Solidão e fé na contemporaneidade
A pesquisa tem como objetivo analisar os votos e ex-votos da igreja de são Francisco de Assis, em Santiago, Chile. Eles seriam um testemunho direto e interativo da atualidade presente, de uma piedade individual e um conflito a serem resolvidos pela intercessão divina. A solidão é o maior problema enfrentado pelos devotos. Os recuos das proximidades pessoais e dos compromissos duradouros podem ser observados nos âmbitos familiar e afetivo. Para muitos, a solidão pode parecer uma condição menos arriscada e mais segura do que compartilhar o terreno doméstico comum ou a insegurança de um relacionamento. Diante de oportunidades fluidas, valores cambiantes e regras instáveis os amantes impotentes, sofredores, desafiados pela fragilidade dos laços e precisando de auxílio recorrem à intervenção divina. A esperança de construir relações estáveis permanece como aspiração existencial para romper com a comuníssima solidão.
Esse ensaio é uma reflexão sobre a contemporaneidade a partir do trabalho de campo realizado na igreja de são Francisco de Assis, em Santiago, Chile. Coletar essas confissões, conversar e entrevistar os devotos foram tão prazerosos quanto desafiantes.1 Eram uma infinidade de bilhetes, cartas, fotografias, placas, textos escritos a lápis ou caneta, muitos apagados pelo tempo, outros sobrepostos, em todos os altares laterais e das naves, sobretudo próximos a algum orago.2 O voto refere-se a um pedido a um intercessor divino e o ex-voto seria uma expressão religiosa que procura eternizar a eficiente intervenção do sobrenatural e para que esse acontecimento não fique sujeito às contingências temporais. Cria-se a sensação justificada de permanência, de continuidade e possibilita fixar na memória coletiva as circunstâncias do problema vivenciado pelo devoto e o milagre.
Marc Augé, num entendimento mais amplo, define a "supermodernidade" como o momento histórico atual marcado pelo desenvolvimento das tecnologias, pela aceleração da história3, pelo encurtamento dos espaços, pela planetarização de alguns problemas, pela superabundância factual, pela cooperação econômica e política e, por fim, pela individualização das referências.4 Trata-se do contexto do mundo contemporâneo que dilata-se numa pluralidade de mundos coexistentes e conectados, mundos definidos pelo paradoxo de exprimirem, ao mesmo tempo, "a singularidade que os constitui e a universalidade que os relativiza."5 O referido autor demarca problemas nos processos de formação identitária devido ao encurtamento das distâncias entre o próximo e o longínquo, onde o outro não é simbolizável nem facilmente identificável e, ao mesmo tempo, pelo fato da dimensão mítica dos outros se apagar.6 Os outros não são mais diferentes: "mais precisamente a alteridade permanece mas os prestígios do exotismo desapareceram."7 Assim, toda crise de identidade torna-se também uma crise de alteridade, ou seja, uma crise de sentido. é essa liquefação das formações identitárias que desafia os pesquisadores da contemporaneidade, pois vivemos num mundo que ainda não aprendemos a olhar.8
A supermodernidade encontra sua expressão completa nos não-lugares, ou seja, nos "espaços que não são em si lugares antropológicos" (identitários, relacionais, históricos).9 Cria-se, como decorrência, um mundo da individualidade solitária, da passagem, do provisório e do efêmero, impondo às consciências individuais novas experiências e vivências de solidão, diretamente ligadas ao surgimento e proliferação de não-lugares.10 Não-lugar designa duas realidades complementares, porém distintas: "espaços constituídos em relação a certos fins (transporte, trânsito, comércio, lazer) e a relação que os indivíduos mantêm com esses espaços ... assim como os lugares antropológicos criam um social orgânico, os não-lugares criam tensão solitária", silêncios e anonimatos. Ele não cria nem identidade singular nem relação e o passageiro reencontra sua identidade no controle da alfândega, no pedágio, na caixa registradora, etc...11 Para Auge, "é no anonimato do não-lugar que se experimenta solitariamente a comunhão dos destinos humanos."12 A proliferação de não-lugares traz a oportunidade de uma experiência sem precedentes históricos de individualização solitária e de mediação não humana (basta um cartaz ou tela) entre o indivíduo e o poder público.13
Nosso desafio consiste em estar atento às novas formas sociais, aos novos modos de sensibilidades, de sociabilidades, às novas identidades e às novas instituições que surgem como características da contemporaneidade.14 Na atualidade, duvidamos das individualidades absolutas, simples e consubstanciais tanto no plano coletivo quanto individual e valorizamos as imprevisibilidades e transitoriedades dos processos de mudanças, distanciamentos, iniciativas ou transgressões, papéis sociais, definições e subjetividades.15
As identidades regionais, religiosas, sexuais, étnicas e profissionais emergem como construções fluidas, dinâmicas e flexíveis, a partir dos processos de apropriações e re-significações culturais criadas nas experiências entre grupos e indivíduos. é nas fronteiras, nos entre-lugares, nos não-lugares, na tensão entre o público e o privado, no passado e no presente, nos interstícios, nos deslocamentos, nas disjunções que as narrativas culturais e, por fim, no psíquico e no social que estamos produzindo a cultura e estão sendo forjadas, histórias dissonantes e dissidentes. São essas tensões, definições efêmeras, papéis sociais transitórios e intersubjetividades que nos desafiam a olhar.
Na contemporaneidade, somos interlocutores de um movimento aparentemente contraditório: de um lado, a crescente secularização da sociedade; de outro, observa-se a expansão do mercado religioso e uma presença crescente das motivações religiosas na sociedade, em contraposição às análises que previam sua retração no Ocidente como corolário obrigatório e inexorável do desenvolvimento científico e tecnológico, da racionalização e do pluralismo. Os meios tecnológicos mais modernos, como a internet e os de comunicação massivos, e o impacto das inter-relações locais, nacionais e globais não eliminaram as crenças e as religiões. Observa-se a expansão e a multiplicação de dezenas de religiões e de milhares de igrejas, de movimentos, de correntes e de alternativas religiosas, que se expandem, reconfigurando suas funções de acordo com as especificidades das diferentes sociedades onde se instalam. Por outro lado, o crescente surgimento de manifestações religiosas continuam fazendo parte do imaginário social. Os hibridismos culturais, resultado da fusão de crenças, vivências religiosas e das multiplicidades de pertenças, tornam-se mais freqüentes.
Para Alcântara, as manifestações religiosas oferecem seus bens simbólicos no mesmo ritmo da sociedade contemporânea e cabe a cada um de nós escolher, compor e recompor o que representa e sustenta tanto social quanto individual a negociação cultural.16 Segundo Dumont, nossas escolhas religiosas deixaram de ser uma escolha pública e passaram a ser privadas, aspecto que concretizou a secularização da sociedade.17 Na atualidade, acelera-se a individualização geral dos procedimentos, ou seja, "os praticantes querem praticar à sua maneira", em função de sua sensibilidade pessoal.18 A espiritualidade é construída por escolhas privadas e pela criação de narrativas religiosas híbridas. Essas escolhas ocorrem por meio da acelerada da migração simbólica, quando "símbolos identitários de várias regiões migram formando uma outra, sem compromisso de serem mais fundantes" construindo-se novas narrativas híbridas, independentes das tradicionais.19 As migrações simbólicas, as atualizações individuais e os trânsitos religiosos criam narrativas híbridas, ambivalentes, dissonantes e dissidentes, para além das narrativas tradicionais e que o projeto moderno não consegue analisar satisfatoriamente.
Segundo Latour, a sociedade moderna criou um sistema de representação do mundo que dividia radicalmente a natureza, de um lado, e a cultura, de outro. Esse dualismo não impediu a disseminação dos objetos híbridos novos, que pertencem tanto à natureza e à cultura, e que os modernos negaram, por purificarem os objetos, e se recusaram a pensar.20 A religião, por exemplo, "é um produto híbrido de várias naturezas-culturas que nunca deixaram de fazer parte da nossa vida cotidiana".21 O mundo continua encantado (os votos e ex-votos são sua mais viva expressão) e acreditar no seu desencantamento seria defender o projeto moderno. Seríamos, ao mesmo tempo, "laicos e piedosos, ascéticos e crédulos", bons e maus. Essa compreensão extrapola a definição de modernidade e de ambigüidade.
A cultura é dinâmica e a prática votiva, como recorrência à fé, permanece como manifestação religiosa, mas recria-se no contexto da supermodernidade. As motivações são variadas: problemas financeiros, trabalhistas, judiciais, ambientais, afetivos e escolares, muito numerosos, aparecem ao lado dos medos que nos assombram no dia-a-dia. Diante da impossibilidade de controlar as circunstâncias das suas vidas e de saber se obterão sucesso, os homens buscam a unidade para assegurar o controle e, sobretudo, a vitória. Os medos antigos renascem e acrescentam-se novos medos: a morte súbita ou lenta seria o principal deles e de tudo que a simbolize, antecipe ou recorde; das adversidades; do silêncio e do vazio; do efêmero e de tudo que seria "para sempre", das enfermidades; do fracasso; da perda da razão; da censura e da repressão; da violência; do desemprego e da exclusão; da omissão; do passado, do presente e das incertezas do futuro; da natureza; da inveja e da ambição; da insônia; das diferenças; medo de si e dos outros, próximos ou distantes; medo do medo; da solidão, entre outros.
O teólogo e a hierarquia eclesiástica temem a heterodoxia dos fiéis e as outras religiões que disputam o mercado religioso. Os votos e ex-votos são temidos porque seriam a evidência do fracasso da tentativa delirante e desesperada para alcançar a unidade religiosa. Certeau assevera que os indivíduos criam "manhas", "astúcias táticas", "microliberdades", "micro-resistências", mecanismos para burlá-las, por meio de uma elaboração diária, traçando, dessa forma, seus cenários e seus itinerários particulares.22 A vitalidade das manifestações votivas, que se prolongam até a atualidade, é um testemunho da sobrevivência às intervenções disciplinares da Igreja Católica. O termo católico, compreendido como aquele que professa a religião católica, não contempla a multiplicidade das vivências da fé dos indivíduos, que podem transitar por outras religiões e por diferentes e variadas apropriações da doutrina católica. A permanência e a vitalidade das manifestações religiosas, por exemplo, continuam a desafiar a Igreja, que há décadas luta para depurar, exorcizar e substituir sua face múltipla e plural por noções ortodoxas. Eliminar as impurezas das manifestações religiosas, bem como atingir a unicidade religiosa é inatingível, pois os indivíduos sempre criam e preservaram espaços de liberdade, podendo transgredir, rebelar-se, utilizando a liberdade ao inverso e transitando por múltiplas posições. Diante da impossibilidade de controlar, dominar e transformar essas manifestações a Igreja Católica procura manter aparentemente coesas as partes isoladas e contrárias.
A ciência23, ao explicar as representações sociais, permaneceu entre as fronteiras classificatórias rígidas entre as lógicas científicas e mágicas contribuiu também para difundir valores negativos (ilusão, falsidade, superficialidade, conservadorismo) e, ao mesmo tempo, ficou impossibilitada de compreendê-las e de explicá-las.24 A crítica ao projeto moderno, que separava as manifestações religiosas das laicas, nos leva a compreender que essa separação dicotômica nunca se configurou no real. Assim, a Igreja Católica e a ciência legitimam estigmas, negatividades e preconceitos, origem de sofrimentos para indivíduos, grupos e sociedades em vez de contemplar as qualidades dessas manifestações religiosas e de serem transformadas por elas. Nesse sentido, na atualidade, caminhamos para uma nova relação para entendimento entre as manifestações religiosas, que não sejam saturadas de negatividades, mas que salientam sua positividade e seus contributos como forma de conhecimento. O desafio, para Santos, seria criar "uma configuração do conhecimento, que, sendo prática, não deixe de ser esclarecida e, sendo sábia, não deixe de estar democraticamente distribuída", o que seria viável com o atual desenvolvimento tecnológico das comunicações que a ciência moderna produziu.25
A mudança da percepção de tempo, de espaço e do uso que fazemos deles mudaram na contemporaneidade. A história se acelera e temos apenas tempo de envelhecer um pouco e nosso passado individual pertence à história. A superabundância e a planetarização das informações e imagens quebram as particularidades, criam a idéia de um eterno presente e instauram um novo regime de ficção, onde real e ficção tornam-se indistintos.26 Os movimentos de aceleração e excessos, que caracterizam a supermodernidade, sobrecarregam o presente e impedem de dar um sentido ao passado. Segundo Augé, na medida em que cada indivíduo é atacado pela informação e pela imagem as referências se individualizam ou se singularizam: "cada um tem sua cosmologia mas cada um tem também, sua solidão".27 Essa percepção cria a necessidade dos indivíduos, a partir de escolhas privadas, imprimir um sentido à suas vidas.28 Construir e manter laços afetivos estáveis e ter uma memória a ser lembrada fazem parte da necessidade diária de dar um sentido ao mundo, ao presente e ao passado diante das indefinições do futuro. Cada história individual busca em suas experiências motivações, palavras e imagens o encontro de si no estoque inesgotável de uma inexaurível história no presente.
A fragilidade das relações amorosas e familiares e os sentimentos de insegurança, situação hoje generalizada, que todos compartilhamos, contrapõem-se aos desejos de criarem-se relacionamentos estáveis, amores sinceros e fiéis.29 O individualismo, a valorização do efêmero e da rotatividade de parceiros, a falta de compromisso, os relacionamentos "virtuais"30 e a emergência de novas sexualidades estão entre as preocupações mais freqüentes. Os vínculos afetivos são frágeis, flutuantes, flexíveis, inconstantes e marcados por conflitos, tornando a vida dos amantes mais conflituosa e aflitiva. A busca por relacionamentos e os fracassos vivenciados em cada experiência expandem as frustrações, as inseguranças, as incertezas, a ansiedade e a solidão em vez de solucioná-las.
O medo da solidão, de ser abandonado e de envelhecer só motiva a maioria dos votos.31 Os homens e mulheres, no ambiente urbano globalizado, sem amigos, sem amar nem ser amados estariam solitários. Os amantes desejam evitar a separação do ser amado. Somente pela fé, portanto pela graça santificante, que a solidão poderia ser evitada, superada ou controlada. Victória, por exemplo, implora pela união da sua família e o desejo de reconciliação motiva F. P. D. a suplicar para que seu esposo aprenda a amá-la.32 A intenção é não desestabilizar as relações existentes33 e constituir famílias "de verdade".34 Daniela, por exemplo, suplica para que os pais não se separem e Camila para que se reconciliem.35 A aproximação da separação motivou Ingrid a pedir a benção de permanecer com Rafael "para sempre juntos".36 Meplly e Denitza, por sua vez, pedem para que a amizade entre ambas dure "para sempre".37 Verônica confessa a perda da confiança nas relações afetivas e nos homens e o medo de uma nova rejeição motiva o voto para que encontre um parceiro que a ame de forma incondicional, total e abrangente e construa um compromisso sem reservas.38 Natália, ao contrário, desistiu dos homens e preferiu enamora-se eternamente com Jesus.39 Outras mulheres perderam a confiança nas relações e imploram pela proteção contra os "homens maus", que as fazem sofrer.40 As relações homossexuais não são consideradas desviantes e motivam votos para encontrar parceiros ideais, solucionar problemas conjugais ou para reconquistar a pessoa amada.
Os votos e ex-votos no altar de são Francisco de Assis são reveladores da importância dos animais de estimação para superar os riscos dos relacionamentos e a solidão. Os textos são apresentados como se tivessem sido escritos pelos animais, onde agradecem por terem sido salvos de acidentes domésticos e doenças, por terem sido recuperados e onde imploram a proteção para seus donos e para si.41 Os animais também emergem como intercessores entre os homens e os santos e entre os homens e a providência divina.42 Os animais são estimados pela companhia, pela alegria que proporcionam, por ensinarem valores éticos e por amenizarem a solidão e a tristeza.43 O voto em que Daniel solicita a cura de seu cão Kayser: "Não me deixes só aqui ... não quero estar sem você ... Quem caminhará ao meu lado? Quem jogará comigo? Quem me acompanhará para ver as estrelas e escutar meus sonhos?"44 Após oito anos de convivência feliz, a gata Monita faleceu, deixando Carmen na mais "terrível solidão".45 Dani, após a perda do seu animal de estimação, implora para que são Benedito não a deixe só.46
Humanos e animais de estimação constituem uma família, onde a perda de um animal é marcada por atitudes como o transbordamento de afetividades, pelos excessos emotivos, pelo luto e pela dor insuportável. Muitos continuam mantendo profunda reverência e culto à memória dos animais falecidos. Na sensibilidade religiosa os animais também vão para o paraíso celestial.47 O altar reúne também anúncios, com fotos e telefone de animais achados ou perdidos, com recompensas financeiras para quem os encontrar.48 Enfim, restituir laços afetivos e familiares desfeitos, manter a unidade familiar após a morte de um ente querido, humano ou animal, inspiram e motivam os votos.49
Os recuos das proximidades pessoais e dos compromissos duradouros podem ser observados nos âmbitos familiar e afetivo. Para muitos, a solidão pode parecer uma condição menos arriscada e mais segura do que compartilhar o terreno doméstico comum ou a insegurança de um relacionamento.50 A não valorização dos vínculos humanos e do exercício dessa habilidade implica, na mesma proporção, no individualismo e não valorização da convivência, dos compromissos de longo prazo, das negociações, da tolerância, da solidariedade e da capacidade de reconhecer o outro como humanidade. Os amantes, diante de oportunidades fluidas, valores cambiantes, regras instáveis e de individualidades solitárias, estão impotentes, sofredores, desafiados pela fragilidade dos laços e precisando de auxílio recorrem à intervenção divina para ajudar, defender, unir, trazer alívio, afastar, curar e salvar. A esperança de construir relações estáveis permanece como aspiração existencial para romper com a comuníssima solidão. Enfim, um sonho irresistível e auto-realizador, apesar dos riscos que envolvem pela vulnerabilidade dos compromissos e parcerias humanas na complexa contemporaneidade.
Notas
1 O ex-voto seria a oferta em agradecimento pela graça recebida. Os santos, concedendo graças ou como protetores, podem intervir sobre o curso da vida e da natureza, de acordo com os méritos e merecimentos acumulados individualmente. Cada santo tem uma vocação (terapeutas, casamenteiros) e atuam como mediadores celestiais ou como intercessores. Enfim, os votos e ex-votos seriam o testemunho de uma devoção e piedade individuais e uma confissão direta, particularizada e sincera que testemunha as crenças, devoções, temores, ansiedades, alegrias, esperanças, gratidão, desejos e revelam a relação do homem com o sagrado. Eles permitem recuperar vários aspectos do imaginário, das sociabilidades e das sensibilidades na contemporaneidade. O volume da amostragem evidencia que a maioria dos votos refere-se a problemas enfrentados por mulheres que suplicam graças para si ou entes próximos.
2 Observam-se alterações sensíveis na forma de confeccionar o voto e dos ex-votos. Em geral, os materiais são improvisados e a formulação do pedido segue o ritmo acelerado do cotidiano.
3 Corresponde a multiplicação de acontecimentos que, na maioria das vezes, não estavam previstos. Para o historiador contemporaneísta haveria a impossibilidade de encadear os acontecimentos entre um antes e um depois concebido como um desenvolvimento desse antes. AUGé, Marc. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas, SP: Papirus, 1994. p. 30.
4 O autor refere-se a singularidades dos objetos, dos grupos ou pertinências, recomposição dos lugares, singularidades de toda ordem constitutivos dos processos paradoxais de aceleração e deslocalização da contemporaneidade. Simultaneamente a esse processo ocorre o fortalecimento dos particularismos de nações e culturas, que reivindicam sua existência singular, e das lutas pela valorização das diferenças étnicas, sexuais, religiosas, lingüísticas, entre outras, assumindo, algumas vezes, formas violentas. Ibid., p. 41.
5 AUGé, Marc. Por uma arqueologia dos mundos contemporâneos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997. p. 143.
6 AUGé, Marc. A guerra dos sonhos: exercícios de etnoficção. Campinas, SP: Papirus, 1998. p. 14.
7 Essa crise de identidade tem sido acompanhada por reações violentas, como crise de identidade, xenofobia, racismo e pela violência homicida, etc. AUGé, Marc. Por uma arqueologia dos mundos contemporâneos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997. p. 144.
8 AUGé, Marc. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas, SP: Papirus, 1994. p. 38.
9 Para Augé, "o lugar será definido como identitário (no sentido que um certo número de indivíduos podem se reconhecer nele e definir-se através dele), relacional (no sentido que um certo número de indivíduos, os mesmos, podem ver aí a relação que os une uns aos outros) e histórico (no sentido que os ocupantes do lugar podem encontrar nele os rastros diversos de uma implantação antiga, o sinal de uma filiação). Dessa forma, o lugar é simbólico triplamente .... ele simboliza a relação de cada um de seus ocupantes consigo mesmo, com os outros ocupantes e com a história comum." AUGé, Marc. Por uma arqueologia dos mundos contemporâneos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997. p. 169.
10 Seriam as instalações necessárias à circulação acelerada das pessoas e bens (vias aéreas, rodoviárias e ferroviárias), grandes centros comerciais, fax, internet, telefones, redes de TV a cabo, campos de trânsito prolongados (hotéis, clubes de férias, acampamentos de refugiados, terrenos invadidos), entre outros. Para Auge, "o lugar e o não-lugar são, antes, polaridades fugidias: o primeiro nunca é completamente apagado e o segundo nunca se realiza totalmente - palimpsestos em que se reinscreve, sem cessar, o jogo embaralhado da identidade e da relação", ou seja, eles nunca existem de forma pura pois misturam-se e interpenetram-se. AUGé, Marc. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas, SP: Papirus, 1994. p. 73 - 74, 86, 95, 98.
11 Ibid., p. 87.
12 Ibid., p. 110.
13 Ibid., p. 108.
14 Ibid., p. 42.
15 Ibid., p. 26.
16 ALCÂNTARA, Maria de Lourdes de. Um olhar sobre o estudo das manifestações religiosas. Imaginário. n.o 8, p. 29-34, 2002. p. 31.
17 DUMONT, Louis. O individualismo: uma perspectiva antropológica da sociedade moderna. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.
18 AUGé, Marc. Op. cit., p. 39.
19 ALCÂNTARA, Maria de Lourdes de. Op. cit., p. 32.
20 LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.
21 ALCÂNTARA, Maria de Lourdes de. Op. cit., p. 31.
22 CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano: 1. artes de fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.
23 Para Santos, "se o senso comum é o denominador comum daquilo em que um grupo ou um povo coletivamente acredita, ele tem, por isso, uma vocação solidarista e transclassista. Numa sociedade de classes, como é em geral a sociedade conformada pela ciência moderna, tal vocação não pode deixar de assumir um viés conservador e preconceituoso, que reconcilia a consciência com a injustiça, naturaliza as desigualdades e mistifica o desejo de transformação." SANTOS, Boaventura de Sousa. Introdução a uma ciência pós-moderna. Rio de Janeiro: Graal, 1989. p. 37.
24 LATOUR, Bruno. Op. cit.
25 SANTOS, Boaventura de Sousa. Op. cit., p. 42.
26 A nova composição do real condiciona a circulação entre o imaginário individual (sonho), o imaginário coletivo (os mitos, os ritos, os símbolos) e a obra de ficção. AUGé, Marc. A guerra dos sonhos: exercícios de etnoficção. Campinas, SP: Papirus, 1998.
27 Ibid., p. 30.
28 AUGé, Marc. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas, SP: Papirus, 1994. p. 29, 32-33.
29 A. Y. M. escreveu vários votos a são Boaventura, para que a ajude a conquistar o seu amado, que jura amar eternamente. Eles são datados de 27, 28, 30 e 31 de outubro de 2003.
30 A proximidade virtual tornou as conexões humanas mais freqüentes, intensas, banais e breves. A sempre uma oferta ilimitada de possibilidades, assim como de romper. Ela pode ser encerrada, real e metaforicamente com o botão de deletar. As relações virtuais separam comunicação e relacionamento ao não exigir laços estabelecidos de antemão além do virtual. O namoro da internet reduz os riscos e, simultaneamente, evita a perda das opções. Seria uma entre outras escolhas racionais num mundo de oportunidades fluidas, valores cambiantes e regras instáveis. BAUMAN, Zigmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2004. p. 82, 85.
31 Expressões como "não me abandone", "não me deixe de novo" são numerosas. Votos depositados no altar de são Benedito de Palermo, votos não datados e não identificados.
32 Voto dedicado a são Benedito de Palermo, o "advogado das causas impossíveis", em 1 de setembro de 2003 e 8 de agosto de 2001, respectivamente.
33 Voto anônimo deixado no altar de Nossa Senhora Dolorosa, não datado.
34 Voto anônimo, datado de 20 de outubro de 2003, depositado no altar de são Benedito de Palermo; outro dedicado a Nossa Senhora Dolorosa, anônimo, datado de 8 de maio de 2003; Voto, datado de 5 de outubro de 2003, de D. M. D. M, depositado no altar de são Francisco de Assis.
35 Voto depositado no altar de são Benedito de Palermo, escrito por Daniela, sem data e Camila em 19 de outubro de 2003.
36 Voto depositado no altar de são Benedito de Palermo escrito por Ingrid, sem data.
37 Voto depositado no altar de são Benedito de Palermo, escrito por Meplly e Denitza, em 1 de setembro de 2003. Voto anônimo, datado de 26 de setembro de 2003, depositado no altar de são Benedito de Palermo.
38 Voto depositado no altar de são Benedito de Palermo, sem data e identificação.
39 Voto depositado no altar de são Benedito de Palermo, datado de 9 de setembro de 2003.
40 Voto depositado no altar de santo Antônio, anônimo, sem data.
41 Ex-voto depositado no altar de são Francisco de Assis, assinado pelo gato Bernardito, datado de 15 de outubro de 2003; voto assinado pelo cachorro Lulu, escrito em 13 de março de 2003, entre outros.
42 Lulu implora pela intercessão de são Francisco de Assis, em 13 de março de 2001.
43 Ex-voto depositado no altar de são Francisco de Assis, anônimo, de 10 de outubro de 2003.
44 Voto de Daniel a são Francisco de Assis, novembro de 2000.
45 Voto depositado no altar de são Francisco de Assis, Carmem, março de 2003.
46 Voto de Dani para são Benito, sem data.
47 Voto depositado no altar de são Francisco de Assis, anônimo, sem data; voto do cachorro Lulu, de 13 de março de 2003; voto anônimo, de 26 de março de 2001.
48 Procura-se, fixado no altar de são Francisco de Assis, sem data.
49 Voto anônimo, coletado no altar de são Francisco de Assis, sem data.
50 BAUMAN, Zigmunt. Op. cit., p. 84.




