Estanislau Severo Zeballos: artíficie da política armamentista argentina no início do Século XX
Na primeira década do século XX, Brasil e Argentina empreenderam uma corrida armamentista sem precedentes na América do Sul. Tendo em vista um projeto de conquista da hegemonia regional, vão aderir à política da "Paz Armada", formando uma verdadeira mentalidade armamentista nos dois países. Na Argentina, um dos maiores entusiastas da "Paz Armada" foi Estanislau Severo Zeballos, titular do Ministério das Relações Exteriores e Culto em três oportunidades, nas presidências de Juarez Célman (de 10.09.1889 a 14.04.1890), Carlos Pelligrini (de 22.10.1891 a 12.10.1892) e Figueroa Alcorta (de 21.11.1906 a 22.06.1908), além de exercer o mandato de deputado em várias legislaturas. Zeballos utilizou largamente a imprensa para divulgar suas idéias, notadamente la Prensa (do qual foi editor), la Razón e El Sarmiento. No entanto, é através das páginas da Revista de Derecho, Historia y Letras, da qual foi fundador e editor, que melhor se pode conhecer seu pensamento e a defesa intransigente que fazia de uma Argentina preparada belicamente para enfrentar o Brasil.
Em função da situação política interna, alguns agentes acabam se destacando na tomada de decisões nas relações internacionais. Num dos estudos clássicos das relações internacionais, Pierre Renouvin & Jean-Baptiste Duroselle já destacavam que "estudar as relações internacionais sem levar em alta linha de conta concepções pessoais, métodos, relações sentimentais do homem de Estado, é negligenciar um fator importante, às vezes essencial."1
Quando lançamos um olhar sobre a história das relações internacionais da Argentina, percebemos que um personagem ocupa lugar de destaque: Estanislau Severo Zeballos, que capitaneou uma parte significativa da campanha anti-brasileira, seja na condição de Ministro das Relações Exteriores ou na de jornalista. Para fazer frente à postura "agressiva" e "imperialista" brasileira era necessário que a Argentina também possuísse um parque bélico condizente com a sua grandeza. Já em 1884, Zeballos explicitava sua preocupação com a marinha de guerra de seu país, ao afirmar que "nosotros marchamos muy Lentamente, señores, en materia de marina. El patriotismo nos hace anhelar una poderosa armada."2 Em 1889, como Ministro das Relações Exteriores e Culto, Zeballos defende que era necessário a Argentina armar-se para sobreviver e por isso sustentou a conveniência de adquirir armas que desse ao país "una segura superioridad operativa."3 Por isso agilizou a aquisição do fuzil alemão para o exército argentino, conforme suas própriAs palavras:
Fui autorizado a telegrafiar al ministro argentino en Alemania, el señor Calvo (Carlos), encargándole de pedir autorización al Kaiser para adquirir 100.000 fusiles y 20.000 carabinas "Mauser". El gobierno alemán negó el permiso, por razones muy fundadas, pero, confidencialmente, nos hizo saber que consentiría la fabricación de un fusil igual, en las partes vitales, con alguna modificación que le diera tipo proprio. Tal es el origen del Mauser argentino.4
Em 1899, fora do governo, Zeballos volta a defender que a argentina deveria possuir força bélica para cumprir seu papel na América do Sul. Deixa explícita sua concepção do "Destino Manifesto" argentino: "la República Argentina necesita transformarse gradualmente en potencia naval, si há de cumplir su misión política en el futuro del Mundo." Devido a sua situação no continente, "la republica Argentina no podrá substraerse á la ley natural de la agresion, que gobierna el desenvolvimiento de los pueblos robustos, predestinados á señalar hondamente su paso y su dominio en los continentes y en los mares."5 Diante deste posicionamento, o Ministro da Marinha, Comodoro Martín Rivadavia, em julho de 1900, felicita-lhe por se preocupar "con tanto interés del porvenir de nuestra escuadra y esto ya constituye un motivo de satisfacción para los que trabajamos con todo ánimo y en la medida de nuestras fuerzas, en prol de su progreso moral y material." O Ministro dizia-se convicto de que sua esquadra desempenharia um papel preponderante, único, em caso de um conflito internacional, mas que o país deveria adquirir mais elementos navais para reforçar seu poder.6
Zeballos ao preocupar-se com as forças de defesa de seu país aderiu às teses geopolíticas de Alfred mahan - o "Evangelista do Poder Naval" - quando preconiza um papel preponderante à marinha:
El capitán Mahan há probado con el examen prolijo de la Historia, que la supremacía política de las naciones y su imperecedera influencia exterior, tiene por base la organización sólida y eficiente del poder naval de las naciones, de manera que en cualquier momento inesperado puedan sus naves reunirse en Número suficiente para imponer respeto o descargar golpes certeros [...] A fleet in being.7
Quando, em 1904, o Brasil elabora um projeto de rearmamento naval, Zeballos passa a denunciar o Pacto de Equivalência Naval firmado com o Chile em maio de 1902, que pôs fim à corrida armamentista entre os dois países e impedia a argentina de adquirir mais armamentos. Afirmava que "ninguma nación organizada, ningún diplomático avisado, conciben que un país - no vencido - subscriba pactos que limiten su soberanía, que coarten su acción política en el exterior, que suspenda pro tempore el derecho de proveer á su propria seguridad."8 Defendia o direito do Brasil armar-se, devido a extensão de seu litoral. Na sua opinião, para o povo brasileiro, a reorganização do poder naval era "además de necesaria, punto de amor própio nacional!" No entanto, acreditava que os armamentos propostos eram exagerados, o que levaria a "constituir una fuerza superior á todos las flotAs suramericanas reunidas y que ocupe el séptimo rango entre lAs potencias marítimas." O governo brasileiro estaria olhando além da seguridade das costas marítimas do País e o que estaria no horizonte era a constituição de um poder naval ofensivo, que responderia aos ideais de ordem local e internacional. Alegando que estes ideais são "determinados siempre por la posición geográfica e estratégica de las naciones; y el Brasil se encuentra ubicado entre las grandes potencias al norte y la República Argentina al Sur," Dizia ser ingenua a versão que o Brasil estaria se armando para se proteger contra agressões de alguma potência: "Se arma para superar la fuerza naval argentina, que ahora es superior á la suya en el sur. He ahí el estímulo de su previsión internacional." Porém, ao menos naquele momento, Zeballos acreditava que "no hay el propósito de un ataque á la República Argentina," até por as relações eram cordiais, embora a imprensa no Brasil continuasse "cavilosa y alarmista a nuestro respecto." apesar das palavras em tom pacífico, lembrava que Brasil e Chile, durante cinqüenta anos, tinham sido solidários na defesa comum e na hostilidade para com a Argentina. Enquanto esta possuía a supremacia naval, se não houve alarmes no Brasil, foi devido ao fato de que à frente da esquadra argentina se encontrava a do Chile, garantindo assim, a seguridade regional.9
Para Zeballos, o Brasil possuía interesses diretos no prata, e que as boas relações existente entre os dois países naquele momento poderiam mudar. Por isso, pondera: "el Brasil lo prevee y adopta precauciones." Criticava os países, entre os quais incluia a Argentina, "que por cobardía del espíritu público ó por lirismo de sus estadistas hayan soñado que les es posible vivir fuera de la regra universal, es decir, sin armamentos proporcionados". Para ele, países que adotavam este procedimento pacífico, confiando na cordialidade internacional, "harían bien de abdicar de una vez su soberanía, ingresando como colonias inermes de las grandes potencias." De qualquer forma, dizendo temer os riscos de uma corrida armamentista sem precedentes, defendia que os armamentos navais deveriam ter um limite. "Ni el Brasil Necesita la formidable armada que ordena, ni nos conviene seguirlo en el in promptu!". Defendia que a diplomacia deveria agir por três caminhos: 1) Negociar diretamente com o Brasil um plano naval proporcional, econômico e racional, que eliminasse todo perigo momentâneo e futuro; 2) Convidar o Chile, em nome dos pactos de Maio, para juntos pressionar o Brasil para que desistisse de lançar a América do Sul numa nova era armamentista; 3) Denunciar o pacto argentino-chileno de limitação de armamentos e usar do direito que invocava a imprensa brasileira, em defesa das costas marítimas. Dizia preferir o primeiro caminho e estabelecer uma equivalência naval com o Brasil, que caso não a aceitasse, significaria para o governo argentino uma séria advertência e daria razão a todos os que combateram os pactos de limitação de armamentos, que debilitava a argentina e a colocava em "una peligrosa situacion de inferioridad internacional." Num tom quase profético, Zeballos alertava: "Es necesario obrar; nueve meses perdidos em armamentos navales sueles a la larga significar desastres irreparables como el de Porto Arthr".10
Quando, em novembro de 1906, Zeballos é chamado a ocupar Novamente o Ministério das Relações Exteriores e Culto, jornais que estavam engajados na campanha pró-armamentos vão aplaudir a nomeação.11 Por outro lado, jornais mais comedidos, como El Diário, vão demonstrar preocupação com os rumos que a política externa argentina poderia tomar, uma vez que
un sujeto que durante veinticinco años há estado predicando la guerra con todo el mundo, á quien no há satisfecho ninguna paz y para quien el armamento del país es una cuestion esencial, porque el país tiene á la fuerza que pelearse con alguién, Chile, el Brasil ó el demónio - un sujeto en tales condiciones de mentalidad, puede ocasionarse las mas ingratas sorpresas.12
O ano de 1908 foi particularmente difícil nas relações entre Brasil e Argentina, representando o apogeu do aguçamento da rivalidade entre os dois países e o fantasma de um conflito armado esteve presente, justificando assim as preocupações em aumentar as forças de guerra em ambos os países.
No início de 1908, começou a circular um folheto chamado Correndo o Veo - Segredos da política Internacional Sul Americana,13 que continha o discurso proferido por Zeballos na Comissão dos Notáveis14 em 1906, que atribuía ao Brasil planos de um expansionismo agressivo: "el Brasil es una potencia expansiva y de grandes ambiciones territoriales, a pesar de que no puede poblar, ni civilizar todo el território que recibió en herencia." Em sua opinião, a política expansionista brasileira estaria ligada a um determinismo geográfico: "más que al Acre y más que Iquitos, el Brasil aspira a la República Oriental del Uruguay y a la República del Paraguay, por razones elementares, de que debe hacerlo así, como una consecuencia natural de las necesidades de su soberania dada su situación geográfica."15 Diante disso, a Argentina, obrigatoriamente, teria que armar-se. A imprensa de Buenos Aires fica dividida em relação à autoria do referido documento. O jornal El Diário publica o texto como sendo da autoria de Zeballos, que teria afirmado: "la paz armada no es consejo de ningun argentino... la paz armada es una ley universal, como las corrientes del Oceáno, ó los templores de tierra. ¿Quién puede evitarla?"16 El País também sustenta a autenticidade do discurso como sendo de Zeballos.17 A imprensa zeballista logo declara que o texto é apócrifo.18 la Razón levanta a possibilidade do texto ter sido redigido pelo Barão do Rio Branco ou por Antonio Bachini, Ministro das Relações Exteriores do Uruguai, que mantinha excelentes relações com o Ministro brasileiro.19 Ironicamente, El Diário comenta os desmentidos: "encuanto á la forma, forzoso es reconocer que el desfachatado falsificador conoce endiablamente bien el estilo del doctor Zeballos, pues parece, en efecto, que se le estuviera oyendo."20
Os efeitos do texto Correndo o Veo nas relações bi-laterais foram devastadores. No entanto, houve quem classificasse o discurso de Zeballos como o de um estadista. Do Rio de Janeiro, indalecio Gomes comunicava que o embaixador americano, Irving Dudley teria dito que através daquele discurso Zeballos "dió pruebas al hacerlo de ser un hombre de Estado que há visto de lejos lo que convenía á la tranquilidad de su país, y que reune la energia y suficiente patriotismo para sostener sus convicciones aún contra la opinion de sus propios conciudadanos."21
Influenciado por seu Ministro Zeballos, o presidente Figueroa Alcorta, ao encaminhar a mensagem anual de 1908 ao Congresso nacional, afirmava que embora a Argentina cultivasse relações cordiais com todos os Estados era necessário modificar o programa naval proposto, com a aquisição de novAs unidades de combate, tendo em vista as forças navais vizinhas. comprometia-se a encaminhar um projeto de lei, entendendo "cumplir con un gran deber y dejará á salvo de su responsabilidad en el presente y para el porvenir."22
A desenfreada campanha pró-armamentos, dirigida por Zeballos, fez com que alguns setores políticos e da opinião pública passassem a gestionar sua queda do Ministério, o que acabou acontecendo em junho de 1908.23 Muitas vezes, Zeballos havia dito que era o Ministro mais sólido do gabinete do presidente Alcorta. Ao mesmo tempo, de acordo com Domício da Gama, um amigo argentino teria expressado o sentimento de vários setores da opinião pública do país em relação à Zeballos: "todos pueden comprar y conservar en casa una arma cargada, pero jamAs cuando se vive en companhia de un loco."24
Segundo o próprio Zeballos, o presidente Figueroa Alcorta, pessoalmente, teria justificado as pressões que levaram a sua queda do Ministério, nos seguintes termos: "Tengo informes de que en el Senado y la Cámara de Diputados la oposición al proyecto de armamentos no tiene más causAs que la intervención de usted¸proyecto que si fuera presentado por outro Ministro será sancionado sin Dificuldad."25 Dessa forma, a presença de Zeballos, e seu discurso agressivo, Dificultava a aprovação do projeto de lei que previa o rearmamento nacional. à Roque Sáens Peña, Ministro Plenipotenciário argentino em Madrid, Zeballos comunica que "tenía las pruebas escritas y firmadas por el mismo Barón de Rio Branco, de que se prepara a agredir a la república Argentina, una vez que tenga su supremacía naval absolutamente asegurada: son sus palabras." Diante dAs provas concretas da agressão brasileira, "desarrollé un plan político de diplomacia defensiva para aislar al Brasil y robustecer el ambiente moral de nuestro país." Nesta correspondência ele relata seu último plano como Ministro: proporia ao Brasil uma negociação diplomática, "para exigirle la división de su escuadra con nosotros." O Brasil teria que ceder à Argentina um dos grandes navios couraçados que estavam em construção. Nesta negociação, "comenzaríamos con discreción y amabilidad para evitar rozamientos de amor próprio." Caso o Brasil apresentasse resistência a este plano, a Argentina daria um ultimatum e "entonces le daríamos al Brasil ocho días de plazo para resolver su situación", ao final dos quais a marinha argentina atacaria o Rio de Janeiro, "que según los Ministros de Guerra y Marina, era un punto estudiado y fácil, por la situación indefensa del Brasil." Este plano foi discutido no dia 10 de junho, com todo o ministério e com a presença do presidente Figueroa Alcorta. No dia 12, Zeballos apresentaria no Congreso nacional a documentação secreta e o plano de operação, objetivando "pedirle los fondos necesarios para la movilización del ejército y de la escuadra." No entanto, para surpresa de Zeballos, já no dia 11 de junho, começou a aparecer detalhes do plano, que deveria ter sido mantido em sigilo, no la Nación, abortando assim o referido plano. Zeballos encontrou no Ministro da marinha o culpado pelo fracasso: "el Ministro Betbeder, roquista, que había votado el plan muy satisfecho y lamentado que no se hubiera puesto en práctica en Abril, cuando la escuadra estaba movilizada, había hecho la revelación con el propósito de sublevar la opinión en contra mía."26 Sofrendo intensa pressão política, o presidente Figueroa Alcorta propôs à Zeballos seu relocamento para o Ministério da Justiça e Instrução Pública, que não aceitando a proposta, comunicou ao presidente sua renuncia ao ministério, em 16 de junho de 1908.
Em texto publicado em agosto de 1908, mas que deve ter sido escrito ainda na condição de Ministro, Zeballos afirma que a garantia de paz, da riqueza, da integridade e da honra da Argentina repousavam num enérgico fortalecimento das forçAs de mar e terra. Por isso alertava: "la marina de guerra es uma de las instituciones nacionales que reclamam simpatia y atención de los hombres de Estado." Considerando a situação brasileira, concluía: "Dentro de diez meses será tarde!".27
Por ocasião de sua renúncia, Zeballos afirmou possuir documentos firmados por Rio Branco em que ficava explícita a política agressiva brasileira. Em setembro de 1908, o ex-Ministro argentino novamente ataca a política "pacifista" de Rio Branco. "Desgraciadamente los armamentos del Brasil Dicen lo contrario y lo dice explicitamente además, la cancilleria de Itamaraty." A política oficialmente pacifista, segundo Zeballos "es mantenida a fin de sugestionar, de uniformar hasta extremos peligrosos para el Brasil mismo, el odio y el ardor bélico del pueblo brasileño contra la República Argentina."28. A documentação a que se referia Cevallos era um telegrama de Rio Branco à Legação no Chile. Acontece que este telegrama foi interceptado por ordem de Zeballos e seu conteúdo foi divulgado de forma distorcida. Diante deste episódio, a tensão entre os dois países chegou ao ápice.
Mesmo fora do governo Zeballos continuou a comandar a opinião pública favorável ao rearmamento do país para fazer frente ao Brasil. Durante o segundo semestre de 1908, percorreu as principais cidades argentinas, participando dos "meetings" que, oficialmente organizados pela Juventude Universitária, tinha como objetivo convencer a população da necessidade do país adquirir armamentos. No "meeting" de la Plata, Zeballos afirma que a "paz armada" na América do Sul teve início com a lei de armamentos do Brasil, obrigando a Argentina a preocupar-se também com um programa semelhante, embora com dois anos de atraso. A atitude do Brasil fez com que o Uruguai passasse a reivindicar a jurisdição sobre as águas do Rio da Prata, a ilha de Martin Garcia e As bocas dos mais importantes canais do estuário. Garantia que "habia leído las pruebas de que esa política agresiva del Uruguay, débil contra nuestro país fuerte, era la obra de la cancillería brasileña."29 O Presidente do "meeting" de la Plata, Oliverio W. Cominos, Discursando para milhares de pessoas, afirma que
El Brasil es un peligro para todas las naciones hispano-americanAs que lo rodean y á todos debe preocupar la actitud que nuestro país asuma en presencia de su desmesurada prepotencia militar. [...] Los estudiantes argentinos creemos que nuestro país debe fijar su potencia militar y naval con relación á la potencia del Brasil, creemos que el país debe armarse ya que el Brasil no guarda el equilibrio por su desarme...30
Nos demais "meetings" realizados nas cidades mais importantes do País, a tônica dos discursos era a mesma: o Brasil havia se armado para atacar a Argentina e esta deveria responder à altura.
Também pela imprensa Zeballos ataca a política de Rio Branco, questionando os motivos que o faziam não aceitar uma equivalência naval com a Argentina: ¿por qué no se conforma con la mitad de su nueva escuadra?"31
No mundo diplomático argentino as repercussões da carreira armamentista também serão intensas, com informações que nem sempre se confirmaram. O Ministro Plenipotenciário argentino em Berlim, Indalecio Gomes, comunicava que o próprio Kaiser Guilherme II, estava preocupado com a política expansionista brasileira e os perigos que ela representava para a Argentina. O Kaiser teria aconselhado o governo argentino a adquirir com urgência navios de guerra na Alemanha, país que havia lançado um amplo plano de expansão marítima.32 No ano seguinte, Indalecio Gomes informa que a casa Krupp preparara planos de dois couraçados de 20.000 toneladas, para a República Argentina. Aproveita para encaminhar uma lista dos estaleiros de primeira ordem, existentes na Alemanha, "de los que no convendría prescindir, al pedir planos y propuestas."33 Julio Fernandez, Ministro Plenipotenciário da Argentina no Brasil, fornece munição à campanha armamentista, ao comunicar que o Ministro da França no Brasil, Mr. anthoüard, estava preocupado, pois a França era um dos grandes credores do Brasil e tinha o dever de cuidar dos capitais facilitados para obras produtivas e não para aventurAs insensatas, mas que "la prudencia nos aconsejaba precavernos."34 O Ministro uruguaio no Brasil, Coronel Dominguez, em tom de confidência teria dito: "el sr. Zeballos tenía mucha razón en lo que pensaba. Vos necesitan armarse, porque ésta gente se arma contra vos, y solo esperan estarlo para tratar de imponerselas y hablar fuerte." Diante da possibilidade da agressão brasileira, teria recomendado: "Vos deben armarse no solo para su propia defensa sinó también para las de todos nosotros los vecinos débiles. Esta es una gente á quien nada se puede creer."35 isto tem um significado maior se consideramos que o Ministro argentino em Copenhague informa que Brasil e Uruguai estavam adquirindo armamentos: "El Brasil compró el pasado año 300 ametralladoras de este sistema y ahora está en tratos para adquirir 2.700 más, que será entregadas en 1910-1911. Figura, entre estas, cierto número de la ametralladora con cañon refrigerado por agua."36
Ainda como ministro, Zeballos chegou a propor uma equivalência naval entre Brasil e Argentina, proposta recusada por Rio Branco. No entanto, na Argentina ela continuava a ser discutida. O Ministro dAs Relações Exteriores, Victorino la Plaza comunica a Epifanio Portela, Ministro Plenipotenciário nos EUA, que o governo de Figueroa Alcorta via com satisfação a iniciativa de E. Root, Secretário de Estado Norte-americano, de promover esta equivalência naval.37 Com a equivalencia "muy probable es que evitaríamos en gran parte los gastos en armamentos á que de otro modo nos veremos obligados á consecuencia de los preparativos bélicos del Brasil." Se o Brasil não aceita a equivalência, "su negativa dejaría entrever sin duda ni vacilación, que abriga un mal propósito á nuestro respecto." O Senado demora em aprovar o projeto sobre armamentos e la Plaza queixava-se que "la demora es lamentable como digo, porque si se hubieran decretado esos armamentos, me parece fuera de duda que, ó hubiéramos llegado yá á un advenimiento de equivalencia," ou caso contrario "habríamos adoptado una política adecuada á las circunstancias en que nos encontraríamos colocados."38
Com toda a campanha empreendida pela imprensa, incutindo a Necessidade do país armar-se para fazer frente ao Brasil, é aprovada a lei nº 6.283/1908, que previa o gasto de 75 milhões de pesos, em seis anos, na aquisição de armamentos. Diante disso, o Ministro brasileiro em Buenos Aires pode afirmar que a campanha anti-brasileira foi necessária para aprovação dos gastos militares. Afirma que no governo Alcorta "figuram homens que nos são visivelmente hostis, contaminados pelo ódio do sr. Zeballos e que ainda d’elle recebem inspiração e apoio intelectual. Por que, em que peze aos argentinos que d’isso se envergonham e o negam, o sr. Zeballos não é homem morto nessa terra."39
Zeballos, que no julgamento de Miguel Angel Scenna, agia "impulsionado por un nacionalismo primario, agresivo, ingenuo, y por su imbatible aborrecimiento al barón de Río Branco"40 continuou "mostrando" aos argentinos que o Brasil representava um grande perigo, comparando-o ao Império austríaco, na questão de armamentos.41 Argumentava que a República Argentina estava sozinha, mas que era "más fuerte que todos los países de la América del Sur coaligados.42 Alegava que o ódio em relação à Argentina e, especialmente em relação à ele, Zeballos, temas obrigatórios "de la prensa subvencionada de Río de Janeiro" na realidade não existiam: "son patrañas que el Restaurant Internacional do Itamaraty divulga para hacer creer al pueblo brasileño que está amenazado y que debe armarse defensivamente."43
Quando o Brasil firmou o tratado com Uruguai (1909), concedendo o direito de navegação na Lagoa Mirim e no Rio Jaguarão, através das páginas de la Prensa, Zeballos apelou para que se mandasse construir todos os navios de guerra que o governo tinha sido autorizado.44 Por ocasião da morte de Rio Branco, em fevereiro de 1912, Zeballos lembrava que diante da política imperialista e agressiva empreendida pelo ministro brasileiro, a Argentina se viu obrigada a empreender uma política armamentista.45
O autor argentino que melhor coadunava o pensamento de Zeballos foi Luis P. Tamini, que publicou muitos artigos na Revista de derecho, Historia y Letras. Para ele a guerra com o Brasil seria inevitável, pois "son los dos polos de la aguja imantada que aputarán siempre a horizontes opuestos." No entanto, uma guerra naval de estratégia clássica com o Brasil seria interminável e sumamente dispendiosa. Com o Brasil, teria que ser aplicado um golpe de audácia. "Suscitado un incidente en Río de Janeiro, se puede hacer avanzar inmediatamente la escuadra argentina, con sus jefes preparados a hacerse saltar como japoneses ó ingleses y a penetrar arrogantemente en la Bahía de Rio de Janeiro o hacerse destruir."46 Para Luís Tamini, o Brasil agia inspirado pela Alemanha imperialista. Por isso, considerava o presidente Hermes da Fonseca e o Barão do Rio Branco como discípulos de Clausewitz, o maior teórico militar e inovador da estratégia do século XIX. Agregava que isto deveria servir de "respuesta á los que nos hablan d'entente cordiale entre el Brasil y la Argentina."47
Ao longo da sua existência como homem público, Zeballos foi um batalhador incansável para que seu país tivesse um parque bélico condizente com sua pretensão de grandeza. Como conclusão, damos a palavra ao Contra-almirante Segundo R. Storni, que na homenagem que a marinha lhe presta, por ocasião da sua da morte, ocorrida em 1923, Zeballos
vino a ser uno de los estadistas argentinos que mejor comprendieron los problemas defensivos marítimos. Y así La Marina, en el Parlamento, en la prensa, en el gabinete de estudio, como en el despacho del gobernante, en la tertulia de familia como en su acción social no interrumpida hasta la muerte, tuvo en él un impulsor entusiasta, un sostenedor tenaz, una propagandista incansable [...] la Marina debe al Dr. Zeballos un homenaje eterno de recordación, por haber sido el más entusiasta, constante y vonvencido propulsor de su engrandecimiento, para mantenerla siempre a la altura de su alta misión de primer baluarte de la soberania nacional.48
Notas
1 RENOUVIN, p. & DUROSELLE, J. B. Introdução à História das Relações Internacionais. São Paulo, DIFEL, 1967, p. 6.
2 Discurso proferido no Instituto Geográfico Argentino, para alunos da Escola naval, em 03.11.1884, In: ZEBALLOS, Estanislao Severo. "Misión de la Marina Nacional en el Mar Polar del Sur.". Revista de Derecho, Historia y Letras. Buenos Aires, T. XVII, ene. 1904, p. 336. (Esta revista será mencionada como RDHL)
3 ETCHEPAREBORDA, Roberto. Zeballos y la política exterior argentina. Buenos Aires: Pleamar, 1982, p. 13.
4 AlgunAs Cartas. Correspondência con Miguel Cané. In: RDHL. T. XXII, p. 312.
5 ZEBALLOS, e. S. "Marina Militar: el caso del ‘9 de julio’" RDHL. t. V, nov. 1899, p. 119.
6 Correspondência reproduzida pela RDHL. T. 9, Marzo 1901, p. 7-8.
7 ZEBALLOS. e. S. "la supremacía Argentina en América". RDHL. T. XIII, 1902, p. 473.
8 ZEBALLOS, e. S. "Los armamentos Navales del Brasil". RDHL.T. XX, Dic. 1904, p. 291.
9 Ibid, p. 295-296.
10 Ibid, p. 298-299.
11 Como exemplo, podem ser citados os jornais la Prensa, la Razon e El Sarmiento.
12 El Diário. Buenos Aires, 22.11.1906.
13 a íntegra do texto, com o título "Fundamentos del voto del doctor Don Estanislao S. Zeballos" pode ser encontrado em ETCHEPAREBORDA, R. Op. Cit., p. 75-89.
14 Comissão nomeada pelo Presidente da República, que deveria elaborar um plano de defesa para o país.
15 ETCHEPAREBORDA, R. Op. Cit., p. 81.
16 "Correndo o Veo". El Diário, 18.02.1908.
17 "Correndo o Veo". El País. Buenos Aires, 24.02.1908.
18 Zeballos no diário do Ministério das Relações Exteriores escreveu que "el propósito con que se hace la publicación no puede ser más indecente y antipatriótico, pues se pretende crear conflictos, entre la república argentina y el Brasil y Uruguay, a fim de que estos conflictos me obliguen a abandonar la cartera." (apud SANZ, Luis Santiago. "El Poder Naval y la Junta de Notables de 1906". Estrategia. Buenos Aires, nº 46/47, Mayo-ago. 1977, p. 47.)
19 la Razón. Buenos Aires, 20.02.1908 (3ª edição).
20 El Diário, 19.02.1908.
21 AMREC. ofício -confidencial - da Legação argentina no Rio de Janeiro, 20.09.1908.
22 Mensagem do Presidente Figueroa Alcorta ao Congreso de la Nación. Diario de Seciones. Cámara de Senadores, 11.05.1908.
23 a campanha anti-Zeballos era efetuada, nos meios políticos pelos seguidores dos ex-presidentes Bartolomeu Mitre e Julio Roca, e na imprensa pelos jornais la Nación, El Dario, El País.
24 AHI. correspondência particular à Rio Branco, 18.06.1908.
25 Discurso de Zeballos em sessões secretas da Câmara dos Deputados em 1914. In: ETCHEPAREBORDA, R. Op. cit., p. 59-60.
26 Correspondência confidencial y muy reservada a Roque Sáens Peña, 27.06.1908, publicado por ETCHEPAREBORDA, Roberto. História de las Relaciones Internacionales Argentinas, p. 43-51.
27 CEVALLOS, e. S. "Las Fuerzas Armadas y la posición internacional de la República". RDHL. T. XXX, agos. 1908, p. 517-533.
28 ZEBALLOS, e.S. "Diplomacia Desarmada". RHDL. T. XXXI, Sep. 1908, p. 116. (Grifo nosso).
29 RESURGIMIENTO ciVICO - El Alma Argentina. RDHL. T. XXXI, Nov. 1908, p. 319-320.
30 Ibid, p. 314-316.
31 la Prensa. Buenos Aires, 20.10.1908.
32 AMREC. ofício - confidencial - da Legação argentina em Berlim, 29.06.1907.
33 AMREC. ofício nº 543 - confidencial - da Legação argentina em Berlim, 10.08.1908.
34 AMREC. ofício da Legação argentina no Brasil, 02.08.1908.
35 AMREC. ofício-Confidencial - da Legação argentina no Rio de Janeiro, 09.08.1908.
36 AMREC. ofício 13 - Confidencial - da Legação argentina em Copenhague, 12.05.1910.
37 AMREC. ofício nº 302 - confidencial - à Legação Argentina em Waschington, 11.12.1908.
38 AMREC. despacho à Legação argentina em Waschington, 11.12.1908.
39 AHI. ofício 1- reservado - da Legação brasileira em Buenos Aires, 15.01.1909.
40 SCENNA, M. A. op. cit., p. 292-293.
41 ZEBALLOS, e. S. "Ideas de los hombres de Estado de Europa sobre las paz de las naciones". RDHL. T. XXXII, Enero 1909, p. 94.
42 ZEBALLOS, e. S. "Bolivia!...". RDHL. T. XXXIII, Agos. 1909, p. 583.
43 ZEBALLOS, e. S. "la Futura Presidencia del Brasil". RDHL. T. XXXIV, Nov. 1909, p. 473.
44 la Prensa, 30.10.1909.
45 ZEBALLOS, e. S. "Rio Branco". RDHL. T. LXI, mar. 1912, p. 411-439.
46 TAMINI, Luis P. "Corta Memoria sobre los medios de llegar pacificamente á la reconstrucción del virreinato". RDHL. T. XXXIII, Ago. 1909, 516-520.
47 TAMINI, Luís B. "Política y Guerra". RDHL. T. XL, dic. 1911, p. 556.
48 el doctor Estanislao S. Zeballos y la Marina de Guerra. RDHL. T. LXXVI, 1923, p. 364-365.




