A Copacabanense: reconstruções de memórias e imagens femininas
O presente trabalho analisa memórias de Copacabana a partir das narrativas orais de velhos moradores do bairro. O enfoque ora proposto é o da imagem construída sobre o gênero feminino desde os primeiros anos de urbanização de Copacabana, destacando o período áureo dos anos 40/50, onde a figura da "copacabanense" - assim como o bairro como um todo - é sinônimo de estilo, elegância e modernidade. Procuramos, através da análise das entrevistas com antigos moradores, observar como a imagem da moradora de Copacabana aparece nas memórias de nossos narradores e compreender de que forma a mesma acabou sendo construída em consonância com a identificação do que seria uma imagem idealizada de "carioca".
Eu, quando fui pra fora, quando eu fui pra Bauru, que eu fui sozinha até, fui pra casa dos meus tios passar o verão lá e carnaval. Quando souberam que eu era carioca, que morava em Copacabana... Não é que fosse mal falada, mas era... Sabe quando você faz uma idéia de uma pessoa assim, extraterrestre, um ET da vida? é... Nós éramos considerados, e eu com muito orgulho.1
O presente trabalho é parte da dissertação de mestrado2, em andamento, intitulada "Princesinha do Mar: Copacabana nas memórias de seus velhos moradores", cujo objetivo é analisar as memórias de Copacabana - bairro do Rio de Janeiro que conheceu grandes transformações em seu espaço em períodos curtos de tempo - a partir das lembranças dos atores sociais que acompanharam sua história. Lembranças estas, fragmentadas e ressignificadas pelo tempo. Os primeiros resultados da pesquisa apresentam imagens e histórias nas ruas do bairro, diferentes percepções deste espaço de acordo com o narrador e a época de sua recordação. Uma Copacabana múltipla é traçada - em seus aspectos concretos e subjetivos e, em meio às evocações de lembranças desses moradores, deparamo-nos com a importância de questões relativas às imagens femininas, o que nos despertou o interesse em estabelecer este recorte.
A metodologia utilizada é a da história oral, aliada à observação participante e à bibliografia sobre o tema. Até o momento foram realizadas 14 entrevistas com antigos moradores, de ambos os sexos, com idade entre 65 e 93 anos. As entrevistas seguiram um roteiro elaborado a partir de um eixo temático sobre questões da memória desses moradores nas ruas do bairro e percepções atuais sobre o mesmo, sem ignorar aspectos de suas histórias de vida. Assinalamos que dentre os entrevistados, ainda que todos se enquadrem na "categoria" idosos, há diferenças geracionais entre eles de até 30 anos. Portanto, as memórias acabam referindo-se a fases diferentes da história do bairro, indo desde os anos 20 e tendo um "epicentro" nos anos 50 - cabe destacar também que esses períodos em sua maioria referem-se à infância e juventude dos entrevistados, já que suas memórias são evocadas geralmente concentrando-se em tais fases da vida.
Copacabana é um bairro cuja história3 é relativamente recente - sua integração à cidade deu-se na ocasião da abertura do Túnel Velho, em 1892 - porém de intensos acontecimentos e com significativa importância no contexto urbano do Rio de Janeiro. Segundo assinala Cardoso4 Copacabana "inaugura" a expansão para a Zona Sul da cidade, trazendo a reboque uma série de valores agregados a um "estilo de vida" que mais tarde será associado a todos os moradores da cidade, forjando um nova maneira de viver. E neste novo modo de vida incluem-se tanto a adoção de hábitos e costumes quanto aspectos físicos das construções espaciais.
Neste sentido, apontamos também a existência da praia e o início do hábito de freqüentá-la diariamente, que têm grande influência na consolidação desse "estilo de vida", e por sua vez relaciona-se com as mudanças comportamentais que começaram a se configurar na cidade como um todo, enfatizando valores como, por exemplo, os de "vida saudável" e "modernidade"5. Destacamos igualmente o fato do bairro de Copacabana, em pouco mais de um século, ter como uma de suas principais características as diversas transformações espaciais sofridas, com seguidas e intensas construções e reconstruções. Cardoso enfatiza que nenhuma outra área da cidade conheceu tantas transformações em seu espaço em um período tão curto de tempo. Junto ao excesso de mudanças, temos um crescimento populacional acelerado, cujo ápice se dá na década de 50.
E é justamente nos anos 50 que o bairro de Copacabana está no auge: referência de modernidade, cultura, comércio e lazer. é o símbolo da imagem veiculada do Brasil no exterior. Seu "glamour" é exaltado, o estilo de vida de seus moradores propaga-se, afirmando-se como o que seria o estilo do "carioca" e, por conseqüência, o do brasileiro "moderno". O "copacabanense" é um personagem da cidade e a figura feminina aparece em destaque nas representações desse morador. é a copacabanense, moça que, apenas pelo fato de ser moradora do bairro mais famoso do Brasil já agrega diversos valores referentes à sua feminilidade, seu comportamento e preferências - valores muitas vezes ambíguos, juntando o que havia de mais moderno ao mais conservador da época. Nossos narradores, em meio às suas lembranças, nos apresentam um perfil da moça copacabanense. Em destaque, a adolescente dos anos 50.
Ela tem a pele bronzeada (e para isso se "busunta" de um óleo "que parecia uma tinta") o corpo bem cuidado (ela joga muita peteca e vôlei na praia e anda sempre de bicicleta), usa maiô de duas peças ou - para a que tem a mãe mais severa - o "engana-mamãe", um maiô inteiro na frente e duas peças atrás. Vai para praia sem muitos apetrechos - em qualquer emergência pode voltar para casa, almoçar ou lanchar - podendo, inclusive, estar vestindo um "short". é assídua do mesmo ponto na praia, geralmente o da rua mais perto sede sua casa, onde conhece todos à sua volta. Enquanto as "moçoilas" conversam, "fazendo ti-ti-ti, comentando da próxima festa", os rapazes ficam mais ao lado, às vezes jogando futebol, "aquele grupo todo comportado, com os rapazes também... mas não tinha essa confusão de muito rapaz não". Tudo sob vigilância de pais "zelosos" que passam pela calçada da Avenida Atlântica, "antes da reforma", de onde podem avistar quem está com quem e fazendo o quê. à tarde, o cinema Metro Copacabana, "o melhor ar-condicionado do bairro", ou o Rian - "Nair ao contrário, por causa da Nair de Tefé" - na Avenida Atlântica, são os pontos preferidos. A sessão das 16:00 no Roxy também é "quente" e emenda na sorveteria Scaramouche, em lanche no Nerina ou no recém-inaugurado Bob’s. Há quem prefira uma "banana split", novidade nas Lojas Americanas. à noitinha de sábado tem festinha - os "arrasta pés" em casa de amigos ou os hi-fi’s nos hotéis e clubes do bairro, onde "o máximo que a gente bebia era cuba-libre". Se for durante a semana, a opção noturna é o "footing" da Avenida Atlântica ou o passeio pela Avenida Copacabana vendo as vitrines das lojas, sempre com os pais por perto. Mas, às dez da noite... "acabou a festa" e todos voltam para suas casas.
Desde seus primeiros anos de urbanização, a figura da moça de Copacabana aparece destacada em relação às do Rio de Janeiro, por morar no bairro que desponta para a cidade com mais força a cada década e cada vez mais sendo conhecido como um local onde as "novidades" podem aparecer. Machado6 enfatiza os vários lançamentos e modismos que tiveram vez em Copacabana, muitas vezes destacando a imagem feminina nos mesmos. Em músicas das décadas de 30 e 40 as moradoras de Copacabana aparecem retratadas de diversas formas. Algumas vezes como "sereias" que têm os corações roubados pelos "piratas", outras como moças que podiam ser bastante "liberadas" e até "traiçoeiras"7. Cardoso8 mostra como, nos anos 30 e 40, já havia diversas críticas em jornais e revistas, sobre costumes considerados "avançados" e que seriam observados nas praias e cinemas do bairro.
Um acontecimento na década de 40 é esclarecedor de como o "copacabanense" considerava-se um habitante especial da cidade. Na ocasião de uma proibição aos banhistas de andarem nas ruas sem roupões longos, há muitos protestos feitos pelos moradores do bairro. Um deles, um artigo escrito por Lúcia Benedetti na "Revista de Copacabana" enfatiza o "absurdo" de tal medida, por restringir uma das características do copacabanense - o despojamento - que, em meio a outras, marca o "jeito particular de quem mora pra cá do túnel."9
Nas narrativas de antigos moradores a figura da copacabanense como "diferente" e possuidora de vantagens que as moradoras do "resto" da cidade não teriam aparece com bastante freqüência. E muitas vezes evidenciando características elitistas, pois a "elegância" e "estilo", ditos como claramente percebida "no jeito de andar e na forma de vestir" são descritos como fatores de diferenciação da moça moradora do bairro para a que vinha "de fora". A "elegância" não se dá sem ambigüidades, pois junto a ela o que marca o "estilo" da copacabanense é um proclamado "despojamento", sinal de modernidade e novamente associado à proximidade - e intimidade - com a praia. Esse "despojamento" é lembrado por uma entrevistada como sendo um "ar" mais "remplie"10 em relação aos outros, "não-moradores". Estes, por sua vez, se comportariam de modo "mais estudado", por não quererem "fazer feio" perante os "nativos" do bairro.
A imagem de uma copacabanense como a grande "lançadora de modismos" é recorrente em quase todas as lembranças, o que podemos perceber claramente na fala de uma de nossas entrevistadas.
Copacabana... A copacabanense era muito moderna. Porque Copacabana era conhecido o bairro, vamos dizer, da menininha que vai pra praia, da... Entende? A gente que lançava moda! A moda a gente que lançava, a moda de maiô, a moda do vestidinho de alça, a moda das anáguas, essas coisas todas, tá entendendo, que eu me lembre, nós é que lançávamos a moda de uma certa maneira, porque era típico do local.
Outra entrevistada, ao nos explicar como seria essa "moça" de Copacabana, utiliza-se de um exemplo que para ela seria definidor: uma conhecida sessão da revista "O Cruzeiro".
Dentro dessa revista tinha um jornalista que ele explorava esse lado. O nome dele era Alceu. Então ele desenhava na revista, assim, na folha do meio, aquelas duas partes, "As garotas do Alceu". Então ele desenhava aquelas meninas magras, aquele seio grande, aquela bundinha arrebitada, com as unhas longas, com aquele cabelo, como vocês usam hoje. Então, ele dava nome a elas. "Fulana de tal". Aí uma era assim numa pose mais sofisticada. A outra do lado já era de uma outra maneira, caminhando. Aquilo ali era um resumo das meninas de Copacabana. "As Garotas do Alceu". Era famosíssima, famosíssima a revista. Se você quisesse ver o que era menina de Copacabana você olhava aquela revista.
Embora as "Garotas do Alceu" fossem direcionadas a todas as moças do país11, segundo Bassanezi e Ursini, as garotas cariocas realmente serviram de modelo às garotas da revista.
As cariocas da classe média e alta que, nesta época acompanhavam (e inventavam) a moda e eram consideradas mais atrevidas e liberadas que as de outras regiões do país - a vida nas praias (onde o amor é mais livre), o contato com estrangeiros, os recursos e atividades da metrópole, então capital do país, contribuíam para comportamentos e modos de pensar diferenciados. Essas garotas cariocas serviram de modelo às garotas da revista12
Embora as autoras refiram-se às cariocas como um todo, nossa entrevistada associa diretamente essas "cariocas" como sendo de Copacabana. Acreditamos que essa percepção ocorre pelo fato de que, na época, a copacabanense era o "modelo" que congregava esses valores da vida das moças do Rio de Janeiro - onde Copacabana era considerada, praticamente, uma espécie de "capital da capital".
As autoras também sinalizam que a sessão das "garotas", presente na revista desde o final da década de 30, conhece maior fama justamente na década de 50 quando as personagens parecem adquirir vida própria, pois são imitadas pelas moças da época ao mesmo tempo em que inspiradas nas mesmas. Sobre o "perfil comportamental" das "garotas", as autoras destacam que não se enquadravam em todos os pontos dos modelos esquemáticos para as figuras femininas da época, pois exibiam os valores das "moças de família" (como virgindade, casamento, fé cristã ou respeito à família), mas também "flertavam" com os valores da "moça moderna", assumindo algumas ousadias em moda e comportamento.
Esse perfil ambíguo entre o que seria proibitivo dentro dos valores femininos tradicionais e o que seria permitido pelos "novos tempos" também aparece nas lembranças dessas moradoras, como algo presente em suas vidas. A forma de se comportar frente a diferentes situações muitas vezes era determinante na imagem que se faria da moça em questão. Uma lembrança de uma de nossas entrevistadas ilustra esse ponto.
Eu me lembro que uma vez eu tava na praia, aí... A gente sempre é observada por uns né? Aí tinha um "determinado" lá que queria se aproximar. Mas não sabia como. Não sei bem o porquê dele chegar pra mim, com a mão úmida, e pegou assim a carteira de cigarro e me entregou e disse assim: "Você pode fazer um favor pra mim? Abrir essa carteira de cigarro?" Eu não fumava cigarro, eu não sabia nem como é que abria a carteira de cigarro. Eu sei que tinha um negocinho de ponta, uma espécie de uma fitinha que puxava. Aí ele viu pelo meu modo de procurar que eu não fumava, aí ele me ensinou como é que era. Ali era uma maneira de saber quem era a moça, os costumes da moça... Bom, fumar eu não fumava. Se eu fumasse, já estava um pouco "liberada".
As diferenças entre a moça "de família" ou a moça "liberada" marcam diversas lembranças, inclusive sobre os espaços sociais do bairro, já que muitos não eram permitidos às primeiras, sob pena de serem confundidas com as segundas. Um exemplo são as lembranças referentes às boates. Algumas de nossas entrevistadas afirmam não terem conhecido boates, pois não podiam "passar nem na porta", outras dizem que ir à boate era o "sonho" de toda moça, o que em muitos casos era conseguido somente após o casamento.
Dentro desse âmbito comportamental, aparecem também muitas referências aos jovens conhecidos como "juventude transviada" e, mais especificamente, ao caso do assassinato da adolescente Aída Curi13, cujo perfil aparece nas lembranças justamente como o da moça "de família", mas que "se arriscou" ao aceitar entrar em um prédio sozinha com o namorado. O caso ainda marca as memórias também por ter sido um dos primeiros grandes escândalos no bairro envolvendo uma jovem de classe média, que é lembrada por ter "defendido sua virtude" com a própria vida. E o que permaneceu depois de sua morte foram os discursos repetidos às moças da época, como um aviso do perigo dos "novos tempos". Segundo uma de nossas entrevistadas, por qualquer motivo se lembrava: "Olha o que aconteceu com Aída Curi heim?". Essa mesma entrevistada considera que depois os crimes foram ficando mais comuns e as moças cada vez mais "liberadas".
Alguns de nossos entrevistados, quando lembram como era difícil "conquistar" as moças solteiras lembram que muitas vezes - nas conquistas realizadas nas praias ou mesmo nos cassinos - apelava-se para as casadas, "porque essas não davam trabalho". Eles chamam a atenção para o que teria sido uma tal mudança comportamental das moças "de antigamente" para as moças de "hoje em dia", gerando uma grande "liberalidade".
A partir do que já foi apontado, uma outra questão que aparece nas memórias e marca a fala de quase todos os antigos moradores é mesmo uma sentida diferença não só da proclamada "elegância" e "estilo" dessas moças da antiga Copacabana - que davam às ruas do bairro "beleza" e "charme". O que aparece também é a percepção de uma queda de "status" da figura da "copacabanense" em relação à imagem da carioca, da moradora do Rio de Janeiro como um todo14. Nas falas que apontam a copacabanense não se destacando mais nas ruas do bairro, porque hoje estaria "tudo muito misturado", podemos perceber algo que vai além do saudosismo. O que parece saltar daí é também um não-reconhecimento (e conseqüentemente uma não-aceitação) na identidade atual de Copacabana. O bairro, que já foi o lugar do "jovem" e "moderno" hoje é associado ao "velho" e "decadente" - o que inclui até certo ponto a imagem de suas moradoras.
Assim como há uma declarada dificuldade - pelo excesso de construções e reconstruções, já comentado aqui - em enxergar nos espaços concretos do bairro a "face" dos anos há muito passados, o não-reconhecimento também em meio aos moradores pode trazer essa percepção de separação temporal irremediável. Podemos nos perguntar então, se muitas das "velhas" moradoras atuais - antigas e orgulhosas copacabanenses - talvez não tenham apenas o desejo de conseguir enxergar nas moças de hoje vestígios do que foram no passado, para que possam se reconhecer também no presente.
Notas
1 Antiga moradora de Copacabana, 68 anos, sobre os anos 50.
2 A referida dissertação está vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Memória Social - UniRio, pela linha de pesquisa Memória e Espaço, sob orientação da Prof ª Drª Icléia Thiesen. .
3 Para uma história mais completa de Copacabana ver CARDOSO, Elizabeth Dezouzart . Copacabana - história dos bairros. Rio de Janeiro: Index/João Fortes Engenharia, 1986; e MACHADO, J.G. (coord) Copacabana - 1892-1992: subsídios para sua história. Rio de Janeiro: Riotur, 1992.
4 CARDOSO, Op.cit.
5 SEVCENKO, Nicolau. A Capital Irradiante: técnica, ritmos e ritos do Rio. In SEVCENKO, Nicolau.(org) História da Vida Privada no Brasil - República: Da Belle époque à Era do Rádio. São Paulo: Cia. das Letras, 2002.
6 MACHADO, J.G. Op.cit.
7 IDEM
8 CARDOSO, Op.cit.
9 BENEDETTI, apud CARDOSO. IDEM, p. 119
10 Referência à expressão francesa "remplie de soi même", que assemelha-se à "cheio de si"
11 Em algumas ocasiões, por exemplo, Alceu Pena desenhava garotas especificamente paulistas. Sobre o tema do gênero feminino na revista O Cruzeiro, ver Bassanezi e Ursini (1995).
12 BASSANEZI, Carla; URSINI, Leslye. O Cruzeiro e as Garotas. Cadernos Pagu. São Paulo, n.04,1995, p. 247
13 Sobre as repercussões deste crime no bairro ver também Cardoso (1986), Machado (1992) e Andrade (1991). Algumas matérias sobre o caso Aída Curi estão disponíveis no site http://copacabana.com/aida-cury.shtml.
14 Há também muitas referências - que não escondem um certo ressentimento - à "Garota de Ipanema", marco diretamente apontado do início do declínio do "status" da copacabanense.




