Conflitos D’Italianità e Ambigüidades das Diferentes Societàs em Campinas e seus Distritos de Sousas e Joaquim Egídio (SP).
Campinas recebeu a partir de 1870 significativa leva de imigrantes - em especial italianos - destinados a suprir mão-de-obra na cultura do café. Após os grandes conflitos mundiais, em menor proporção, constata-se a chegada de outros tantos mais voltados à vida urbana. Destaco neste estudo o papel que representaram à criação de múltiplas Sociedades quase sempre de caráter filantrópico, de socorro mútuo, educacional e de preservação das tradições italianas. Foi o caso, entre outras, das localizadas não apenas em Campinas, bem assim em dois de seus atuais distritos - Sousas e Joaquim Egídio - quais sejam, respectivamente, o Club XX de Settembre, a Società Confederatta Italiana, a Società Italiana Lavoro e Progresso e a Vittorio Emanuele III, representando diferentes formas de expressão da italianidade na região.
Lembro inicialmente que entre os anos de 1815 e 1849 a Itália em especial vivenciou três ondas revolucionárias sucessivas: 1820, 1830 e 1848. Assim, já em julho de 1820 a revolta estava instalada em Nápoles (obra dos carbonários) tendo o rei Fernando I sido forçado a estabelecer uma constituição. Obtida a ordem nessa região, outra insurreição, ainda liderada pelos carbonários, ocorreu no Piemonte (março de 1821), onde, após o conflito, também foi estabelecida uma constituição. Em fevereiro de 1831, foi a vez da Itália Central, cuja contenda foi também de cunho político.
Na Sicília e em Milão, a partir de janeiro de 1848, outras agitações se sucederam, bem assim em Veneza, Turim, Roma, Parma e Módena ao longo do mês de março do mesmo ano.
Ao lado destas ondas revolucionárias surgiram as sérias crises econômicas que sobremaneira prejudicaram a vida rural na Itália. Mesmo nas zonas italianas mais desenvolvidas - caso da Lombardia, Vêneto e Trentino - os agricultores sofriam com a pouca produtividade das terras cansadas e pela falta de racionalização na agricultura.
Após ter a Itália passado pela divisão política (ducados, pequenas repúblicas ou precários reinos) entende-se o porquê de haver à época da grande imigração maior número de calabreses, venezianos, napolitanos e lombardos entre os que de lá partiram.
Até então no Brasil não haviam ainda ingressado grandes levas de imigrantes italianos. A partir desta época foi a Itália quem ofereceu, em relação às penínsulas mediterrâneas, o contingente mais significativo, vindos tanto do Sul quanto do Norte e Centro.
A Lei Geral de 15 de dezembro de 1830, em seu artigo 4º, aboliu em todas as Províncias do Império Brasileiro as despesas com a colonização estrangeira; desta maneira iniciaram-se as tentativas particulares de incremento à imigração para o Brasil.
Em São Paulo, a colonização de caráter oficial data de 1827, enquanto que o desenvolvimento da iniciativa particular tem como balizas 1847/1857, quando foram criadas mais de sessenta colônias. O pioneiro desta iniciativa foi o Senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro em sua fazenda Ibicaba.
Em 1878, a atuação de Antônio de Queirós Teles (Visconde de Parnaíba) levou à opção pela imigração italiana na região paulista, tendo sido constituída, sob sua presidência, uma vez que era o Governador da Província, a Sociedade Promotora de Imigração.
Podemos melhor compreender a política imigratória e de colonização nos primórdios da República observando-as em três significativos momentos: o primeiro, até a promulgação da Constituição Federal (24/2/l89l); o segundo, até a lei de 24/12/1894 e o terceiro, iniciado com o decreto de l9/4/l907, quando voltou ao governo federal à direção dos serviços de imigração e colonização.
Em 1874, encontramos em Campinas os primeiros italianos e já em l896 representavam eles quase o dobro das demais correntes imigratórias. Em l907, ocupavam o primeiro lugar no Estado de São Paulo nas estatísticas referentes à imigração.
A maioria dos imigrantes italianos chegou às regiões ora estudadas procedentes do Norte da Itália, contratado para o trabalho na lavoura do café embora sem ter especialização e nem mesmo ofício determinado e com família já constituída. Mas, todos vieram com seus seculares preconceitos regionais.
Não seria, pois, com indivíduos tão heterogêneos, com tendências de independência econômica, de enriquecimento, além de muitos almejarem logo voltar ao seu torrão natal, possível formar quadros fixos de operários permanentes em determinado ofício.
Com um pessoal que assim pensava, com um nacionalismo exacerbado, desprezando o país em que se encontravam, apontando como estigma as doenças tropicais, as pragas, os insetos, considerando inferiores negros, mulatos e caboclos vendo-os como vadios, dados à embriaguez, mal vestidos e alimentados, não seria possível se esperar deles nos primeiros momentos da chegada algum interesse proveitoso à vida brasileira.
Saliento ainda que a saída dos italianos foi vista pelos seus governos como uma necessidade para aliviar a difícil situação econômico-sócio-política em que se encontrava a Itália. A grande massa de imigrantes destinada inicialmente à lavoura e após, à vida urbana, era formada por assalariados, constituindo o embrião da futura classe média, bem assim contribuindo à formação do proletariado.
A crise cafeeira iniciada em l929 transformou a situação até então existente nas áreas paulistas: grandes latifúndios foram repartidos e até abandonados e os colonos puderam, com o que conseguiram amealhar, se transformarem em pequenos proprietários, formarem seus sítios com a família e, assim, se emanciparem.
Especificamente no caso de Campinas, considerando-se que constituíam um grande contingente, não tardou muito para que se envolvessem em algumas confusões, apesar de seu temperamento geralmente alegre, mas agitado. Assim, uma das primeiras que se tem notícia foi a 7 de abril de l879 - a chamada Revolução dos Italianos - quando saíram às ruas, em grande arruaça e armados, unicamente, de... sapatos! Nunca se soube exatamente o porquê deste movimento; pelo que noticiou a imprensa da época poderia ter sido para obtenção de melhores salários nas fazendas e mais trabalho na zona urbana.
Foi este acontecimento o germe primeiro para a futura criação do Vice-Consulado na cidade a fim de que os problemas que por vezes surgiam mesmo fossem resolvidos através da autoridade competente.
Em 1882, pouco mais de dois mil italianos viviam em Campinas e arredores, no geral em clima de cordialidade, mas, sem deixarem de ter uma séria rivalidade que até hoje é constatada em muitos de seus descendentes, sobretudo nos que residem em Sousas e Joaquim Egídio. No entanto, ouvi de vários depoentes, em uma evidente dissimulação, que atualmente ela é bastante branda, quase inexistente...
Havia certa uniformidade para o estabelecimento do imigrante nas fazendas: o fazendeiro pagava determinada quantia para limpeza dos cafezais, alojando os colonos em modestas habitações, muito próximas uma das outras e que eram chamadas de a colônia. O dono da propriedade fazia os adiantamentos necessários para os primeiros gastos, bem assim lhe dava terras para o plantio de cereais (Ms,1888)1.
Enquanto vários fazendeiros de Campinas e região foram se arruinando em decorrência das más safras de café, o imigrante italiano se distinguiu pela extração que fazia de sua modesta plantação e assim que seu pecúlio se tornava suficiente para comprar um pequeno lote de terra, ele deixava o trabalho assalariado e adquiria sua propriedade (CUSANO, 1911)2.
Ao adquiri-la o imigrante recebia inicialmente um título provisório uma vez que o definitivo de propriedade somente era obtido após o pagamento total da importância estipulada, bem assim comprovar sua residência no local há pelo menos um ano e que estava de fato cultivando a terra (Ms, 1888)3.
Houve também o caso em que muitos imigrantes não foram encaminhados às grandes propriedades da região conseguindo trabalho em diferentes ocupações: sapateiros, artífices, carroceiros, consertos domésticos, barbeiros, vendedores ambulantes, etc.. Todavia, o significativo foi que o trabalhador italiano foi aos poucos se adaptando bem à região campineira e prosperou tanto no meio rural quanto urbano.
Os italianos que se fixaram em Campinas englobando dois de seus atuais Distritos - Sousas e Joaquim Egídio - procuraram se reunir por meio de associações que conservavam um cunho nitidamente regional, aliás, idéia corrente na Itália de fins do século XIX, quando o Estado há pouco formado, não havia ainda sobrepujado a noção de região (RIOS, l950)4.
Predominaram as ligas e sociedades beneficentes, de mútuo socorro, com denominações patrióticas, onde os indivíduos cultivavam também as tradições e atavismos de sua terra natal; as festas que promoviam eram as que prevaleciam em suas regiões e não as do país que estavam habitando, as quais lhes eram indiferentes.
Desta maneira desde seus primórdios na nova terra tentaram os italianos preservar sua cultura e tradição e a sociedade veio mantendo uma certa imagem de italianità na memória local.
Não é simples se caracterizar o que vem a ser esta italianidade. Todavia, uma das tentativas mais felizes para caracterizar como um italiano se torna italiano, o que o distinguiria dos demais povos, foi a análise realizada por Tim Parks quando disse que para se abordar essa coisa de italianidade sem cair no clichê, sem simplesmente apelar para aquilo que todos já sabem (...) seria nunca adotar o ponto de vista do viajante que está de passagem (PARKS, 2003) 5.
Sua reflexão demonstra que os imigrantes não deveriam ser considerados como blocos homogêneos cujas características fossem limitadas por estereótipos, por representações já estabelecidas. Antes, dever-se-ia observar suas associações étnicas, o desenvolver das comunidades e a maneira como foi feita a transmissão de seus costumes e tradições.
Ao se estabelecerem nas regiões que ora analisamos, os italianos propiciaram uma verdadeira troca cultural, mesmo porque valores diversos de suas regiões culturais foram incorporados, bem assim por chegarem a adotar alguns costumes da nova sociedade, além de desenvolverem sua identidade a partir do que lhes fora imposto e do que reivindicavam como básicas por serem oriundas da mãe-pátria.
Desta forma o que mencionou BERTONHA (2005)6de que as imagens conhecidas dos italianos como convivas barulhentos que devoram fartas macarronadas, filhinhos diletos de suas mamas supersticiosas ou ainda a impressão deixada por ESTRELla (1901)7 de serem eles um povo trabalhador que lança mão de todos os meios para arranjar dinheiro, até o de sacrificar o seu ideal, o seu brio, podem ter sido construídas quando chegaram ao Brasil frente, por exemplo, as discriminações e preconceitos que enfrentaram.
Para fazer frente às dificuldades foi que criaram instituições na nova pátria - associações, jornais, clubes - como instrumentos de difusão do ideal nacionalista italiano8.
LESSER (2001), ao analisar a formação da identidade nacional no Brasil, não aceita ter sido viável uma homogeneização, inclusive a cultural, dos italianos aqui estabelecidos. Ao contrário, para ele o que ocorreu foi uma troca cultural, econômica e política que não permitiria tal generalização, até porque ela foi um fluxo constante:
A tensão muitas vezes se manifestou como racismo, mas este livro não é, exclusivamente, um estudo sobre preconceito. Ao contrário, o preconceito e os estereótipos que dele derivaram foram uma das formas pela qual a identidade foi contestada (...). Essa barganha cultural, econômica e política afetou a ambos os lados, mantendo tanto a sociedade majoritária brasileira, quanto as identidades pós-migratórias num estado de constante fluxo. Ao final, a homogeneização da identidade nacional e cultural jamais veio a ocorrer9.
De fato, como afirma o mencionado A., a idéia de construção da identidade nacional de um povo não é estanque, mesmo porque, em termos culturais, a identidade é fluída, apesar de existir uma determinada imagem do italiano, que se formou ao longo do século XX, que é ainda mantida na imagem de seus descendentes. Assim, os memorialistas campineiros acabaram por retomar, por exemplo, a qualificação de laboriosa ao se referirem à colônia italiana10.
A imprensa de igual modo ajudou a difundir tal imagem e o artigo de Estevam Estrella inserido no jornal Aurora Social é uma amostra do diferenciar do trabalho nacional (escravo) do imigrante (livre)11.
Em verdade, a presença do italiano nos primeiros momentos de sua chegada à região campineira causou certa estranheza aos grandes proprietários o que acarretou casos de discriminação e preconceito. O romance autobiográfico de SEVá (1961)12, descendente de colonos da Fazenda São Luciano (Joaquim Egídio), descreve enfaticamente como foi incômoda a chegada dos italianos demonstrando que eles representavam um verdadeiro "show" à comunidade, um espetáculo pitoresco mesmo.
E mais adiante dizia:(...)Porque apesar de as coisas estarem mudando, os imigrantes, os caffonni, os caipiras da península, mesmo aqueles que já haviam amontoado uns cobres, continuavam a ser "os italianos" olhados de cima por certas famílias do lugar (...)13.
Entende-se a afirmação do cronista-advogado Sevá não apenas pelo fato de Campinas e região haver sofrido significativa mudança na paisagem rural/urbana, bem assim pelo aumento populacional ocorrido com a chegada dos italianos que no mais das vezes se apresentavam esfomeados, enrolados em vestimentas sujas, causando impressão bastante negativa aos moradores locais.
A situação de humilhação aos italianos persistiria por longo tempo ainda. Basta lembrar que na década dos anos 1920 várias medidas repressivas foram adotadas contra os anarquistas ítalos, sendo freqüentes as prisões e a dispersão, com violência, das greves, além da proibição não apenas para a vinda de italianos ao país, como também às suas organizações esportivas, políticas e culturais.
Em 1938, com a promulgação de leis nacionalistas os fascistas foram alvo de severa vigilância por defenderem a italianità ; e quando o Brasil adentrou à Segunda Guerra Mundial, a situação destes imigrantes ficou mais delicada ainda por terem sido considerados súditos do Eixo, sendo então passíveis de controle pelos órgãos responsáveis pela manutenção da ordem. Os que já residiam na região ora analisada também não fugiram desta discreta vigilância...
Afirma BERTONHA (1998) em sua tese de doutorado que o aumento de associações italianas em São Paulo e mesmo no Brasil entre os anos de 1927/37 deixou evidente a permanência de um fenômeno próprio da vida coletiva no Estado - caso, por exemplo, das rivalidades entre membros da colônia e a incapacidade de trabalho conjunto - e não que fossem elas relacionadas ao regime fascista, muito embora no caso da cidade de Campinas e na região em estudo, em 1937, o fascio se apresentasse bastante ativo14.
Tivemos nesta região ora enfocada diversas associações italianas e, muitas delas, fascistizadas, mesmo porque o que foi original no fascismo, como aliás afirmou Bertonha, era sua identificação com a italianidade. No entanto, nas várias entrevistas que realizei com italianos e descendentes de antigos moradores de Sousas, Joaquim Egídio e Campinas, constatei profundo silêncio em relação a este assunto. Quando lhes indagava sobre a experiência da perseguição aos italianos, respondiam superficialmente, mudavam rapidamente de assunto, levando a conversa para outros temas. Tal atitude, permeada de silêncio, entrecortando a fala, deixou claro que o silêncio era proposital e que aquele assunto lhes trazia ainda ressentimento, mágoa e mesmo rancor.
Todavia, os embates parecem que foram amenizados pela associação da italianidade (que vem sendo a peleja contínua) à festas alegres e farta culinária, pois, nestes momentos, os conflitos são esquecidos e há até uma aparente união entre eles apesar de suas diversas procedências.
Em verdade, pelo menos na aparência, o sentimento de italianidade ainda orienta os descendentes de italianos nestas regiões estudadas o que me permitiu poder utilizar, para o hoje, o que disse BUCCELI (1912): (...) mantenendo il suo spirito sempre educato a quei mobili sentimenti d´italianità, che sono la guida constante dei nostri imigranti nel Brasile15.
ha ainda orientando os descendentes de italianos nesta apidamente de ass22/1943.as v Frente ao grande contingente de italianos nessas áreas culturais que estudamos não seria de se estranhar o número significativo de sociedades criadas sendo que as de socorros mútuos, bem assim outras instituições étnicas e a própria família, representaram, com bem assinalou LUCA (1990)16, o lócus de preservação da solidariedade étnica. Desta maneira, poderiam falar sua língua, rememorar as experiências, além de celebrar datas e valores significativos.
Assim, onde estivessem algumas dezenas de peninsulares, logo surgiria uma associação que sempre manteve espírito individualista o que constituiu sério obstáculo para o florescimento e continuidade da maior parte das associações.
Com seus estandartes, bandeiras e com número variável de participantes, as associações italianas promoviam comemorações principalmente em suas datas nacionais (onde era indispensável a presença da banda musical).
Em Campinas, desde o final do século XIX várias sociedades foram formadas e, em 1883, foi fundada a XX de Setembre que além de bailes promovia piqueniques no Bosque das Caneleiras (hoje Jequitibás), além de festas típicas italianas.
Foi muito comentada pela imprensa campineira da época a festa promovida por esta Sociedade em julho de 1897, em homenagem à memória de Sadi Carnot, sendo que um grande baile teve lugar no Salão Vitória, o mais imponente da Campinas de então. Mas, a imprensa ainda deu vivo destaque à discussão havida durante a comemoração entre o presidente da XX de Setembre - Vito Zaccara - e Antônio Vignone, que conduzia a Famigliari Regina Margherita. O desentendimento, fruto da rivalidade existente entre ambas, foi decorrente de a Regina Margherita estar com saldo em sua conta menor que a XX de Setembre, além do número de sócios desta última associação ser maior.
Como se vê os motivos nem sempre eram relevantes e, com isto, as sociedades iam se enfraquecendo. Pouco tempo depois estas duas deixaram de existir, cedendo lugar a outras que se dedicaram principalmente à manutenção de escolas onde o prioritário era o ensino do italiano, mas sem deixar de lado a função assistencial.
Quando o movimento operário começou melhor se definir, por volta dos 1900, após a fundação da Lega Democrática Italiana, que reunia anarquistas, socialistas e republicanos com objetivo de enfrentar outras associações italianas de caráter nitidamente patriótico, a italianidade tomou novo fôlego onde o significativo foi que ninguém mais deveria se sentir como um exilado nestas áreas culturais
A Società Confederatta Italiana, fundada em Campinas no ano de 1884, tinha como ponto de reunião a Escola Corrêa de Melo, tendo como principal orientador Próspero Bellinfanti.
Promoveu a Confederatta muitas reuniões festivas na fábrica de cerveja existente no bairro Guanabara em Campinas e isto porque era usual uma sociedade italiana quando ainda não possuía sua sede, alugar salões da cidade para realizar seus bailes, quermesses, que eram freqüentes por ser uma forma de angariar boa soma de dinheiro para prosseguir com a construção da sua instituição.
A imprensa noticiou a importância principalmente das festas de aniversário promovidas tanto pela Confederatta, quanto pela XX de Setembre, por atraírem diferentes segmentos da comunidade italiana da região.
A Confederatta teve também reconhecimento pela grandiosidade com que apresentava as festas comemorativas de sua fundação, onde não faltavam palestras, conferências a cargo de renomados oradores da época, entremeadas de concertos vocais, orquestrais e por vezes com solistas.
Fundou ainda a Confederatta uma escola noturna, com duas salas de aula, que funcionaram no edifício da Escola Corrêa de Melo (Largo do Jorumbeval) e que teve duração efêmera. Mas, a 7 de junho de 1885 chegou a diplomar seus alunos.
A rivalidade com os italianos que fundaram o Circolo Italiani Uniti foi uma das principais causas do desaparecimento da Confederatta. A luta surda entre ela e o Circolo, após a fundação deste último, acabou provocando sério conflito entre ambos sendo que a 4 de agosto de 1885, no armazém da firma Rafael Badogli & Cia., localizada em ponto estratégico da cidade - Largo do Teatro - os dois grupos de italianos antagônicos entraram em violento conflito, repleto de tapas e bofetões, culminando com o assassinato de um dos sócios da Confederatta - Giuseppe Catani17.
A diretoria do Circolo publicou expressiva nota pela imprensa lastimando o incidente e que na verdade nada tinha a ver com o acontecido, pois, (...) certamente foram indivíduos, poucos, felizmente, de ânimo irrequieto, que por simples capricho incitam rivalidades, insuflam ciúmes mesquinhos, pequeninos e inexplicáveis em prejuízo da colônia italiana (...) nosso intuito é zelar pela moralidade e pelo bom caráter da colônia italiana, procurando dissipar preconceitos (...)18.
Voltaram estas associações após o incidente a uma aparente cordialidade, conforme foi noticiado pelos jornais Diário de Campinas e Cidade de Campinas.
Em Joaquim Egídio, o mais rural dos Distritos de Campinas, a Sociedade fundada também por italianos foi a Vittorio Emanuele III. Poucos vestígios dela restaram. O que se tem notícia é que foi contemporânea da de Sousas e encerrou suas atividades nos primórdios da década de 1970. Passou por uma série de dificuldades segundo as falas dos depoentes ouvidos, sendo que a mais grave delas foi de ordem econômica, uma vez que o terreno onde a sede estava localizada teve problemas com impostos atrasados. Atualmente a Subprefeitura de Joaquim Egídio destinou o espaço para a construção de um Posto de Saúde.
Enquanto funcionou, sobretudo por ser a região voltada às práticas do campo, suas esporádicas reuniões ocorreram sempre em homenagem à Vittorio Emanuele III, embasadas, pois, na saudade, procurando resgatar as origens de uma Itália que poucos vivenciaram, esquecendo-se que a maior parte é descendente de imigrantes e que as experiências foram de seus nonos e não deles. Poucas vezes realizaram bailes, mas, o assistencialismo foi lá marcante.
A sociedade fundada em Sousas - Società Italiana Lavoro e Progresso - data de 21 de agosto de 1894. A construção de sua sede social principiou a partir de 1898, em terreno doado por Maria Franco de Moraes Salgado, tendo sido concluída em 190019.
Os ideais de ajuda mútua (mutuo soccorso), trabalho (lavoro) e fraternidade (fratellanza) motivaram sua criação.
A partir de 1929, quando da visita do Vice-Cônsul Camilo Leonini à Società, em decorrência de sua declaração elogiosa, passou a ser conhecida também como sendo o Faro Puro d´Italianità.
Em 1938, frente a perseguição do governo Vargas aos italianos, o nome da Società teve que ser modificado, recebendo a denominação de Sociedade Beneficente de Sousas.
Durante as entrevistas que realizei com italianos e descendentes, constatei haver total silêncio sobre este período do Estado Novo; os depoentes se omitiram ou refutaram qualquer indagação neste sentido, o que me levou a inferir as marcas negativas que ainda persistem na comunidade ítala sousense.
O estatuto da Società, segundo a fala de vários depoentes, apontava não apenas os objetivos dela, bem assim a organização e hierarquia internas, o procedimento e deveres dos associados e membros da diretoria administrativa, destacando que os sócios (apenas homens) deveriam ser indivíduos probos e trabalhadores.
Já desde os primeiros anos de funcionamento desta sociedade, os italianos residentes em Sousas recebiam auxílio quando doentes e impossibilitados de trabalhar, as famílias italianas eram amparadas se ocorresse o falecimento do chefe da casa, além de poderem participar das manifestações artísticas e culturais que a Società promovesse.
la Befana é o mais antigo ritual que esta instituição revive até hoje com a intenção de educar as crianças e de manter viva sua tradição. é uma expressão advinda da popularização do termo Epifania e a comemoração ocorre no mês de janeiro quando da visita dos Reis Magos ao Menino Jesus.
São mantidas também as festividades alusivas a sua fundação e há cerca de dois anos foi reativado o curso de italiano em sua sede com o intuito de divulgar e fortalecer o conhecimento da língua, além de preservar a solidariedade, amizade e o amor à pátria distante.
Constitui, pois, a história das muitas sociedades italianas, sobretudo dessa região paulista, uma pesquisa ainda a ser efetuada frente as diferentes maneiras de terem elas e/ou não se afirmado, seus conflitos, desenganos, ambigüidades, a articulação de suas relações sociais, seus sistemas de representações, a fim de que possamos reconstituir um passado/presente repleto de acontecimentos que ainda na atualidade se refletem singularmente em diversos ângulos de nossa realidade.
Notas
1 Arquivo do Estado de São Paulo. Terras e Colonização, Cx. 2, 1888, Ms.
2 CUSANO, Alfredo. Italia d’oltre mare (impressione e ricordi dei miei cinque anni di Brasile). Milano, 1911, p.192.
3 Arquivo do Estado de São Paulo.Terras e Colonização, Cx. 2, 1888, Ms.
4 RIOS, José Artur. Aspectos políticos da assimilação do italiano no Brasil. São Paulo, s/e, 1950, p.19.
5 PARKS, Tim. Uma educação à italiana: um inglês descobre como se faz um italiano. São Paulo, Ed. Publifolha, 2003, p. 26.
6 BERTONHA, João Fábio. Os Italianos. São Paulo, Ed. Contexto, 2005, p. 11.
7 ESTRELLA, Estevam. "Republica Social V", in: Aurora Social, Recife, dez 15, 1901, nº. 16.
8 Foi assim que as festas nacionalistas italianas foram incluídas nas que realizaram (AM) em Campinas e, aos poucos a identidade local era substituída por uma identidade italiana onde alguns conflitos surgiram pela rivalidade entre os membros componentes das várias associações frente às diferenças regionais dos imigrantes que as compunham.
9 LESSER, Jeffrey. "O hífen oculto". In: A negociação da identidade nacional: imigrantes, minorias e a luta pela etnicidade no Brasil. São Paulo, Ed. Unesp, 2001, p.23.
10 Sobre o assunto ver, entre outros: BRITO, Jolumá. História da Cidade de Campinas. Campinas, s/e, 1969, v.26, p. 75 e segs.; SESSO JÚNIOR, Geraldo. Retratos da Velha Campinas. Campinas, Ed. Gráfica Palmeiras Ltda., 1970.
11 ESTRELLA, Estevam. Op. cit.
12 SEVá, José. Eles vieram de longe. Campinas, Ed. Livr. João Amêndola, 1961, p. 43/44.
13 SEVá, José. Op. cit., p. 140.
14 BERTONHA, João Fábio. Sob o signo do fascio: o fascismo, os imigrantes italianos e o Brasil, 1922/1943. Tese de doutorado, Campinas, IFCH/Unicamp, 1998, p.142 e 192.
15 BUCCELI, Vittorio. Libro d´Oro dello Stato di S. Paolo. Roma, Incisione e Stampa dello Stabilimento Fratelli Capaccini, 1912, p. 195.
16 LUCA, Tânia Regina de. "As sociedades de socorros mútuos italianas em São Paulo". In: BONI, Luís Alberto de (org.). A presença italiana no Brasil. Porto Alegre, Escola Superior de Teologia, 1990, v.II, p.389.
17 Sobre o acontecido ver: Diário de Campinas. Campinas, agosto 5, 1885.
18 Idem, agosto 30, 1885.
19 Ver: Diário de Campinas. Campinas, março 21, 1900.
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