Insurreição no meu quintal: a visão da diplomacia norte-americana em relação a Revolução Cubana. (1958-1960). As primeiras impressões.
A presente pesquisa pretende trabalhar com a percepção da diplomacia estadunidense em relação aos eventos culminantes da Revolução Cubana,entre os anos de 1958 e 1960.O objetivo é entender de que forma os americanos procedem e interpretam de um desafio a sua hegemonia no continente americano, dentro do complexo contexto da Guerra Fria.São objetivos secundários a interpretação do discurso WASP em relação a América Latina, bem como evidenciar o jogo de forças entre Realistas e Idealistas dentro do Departamento de Estado.O Corpus Documenal utilizado é a coleção Foreign Relations of the United States, coletada em jornada de pesquisa nos EUA entre 2003 e 2004.
"Em assuntos de Estado, aquele que detém o poder geralmente tem razão. E aquele que é fraco pode somente, com dificuldades, evitar de estar errado diante da opinião da maioria do mundo"1
O presente artigo tem como propósito apresentar esta pesquisa para a comunidade acadêmica histórica, pela ocasião da 26º Reunião Anual da SBPH. A questão da Revolução Cubana tem sido analisada por diversos historiadores nos últimos quarenta anos. Seu fascínio não parece perder força, tanto no âmbito da História, como no imaginário político latino-americano.Isso acontece em grande parte, por causa de um fenômeno explicável através da citação colocada no começo desta apresentação.Pois, no caso de Cuba temos algo raro na História das Relações Internacionais, o fraco conseguiu prevalecer sobre o forte.Uma revolução que não era consenso nem em seu próprio país e pobre em recursos, foi capaz de primeiramente vencer um governo apoiado pelos norte-americanos, e por fim, conseguir conter os próprios norte-americanos nos últimos 48 anos.
Muito já foi falado sobre a trajetória de Castro e Guevara e muitos já louvaram e amaldiçoaram sua ideologia e seu governo, dentro e fora da academia.Porém existe algo bastante peculiar, que pode chamar a atenção de um historiador mais atento. Existe uma falta de trabalhos acadêmicos de maior profundidade que expliquem a questão da Revolução Cubana, sob a ótica do Estado norte-americano.
Isso ocorre porque pelo lado estadunidense é um tema ainda considerado bastante sensível pelos historiadores estadunidenses de um modo geral. Em termos acadêmicos, isso se reflete em uma produção intelectual mais voltada para temáticas culturais e representações do período revolucionário, em detrimento de uma análise político-diplomática. Já pelo lado da intelectualidade latina, a Revolução Cubana é percebida na maioria das vezes sob o ponto de vista clássico, ou seja, como uma luta de libertação contra uma potência opressora.Existindo pouco interesse por uma análise mais minuciosa do discurso político dos Estados Unidos.
Desta forma, sentindo-se um relativo vazio em relação a uma forma de se perceber este tema, o presente projeto de mestrado decidiu se focar no lado estadunidense dessa História. isso é possível através da Coleção Foreign Relations of the United States, uma das mais conceituadas fontes de documentação para a análise da política externa norte-americana.No caso deste projeto, vamos nos concentrar única e exclusivamente nesta coleção e vamos privilegiar os aspectos políticos e diplomáticos.
Analisar a visão norte-americana pode evidenciar uma série de elementos bastante pertinentes para o entendimento do papel dos Estados Unidos na América Latina. Um destes elementos é o fato de como os americanos concebiam o seu planejamento para a América antes da Revolução e como esse planejamento se altera após este evento.
é sempre importante lembrar que no começo da Guerra Fria as áreas prioritárias da ação americana eram a ásia e a Europa.Poucas vezes os formuladores de política externa dos Estados Unidos acreditaram que passariam em seu próprio continente situações como as que ocorriam em Berlim ou na Coréia.Isso gerou uma situação de desatenção em relação a América,percebida como esfera de influência garantida. isso levou a políticas insuficientes, que aumentavam o descontentamento dos vizinhos dos estadunidenses.
Ao passo que esse descontentamento crescia ao longo dos anos cinqüenta, o medo dos Estados Unidos em relação a União Soviética progredia geometricamente.Havia a nítida sensação por parte dos norte-americanos que a Guerra Fria estava sendo perdida, que o sistema soviético poderia ser mais forte e efetivo do que as democracias ocidentais.Hoje sabemos que isso não representa exatamente a verdade, da mesma forma que sabemos que o fomento do "medo vermelho" em solo americano serviu para atender a muitos segmentos da sociedade naquele momento.
O fato é que a Revolução Cubana veio a se somar com o Sputnik, a bomba de hidrogênio, a Crise de Berlim, o McCarthismo para gerar um "senso derrotista", no que objetivamente é chamado por historiadores como David Halberstam e Hugh Brogan, de "o período mais próspero da História Americana."Apesar de a Revolução ser um momento chave, considera-se o ponto de inflexão da política norte-americana para a América Latina o fracasso na Baia dos Porcos.
Também é um objetivo perceber o discurso WASP na coleção e sua percepção sobre a latinidade de um modo geral.Devemos recordar que esse é ainda um período anterior a luta dos direitos civis nos Estados Unidos, ou seja, certos cargos não estavam a disposição de negros e latinos. O corpo diplomático estadunidense é nesse momento composto em praticamente sua totalidade por esses indivíduos aos quais denominamos WASPS (branco, anglo-saxônico e protestante).
Isso acarreta em um sistema de valores muito bem definidos, e uma mentalidade que com certeza pode ser evidenciada através do discurso diplomático.Velhas noções de "superioridade" e "civilização" são bastante corriqueiras na percepção diplomática estadunidense em relação a América Latina.O caso de Cuba colabora para o reforço deste estereótipo, a medida que suas características sociais e políticas se encaixam naquilo que os americanos entendem como "República das Bananas".
Da mesma forma que se torna pertinente analisar a transição do papel de Cuba na esfera diplomática estadunidense, de nação amiga para inimigo mortal. Essa pequena ilha, situada perto da costa da Florida, sempre chamou bastante a atenção do "gigante do norte".Desde o século XIX, existiam propostas de trazer Cuba para a esfera de poder norte-americana, sendo anexado como um estado da União, ou, apenas transformando em uma espécie de protetorado.
Em 1898, os americanos finalmente tomam uma iniciativa. Ao se aproveitarem do episódio do encouraçado Maine, eles invadem a ilha com o objetivo de revidar a agressão espanhola e dessa forma "libertar" os cubanos do jugo de um regime atrasado e explorador. A ilha logo se tornou uma grande banca dos interesses americanos, como bem de resto toda a América Central. A emenda Platt garantia que os interesses estadunidenses estariam sendo bem guardados.
A ilha era um grande manancial de fornecimento de açúcar barato para os Estados Unidos.Esse era ainda um tempo onde Miami não passava de um pântano com um trilho de trem e uma horda de mosquitos, não lembrando em nada o pólo turístico dos dias atuais.O lugar de férias favorito da elite estadunidense era sim Cuba, que combinava o clima agradável da Florida com a possibilidade de diversão farta e barata.As atividades ilegais desenvolvidas por americanos na ilha era também um negócio bastante lucrativo.Já que com o turismo, aparecia também a jogatina, a prostituição e o tráfico de drogas. Esse com certeza era um cenário corriqueiro de outras repúblicas centro-americanas da época, mas pela sua proximidade, Cuba atingiu um status diferenciado.
Após muitas conversas com professores tanto da área de História como de Relações Internacionais, percebeu-se que é necessário que os futuros trabalhos de História diplomática se voltem mais também para um debate teórico desta matéria. E isso se tornou uma das preocupações imediatas desta pesquisa. O modo no qual o aspecto teórico será trabalhado é na tentativa de mostrar o conflito entre Realistas X Idealistas dentro do Departamento de Estado nesse momento, e como esse debate influencia na tomada de decisões e no discurso da diplomacia estadunidense.
Esse debate é mais importante do que parece, pois muitas vezes os americanos passam a impressão de possuírem uma política de consenso dentro da Guerra Fria. Mas o fato é que existiam grandes debates e disputas dentro do Departamento de Estado e de outros setores do governo, independentemente da época.Henry Kissinger, um realista, vai argumentar que Woodrow Wilson deixou uma marca indelével nas Relações Internacionais estadunidenses. Essa marca é o predomínio de um idealismo em toda a política externa dos Estados Unidos, o que atrapalharia os americanos na sua tarefa de exercer o poder. Em consonância com Kissinger, Niall Ferguson também argumenta que esse gosto pelo idealismo impede que os americanos chamem para si o papel de "Império", e de bastião do modo de vida ocidental. A negação desse papel teria sido decisiva para que a Guerra Fria não fosse vencida com mais facilidade, e também explicaria as dificuldades que os Estados Unidos enfrentam até hoje no plano internacional.
Em contrapartida, os idealistas vão criticar violentamente a maneira pela qual os americanos desenvolvem o seu papel de superpotência ao redor do mundo, no período da Guerra Fria. A opção pelo realismo é criticada ferozmente por pensadores idealistas ,como Noam Chomsky, que se posta contra uma visão essencialmente militarista, baseada nas forças armadas e nos interesses das grandes multinacionais estadunidenses. Para um entendimento mais aprofundado deste debate será necessário ir aos clássicos do Realismo americano, como Waltz e Kissinger. E também aos clássicos pensadores idealistas como Chomsky, sendo a discussão estendida também aos teóricos contemporâneos, como Ferguson e Garton Ash.
Outra contradição a ser evidenciada pela realização desta pesquisa são as diferenças entre democratas e republicanos no modo de fazer política, e principalmente, relações internacionais. Durante os vinte anos de poder (1933-1953), os democratas reforçaram os laços de amizade com a América Latina, no que vai ficar conhecido como "Política da Boa Vizinhança". Também incentivaram a criação de organismos multilaterais, como a ONU, e tentaram ao máximo evitar uma política de maior atrito militar com a União Soviética.
O governo republicano de Einsenhower representa uma mudança profunda em relação ao paradigma desenvolvido anteriormente.A boa vizinhança é substituída pelo militarismo e o reforço aos "regimes de exceção" na América Latina, bem como a interrupção de linhas de crédito e de empréstimos tão necessários ao desenvolvimento local.é adotada uma política de maior atrito em relação a URSS, simbolizada pela corrida nuclear e o desenvolvimento dos ICBMs.
O governo que pretendia dentro dos clássicos valores conservadores americanos, estabelecer uma política de força contra a Rússia soviética e a China, na verdade gerou descontentamento geral de seus aliados e o naufrágio do projeto americano para a América Latina.A questão do Canal de Suez, onde Einsenhower abandonou a França e a Inglaterra e a falta de ajuda a Hungria durante as revoltas de 1956, trouxeram sério desgaste aos americanos no cenário europeu.
Em relação a América Latina, um projeto econômico que visava atender a base política do governo republicano, a chamada América Corporativa, traz crise e miséria para a região. Esse fato, somado ao pouco apoio aos governos democráticos da região, geraram uma situação turbulenta e de grande desconfiança em relação a capacidade dos Estados Unidos de trazer prosperidade aos países latinos.Esse misto de desconfiança e revolta vai se manifestar com maior força justamente no caso cubano, e com menor expressão, em outros países.
A presente pesquisa ainda se encontra em um estágio bem inicial, já que foi iniciada somente em março deste ano.Até o contato propriamente dito com o corpus documental relacionado a Cuba, ainda existem alguns estágios a serem superados.Ainda estamos em uma fase de leituras de autores, no que diz respeito ao contexto do período e a teorias de Relações Internacionais.é importante ressaltar que além da documentação relativa a Cuba, será trabalhada documentação relativa a política econômica e de segurança do governo americano neste momento.Bem como será analisado como os americanos repercutem a Revolução com outros países latinos como o México, a Argentina e o Brasil.E no próximo artigo, já com uma parte da documentação analisada, será possível trazer novas evidências e aprofundar o debate relacionado aos assuntos acima apresentados.
Trabalhar com um tema deste porte é realmente algo animador para um historiador.Ter a possibilidade de fazer um trabalho, analisando a História diplomática norte-americana sob um ponto de vista inédito, é uma grande responsabilidade.Mas nessa hora é sempre interessante lembrar que o historiador R.G Collingwood disse certa vez que "é compromisso de cada nova geração de historiadores buscar não só responder as velhas perguntas, mas sim modificar as próprias perguntas". E é sob este mote que está pesquisa está sendo realizada.
é interessante perceber que atualmente muito se fala sobre uma "História dos Vencidos", de uma "História vinda debaixo". Ambas seriam a negação de uma História do poder e das elites que vem prevalecendo nos últimos séculos.Esta pesquisa concentra-se no poder e em uma elite dentro do Estado de uma nação poderosa.Porém, o poder possui muitas faces que podem ser exploradas pelos historiadores.
O poder traz consigo riqueza e prosperidade, na maioria dos casos.Mas também traz novos dilemas, responsabilidades, e até mesmo, um fardo.Esse "fardo do homem branco", parafraseando Kipling, o dilema e as contradições do poder são muito presentes na condução da política externa americana em toda a sua História.O entendimento do significado desse discurso, suas representações e suas conseqüências políticas representam um desafio aos pesquisadores de História das Relações Internacionais.
Ainda existe uma vastidão de temas a serem explorados em relação a atuação dos Estados Unidos no mundo.Uma nação com um peso tão grande no cenário internacional e com diferenças políticas, religiosas e culturais tão arraigadas no seio de sua sociedade, enseja a curiosidade acadêmica de uma forma peculiar. Pois, da mesma forma que é essencial escrever uma História dos vencidos, é imperativo buscar novas interpretações sobre os vencedores. E isso se torna ainda mais fascinante em uma situação como a Revolução Cubana, quando os vencedores são na verdade, os vencidos.
Notas
1 RICHELIEU apud KISSINGER,Henry. Diplomacy. New York: Simon and Schuster, 1995. Pág. 65.




