História e Linguagens: A linguagem do exílio
No âmbito da Nova História, o tema proposto se apóia na transdisciplinariedade. Mantendo a perspectiva de análise do historiador, busca-se apreender um aspecto da sensibilidade, parte integrante de uma visão totalizadora do homem, inserido num específico tempo, num determinado meio social. Pretende-se jogar com o conceito cultural do Passado e do Presente, nele dando relevo à Historia Social da Linguagem. A aparente fragmentação da análise proposta pode ser superada pela identificação da cultura vigente na sociedade estudada. Saber como o homem se comporta em local geograficamente circunscrito, põe em questão o problema da espacialidade e das consciências. Emergindo do subterrâneo do inconsciente, a literatura do exílio abarca um conjunto múltiplo e complexo de temas a serem explorados em sua simbologia, nas suas representações, nos seus significados. No presente trabalho foram tomados dois exemplos escolhidos entre os vários tipos de exílio, um opcional, outro coercitivo. As descrições do entorno, a catarse da emotividade, as eventuais ou permanentes intenções de fazer aceitar as próprias convicções, ou de idealizar realidades, contam, nas entrelinhas, muito da mentalidade e dos sentimentos de quem escreve. Aflora a nostalgia, sob múltiplas facetas: a da terra-mãe, das pessoas, dos objetos, das rotinas comportamentais coercitivamente mudadas ou alteradas por novas contingências. Pressupõe aceitações ou recusas, conformismos ou revoltas, explicitadas nos discursos escritos.
No âmbito da Nova História, o tema proposto se apóia na transdisciplinariedade. Mantendo a perspectiva de análise do historiador, busca-se apreender um aspecto da sensibilidade, parte integrante de uma visão totalizadora do homem, inserido num específico tempo, num determinado meio social.
Pretende-se jogar com o contexto cultural do Passado e do Presente, nele dando relevo à História Social da Linguagem. a aparente fragmentação da análise proposta pode ser superada pela identificação da cultura vigente na sociedade estudada. Saber como o homem se comporta em local geograficamente circunscrito, põe em questão o problema da espacialidade e das consciências.
Emergindo do subterrâneo do inconsciente, a literatura do exílio abarca um conjunto múltiplo e complexo de temAs a serem explorados em sua simbologia, nas suas representações, nos seus significados. As descrições do entorno, a catarse da emotividade, as eventuais ou permanentes intenções de fazer aceitar as próprias convicções, ou de idealizar realidades, contam, nas entrelinhas, muito da mentalidade e dos sentimentos de quem escreve. Aflora a nostalgia, sob múltiplAs facetas: a da terra-mãe, das pessoas, dos objetos, das rotinAs comportamentais coercitivamente mudadas ou alteradas por novAs contingências. Pressupõe aceitações ou recusas, conformismos ou revoltas, explicitadas nos discursos escritos.
1. O exílio
Exílio1 , proscrição, degredo, transplante, exclusão, banição, emigração, desterro, desterritorialização, encobrem o afastamento da terra natal, do genius loci, e vinculam-se ao amplo espectro dos "males da ausência" 2. Obriga à ruptura da razão, dos sentimentos, do cotidiano, da imaginação criadora. Impõe recriações. No passado foi explicado pelo castigo, e ligado à revelação da vigilância divina, aos malefícios do pecado, à severa condenação do mal, conceito resgatado já, no Antigo Testamento, por Jeremias (31: 19). Hoje, associa-se, no plano das idéias, à violência, ao constrangimento do outro - e de si mesmo - ao não reconhecimento das alteridades, à recusa da pluralidade das idéias, das crenças e das vivências. Como pano de fundo, o descrédito ou a rejeição a um estado de coisas. Eventualmente, à crença de poder instituir melhorias, reformas, ou acelerar o progresso. Sempre sob o utópico sonho da liberdade plena de crer, de pensar, de viver, de ser.
Há no Brasil, ao longo de sua história de muitos exilados, os que para aqui vieram e ficaram, revelando graus diferentes de integração na cultura local - a existente ou a criada - e os que daqui saíram. Trata-se do campo das imposições que se enraízam no plano das mentalidades e das ideologias, quer sejam determinadas pelas opressões externas, quer se originem das opções das consciências individuais.
No campo das motivações há todo um leque: o exílio pela fé, dos missionários, o exílio pelAs idéias, por rejeição a ideologias, o exílio pelas crenças, dos cristãos novos e dos judeus, o exílio pelo medo das violências, o exílio pela ambição de acumular riquezas, o exílio pela força, exercida sobre os escravos.
os exilados escrevem. Certo, o primordial recai nos temas que definiram sua situação. De permeio se inserem múltiplos dados que informam sobre os valores prevalentes em determinadas temporalidades e incluíram em seus discursos muito da própria sensibilidade, oferecendo ao historiador novos ângulos do conhecimento.
há uma linguagem do exílio: a linguagem dos exilados, Diferenciados, é certo, o que não elide o repetir de Certos elementos.
O relacionamento com outros homens traz o problema da identidade e da alteridade e propõe, como exemplo a análise da Linguagem da Catequese. Mais. Numa perspectiva individual há de se inserir a Linguagem da Poesia, linguagem do eu, por excelência que se externa em torno de referenciais de sensibilidade projetados sobre as raízes geográficas, o espaço ocupado e expõe a vinculação com as emoções.
2. o exílio pela fé
Pela opção individual de muitos homens obcecados pela idéia da salvação, num mundo que viam hierarquizado dicotomicamente entre o céu e a terra, o divino e o humano, o missionarismo ganhou força nos anos da Modernidade, chegando ao contemporâneo. Circunscrito, por muito tempo, ao cristianismo Católico, chegou aos tempos hodiernos ligado a outras formas de crer. O ideal salvífico encarado como inelutável, derruba fronteiras geográficas e culturais e tenta universalizar a Verdade que detém.
a Linguagem da Catequese é a linguagem da religião, com seus cânones abrandados ou ligeiramente distorcidos pelo ideal maior a ser alcançado: a extinção do paganismo, a purificação e o alargamento da Cristandade.
Deixando de lado procedimentos e resultados pacientemente conquistados, interessa ressaltar o peso do exílio na desterritorialização de seus agentes.3
Remontando-se ao século XVI emblemáticos são os jesuítas que se exilaram para um mundo rude e desconhecido, movidos pelo ideal religioso. Aquilo que iam fazendo ou ansiavam fazer ficou nos relatórios escritos para a sua Ordem, na Metrópole. As Cartas Jesuíticas têm no seu substrato muito mais do que relatos do meio e dos homens ali encontrados. Podem ser incluídas numa Literatura do Desterro.
Decisão pessoal, ou obediência à Ordem muitos religiosos deixaram para trás as casas de sua instituição, seus companheiros, sua terra natal. Daqui escreveram cartas que se tornam um lugar de presentificação. A distância entre os correspondentes aguçava a sensação da ausência. Aos 15 de agosto de 1554 escrevia, de Piratininga, pe. José de Anchieta aos Padres e Irmãos de Coimbra:"...não se pode apartar de nossos corações a contínua memória que dos caríssimos irmãos temos..." O Pe. Baltazar Lourenço também, aos mesmos destinatários escrevia reclamando notícias: "nestAs terras tão remotas causa muita consolação principalmente para mim que tanto os tenho em minha alma (...) causa-me estes desejos por estar só, sem meus companheiros e sem Padre nem Irmão com quem me possa consolar".4
A distância oprimia: "estamos tão remotos que mais fácil é ter novas daí do que daqui por causa das monções que duram meio ano, de ponta a ponta, de maneira que de 7 ou 8 meses temos notícias uns dos outros o que é para mim grande desconsolo". 5
O tema da distância se corporifica no da ausência, tema explícito e dominante. Atenua-se na correspondência epistolar. NAs palavras de Sartre, "a própria ausência é um elo existencial entre duas ou várias realidades humanas, necessita uma presença fundamental dessa realidade, uma das concretizações particulares dessa presença"6
O discurso narrativo das cartas constrói uma visão do mundo e da dificil superação dos empecilhos para relacionarem-se os padres com o Outro: "não tem leis nem ídolos que adoram, apenas algumas abusões e ninharias que hoje ainda se encontram no reino de Portugal, como feiticeiros, adivinhos, curandeiros, benzedeiras; acreditam em sonhos e têm muitos fetiches..."7 Outro tema recorrente é a falta de recursos e a pobreza. "O que o rei dá para a Casa de São Vicente para 10 não mantém nem veste 3". a salvação eram as esmolas e o que tinham trazido do Reino. 8. Os padres vivem de esmolas e comem uma vez ao dia com os criados do Governador que dá de comer àqueles que nada têm. 9 "A Casa de S. Vicente é a mais pobre de todas e padecem os irmãos, padres e meninos, muita fome e frio..." 10
"Em lugar de sempre dever refletir estados de coisas já dados, a linguagem constrói seus próprios efeitos de sentido, que em lugar de tematizar por necessidade situações de referência pré-definidas, o discurso tem vocação para produzir configurações significantes novas, que longe de ser adstrita a exprimir ou manifestar apenas identidades constituídas de antemão, a enunciação é capaz de fazer nascer verdades sujeitas que ‘não existiam" previamente e que, por conseguinte, não ‘se conheciam tampouco’." 11
Se as Cartas mostram as diferentes situações referenciais que dificultavam ou distorciam a obra da catequese elas deixam entrever, além da profunda religiosidade que se amparava na invocação de Cristo, da Virgem e dos Santos, temas comuns aos exílios.a solidão, as distâncias, os desconsolos, cá e lá a desesperança com o próprio trabalho. O Pe. Juan de Azpilcueta, por exemplo, desabafava: "Ó caríssimos, quão diferente é falar das virtudes e te-las e pratica-las e torna-las em obras. As letras que por essas partes me pareciam claras, aqui se tornam obscuras não sei se por andar entre gentes que continuamente se comem uns aos outros, e andam envoltos em sangue humano".12 Num auto-exame lamenta-se de não ter a alma pura e limpa, fala de suas lágrimas, tibiezas e pouca fé e esperança de colher frutos de seus trabalhos. 13
"Escrever é de certo modo desdobrar-se", é projetar para fora de si, fora do eu que enuncia, um outro eu. Na maneira de escrever, no seu conteúdo afloram modos de existência, não apenas material. Deixam entrever o desencanto com a pouca atenção do Rei pelas condições materiais da Colônia, bem como a falta de reconhecimento pelos esforços de domínio da língua gentílica para mudar, pela linguagem, a identidade coletiva dos nativos. Não há revoltas, mas há desabafos: "Agora me parece que sou pobre de verdade, pois quando o mundo pensava que eu era, fartava-me de carneiros e vaca e bebia bom vinho e não me faltava roupa; agora poucas vezes fico farto com laranjas e cidras. Vivemos de esmolas [de moradores que pouco têm] e contudo não parecemos pobres..."14
Há toda uma gama de estados de alma sucessivos que vão da tristeza e lágrimas à desesperança e à renovação das esperanças e de superar as dificuldades para atingir o espaço do Outro. Só não há manifesto desejo de voltar à própria terra, sendo ela, embora, freqüentes vezes, termo de comparações. Afloram, numa inter e intra subjetividade a presença do outro para si, de si para o outro, e, principalmente, de si para si.
Na linguagem do exílio aceito - ou até desejado - expressa nAs Cartas, independentemente dos elementos que elas tem de transmitir, o ausente individual ou coletivo) torna-se em alguém visível, presente para quem escreve, depositário das crises provocadas pelos problemas da alteridade, da assimilação e exclusão, das permanências e mudanças de valores, da instabilidade dos resultados penosamente conquistados.
Curiosamente a nostalgia da terra de origem surge no século XVIII após a expulsão dos jesuítas das Américas. Exilados à força. Surge uma vibrante literatura que vilipendia o trabalho dos inacianos realizado ao longo de dois séculos. Expressivos, neste sentido a obra do abade Cornelius de Paw, que fala da inferioridade de toda natureza americana, em suas Recherches philosophiques sur les américains, bem como o livro de Guillaume Raynal, Histoire philosophique et politique des établissements des européens dans les deux Indes. Antagonizando o conteúdo dessas obras, bem como as de Marmontel, Robertson e Buffon escreve o jesuíta Francisco Xavier Clavijero a Storia antica del Messico refutando os argumentos das obras citadas. A visão da terra natal que oferece Clavijero aproxima-se da "extrapolação conceitual" de que fala Lucien Goldmann. Sua coerência repousa em dados reais que lhe permite contestar alegações mentirosas, mas seu apego à terra leva a exageros. 15
3. O exílio como desterro.
Inserido no mesmo contexto do exílio, num outro contexto temporal, estão os testemunhos poéticos dos exilados brasileiros que impelem até à fronteira do conhecimento e permitem o diálogo entre a História e a Literatura, levantando questões da ficcionalidade da História e do relativismo do discurso que constrói o Passado e o reinsere no Presente.
Ao historiador fica o desafio de compreender e explicar o que foi dito pelo poeta no exílio, por causa do exílio, sobre o exílio, o que pressupõe ausências a serem reconstruídas pela Memória. À História cabe sistematizar a temporalidade transcorrida, reconhecendo e legitimando a imagem-lembrança. Clio, filha de Mnemósine - a Memória - reveste-se de um manto de cientificidade ao abandonar o Parnaso pela Academia.
Há, no fruto literário do exílio, dois aspectos a considerar: os que dão a seus escritos um caráter eminentemente Catártico, uma forma de estar a sós, de falar consigo mesmo, de consolar-se, de examinar a própria dor, de vingar-se, pelo menos na imaginação, e os que pretendem, com sua poesia, mudar as condições insatisfatórias de sua terra. Há uma evolução dos poemas que passam da contemplação do eu e de sua vitimização, para o social. Do contemplativo para o ativismo modificador. Em ambas as visões está subjacente o exílio, imposto ou auto-imposto, transitório ou perpétuo.
De um passado recente pode-se tomar como exemplo a figura emblemática de Thiago de Melo. Típico representante da "Geração de 45", situa-se na intersecção do Romantismo e do Neo-Modernismo que é também um Neo-Romantismo. Poeta participante, preocupa-se com os acontecimentos e a reforma do mundo, dando relevo ao universal, e ao revolucionário. "Faz escuro, mas eu canto, porque amanhã vai chegar". Exilado no chile entre 1964 e 1977, época do governo autoritário dos militares no Brasil, mostra sua vinculação à pátria: "Cidadão brasileiro, /legítimo sei que a lei/ mudou, mas não mudou tanto", afirma em 39 anos de idade, cidadão brasileiro. Lembra de sua terra em A vida verdadeira: "Canto molhado e barrento/ do menino do Amazonas/ que viu a vida crescer/ nos cantos da terra firme./ Que sabe a vinda da chuva/pelo estremecer dos verdes/ e sabe ler os recados/ que chegam na asa do vento"./ A saudade da terra traz, como pano de fundo a saudade da mãe, tradicionalmente vista como senhora-serva do lar ao falar ao pintor: "que de repente em cores me devolves/ a vida aberta nos espaços calmos/ dos verdes matagais da minha infância/ e te vejo comigo percorrendo/ as campinas gerais dos Amazonas/ e cobrindo de raios estrelados/ as enormes toalhas presididas/ pelo sol que era a mão da minha mãe"/ 16. A saudade desloca a melancolia para a terra natal como para Gonçalves Dias deslocara o prazer: "em cismar sozinho à noite mais prazer encontro eu lá".
Na mesma poesia o A, busca a imagem da criança, símbolo da criação de um novo mundo. Novo, ajustando de forma nova os elementos do próprio mundo: "Mas leva contigo a infância/, como uma rosa de flama/ ardendo no coração:/ porque é da esperança, Leonardo./ que o mundo tem precisão".
"Alguma coisa ainda vale/ no chão amado da infância/chão com cheiro de marirana/ e flor de cajueiro". Na infância fincam-se os traços da imaginação. Nela investe a emoção: "...então reencontra/o menino que foi; quando a esmeralda/perdida no seu peito resplandece/ do amor geral que se repete e cresce". 17
Ao tempo a opressão política e ideológica tentava-se reduzir As alteridades e criar a submissão ideológica. Por causa dela muitos como Thiago de Mello foram desterrados, obrigados a viver alhures. "Por isso estou aqui com a minha vida/ na cordilheira longe do meu povo,/ do qual jamais tão perto estive tanto"./ Longe da família: "e pai de dois filhos homens./ O menor ficou tão longe,/ nem sabe o lugar que tem/ no fundo azul do meu peito"./ 18
A temática é a mesma: a pátria, o cenário da infância, a saudade a acicatar os descontentamentos com aqueles que o impedem de se aninhar entre os seus. No caso é o regime político instalado no Brasil em 1964. /De todos os que mais valem/são os poemas sobre a rosa/ na parede da prisão,/ é a canção da rebeldia."/
O exílio, fruto da opressão serve de estímulo para a resistência: "reparto, companheiro, porque chega/ a esse Caminho longo e luminoso/ mas que também esse faz áspero e duro,/ onde as nossas origens se abraçaram/ dissolvendo-se em paz as diferenças/ engendradas na vida pela força/ feroz com que desune o mundo dos homens"/ 19
É preciso a união: "É chegar a seguir, os dois cantando,/ os dois e a multidão num só caminho,/ em direção ao sol que nos ensina/ a ser mais cristalinos, parecidos/ ao menino que fomos e que somos/ de novo dentro do homem, desde que o homem/ seja capaz de repartir seu canto"/ 20 A resistência é possível mesmo sob a ditadura: "De eleitor, além do título/ - que de repente se ameaça/de nenhuma serventia -/ guardo a alegria de sempre/ de ter escolhido sozinho/ mas guardo a pena de nunca/ ter dado o amor do meu voto/ a um homem do povo e ao povo/ num homem assim como Arraes"/. 21
Volta Thiago de Mello à valorização da imagem do menino que detém a esperança e a rebeldia. Segundo Freud o que foi conservado na memória é parte importante dos acontecimentos posteriores. A vida para o autor é feita à imagem do menino/ mas à semelhança do homem:/ com tudo que ele tem de primavera/ de valente esperança e rebeldia". 22 A esperança ficou retida na memória, ligada à inocência da infância em sua origem "reparto a esmeralda que retive/ em meu peito no instante fugitivo/mas infinito em que se acaba a infância/ porque a esmeralda não se acaba nunca"./ 23
O Passado se insere, minimizado, em função do necessário ativismo do Presente. "O que passou não conta? Indagarão/ As bocas desprovidas/ Não deixa de valer nunca./ O que passou ensina/ com sua garra e o seu mel"./ 24
Escrever já não é uma forma de extravasar problemas individuais. Escrever agora é lutar, é plantar a recusa sócio-política insatisfatória que "sabe também o tempo/ da febre e o gosto da fome"./ 25 o essencial reside no restaurar a liberdade. Dela fala seu célebre Estatuto do Homem no seu final: "A partir deste instante/ a liberdade será algo novo e transparente/ como um fogo ou um rio/ e a sua morada será sempre/ o coração do homem"./
"A poesia/mais do que ofício é contingência/ da minha vida de homem" 26. Está consciente da importância do que faz: "...trabalho o tempo inteiro e não me canso/ porque trabalho cantando/ na construção da manhã/ manhã geral do amor que vai chegar".27
Se a liberdade é o amor, a esmeralda é a esperança. "È uma espera que dói. Mas o que vale/ é ter o coração por cidadela,/ acender uma tocha em cada metro/ de terra conquistada e trabalhar/melhor, para que o chão floresça mais./Ninguém será sozinho nunca mais,/ nem só na solidão, nem no poder"./ 28
O poeta procura mobilizar o povo: "Cada um no seu lugar, na sua vez,/ não descuidar a espreita do inimigo,/ que não dorme jamais e é cheio de olhos.../ O tempo é de cuidados, companheiros./ É tempo sobretudo de vigílias./ O inimigo está solto e se disfarça,/ mas como usa botinas, fica fácil/ Distinguir-lhe o tacão grosso e lustroso,/ que pisa as flores claras da verdade,/ e esmaga os verdes que dão vida ao chão./ o tempo é de mentira. Não convém/ deixar livre o menino da esmeralda./ Melhor é protege-lo da violência/ que amarra a liberdade em pleno vôo". 29 Enquanto isso é preciso socorrer os que são vitimados. "A fotografia do escritor/ num cárcere do Rio de Janeiro/ (...) Está preso porque provou/ do mundo que lhe coube / e achou o mundo amargo/ e um tanto podre./ É preciso fazer alguma coisa,/ varar no escuro um rumo de meninos/ inventar um navio de amapolas/ aprender outra vez o soletrar,/ abrir os alicerces do arco-iris,/ é preciso fazer alguma coisa/para lavar a vida degradada"./ 30
4. Considerações finais
O exílio configura uma nova realidade vertida em uma nova paisagem, em um outro cotidiano. Aceitações ou resistências a uma cultura distinta que pode, eventualmente, apresentar semelhançAs àquela deixada, diferentes percepções do mundo e outra fabricação da auto-imagem, desenvolvida na contingência do deslocamento físico e cultural do exílio como um todo.
O contato de exilados com outro universo implicava num realinhamento de conceitos generalizadores pré-existentes sobre outra terra e seus valores, contendo no seu bojo a língua, a história e as afinidades políticas. Nos discursos daqueles que pretenderam construir uma nova espiritualidade, ou daqueles que pretenderam corrigir injustiças e defender a liberdade pode-se apreender aceitações e resistências ao diferente.
A poesia, como As Cartas, toma vida enquanto fato social, como fonte temática. Propõe uma nova interdisciplinariedade "onde as ciênciAs da linguagem - e não mais a disciplina saussuriana em particular - são confrontadas pela convicção de que o ser homem, aquele que Heidegger lia na linguagem, se vê medido pela sociedade e pela história... Resultado direto da sociedade de que procede acrescenta elementos da sociedade onde o autor está inserido. Esse bi-frontismo - expresso ou subjacente - não é simples ou unitário, mAs contem grande quantidade de elementos que convergem. Somados e superpostos revelam o social, meta do historiador.
As imagens ou representações ideológicas se caracterizam, portanto, por sua função integradora ao grupo sócio-cultural. As Cartas Jesuíticas mostram o homem barroco, de religião exacerbada pela preocupação com a própria salvação e com a salvação dos demais. Thiago de Mello tomou por missão a insurgência contra as privações da liberdade e desrespeitos à dignidade humana que a ditadura perpetrou. Usou o exílio para chamar os intelectuais à responsabilidade da consciência, o povo, à luta e todos a mergulhar na esperança de dias melhores, elaborando estratégias de comportamento.
Em ambos os casos encontramos o humanismo daqueles que pensaram no coletivo, na dor, nas injustiças, nas privações da liberdade, redutoras da humanidade do homem.
As temporalidades dos exemplos estudados são distintas, mas seus testemunhos são emblemáticos para a compreensão do país e de sua história.
Notas
1A palavra exilium deriva de exsilire - ex-salire - saltar fora. em 1939 a palavra exilado, vinda do francês, chegou ao castelhano e ao português.
2Ver a respeito, Queiroz,Maria José de: Os males da ausência ou a Literatura do Exílio. Rio de Janeiro, Topbooks, 1998.
3Cf. Rosendahl, Zeny e Correa, Roberto Lobato: Religião, identidade e território. Rio de Janeiro, Uerj, 2001.
4Carta de Anchieta aos Padres e Irmãos de Coimbra. Piratininga, 15.8.1554. In Cartas dos Primeiros Jesuítas do Brasil. São Paulo, comissão do IV Centenário da Cidade, 1954 II p. 80.
5Ibidem.
6Sartre, Jean paul: L’être et lê néant. Paris, Gallimard, 1943 p. 325.
7Carta do Ir. Pero correa ao P. Simão Rodrigues. S.Vicente, 10.3.1553. In CartAs Jesuíticas cit., I, p. 446-7
8Carta de Nóbrega a Simão Rodrigues. S. Vicente, 10.3.1553. In CartAs Jesuíticas cit. I, p. 456.
9Carta de Anchieta a inácio de Loyola. São Paulo de Piratininga, 1.9.1554. in Cartas Jesuíticas cit., II p. 405.
10Carta de Nóbrega ao P. Luis Gonçalves da Câmara. S. Vicente, 15.6.1555. Idem, p. 500.
11Landowski, Eric: presença do Outro. São Paulo, Perspectiva, 2002. Trad. p. 180.
12Incluam-se aqui o clero secular e o Bispo D. Pedro Fernandes, que proíbe As formas de catequese usadas pelos inacianos. V. Carta de Nóbrega ao P. Simão Rodrigues. Bahia, fins de julho de 1553. In Cartas Jesuíticas cit., I p. 367. "Ao Bispo nenhuma de nossas coisas agrada. Até no púlpito, por palavras bem claras desfez muitas de nossas coisas, contradisse nossAs mortificações como parvoíces e coisas de doidos, idiotas e ignorantes. Vitupera muitos cristãos novos da casa, como ao P. Leonardo Nunes." Carta do P. Vicente Rodrigues ao P. Luis da Grã. Bahia, 23.5.1555. Idem, p. 468.
"Os eclesiásticos que achei, que são 5 ou 6, [tinham o pecado por costume] a mesma vida e com mais escândalos, e alguns apóstatas e por todos assim viverem nem se estranha pecar". Carta de Nóbrega a D. João III , 14.9.1551. Idem, p. 290.
"Não se devia consentir embarcar sacerdotes sem ser sua vida muito aprovada porque estes destroem quanto se edifica. Cá há clérigos, mas são a escória que de lá vem". Carta de Nóbrega a Simão Rodrigues. Bahia, 10.4.1549. Idem, p. 116.
13Carta de Juan de Azpilcueta aos Padres e Irmãos de Coimbra. Porto Seguro, 19.9.1553. Idem, p. 5.
14Carta de Nóbrega ao P. Luis Gonçalves da Câmara. S. Vicente, 15.6.1555. in Cartas Jesuíticas cit. II, pp. 500-501.
15Cf. Os jesuítAs desterrados. A defesa da América e do autóctone. In Queiroz, Maria José de: Os males da ausência ou a literatura do Exílio. Rio de Janeiro, Topobooks 1998 pp. 181-208.
16Canto para o pintor Nemésio Antunes.
17Canto do companheiro em tempo de cuidados.
1839 anos de cidadão brasileiro.
19Canto do companheiro em tempo de cuiddos.
20Idem.
2139 anos de cidadão brasileiro.
22Da vida verdadeira.
23Canto de Companheiro em tempo de cuidados.
24Idem.
25A vida verdadeira.
2639 anos de cidadão brasileiro.
27Idem.
28Canto do companheiro em tempo de cuidados.
29Idem.
30Poema do 4º Centenário.




