As representações sociais sobre as benzedeiras no nordeste catarinense
Em pesquisa realizada sobre as representações sociais acerca do patrimônio cultural das cidades que compõem a baia da Babitonga -SC- foi possível verificar a existência e a contribuição das benzedeiras com suas práticas tradicionais no atendimento às pessoas das comunidades estudadas. Os relatos obtidos através de entrevistas e aplicação de formulários indicam que existem percepções diferentes sobre a crença nos conhecimentos curativos, de benzedura, de simpatias, e de rituais para o enfrentamento e ou proteção de malefícios que afligem as pessoas. Observou-se, também, que as benzedeiras, ainda, estabelecem laços sociais com os moradores que a modernidade não destruiu e que são identificadas como pessoas detentoras de uma dádiva e um poder que é reconhecido pela comunidade.
O estudo tem como referência informações coletadas na pesquisa desenvolvida sobre o patrimônio histórico e pré-colonial das cidades circunvizinhas a baia da Babitonga - Joinville, São Francisco do Sul, Araquari, Balneário Barra do Sul, Garuva e Itapoá. O objetivo principal da pesquisa não era descrever a prática das benzedeiras, mas o de verificar a permanência desta prática cultural e, além disso, identificar as representações sociais elaboradas pelos diversos grupos existentes acerca do conhecimento e poder atribuído ao benzimento.
A concepção de patrimônio cultural que permeou a pesquisa original, assim como a adotada neste texto é aquela que reúne tanto os bens materiais, que são os tradicionalmente considerados como patrimônio histórico e artístico de uma sociedade, como também os bens de origem imaterial, ou intangível. Concordamos com a visão de Maria Cecília Londres Fonseca1 de que tal concepção ao incluir, além do patrimônio de pedra e cal, as interpretações musicais e cênicas, lendas, mitos, ritos, saberes e técnicas, permite diluir as dicotomias que costumam permear as políticas culturais: produção versus preservação, presente versus passado, processo versus produto, popular versus erudito. Também, a superação da concepção de patrimônio imaterial como sinônimo de folclore e/ou cultura popular. E por fim, a abertura de espaço a grupos e nações de tradição não européia às políticas de patrimônio cultural.
Ao mesmo tempo em que se celebra a preocupação com a manutenção, preservação e o resgate dos saberes e fazeres das comunidades, não se pode perder de vista a existência de uma hierarquia da cultura subordinando determinados grupos aos olhares hegemônicos. Convem não ignorar o alerta de Nestor Garcia Canclini (apud CABRAL, 2004,p.37)2
O patrimônio cultural expressa a solidariedade que une os que compartilham um conjunto de bens e práticas que os identifica, mas também costuma ser um lugar de cumplicidade social. As atividades destinadas a defini-lo, preservá-lo e difundi-lo, amparadas pelo prestigio histórico e simbólico dos bens patrimoniais, incorrem quase sempre numa certa simulação ao sustentarem que a sociedade não está dividida em classes, etnias e grupos, ou quando afirmam que a grandiosidade e o prestigio acumulado por esses bens transcendem frações sociais.
Assim a visão dicotômica de cultura erudita e cultura popular tradicionalmente permeada pela divisão de classe, tem como resultante a definição de quais bens são superiores e, portanto necessitam ser preservados, daqueles considerado inferiores, primitivos, folclóricos e identificados com as camadas mais baixas da sociedade.
O estudo das representações sociais se constitui em um excelente instrumental teórico-metodológico para o estudo das percepções sociais e tem sido utilizado em trabalhos de diversas áreas das ciências humanas e sociais, e se constituído em excelente auxiliar para o estudo da história do tempo presente. A teoria das representações sociais tem como principal formulador Serge Moscovici que entre outras contribuições ao pensamento social pode-se apontar a preocupação em destacar a existência de formas diferentes de conhecer e de se comunicar presentes em nossa sociedade, com destaque para as formas consensual e a científica. Alertando para o fato que não se deve entendê-las de forma hierárquica ou, da existência de isolamento entre elas. Para ele os fenômenos sociais que possibilitam identificar de maneira concreta as representações e o seu emprego são as conversações.
De acordo com Pedrinho A. Guareschi e Sandra Jovchelovitch3 na construção dos saberes sociais estão envolvidos o simbólico e o imaginativo e sua produção se encontra nas instituições, nas ruas, nos movimentos sociais entre inúmeros lugares sociais.
A definição mais consensual de representação social é a formulada por de Denise Jodelet (apud ARRUDA, 2002, p.22)4:
As representações sociais são uma forma de conhecimento socialmente elaborado e compartilhado, com um objetivo prático, e que contribui para a construção de uma realidade comum a um conjunto social.
Com o propósito de obter explicações que permitissem um maior grau de confiabilidade das interpretações, e realizando uma "triangulação metodológica" através da combinação de técnicas múltiplas conjugou-se a realização de entrevistas individuais e grupais, com formas de coleta de dados mais estruturadas, principalmente o formulário, com perguntas fechadas e abertas.
Para proceder à análise dos dados obtidos na pesquisa de campo impõe-se que se faça uma descrição resumida da formação social e cultural das cidades estudadas.
A diversidade cultural se constitui em uma das características das cidades que compõem a baia da Babitonga (Joinville, São Francisco do Sul, Araquari, Balneário Barra do Sul, Garuva e Itapoá), como resultado do povoamento da região assim como de todo o litoral catarinense. A produção historiográfica indica que a colonização do litoral catarinense a partir do século XVII não pode ser confundida com a presença de navegadores espanhóis e portugueses no inicio do século XVI, já que esses viajantes visavam o reconhecimento e a exploração da região.
Na região da baia da Babitonga, em um primeiro momento, algumas pequenas vilas foram constituídas como resultado do deslocamento da capitania de São Vicente (São Paulo), em direção ao Sul do Brasil. Assim surge em 1658 o núcleo de São Francisco do Sul. Com a vinda dos primeiros açorianos (1748-1850) a população do litoral catarinense passou a se constituir de portugueses continentais, açorianos, vicentistas (paulistas da capitania da São Vicente), negros e índios. A partir de 1850 a chegada de milhares de imigrantes europeus dentre outros alemães, italianos, poloneses, franceses e espanhóis, somados aos migrantes internos impulsionou o povoamento das terras dando origem aos primeiros centros urbanos da região sul do país. Neste momento se dá a colonização de Joinville em terras dotais e, em 1866 através da Lei 566 ficou estabelecido o desmembramento do município de São Francisco Xavier do Sul do território que foi doado à Princesa D. Francisca, formando o município com a denominação de Joinville5 A relação entre os diferentes grupos étnicos pode ser observada na arquitetura, nos modos produtivos e nas práticas culturais existentes. Convém salientar que São Francisco do Sul devido a sua extensão territorial foi sendo desmembrada dando origem aos municípios que compõem a baia da Babitonga Assim em 1929 surge o município de Araquari, de Barra Velha em 1961, Garuva em 1964, e Itapoá em 1989, e Balneário Barra do Sul em 1992.
Na formação do patrimônio cultural destacam-se as influências sociais e culturais das diversas etnias que vieram povoar esta parte do território catarinense conjugada a dos grupos de migrantes que vieram para a região, principalmente a partir da década de 1960 com a industrialização e urbanização de Joinville.
O patrimônio cultural imaterial se constitui atualmente no principal instrumento de identificação cultural das cidades estudadas, dentre os quais o que se deseja destacar neste trabalho é o referente a uma prática que está relacionada à religiosidade da população que se instalou na região. Excetuando-se Joinville, onde a maioria dos colonizadores era constituída de protestante, nas outras cidades encontramos a predominância de católicos, amalgamada com as influências africanas e indígenas. Dessa forma, como de maneira geral no Brasil, é comum a realização de festas religiosas em devoção aos diversos santos católicos, além das festas natalinas, Terno de Reis, do Divino Espírito Santo, Corpus Cristis entre outras. Paralelamente práticas consideradas profanas, e identificadas com o catolicismo popular, dentre elas as crendices, ainda estão presentes na cultura e prática e saberes sociais. Como ressalta Wilson Farias,
As crenças, os mitos, os misticismos trazidos pelos açorianos, somados a outras que já existiam no Brasil meridional, estimularam a imaginação popular, despertando medos e receios, enfrentados com orações, e muita fé. Em conseqüência desta diversidade de crenças, tem importância para o povo, tanto a figura do padre, como a da benzedeira cada qual desempenhando o seu papel6.
A figura da benzedeira é reconhecida em todas as regiões do Brasil e por esta razão sua existência entre a população das cidades do entorno da baia da Babitonga é compreensível. Para Sonia Maluf
As benzedeiras são as mulheres que, detendo determinados conhecimentos curativos, sobre ervas medicinais, sobre rezas e benzeduras, sobre o parto e cuidado dos bebês recém-nascidos [...] são vistas como ‘especialistas’ nestas questões pelos moradores do lugar.7
Nesta mistura de práticas tradicionais a da benzedura, ou benzimento, pode ser considerada como fundamental em alguns momentos da história da região devido à carência de padres e religiosos católicos, além de profissionais da saúde. As benzedeiras ou rezadeiras se constituíam na pessoa a quem a comunidade recorria em momentos de aflição e doença. Muitas delas também eram as parteiras das localidades. A presença e atuação dessas mulheres ainda hoje podem ser comprovadas em todas as cidades estudadas.
As informações obtidas através de depoimentos orais e da aplicação de 850 formulários relativas às crenças populares e sua manutenção no patrimônio imaterial das cidades permitiu entender a permanência da prática do benzimento na realidade sociocultural atual.
Em primeiro lugar nos relatos orais predominam as narrativas relacionadas a problemas de saúde como o de senhor Nazário Praxedes8 que conheceu e conhece benzedeiras em Balneário Barra do Sul, sendo ele próprio um benzedor, principalmente de zipra (erisipela: doença infecciosa contagiosa), "As benzedeiras benziam diversas coisas. Benziam de zipra, benziam de reumatismo, benziam de ar, benziam de cobreiro, benziam, com o perdão da palavra, de bicheira em animal, benziam de sangue, benziam de tudo. Eu de zipra eu benzo que eu aprendi com a minha madrasta." Ou ainda como relata dona Rosa Gomes dos Santos9 de Araquari, " A minha avó, a mãe do meu pai, era benzedeira.[..] Ela benzia de cobreiro, benzia de arca caída, benzia do sol, benzia do medo, coar que ela dizia, ela botava uma peneira e coava".
Alguns dos entrevistados fizeram questão de ressaltar que as benzedeiras também eram parteiras, e alguns de seus filhos nasceram em partos realizados por elas, e sempre enfatizando que desconheciam a ocorrência de morte de alguma mulher ou criança nas mãos delas.
A medicina popular foi descrita por Luis da Câmara Cascudo como sendo constituída pelos fundamentos indígenas, africanos e portugueses. A influência indígena se traduz no conhecimento da flora e fauna pelo pajé que sobreviveu "no modesto vendedor dos remédios do mato. Será, qualquer deles, infalivelmente superior ao remédio de frasco"10, a africana na vulgarização das plantas populares, arruda, alecrim, manjericão realizada pelo escravo negro, e finalmente pelos portugueses conhecedores e herdeiros da farmacopéia européia " [...] Era a ciência das aldeias, vilas, das herdades, dos povoados; ciência dos cadernos de observação familiar, as velhas curandeiras, as ‘entendidas’, de atuação infalível e renome profundo".11
A prática da medicina popular sofreu um combate rigoroso com o avanço do conhecimento médico a partir do século XIX, e passou a ser identificada com o charlatanismo pelo fato de existir a medicação sem a legitimidade da educação formal. No entanto, em algumas localidades brasileiras, pelo poder e papel social que exercem e que é reconhecido pela comunidade, já existe uma articulação entre o trabalho do profissional de medicina e das benzedeiras. O próprio senhor Nazário Praxedes, anteriormente citado, afirmou que: "aqui em casa muitos vêm do posto de saúde que eles mandam para cá".
Ainda quanto à crença no poder curativo do benzimento, principalmente as explicações colhidas no levantamento quantitativo, foi observado que diante do questionamento referente ao relato de experiência, ou o motivo da procura, inúmeros depoimentos indicam a confiança na eficácia da reza: "fui curar uma doença", " fui curar doença do filho", "algumas coisas só a benzedeira cura, arca caída,erisipela ,rasgadura", "o filho com a doença do macaco ( pele e osso)", " tem uma doença que nenhum médico cura, doença do macaco, cria pelo no rosto", e também em alguns casos concomitante ao tratamento médico "a mãe, quando o filho estava hospitalizado com meningite, levou a roupa para a benzedeira", "internou o filho com problemas no hospital, mas só a benzedeira curou (era mau olhado) chegando ao radicalismo de afirmar que "Acredita mais nas ervas do que na medicina".
Diversos depoimentos confirmam a importância da existência dessas mulheres e de suas práticas como a única alternativa dos moradores das localidades em que o entrevistado residiu, ou ainda reside, diante de doenças ou problemas que necessitem a presença de médicos. A ausência de postos de saúde para atender a população, tão comum em diversas localidades brasileiras, também, é sentida em partes do nordeste catarinense.
A pesquisa de campo realizada através de aplicação de formulários possibilitou a verificação da existência, ou não, de representações sociais sobre a prática das benzedeiras a partir de determinados segmentos. Em primeiro lugar, convém ressaltar que do total de pessoas entrevistadas 48,1% era de mulheres e 51,9% de homens. E que dentre as mulheres a maioria, 51,4%, já tinha tido experiência e acredita na prática da benzedura. E quanto aos homens 52,2% não teve nenhuma experiência e não acredita em benzimento.
No entanto, para a maioria dos pesquisados que procurou espontaneamente, ou foi levado por algum parente, e para os que ainda vão se benzer com o propósito curativo, o fazem diante de males que a crença popular indica que pode ser dispensada a consulta ao médico, e que tradicionalmente são as especialidades das benzedeiras, tais como: arca caída, mau-olhado, quebranto, rasgadura, cobreiro, erisipela (zipra) vermes, bronquite asmática, sapinho, susto. 12
A medicina tem identificado diversas doenças como resultantes do modo de vida moderna. E para enfrentá-las algumas pessoas, convictas do poder das benzedeiras para o apaziguamento dos males vivenciados, vão em busca de solução para ansiedade, depressão, stress, "peso no peito", "muito carga", em busca de paz.
O benzimento do responso, aquele em que as pessoas vão em busca de algo que tenham perdido, também foi indicado: "Fui benzer porque tinha perdido a chave e ela voltou para o lugar", "o cachorro desapareceu e fui pedir pra rezar responso".
A presença feminina entre as benzedeiras tem sido registrada pela literatura e não foi diferente do observado na pesquisa, No entanto, o que deve ser ressaltado é que de acordo com os relatos são as mães, avós e tias que levam, ou levaram, as crianças pela primeira vez para o benzimento. E muitas, agora já no papel de mães, mantêm a crença e continuam a buscar o conforto possibilitado pelas rezas. Em alguns casos, além da cura de alguma doença, também procuram auxilio quando seus filhos estão "reinando" muito para o benzimento acalma-los.
Ao mesmo tempo, essas pessoas fizeram questão de identificar as benzedeiras com a religião católica e, até mesmo, enfatizando o fato da existência de imagens de santos nos locais utilizados para o atendimento das pessoas.
Com relação ao conjunto dos pesquisados que afirmou que nunca tinha ido a uma benzedeira dentre as explicações a resposta mais recorrente recaiu não falta de crença no poder das rezas como efeito curativo: " Se benzedeira, curandeira curasse não existia medicina", ou pelo fato de não ter conseguido o resultado desejado " fui por causa da bronquite, mas não deu certo.Hoje tem a medicina".
Uma parte das pessoas, 6%, que respondeu negativamente quando questionados sobre as benzedeiras, explicou que por ser da religião evangélica não acreditava em benzimentos e sim no poder de Deus. Esta explicação também foi dada por aqueles que tiveram originariamente uma formação religiosa diferente da atual.
Somente duas pessoas afirmaram que a crença em benzimento estava relacionada ao nível de esclarecimento ou informação das pessoas conforme a justificativa "são coisas de gente inculta, os que não lê jornal. Acreditam no que os outros dizem", ou ainda relacionada ao passado " é lenda dos antigos".
Para que se possa comparar a partir dos dados levantados se procede à concepção, ou representação, de que na realidade a crença em tal prática deriva da faixa etária do entrevistado, ou seja, dos mais velhos, a tabela a seguir é significativa.
Tabela 1 Experiência com benzedeiras e faixa etária- Total Geral %
| Experiência | 16-24 | 25-34 | 35-49 | 50-65 | 66 ou + | N.Respondeu |
| Sim | 16,7 | 13,3 | 30,0 | 23,3 | 16,7 | 1,0 |
| Não | 25,2 | 19,6 | 28,7 | 20,6 | 4,9 | 3,6 |
Fonte própria
Na perspectiva de que se trata de uma crença dos antigos, de uma lenda, de coisa do passado os números encontrados indicam que esta concepção, ao menos entre o total das pessoas entrevistadas que acredita no poder das rezas, não procede já que a maior incidência dos que tem experiência com o benzimento está entre as pessoas da faixa etária de 35 a 49 anos e significativamente os dois extremos etários, os mais jovens e os mais velhos, registram o mesmo percentual na vivência da prática cultural simbolizada na figura das benzedeiras.
Com relação ao grupo etário que afirmou não ter nenhuma experiência, ou não acreditar, em benzimentos novamente é o da faixa etária de 35 a 49 anos o de maior freqüência. Aqui, no entanto, se pode observar que são as faixas etárias mais jovens -16 a 34 anos-, são as que o percentual de descrentes é superior aos crédulos no poder dos benzimentos.
A análise das informações contida na tabela 1 revela que ao mesmo tempo em que os mais jovens são os que mais acreditam no poder do benzimento são também os que menos acreditam. Dessa forma deduz-se que em relação à idade as representações sociais acerca das benzedeiras não indicam se constituir em "coisa de velho".
Como as representações estão relacionadas ao conhecimento elaborado pelos diferentes grupos existentes da sociedade verificar a relação entre experiência com benzimentos e grau de escolaridade pode ser bastante revelador.
Tabela 2 - Escolaridade e experiência com benzedeira - Total Geral %
| Experiência | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | N.Resp. |
| Sim | 1,4 | 23,8 | 11,2 | 14,7 | 33,2 | 6,6 | 6,3 | 2,4 | 0,3 |
| Não | 1,4 | 14,7 | 10,8 | 14,0 | 36,7 | 15,5 | 5,4 | 1,1 | 0,4 |
Fonte: própria;. Legenda (1)-nenhuma (2)-1ºgrau incompleto, (3)-1º grau completo, (4)-2º incompleto (5) -2º grau completo, 6- superior incompleto, 7-superior completo, 8-pós-graduação.
As pessoas com o nível de escolaridade média são as que ao mesmo tempo tem relatos de experiência e confirmam que ainda freqüentam locais de benzimentos, como também são as que não tiveram nenhum tipo de experiência com a prática da benzedura. Também é significativo que entre os entrevistados que ainda estão cursando o nível superior o índice dos que não tiveram experiência é o dobro daqueles que relatam terem tido experiência e acreditam no poder das rezas.
Os dois grupos analisados não confirmam a percepção de que os saberes populares está mais arraigado nas pessoas mais velhas, da mesma forma que a cultura erudita blinda as pessoas contra a crença em determinadas práticas culturais populares.
Em um país em que a concentração de renda é histórica observar a relação entre experiência com benzedeira e nível de renda é relevante.
Tabela 3 - Experiência com benzedeiras e nível de renda familiar - Total Geral %
Em salário mínimo13
| Experiência | - de 1 | 1-2 | 3-5 | 6-10 | 11-20 | + de 20 | N.Respon. |
| Sim | 2,8 | 15,4 | 39,5 | 28,7 | 11,2 | 0,0 | 2,4 |
| Não | 2,5 | 17,3 | 38,5 | 28,8 | 9,7 | 0,4 | 2,9 |
Fonte própria
A renda per capita mensal para a região estudada era de R$ 381,23 em 2000 - IBGE
Em primeiro lugar o que chama atenção é o baixo nível da renda encontrado entre os pesquisados, no entanto, de acordo com dados referentes à renda per capita da região os números se equivalem. A região em que se situa os municípios da baia da Babitonga apesar de incluir o maior parque industrial do estado de Santa Catarina, Joinville, não registra uma média salarial elevada. Quanto a relação entre as variáveis indicadas pode-se perceber que os que têm renda entre 3 e 5 salários mínimos são os que relatam ter experiência como também é o mesmo segmento que também menos contato teve com as benzedeiras. E que acima de 10 salários as ocorrências diminuem significativamente.
De uma maneira geral o que se pode concluir das informações colhidas nas seis cidades estudadas é que apesar do avanço do conhecimento médico diante da ocorrência de determinados "sintomas" ou "males", uma parcela considerável da população continua a buscar nos benzimentos soluções para suas aflições. E ao mesmo tempo em que as benzedeiras são reconhecidas pelo seu "dom", e que este poder se fortalece a partir das "curas" realizadas.
Compreender a forma como os saberes e fazeres da cultural imaterial de uma comunidade é percebido por seus membros pode sustentar movimentos sociais com o objetivo de incluí-los em políticas públicas de manutenção e preservação do patrimônio cultural. Mesmo porque a modernidade não conseguiu ao promover o "desencantamento" do mundo, como apontou Octavio Ianni, 14 fazer desaparecer os modos de ser, pensar, sentir, agir, imaginar e fabular que caracterizam o patrimônio cultural imaterial da sociedade brasileira.
1 FONSECA, Maria Cecília Londres. Para além da pedra e cal: por uma concepção ampla de patrimônio cultural. In ABREU, Regina, CHAGAS, Mário (orgs).Memória e patrimônio: ensaios contemporâneos. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.
2 CABRAL, Magaly. Memória, patrimônio e educação. Resgate: Revista de cultura. Campinas, Unicamp, n 13,2004 p.37
3 GUARESCHI, Pedrinho A., JOVCHELOVITCH, Sandra (orgs).Textos em Representações Sociais. 6 ed.Petrópolis: Vozes,2000
4 ARRUDA, Ângela. Teoria das representações sociais e teorias de gênero. Cadernos de Pesquisa, n 117, nov.2002.p.138.
5 FARIAS, Wilson Francisco de.De Portugal ao sul do Brasil-500anos- História, Cultura e Turismo.Florianópolis, Ed. Do autor, 2001. p.427
6 FARIAS Vilson Francisco de. Dos Açores ao Brasil Meridional: uma viagem no tempo. Florianópolis: Ed. Do autor, 1998.
7 MALUF, Sonia. Encontros noturnos: bruxas e bruxarias na Lagoa da Conceição.Rio de Janeiro:Rosa dos Tempos,1993.
8 JESUINO, N. .P. Nazário Praxedes Jesuíno.: depoimento[jul.2003]. Entrevistadores: Eleide A.G.Findlay e Sandra P.L. de Camargo Guedes.: Balneário Barra do Sul, 2003. 1 fita. Entrevista concedida para o projeto As representações sociais sobre o patrimônio histórico e pré-colonial dos municípios circunvizinhos a baia da Babitonga. LHO/Univille.
9 SANTOS,R. G..Rosa Gomes do Santos.: depoimento[jun.2005] Entrevistadores: Eleide A.G.Findlay e Sandra P.L. de Camargo Guedes.: Araquari, 2005. 1 fita. Entrevista concedida para o projeto As representações sociais sobre o patrimônio histórico e pré-colonial dos municípios circunvizinhos a baia da Babitonga. LHO/Univille.
10 CASCUDO, Luis de Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 5ed.Belo Horizonte:Itatiaia, 1984,p 487
11 Idem.p.488
12 A erisipela não dispensa o tratamento médico, mas a crença popular acredita que se a perna não for benzida o tratamento não estará completo. E quanto à bronquite as pessoas além do remédio receitado pelo médico vão em busca das garrafadas "milagrosas"
13 No período da coleta de dados da pesquisa de campo o valor do salário mínimo era de R$260,00
14 IANNI, Octavio. Tipos e Mitos da modernidade. III Conferencia de Pesquisa Sócio-Cultural. Disponível em www.fae.unicamp.br
Acesso em 18 de jul.2002.




