Amy VANDERBILT (1962:134) também prevê controle sobre as funções corporais relativas aos atos de assoar-se e tossir à mesa, só que as expõe de outra maneira, prevendo alternativas no caso de necessidade: "Coloca-se a mão diante da bôca quando se tosse à mesa, sendo um forte acesso, a pessoa levanta-se. Num caso de engasgo, o seu vizinho de lugar poderá dar-lhe um gole de água ou bater-lhe nas costas. Sendo necessário assoar o nariz à mesa, que isto seja feito o mais silenciosamente possível".
Marcelino de CARVALHO (1961:57), sobre as contenções das funções físicas adverte: "Nunca se deve arrotar. No caso em que o arroto não possa ser contido, quem o faz deve escusar-se em voz baixa e os demais devem fingir que não perceberam o que se passou".
O que se verificou a partir das fontes é que atitudes como arrotar só aparecem em Marcelino de Carvalho, ainda que seja um manual de boas maneiras da década de 1960. Os demais manuais analisados que datam de épocas anteriores, quando trazem alguma referência sobre funções físicas a serem controladas, o fazem ou de forma velada, ou nem o fazem. Cleser em 1906 menciona tal comportamento como uma atitude a ser reprimida nas crianças. GENCé (1909), nem sequer se refere a nenhuma dessas funções, assim como Margery WILSON (1445), que não as menciona nem mesmo num capítulo de seu manual especialmente destinado às crianças. O que talvez evidencie o controle absoluto e a rejeição dessas funções que, introjetadas, já não merecem menção. Na verdade, algumas das funções corporais vão desaparecendo dos manuais de etiqueta ao longo do tempo, assim como outros vão se impondo.
E o que o controle do ato de arrotar faz num manual brasileiro da década de 1960? Seria isso um indício de que agora já podemos voltar a falar sobre funções corporais esquecidas, mas que podem estar e, na verdade estão, presentes em nossa vida? Já em Amy Vanderbilt e em Waldvogel, fala-se sobre assoar-se, tossir, porém não se encontra o ato de arrotar. Esse é totalmente rejeitado e considerado tão obviamente repugnante aos olhos dos demais que nem se toca no assunto. Aí vemos exemplos de comportamentos que desapareceram dos manuais de etiqueta e administração do lar por um longo período, outros que permanecem e outros que retornam de uma forma intrigante. Padrões que estariam diretamente relacionados a um processo civilizador, tomando como sugestão o que ELIAS (1990:113) propõe quando trouxe um "panorama da curva evolutiva da ‘civilização’ dos hábitos da mesa", no primeiro volume do "Processo Civilizador", ao analisar alguns exemplos de como se formou o ritual diário à mesa, diz:
se esta série fosse continuada até o presente, outras mudanças de detalhe seriam notadas: novos imperativos são acrescentados, relaxam-se outros antigos, emerge uma riqueza de variações nacionais e sociais (...). Mas a base essencial do que é obrigatório e do que é proibido na sociedade civilizada - o padrão da técnica de comer, a maneira de usar faca, garfo, colher, prato individual, guardanapo e outros utensílios - estes permanecem imutáveis em seus aspectos essenciais.
Soma-se a isso o conjunto básico de padrões de comportamento das pessoas entre si e consigo mesmas, do que passou a ser proibido ou permitido, que segundo Elias também permaneceu "relativamente constante em seus aspectos básicos", levando ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII a modelos de conduta cada vez mais refinadas à mesa, pressionando dessa forma um novo padrão geral de boas maneiras. Tomado em conjunto, o controle sobre as funções físicas já vêm há tanto tempo sendo incentivado, que acabou por se tornar quase que uma "segunda natureza" de modelos introjetados de conduta.
Em todo caso, é sempre bom levar em consideração o bom senso e a regra máxima diante de todas as situações sociais, evitando o constrangimento dos semelhantes. Como bem diz Erasmo de ROTTERDAM em 1530: "Se alguém, por ignorância, cometer uma inconveniência, mais vale não o notar do que rir-se à sua custa".
Bibliografia
ALBUQUERQUE, Irene. Noções de Economia Doméstica: livro de intêresse permanente para a mulher brasileira. Rio de Janeiro: Conquista, 1951.
CARVALHO, Marcelino. Só para homens. São Paulo : Editora Nacional, 1969.
CLESER, Vera. O lar doméstico : conselhos para boa direcção de uma casa. Rio de Janeiro : Laemmert & C., 1906.
D’ÁVILA, Carmem. Boas maneiras. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1946.
DUTRA, Theophilo B. Uma chícara de chá. Rio de Janeiro : Fides Brasilae, 1926. v 1.
ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador : uma história dos costumes. Rio de Janeiro : Zahar, 1990.
GENCÈ, Condessa de. Tratado de Civilidade e Etiqueta. Lisboa: Guimarães, 1909.
GRECHI, Henrique e PENNA, Helena B. Rossi. Economia doméstica e puericultura. São Paulo: Melhoramentos, 1957.
PADILHA, Márcia. A cidade como espetáculo: publicidade e vida urbana na São Paulo dos anos 20. São Paulo : Anablume, 2001.
ROTTERDAM, Erasmo. A civilidade pueril. Lisboa : Estampa, 1977.
SOUZA, Gilda de Mello e. O espírito das roupas: a moda no século dezenove. São Paulo : Companhia das Letras, 1987.
VANDERBILT, Amy. O Livro de Etiqueta : um guia para a vida elegante. São Paulo : Record, 1962.
WALDVOGEL, Luiz. Serões do Tio Silas : Sôbre a excelência das boas maneiras - a chave que nos abre tôdas as portas e confere êxito e distinção". São Paulo : Casa Publicadora Brasileira, s.d.
WILSON, Margery. Cortesia : código moderno das boas maneiras. Porto Alegre : Globo, 1945.




