A Ação Integralista Brasileira e a Imprensa Escrita: Os Jornais e Revistas no Projeto de Construção do “Homem Integral”.
A presente comunicação possui como objeto de estudo a Ação Integralista Brasileira, buscando enfocar formas amplas e alternativas para se discutir a AIB enquanto movimento político e cultural formador de subjetividades. Centralizando a pesquisa na imprensa escrita, procura-se demonstrar os mecanismos utilizados pelo movimento para levar a doutrina integralista até o militante, e assim, propiciar a "Revolução de Espírito" .Os jornais e revistas não eram absolutamente meros reprodutores de informações, mas sim, popularizavam o discurso teórico dos livros doutrinais, formavam subjetividades. Com a análise da imprensa no movimento integralista e suas práticas políticas e sociais, procura-se chegar mais próximo da experiência social dos adeptos do Integralismo, como uma possibilidade de leitura do real vivido pelo militante.
Parece que foi Anatole France, pelo ‘Figaro’, que affirmou haver uma grande delícia em se ler velhos jornais em dias de chuva. Folheamos a colleção e ali encontramos casos e factos interessantes, hoje esquecidos relegados para o lixo das cousas passadas. Conspirações de politices, ameaças, pequenas advertências, uma porção de acontecimentos que tão bem caracterizam a vida brasileira nesses últimos annos (...) Anatole tinha razão, que imensa delícia nos trouxeram esses velhos papéis impresso!
Delícias e interrogações"1
Delícias e interrogações acompanham o ofício do historiador, que está em constante questionamento sobre as "verdades" contidas nos discursos oficiais (estas verdades não são absolutas, partem de uma interpretação de quem está em contato com as fontes). Este questionamento permeia a construção historiográfica, que busca não relegar os fatos históricos ao "lixo das cousas passadas" e sim, compreendê-las de forma abrangente, com novas fontes de pesquisa, ou um novo olhar sobre fatos já estudados no passado, mas que sempre possibilitam uma nova análise. Peter Burke nos alerta que: "... os historiadores estão preocupados com uma maior variedade de atividades humanas (...) devem examinar uma maior variedade de evidências"2. O historiador deve estar em permanente diálogo com suas fontes, contrapondo com seus conceitos contemporâneos.
Ao analisar a Ação integralista Brasileira, o que se almeja é exatamente enfocar formas amplas e alternativas para se discutir a AIB enquanto movimento político e cultural formador de subjetividades. Centralizando a pesquisa na imprensa, procura-se demonstrar os mecanismos utilizados pelo movimento para levar a doutrina integralista até o militante, e assim, propiciar a "Revolução de Espírito" proposta pelo chefe do movimento - Plínio Salgado - e seus principais teóricos, que almejavam chegar ao verdadeiro "Homem Integral". Uma revolução interior, contra o materialismo desenfreado que destruía a vida dos homens. A análise de Ricardo Bem*zaquen de Araújo contempla o significado desta "revolução" ao afirmar que: "Assim, a ‘revolução interior’ defendida por Plínio, inclusive em função de sua enorme preocupação em se criar um ‘novo’ homem, em engendrar transformações que, não se limitando à ordem política, pudessem alcançar o espírito e a consciência de todos"3. Essa "revolução" começaria no movimento, mas atingiria toda massa popular, através da ampla mobilização de todas as vontades, que não mais seria individualizada como no materialismo (entendido como expressão máxima do comunismo e do liberalismo, seus maiores inimigos).
O Integralismo está inserido na conjuntura mundial dos anos 30, de nacionalismos autoritários, com o organicismo como forma de se resolver os problemas sociais, implantados nos países onde a crise de 1929 foi mais drástica, de New Deal, como política de reconstrução norte-americana; na América Latina, cresceram sentimentos nacionalistas, onde líderes carismáticos, autoritários, assumiram o poder. No cenário nacional, intensifica-se a industrialização e a urbanização do país, Getúlio Vargas assume o controle da nação pela Revolução de Trinta. Na análise de Rogério Souza Silva4:
"A década de 1930 é considerada (...) um divisor de águas no qual as massas à direita e à esquerda tornavam-se peças relevantes(...)A construção da liderança, a construção do povo a ser liderado, a construção da nação e a reinvenção da história foram de grande relevância para atrair parcelas significativas de homens e mulheres..."
é exatamente quando está atuando o pensamento nacionalista autoritário no país que o Integralismo emerge. Por isso, faz-se necessário a analise desta forma de se pensar a sociedade. Os pensadores nacionalistas autoritários atraíam-se pelas doutrinas que acentuavam o papel dirigente das elites e a natureza irracional das massas; assim, havia uma necessidade primordial: manter a ordem, contendo a ação dos agentes subversivos, justificando-se a repressão, a censura e garantindo a segurança nacional. Mantendo o poder centrado no Estado, aliado à repressão para manter a "ordem", auxiliado pela presença de um líder carismático, se conseguiria alcançar o equilíbrio e assim, a verdadeira reconstrução nacional seria possível, longe dos moldes liberais ou da pluralidade de idéias.A pluralidade, a participação é mascarada na dicotomia: coerção/consenso, como nos mostra Mônica Pimenta Velloso:
"...o Estado procura ampliar as suas bases de legitimidade frente aos mais diversos setores da sociedade. Tal fato não autoriza a explicar a ‘nova ordem’ como fruto social, pois as formas de integração implementados pelo Estado têm objetivos distintos. Não se trata, portanto, de integrar indiferentemente, mas de chamar todos a uma participação que é delimitada pelo próprio Estado. Assim, pode-se visar a obtenção de ‘consenso ativo’entre os atores sociais, como também o seu ‘consenso passivo’. Deve-se ter claro que, no projeto político autoritário, a ênfase à participação e legitimidade não exclui a marginalidade e a coerção"5.
Era neste paradoxo: coerção/consenso que se garantia uma atuação ampla e uniforme por parte do Estado autoritário, no cotidiano dos indivíduos. é a imprensa que vai garantir ao Estado esta prática. Como nos dizia Cassiano Ricardo, um dos mentores intelectuais do Estado Novo: "Os processos mecânicos de difusão de pensamento utilizados contra nós, passarão a ser utilizados por nós (...) a técnica moderna e objetiva de trazer o Estado mais perto dos sentimentos e aspirações populares corresponde a uma de suas mais profundas razões de ser"6. Na análise de Cassiano Ricardo, o Estado passa a fazer uso de mecanismos como o jornal, a revista, o rádio e o cinema para se aproximar cada vez mais dos indivíduos comuns, formando assim um consenso de opiniões, promovendo uma participação ilusória por parte dos indivíduos e garantindo a legitimidade para todas ações do governo, de forma supostamente democrática, mas como todos sabemos autoritárias.
A Ação Integralista Brasileira também possuía seus mecanismos que acabaram por transformar o cotidiano de seus militantes, criando subjetividades. Foucault já denunciava que a corporeidade torna-se passiva perante o real ao dizer que: "é dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado"7.O ideal perseguido pelos integralistas da elite do movimento era transformar homens e mulheres fragmentados pelo materialismo, aperfeiçoando-os como homens integrais, podendo ser utilizados pelo movimento para chegar até o ponto máximo: o controle do Estado. Um destes mecanismos era a imprensa do movimento, que não utilizava a violência física como meio de persuasão, mas sim a palavra. Para Maria Helena Capelato: "A imprensa registra, comenta e participa da história. Através dela se trava uma constante batalha pela conquista de corações e mentes"8. Conquistando corações e mentes, o integralismo não apenas tornou o militante um mero número, era antes um membro, o partido era de todos, para todos, por isso que o militante precisava sacrificar-se de corpo e alma pelo movimento, e realmente o fazia porque se sentia um membro de fundamental importância.
Atrair homens e mulheres de várias categorias sociais, era a ambição do chefe nacional do Integralismo, Plínio Salgado, e seus principais intelectuais. Os ideais doutrinários: o ufanismo nacionalista, a trilogia: Deus, Pátria e Família, a autoridade suprema do chefe nacional, para guiar a "massa ignorante", estava contida nas construções discursivas reproduzidas nos periódicos do movimento. Não poderia deixar de ser, porém com uma linguagem voltada às pessoas ditas "simples", "incultas", de uma maneira que pudessem ser enraizadas em suas práticas cotidianas como verdades, como busca pela perfeição: o Homem Integral - um conjunto do homem físico, intelectual, cívico e espiritual, ligado a doutrina do Sigma. Como podemos vislumbrar em Michel Foucault9
"A doutrina vale sempre como sinal, a manifestação e o instrumento de uma pertença prévia (...) a doutrina liga os indivíduos a certos tipos de enunciação e lhes proíbe, conseqüentemente, todos os outros; mas ela se serve, em contrapartida, de certos tipos de enunciação para ligar indivíduos entre si e diferencia-los, por si mesmo, de todos".
Preocupados com a arregimentação de adeptos e com a unificação e consolidação do movimento, a Ação Integralista Brasileira adotou um conjunto de estratégias, e uma dessas estratégias foi justamente a publicação em jornais e revistas as bases teóricas do movimento e regras de comportamento que acabam fabricando o "Homem Integral" - este sujeito que deveria se "doar" de corpo e alma ao ideal Integralista, de uma forma total10, onde busca-se perceber como as relações de poder estão sutilmente impostas nas entrelinhas das páginas dos jornais.Os intelectuais integralistas canalizavam seu discurso nos jornais e revistas buscando assim resultados práticos como a assimilação total do ideário integralista pelo militante.
O próprio "chefe", Plínio Salgado, em 1931, já vislumbrava a necessidade de criar um jornal. Ao escrever uma carta para Augusto Frederico Schmidt, diz:
"Esse jornal terá um caráter de nacionalismo radical. é o que no momento se pode fazer. Como se sabe eu preciso de um ponto de apoio. Nesse momento eu me sinto imensamente desamparado de elementos materiais para qualquer ação prática.Esse jornal será o meu primeiro impulso. O centro de coordenação dos lugares comuns do pensamento conservador"11.
Pode-se perceber nestas palavras que Plínio precisava consolidar sua teoria, pois no Integralismo, primeiro veio a teoria, depois é que implantaram sua prática. Para conseguir uniformizar e disciplinar o militante, a imprensa integralista veiculava não somente as idéias consideradas relevantes, mas também ocultava o que fosse necessário, ou o que ferisse os princípios defendidos, propagando os ideais dos principais nomes do movimento ao militante, mas buscando constantemente diferencia-lo, hierarquiza-lo.
Para poder garantir o sentido único das publicações integralistas, por meio do pensamento e da orientação doutrinária e assim garantir a padronização da forma, os integralistas adotaram estratégias de unificação, que culminou na criação do Sigma-jornais reunidos, a Secretaria Nacional de Imprensa (SNI) e as Comissões de Imprensa. Os recursos utilizados eram os mais diversos: colunas iguais em diferentes jornais, lembretes em destaque, manchetes panfletárias, ilustrações personalistas. O uso de lembretes era constante tanto em jornais da capital, quanto no interior:
"Lembravam os integralistas a necessidade de não se descuidarem de determinadas práticas consideradas relevantes para o movimento, como por exemplo, assinar o jornal A Ofensiva, pagar a taxa do sigma, ler o jornal A Acção, comprar somente nas casas que anunciam em nosso jornal, corresponder-se com seus companheiros de outras províncias, usar sempre o distintivo. Ter sempre pronta a camisa verde, ser disciplinado, ser pontual, não faltar às reuniões"12.
Não eram apenas corriqueiras "lembranças", eram antes de tudo, código de comportamento, padronização, identificação com um ideal "sublime" de se tornar um verdadeiro "camisa verde". Homens, mulheres e até crianças estavam buscando conforto, aconchego, numa doutrina que lhes mostrava que poderiam fazer parte de um mundo novo, proposto por um chefe que era seu guia, seu exemplo maior. A "Revolução de Espírito" era possível, seguindo as orientações dos ideários deste movimento, é claro. Na análise do pesquisador Ivo Canabarro: "Como uma doutrina que procurava apontar soluções para os problemas brasileiros, abrangia praticamente todas as dimensões da vida do homem. Para isso, criou um imaginário tentando disciplinar o homem de corpo e alma, tornando-o apto para lutar pelos ideais integralistas"13. Assim, entende-se que a dimensão afetiva dos indivíduos se traduz na sua maneira de se estar no mundo, sua necessidade de se constituir enquanto sujeito, mesmo que não tenha consciência real de sua atuação na sociedade, como co-produtor de sua realidade: o Homem produz a sociedade e é produzido por ela, como nos demonstra o sociólogo Peter Berger.
Seguindo o pensamento de Hannah Arendt, o colapso do sistema de classes propiciou o surgimento de movimentos como o Integralismo, de caráter totalitário. Os homens não se sentiam representados por partidos, apáticos frente a uma sociedade burguesa individualista, com indivíduos fragmentados. Então, pessoas desesperançadas, desiludidas se baseiam no corporativismo totalitário, sentindo-se antes de tudo pertencentes a um grupo muito maior que sua própria individualidade. Segundo Hannah Arendt: "Os movimentos totalitários são organizações maciças de indivíduos atomizados e isolados. Distinguem-se dos outros partidos e movimentos pela exigência de lealdade total, irrestrita, incondicional e inalterável de cada membro individual"14.
Ao se propor investigar a imprensa no movimento integralista, busca-se perceber como o discurso contido nos periódicos se transformou em um instrumento para possibilitar o projeto de construção de um "sujeito integral"; assim como conseguir buscar reler as entrelinhas dos documentos e não aceitar encarar o Integralismo como um simples "fascismo caboclo". Antes de ser um partido político, o Integralismo foi um movimento que buscava reordenar a vida de pessoas simples, em um código ético cheio de especificidades; ou de intelectuais, que viam o futuro do país em um molde que podemos denominar de "alternativo", já que em sua visão, o liberalismo e o comunismo não eram "bem-vindos" como porta-vozes do materialismo ganancioso. é um movimento muito amplo que possibilita o historiador um gama enorme de análise. E é o que pretendo buscar: possibilidades de analisar. O próprio "chefe" dos "Camisas Verdes" apontava o futuro dos estudos sobre A AIB, que nos serve de incentivo para justificar a "delícia"de investigar as "interrogações"do passado deste movimento:
"Escrevo estas linhas, meus caros camisas-verdes, como subsídio para a História de nossa Pátria. Um dia o historiador terá de estudar este momento que atravessamos. Dentro deste momento, a posteridade encontrará o Integralismo. Terá de estudá-lo, na sua significação, na sua extensão, no seu volume, na sua projeção nacional e na sua repercussão no estrangeiro (...) Terão ainda o crítico da História examinará o que representou o integralismo como reação do organismo nacional penetrado do vírus deletério da corrupção. Estudará a atuação dos partidos políticos. Examinará a atitude dos homens do governo. Deduzirá conclusões para os julgamentos que pertencem ao futuro".
Plínio Salgado
Notas
1 Flamma Verde,Florianópolis, n. 30, 10 de outubro de 1936, p.
2 BURKE, Peter. A Escola dos Annales: a revolução francesa da historiografia. São Paulo: UNESP, 1997.p.11.
3 ARAúJO, Ricardo Benzaquen de. Totalitarismo e revolução. O integralismo de Plínio Salgado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988, p. 75.
4 SILVA, S. Rogério. A Política como espetáculo: a reinvenção da história brasileira e a consolidação dos discursos e das imagens integralistas na revista Anauê.Revista Brasileira de História, outubro de 2005.p.68.
5 VELLOSO, Pimenta Mônica. Mito da Originalidade Brasileira. A trajetória de Cassiano Ricardo (dos anos 20 ao Estado Novo). Rio de Janeiro: PUC, 1983. (dissertação de mestrado). p.3.
6 RICARDO, Cassiano. O presidente Getúlio Vargas e a nova inteligência no Brasil. A Manhã. Rio de Janeiro, 19 de abril de 1942.In: Velloso. Pimenta Mônica. Mito da Originalidade Brasileira. A trajetória de Cassiano Ricardo (dos anos 20 ao Estado Novo). Rio de Janeiro: PUC, 1983. (dissertação de mestrado). p.11.
7 FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. São Paulo:Graal, 1987.p.21.
8 CAPELATO. Maria Helena. Imprensa e História do Brasil. São Paulo: Contexto/EDUSP, 1988.p13.
9 FOUCAULT, Michel.A Ordem do Discurso. São Paulo:Loyola, 1996.p 43.
10 É desta forma que o movimento integralista se aproxima de um modelo totalitário e não autoritário. é importante que se tenha clareza desta diferença entre um Estado autoritário e um Estado totalitário: em quanto o primeiro se impõe sobre o indivíduo: o Estado é o chefe, o segundo se impõe como ordenador, onde a força de mobilização é forte, centralizada em torno de um líder que representa a sociedade.
11 SALGADO, Plínio. Obra coletiva, São Paulo, Edição Revista Panorama, 1936, p31-34. In:TRINDADE , Hélgio. Integralismo o fascismo na década de 30. São Paulo:Difel, 1979,p.80.
12 CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil (1932-1937). Bauru: EDUSP, 1999.p.99.
13 CANABARRO, Ivo dos Santos. Uma abordagem cultural de um movimento político dos anos 30: o caso do integralismo em Ijuí. Porto Alegre: UFRGS, 1994 (dissertação de mestrado em História).p.52.
14 ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. Anti-semitismo, imperialismo, totalitarismo. São Paulo: Cia. das Letras, 1989.p.372.
Bibliografia
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_________________. Microfísica do Poder. São Paulo: Graal, 1986.
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