O tabagismo em quatro clássicos do cinema de Hollywood da década de 50 e os seus protagonistas
O presente trabalho é parte do projeto de pesquisa de mestrado desenvolvido no Programa de Pós-graduação em História - UFSC, e pretende ser uma análise interpretativa da prática do tabagismo registrada em quatro filmes clássicos do cinema de Hollywood onde o ator protagonista é Marlon Brando. A motivação para o estudo vem sendo despertada pela crescente campanha anti-tabagista desenvolvida pelos mais diversos meios intitucionais. Sendo, portanto, o objetivo do trabalho identificar os significados da prática do consumo de cigarros sugeridos nos filmes: Uma rua chamada pecado (KAZAN, Elia. 1951); O selvagen (BENEDEK, Laslo. 1953); Sindicato de Ladrões (KAZAN, Elia. 1954); Os deuses vencidos (DMYTRYK, Edward).
"Vou lhe pedir um favor daqui a pouco". Diz Blanche, no quarto, enquanto se veste.
"O que poderá ser?" Pergunta Stanley, seu cunhado, sentado na cadeira da sala fumando um cigarro.
"Alguns botões nas costas... Pode entrar". Diz ela abrindo a cortina que separa os dois cômodos.
Stanley levanta e se dirigi até ela.
Ela pergunta: "Como estou?" referindo-se a sua aparência.
"Está bem". Responde ele com desinteresse.
"Obrigada... Agora os botões." Pede ela.
Ele põe o cigarro na boca e tenta abotoar a sua blusa... E então fala: "Não consigo abotoar isso".
Ela dá uma pequena risada e diz: "Os homens e seus dedos desajeitados". Em seguida pergunta se pode dar uma tragada no cigarro que Stanley fuma.
Ao que ele responde, pegando um outro cigarro que estava preso em sua orelha: "Pegue um".
"Obrigada". Agradece ela.
Em seguida ele acende o cigarro riscando um fósforo em sua calça.
Esta é uma cena do filme A Streetcar named desire1, clássico do cinema hollywoodinano da década de 50. Ela é representativa não só para mostrar a presença constante do tabagismo nas filmagens dessa época como também para indicar o simbolismo que envolvia o cigarro e o seu consumo. Aparentemente desnecessário ele é peça fundamental para demonstrar toda a masculinidade de Marlon Brando na figura de Stanley Kowalski.
O tabagismo se destacou no século XX pela sua alta incidência nas sociedades urbanas ocidentais, através do consumo de cigarros industrializados. Anterior ao início dos movimentos anti-tabagistas, que ganham maior expressão a partir da década de 802 o cigarro se destacou como sinônimo de status, poder e elegância. Geralmente se associava como hábito de pessoas de "classe", ainda que também tenha se relacionado com os símbolos da rebeldia, da liberdade e da masculinidade.
O cinema, principalmente o de Hollywood, se afirmou, desde as primeiras décadas do século XX, como mídia de massa, sendo reconhecida a sua influência para a divulgação de valores que contribuem para a construção de hábitos e comportamentos dos indivíduos. Marc Ferro, na introdução de seu livro intitulado Cinema e História, afirma "...desde que o cinema se tornou uma arte, seus pioneiros passaram a intervir na história com filmes, documentários ou de ficção, que, desde sua origem sob a aparência de representação, doutrinam e glorificam" (FERRO, 1922:13).
No seu livro, Ferro fala, sobretudo, sobre os aspectos políticos envolvidos na construção das narrativas que procuram retratar histórias de guerras e revoluções. Nós estendemos a sua observação para os aspectos da cultura que perpassam implicitamente nos filmes, quando da representação da vida cotidiana. Nesse sentido é que reconhecemos o cinema clássico de Hollywood como um núcleo produtor de sentido que contribuiu para dar visibilidade ao hábito do consumo de cigarros fazendo dessa prática uma constante nas mais distintas circunstâncias da vida dos seus personagens.
Na análise de quatro filmes onde Marlon Brando é o protagonista da história buscamos interpretar as situações onde o cigarro se faz presente e mesmo às em que ele se ausenta. Estes filmes servem como fonte histórica que podem ser analisados como testemunhos de como se dava a prática do tabagismo em tais condições. Todavia, podemos interpretá-los, também, como fontes promotoras de discurso que consolidavam e estigmatizavam uma dada prática cultural. Essa última opção será nossa proposta de análise.
O interesse no assunto vem de uma preocupação atual, a saber, a disseminada campanha contra o tabagismo que a cada dia ganha maiores proporções. Inclusive, produz medidas legais, operadas pelo Estado, no sentido de se erradicar aquilo que passou a ser entendido como uma epidemia, um problema social. Chartier nos faz compreender essas alterações de valores, a partir da análise da construção cultural operada pelas batalhas discursivas:
As representações do mundo social assim construídas, embora aspirem à universalidade de um diagnóstico fundado na razão, são sempre determinadas pelos interesses de grupo que as forjam. (...) As percepções do social não são de forma alguma discursos neutros: produzem estratégias e práticas (sociais, escolares, políticas) que tendem a impor uma autoridade à custa de outros, por elas menosprezados, a legitimar um projecto reformador ou a justificar, para os próprios indivíduos, as suas escolhas e condutas (CHARTIER, 1990:17).
Comecemos a análise seguindo a cronologia em que os filmes foram produzidos. O primeiro é de 1951 e marcou a estréia do ator Marlon Brando no cinema. Ganhador de quatro Oscar, obteve muita repercussão na época por mostrar algumas cenas de sensualidade que naquele contexto não eram convencionais. A streetcar named desire, traduzido para o português como "Uma rua chamada pecado" é uma peça teatral escrita por Tennessee Williams e adaptado para o cinema pelo diretor Elia Kazan.
A trama do filme se desenvolve pelos conflitos que ocorrem entre uma "solteirona" que sofre de distúrbios psicológicos e o seu cunhado, um descendente de polonês de maneiras não muito refinadas. Blanche du Bois visita a sua irmã e hospeda-se por uns dias na casa onde ocorrem as desavenças com o cunhado Stanley Kowalski. Todos os personagens centrais da história fumam, nesta análise procuramos nos concentrar na figura do protagonista.
Stanley Kowalski é o garoto propaganda clássico das marcas de cigarro. Bonito, com um porte físico atlético e personalidade forte, seu lema é: "sentir-se à vontade". Casado com Stela e vivendo num bairro popular da cidade de New Orleans ele é o operário que aproveita suas horas de folga para se divertir com os colegas de fábrica jogando boliche ou pôquer, sempre se apresenta como o mais respeitado do grupo. Em casa procura se sentir relaxado, geralmente com uma cerveja numa mão e um cigarro na outra. Fuma em várias circunstâncias: depois do jogo de boliche, durante a partida de pôquer, na rua caminhando, e quando comemora o nascimento de seu filho.
O cigarro associa-se a Stanley como prática comum a um operário que, apesar da simplicidade e do modo rude e grosseiro típico de alguém que vive num bairro suburbano, possui uma moral acentuada no autocontrole e na vontade de não deixar-se ser humilhado pelo falso romantismo das etiquetas burguesas da cunhada. Desvinculado, portanto, dos atributos que referenciam o cigarro aos bons modos e elegâncias burguesas aqui ele representa muito mais a força masculina, a virilidade que proporciona bem estar e autodomínio. A maneira de acender seus cigarros, riscando o fósforo na sua calça, é sinal disso.
Nosso segundo filme alvo de análise, produzido em 1953 sob a direção de Laslo Benedek. The wilde one (O selvagem), tem como figura central da trama um Marlon Brando que interpreta Johnny: o jovem líder de uma gangue de motoqueiros que aterroriza com a vida pacata de uma pequena cidade da Califórnia. Johnny é o líder que zomba com a moralidade e as instituições estabelecidas, ainda assim não é o sujeito sem moral. Apresenta-se muito mais como o líder respeitado pelo bando não pela sua força, mas pelo carisma e uma certa dose de boas intenções nos seus atos. Esse lado é despertado ainda mais quando se apaixona por Kathie, a garçonete do bar onde o grupo se diverte. O fio que conduzirá a tensão do filme é o conflito vivido por Johnny e Chino, um psicótico rival líder de outra gangue de motoqueiros, daí se originará a perseguição sofrida por Johnny pela polícia e os moradores da pequena cidade.
Johnny e, praticamente, todo o grupo de motociclistas fumam e bebem. Johnny não risca o palito de fósforo em sua calça como o Stanley de A street car named desire, ainda assim procura se destacar quando mantém o hábito do tabagismo. Em uma cena, talvez a mais emblemática da aparição do cigarro na boca de Marlon Brando, temos Johnny e o pai de Kathie (a boa moça, por quem Johnny se apaixona) sentados lado a lado no balcão do bar. O senhor é um policial e tenta convencer Johnny e seu bando a deixar a cidade, quando Johnny põe um cigarro na boca o policial oferece a chama de seu isqueiro para acendê-lo. Johnny recusa a oferta empurrando a mão do pai da moça; risca o seu fósforo num troféu que ele e seu grupo haviam roubado minutos atrás e diz: "não faço acordos com tiras"3. Em nossa interpretação, mais uma fez o cigarro foi peça chave para a realização da cena e para que ficasse referenciado que o estilo jovem de aventura, rebeldia e contestação não precisa de ajuda das instituições da velha sociedade. De uma maneira implícita, em nosso entender, ali estava presente a moral do do it your self típica do jovem anárquico. A maneira distinta de Marlon Brando acender o cigarro, nesta cena, representou que além de não precisar de ajuda ele pode fazer melhor do que aquele que o repreende.
On the waterfront foi traduzido para o português como "Sindicato de ladrões" e também conta com participação de Marlon Brando no papel principal da história. O filme foi muito bem recebido pelo público e crítica obtendo oito Oscar, inclusive o de melhor ator para Marlon Brando representando Terry Malloy, um ex-boxeador que nas palavras de sua apaixonada no filme, Edie Doyle, "tenta bancar o durão... mas tem um brilho nos olhos".
Bem como nos outros dois filmes que analisamos a maioria dos personagens da história fumam, entretanto, para nossa surpresa, Marlon Brando não aparece em nenhuma cena com o cigarro na boca. Ainda assim não acho que devamos ignorar este filme para realizar a pesquisa de como o cigarro e a prática do tabagismo eram pensados e representados pelo cinema neste período. Deste modo, optamos por fazer uma análise da ausência crendo que ela também pode contribuir para pensar os significados que envolviam o tabagismo nessas filmagens. A pergunta se torna óbvia: por qual motivo o cigarro não se faz presente na boca do ex-boxeador Terry Malloy?
A história se passa num bairro da zona portuária de New Jersey e retrata a prática de corrupção do Sindicato de Estivadores comandado por Johnny Frindly. Terry é irmão do braço direito do chefe da máfia, podia ter se tornado um campeão caso não houvesse se submetido ao mando dos mafiosos, os quais compravam resultados das lutas para se beneficiarem com as apostas. Com um futuro incerto ele parece não ter muita crença na vida; seu lema é: "faça aos outros antes que eles façam em você".
Ainda assim guarda no coração uma espécie de vontade redentora que acima de tudo representa uma vontade de recuperar a sua dignidade, de voltar a se sentir honrado e passar a ser respeitado como na época em que lutava. A paixão despertada pela doce Edie Doyle é o motivo certo para ele tornar real essa vontade.
Edie é uma moça que estuda num colégio de freiras, e veio de férias visitar o irmão quando este é morto pela máfia que usa Terry como armadilha para a emboscada. Apesar de Terry não saber que a armadilha levaria a morte do rapaz, ele passa a sentir a necessidade de não mais ser condizente com a corrupção. Não aceita a proposta de emprego oferecida pela máfia para que em troca não delate o crime. O estopim para Terry "virar a mesa" é o assassinato de seu irmão em sinal de represália por ele não colaborar.
Voltamos à pergunta: por que Terry não fuma?
Nos dois filmes precedentes Brando representa o personagem que desde sempre é respeitado, neste não. Os mafiosos mais poderosos e mais velhos do que ele costumam tê-lo como um bobo, que apesar de já ter tido a possibilidade de um futuro brilhante pela frente, hoje não representa mais nada a não ser a figura de um "vadio". Ainda assim, para o espectador ele representa um homem de bom coração que cedo ou tarde revelará isso. No final da história todos sentem orgulho de Terry, ele não só conquistou o coração de Edie e derrotou a máfia, mas voltou a se sentir uma pessoa nobre, com caráter.
Pensamos que a característica de Terry como pessoa de coração puro, e que tem a missão de conquistar e resolver os problemas de Edie, não combina com cigarros. Parece que para substituir esse acessório o diretor preferiu outra marca que o distinguisse dos demais: o hábito de mascar chicletes. Outra possibilidade de interpretação é a de que o Terry que se submete a máfia não combina com a soberba típica dos fumantes, seu aspecto é mais a de uma pessoa cândida, humilde. Quem sabe se a história se seguisse depois de Terry ter vencido a máfia ele não apareceria oferecendo um cigarro ao seu amor.
Por fim, comentemos o último filme alvo da pesquisa. "Os deuses vencidos" tem título em original como The yong lions, é um pouco mais novo, de 1958, todavia ainda em preto e branco. Como os outros três filmes é um drama, mas que por ter como contexto os episódios da Segunda Guerra Mundial é classificado por muitos como um "filme de guerra". Nele Marlon Brando vive a história de um oficial alemão dedicado a pátria. Tenente das forças nazistas, ele vê em Hitler uma esperança para a Alemanha.
De forma também surpreendente Marlon Brando não fuma. Não aparece nenhuma vez com o cigarro nas mãos e inclusive retira-o das mãos de uma de suas amantes jogando-o fora antes que ela o acendesse, em uma cena que culmina com um beijo4.
Mas uma vez, portanto, nos perguntamos: porquê.
Apesar de lutar do lado dos nazistas, o soldado, Christian Diestl, é um sujeito de uma nobreza exemplar. isto se caracteriza pela maneira como se relaciona com as mulheres bem como com os outros companheiros do exército. Luta somente porque acredita piamente numa melhora nas condições de vida não só de seu povo como dos europeus como um todo.
Pensamos que o fato de o personagem Christian não fumar possa se dever as suas qualidades de justeza que o desenham como um sujeito puro, ainda que não cândido. Outra possibilidade de justificativa talvez devesse considerar que as cenas onde aparecem os soldados americanos são repletas de cigarros. Desta maneira, podemos pensar que a condição do oficial alemão não fumar fosse um índice que o diferenciava ele e os alemães dos americanos. Digo, alemães, por que muitíssimo pouco são os alemães que aparecem fumando.
Com esta breve análise, portanto, esperamos ter iniciado o levantamento de algumas das questões que consideramos de grande importância para compreender a construção das simbologias que fizeram o cigarro e a prática de seu consumo se identificar com certas qualidades específicas.
Nossa análise se baseou, fundamentalmente, nas estratégias discursivas que produziram dado sentido a esse aspecto da cultura, que é o tabagismo. Não é, nem foi, nosso propósito encontrar critérios para julgar tal hábito. Concordamos com Chartier quando este afirma que a história cultural "tem por principal objecto identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler"(CHARTIER, 1990:17). Pensamos que a realidade é, antes de qualquer coisa, a construção discursiva que se opera na necessidade de dar significado a existência.
Notas
1 KAZAN, Elia (diretor). A streetcar named desire. 1951. EUA. Versão em DVD - Warner Bros. 17min 50seg.
2 BOEIRA, Sérgio Luís. Atrás da cortina de fumaça. Tabaco, tabagismo e meio ambiente: estratégias da indústria e dilemas da crítica. Itajaí: Univali, 2002. p. 256.
3 BENEDEK, Laslo (diretor). The wild one. 1953. EUA Versão em DVD - Columbia Pictures. 45min 20seg.
4 DMYTRYK, Edwar (diretor). The young lions. 1958. EUA. Versão em DVD - 20th Century Fox. 59min 25seg.




