A prática evangelizadora como institucionalização da Igreja no Brasil: História Eclesiástica do Brasil (1724)
Este trabalho consiste na apresentação das Dissertações de História eclesiástica do Brasil, obra do padre Gonçalo Soares da Franca, apresentada na Academia Brasílica dos Esquecidos, em 1724, em Salvador. Para sublinhar a passagem de um tempo antigo para um novo tempo, isto é, do tempo missionário para a consolidação da institucionalização da Igreja, o padre Gonçalo anuncia o surgimento da “Nova Igreja Brasílica”. A nossa pesquisa pretende, portanto, refletir sobre o conceito do que viria a ser essa “Nova Igreja Brasílica” no contexto de consolidação da evangelização e implantação da Igreja no Brasil como fundamento da identidade local.
A historiografia atual sobre a Igreja no Brasil tem duas linhas que se opõem por seus métodos. De um lado, Arlindo Rubert com uma perspectiva histórica a partir da instituição1; e, de outro lado, os historiadores do Cehila - Centro de História da Igreja na América Latina, que optam por uma historiografia interpretativa a partir do "povo"; a primeira herdeira do método positivista, a segunda com uma interpretação a partir da dialética marxista2. Ambas, entretanto, apontam pistas para a construção do pensamento católico no Brasil colonial. Essas duas visões sobre a Igreja no Brasil abrem possibilidades para novas abordagens sobre a configuração da cristandade brasileira desde os primeiros anos da sua fundação3.
A Igreja do Brasil setecentista surge como uma instituição já consolidada e percebida com um perfil singular. A Antiga Igreja Brasílica parece não mais existir. Uma Nova Igreja Brasílica surge como uma possibilidade. O que é a Igreja do Brasil? Como ela se vê no início do século XVIII ? Seria ela uma instituição ainda poderosa como o foi nos séculos XVI e XVII ? Algo parece ter se encaminhado diferentemente. O poder até então exercido pela Companhia de Jesus começa a se enfraquecer e as outras Ordens religiosas começam a mostrar outros modelos de poder segundo a força persuasiva das suas espiritualidades. O século XVIII comportaria as múltiplas experiências de ascensão, de apogeu e de princípio de decadência das instituições religiosas face ao redimensionamento da Igreja e do Império Português. Entremos, portanto, no "tempo da ascensão eclesiástica".
No século XVIII surge a reflexão histórica e historiográfica sobre a Igreja no Brasil. A obra intitulada Dissertações de história eclesiástica do Brasil, do padre Gonçalo Soares da Franca, despertou a nossa atenção e tem estimulado a nossa pesquisa sobre uma possível escrita historiográfica eclesiástica4. O padre Soares da Franca abre uma discussão fecunda não apenas no campo de uma história factual das instituições religiosas na evangelização do Brasil, ele também nos fornece indícios de uma construção ideológica de uma identidade local alicerçada na evolução das trocas culturais entre portugueses e indígenas, os brasílicos que, ao longo das interações e negociações com os conquistadores e colonizadores, teriam forjado os "novos brasílicos", terminologia criada e utilizada por Frei Jaboatão na sua crônica franciscana, publicada em 1761, em Lisboa5.
A originalidade de uma história eclesiástica do Brasil no século XVIII está no aparecimento da expressão "Nova Igreja Brasílica". A novidade de uma concepção local ligada à religião está inserida na intersecção da prática evangelizadora das ordens religiosas e da institucionalização da Igreja através das dioceses e paróquias no Brasil. A "Nova Igreja Brasílica" parece assinalar um novo tempo, um tempo marcado pela adesão ao discurso às gentes da terra, do Brasil. Assim, a novidade de uma "Nova Igreja Brasílica" confirmaria o perfil místico-político do Brasil em 1724, tendo como fundamento a tradição apostólica do cristianismo primitivo, mais precisamente na evangelização de São Tomé pelas terras das Américas. Uma identidade colonial é construída, portanto, a partir da experiência religiosa, fruto de uma evangelização luso-brasileira, pois a conversão à fé cristã é o resultado de vários grupos eclesiásticos e de leigos com espiritualidades específicas.
O movimentado século XVIII se caracteriza pela construção de uma "identidade local". O território e as gentes que povoam a terrabrasílica protagonizarão um processo de consciência sobre a condição do Brasil no vasto Império Português. A história eclesiástica que apresentamos tem de ser compreendida no contexto da Academia Brasílica dos Esquecidos (1724). Trata-se, portanto, de uma reflexão sobre a evangelização e a consolidação da Igreja no Brasil. Mas é, sobretudo, o esforço de interpretar o resultado da prática missionária de onde emerge o "novo" perfil político em aliança com a cristandade universal. A história do padre Soares da Franca surge quase simultaneamente ao primeiro Sínodo da Bahia, em 1707, o primeiro e único documento eclesiástico do século XVIII que regerá a Igreja e todas as instituições religiosas que a compõe durante todo o período colonial. O Primeiro Sínodo da Bahia, pensado e realizado por dom Sebastião Monteiro da Vide, nos insere num contexto cultural da Igreja que pretende fortalecer as estruturas oficiais da Igreja e, dessa forma, reformar a sociedade na perspectiva tridentina6. O século XVIII nasce, portanto, sob o auspício de uma Igreja fortemente marcada pelo carisma de um arcebispo voltado para a moralização dos costumes e ortodoxia da fé católica na dimensão do Império Português.
As Igrejas (paroquiais, capelas ou de missões) eretas pelas dioceses e paróquias compõem o caráter universal da Igreja. Esta estrutura secular da Igreja lhe dá o suporte para, junto com o Império Português, impulsionar as conquistas e a colonização associada à evangelização. Dessa forma, se por um lado, a instituição eclesiástica colonial, com as suas diversas fases de conquista e evangelização, consolidou não apenas a posse de uma geografia, mas também imprimiu o selo da Igreja como essência dessa parte americana do Império Português, por outro lado, a evangelização do Brasil propiciou, como tantas outras partes das conquistas modernas, uma complexa dinâmica dos diferentes continentes7. A Igreja será um dos canais de veiculação de idéias, de ideais e de práticas religiosas diversas sempre associadas às grandes correntes marítimas de conquistas, sejam elas católicas ou protestantes8. A elasticidade do catolicismo americano provocará, paradoxalmente, novas formas de saberes que privilegiarão a cultura local, e esta, por seu turno, encontrará no outro lado do Atlântico e de um passado remoto, o sentido da sua existência.
A história da implantação da instituição eclesiástica e a história das práticas religiosas cristãs no Brasil sem dúvida produziram uma diversidade cultural religiosa sem precedente. Tudo o que nos chegou até o presente se efetivou num lento e difícil contexto de evangelização e colonização na maioria das vezes revelando interesses comuns e interesses antagônicos das mais diversas instituições e de grupos sociais distintos. A criação de dioceses, de paróquias e de missões estava sob o domínio do Padroado régio português. Acompanhando o processo de ocupação geográfica, a Igreja que se instala no Brasil passa por fases e a primeira delas é a fase missionária (1500-1549). Cabe às Ordens religiosas implantarem e sustentarem toda a ação evangelizadora das terras encontradas ao longo do litoral "brasílico", para usar a terminologia empregada por Francesco Giustiniani, geógrafo italiano que, em seu El Atlas abreviado, obra publicada em espanhol, apresenta o Mar Brasílico9. Um tempo marcado por lutas pelo domínio do litoral do Atlântico sul, a Igreja é a responsável por aquilo que eu chamo de "missões da fronteira atlântica".
A região litorânea da América Portuguesa se tornou na verdade uma linha fronteiriça que a dotaria ao mesmo tempo de poder e fragilidade, poder pelo fato de ser a porta de entrada para um vasto país desconhecido, e frágil pela extensão de sua costa e dos seus Sertões que estavam constantemente sob a mira de conquistadores externos e internos. A Igreja missionária portuguesa que se instala no Brasil é lenta em assumir e instituir uma geografia católica baseada nas circunscrições eclesiásticas. As dioceses são pouco numerosas, os territórios das paróquias são imensos e as missões são, na verdade, a opção mais viável para se dominar as terras e domesticar as gentes bárbaras. Basta-nos recordar que a Terra da Santa Cruz ficara sufragânea da diocese do Funchal, criada em 1514, até 1551, quando é criada a diocese de São Salvador da Bahia. As demais dioceses só surgirão a partir de 1676, com a criação das dioceses de Pernambuco e Rio de Janeiro e, no século XVIII as demais dioceses: São Paulo, Mariana etc. O resultado dessa diversidade de etapas são as teologias que produzidas em solo "brasílico"10.
Qual a aspiração da Igreja no Brasil do século XVIII ? Ela pensa não mais a partir da metrópole portuguesa, mas a partir dela mesma, da sua gênese, do seu processo "civilizatório" e da sua vocação para um futuro aberto. Pesquisar a estrutura eclesiástica colonial brasileira não é tarefa fácil. Partimos da hipótese de uma história local, a da Igreja do Brasil. Ela inicia a busca de uma "identidade", por mais anacrônico que esse termo possa aqui ser empregado. A identidade dos habitantes do Brasil está baseada na também identidade católica. São vários séculos de colonização e de evangelização, com inúmeros momentos de negociações e alianças e entre a Igreja e as instâncias administrativas, sejam do Império Português, seja com o próprio centro da fé católica, Roma. A Igreja do Brasil está intimamente ligada à evolução da expansão do Império português que, por sua vez, nunca abriu mão do apoio e atuação da Igreja. A Igreja é um poder político-religioso ao lado de outros poderes também políticos e/ou politizados que vão se estabelecendo e descortinando as etapas de um Brasil em processo de busca de auto-afirmação.
A diocese - território da autoridade episcopal - é um lugar de trocas entre os eclesiásticos: o bispo assegura as informações periódicas com os seus subordinados, os párocos e os religiosos que se distribuem pelas Ordens com suas espiritualidades específicas. Os seus fiéis, a quem é endereçada as regras e normas para o bem-viver e o bem-morrer, são os verdadeiros responsáveis para que a evangelização produza frutos. Cabe às instâncias do poder eclesiástico assegurar a governabilidade do povo de Deus11. Só a partir do século XVIII, o Estado se apropriará da função do pastoreio não mais com características religiosas, mas estritamente política12.
O ano de 1724 é um marco divisório para a análise sobre o Brasil. Surge em Salvador a Academia Brasílica dos Esquecidos. Os acadêmicos brasílicos realizam, a pedido da Real Academia Portuguesa de História, fundada pelo magnânimo dom João V, em 1720, o desafio de escrever a história do Brasil para compor a história do Império Português. Do lado de cá do Atlântico, as Dissertações de história eclesiástica do Brasil, escrita pelo padre Gonçalo Soares da Franca, são pela primeira vez apresentadas para o seleto grupo letrado que aspirava contribuir com a realização da escrita da história do Brasil13. O aparecimento de uma história eclesiástica do Brasil em 1724 nos provoca a pensar essa obra não apenas sob um ponto de vista local, mas a partir de uma visão de Império Português.
Dentre os primeiros intelectuais que figuraram na Academia Brasílica dos Esquecidos, destaca-se o padre Gonçalo Soares da Franca. Nascido na Bahia, filho de Luiz Barbalho de Negreiros e Luiza Cortereal, Soares da Franca estudou no colégio da Companhia de Jesus, em Salvador. Depois de concluir seus estudos, ele foi ordenado sacerdote secular. Desde cedo, Soares da Franca se interessou pela "Historia sagrada, e profana", nelas se distinguindo, sendo, em 1721, eleito sócio supranumerário da Academia Real de História de Portugal.
Inclinado à poesia, outras obras do padre Soares da Franca revelam o objetivo de engrandecer a sua terra e confirmar a sua pertença ao Império Português14. A maioria dos seus escritos poéticos foi composta em homenagem a D. Pedro II e foram impressos no Breve Compendio e Narração do fúnebre espetáculo, que na Cidade da Bahia se fez à morte daquelle Monarcha, publicado em Lisboa, em 170915. Todavia, em Brasília. Poema Heróico do Descobrimento do Brasil, Soares da Franca apresenta o que viria a ser a sua grande paixão: pensar o Brasil no contexto do Império Português. Essa obra consta de mil e oitocentas oitavas, e ficou manuscrita. Deste Poema, leu o primeiro Canto na Academia instituída no palácio de Vasco Fernandes Cezar de Menezes, Conde de Sabugosa, Vice-Rey do Estado do Brasil16. Estudioso e pesquisador da história eclesiástica, Soares da Franca apresentou na Academia dos Esquecidos as Dissertações de História Eclesiásticas no Brasil.
O padre Soares da Franca é um representante da elite intelectual do Século XVIII. Um dos sete sócios fundadores da Academia Brasílica dos Esquecidos, que teve seu início no ano de 1724. Ele foi encarregado de escrever a história eclesiástica do Brasil e os resultados dos seus estudos ele apresentou sob título de Dissertações de história eclesiástica do Brasil.
A ciência histórica herdada da escola jesuítica dos bolandistas influencia o pensamento do padre Soares da Franca sobre a interpretação da Igreja do Brasil17. Representando não somente um pensamento no seio da Igreja, essa escola histórica dos jesuítas se dedicou, no século XVII, à tarefa de editar as vidas dos santos a partir dos textos primitivos, sem a preocupação de estabelecer correções estilísticas exigidas pelo movimento humanista. João Bolland e seus seguidores sofreram crítica da Inquisição espanhola, mas a condenação apenas parcial foi anulada em 1715. O trabalho foi suspenso com a expulsão dos jesuítas da Bélgica, em 1778 para continuar ainda durante 15 anos. Os bolandistas foram precursores da aplicação do método crítico sistemático aos escritos da vida dos santos18. Estamos no auge do aparecimento das grandes coleções de fontes do século XVII e XVIII que abriram novas perspectivas para a narrativa pragmaticamente orientada da história da Igreja: coleções de Concílios, vida de santos, edições dos Padres da Igreja e coleções de livros litúrgicos19. Não é à toa que a fundação da primeira cátedra de história da Igreja, em 1741, aconteceu no colégio Romano da Companhia de Jesus20.
No intuito de escrever a história da América Portuguesa, os intelectuais luso-brasileiros, fundaram a Academia Brasílica dos Esquecido. Eles projetam a realização da história do Brasil, na qual figuraria a História Eclesiástica21. Tal projeto não avança porque a Academia não tem continuidade. Mas os homens da Igreja e do Império Português continuam a anotar os apontamentos necessários para a escrita da história local22.
A ciência histórica herdada da escola jesuítica dos bolandistas influencia o pensamento sobre a interpretação da Igreja do Brasil23. Representando não somente um pensamento no seio da Igreja, essa escola histórica dos jesuítas se dedicou, no século XVII, à tarefa de editar as vidas dos santos a partir dos textos primitivos, sem a preocupação de estabelecer correções estilísticas exigidas pelo movimento humanista. João Bolland e seus seguidores sofreram crítica da Inquisição espanhola, mas a condenação apenas parcial foi anulada em 1715. O trabalho foi suspenso com a expulsão dos jesuítas da Bélgica, em 1778 para continuar ainda durante 15 anos. Os bolandistas foram precursores da aplicação do método crítico sistemático aos escritos da vida dos santos24. Estamos no auge do aparecimento das grandes coleções de fontes do século XVII e XVIII que abriram novas perspectivas para a narrativa pragmaticamente orientada da história da Igreja: coleções de Concílios, vida de santos, edições dos Padres da Igreja e coleções de livros litúrgicos25. Não é à toa que a fundação da primeira cátedra de história da Igreja, em 1741, aconteceu no colégio Romano da Comaphia de Jesus26.
No intuito de escrever a história da América Portuguesa, os intelectuais luso-brasileiros, fundaram a Academia Brasílica dos Esquecido. Eles projetam a realização da história do Brasil, na qual figuraria a História Eclesiástica27. Tal projeto não avança porque a Academia não tem continuidade. Mas os homens da Igreja e do Império português continuam a anotar os apontamentos necessários para a escrita da história local28.
O texto do padre Gonçalo Soares da Franca está dividido em duas partes. A primeira parte aborda a conquista, a colonização e a evangelização dos povos indígenas pelos Portugueses. A segunda parte, contendo três dissertações, sublinha a importância da estrutura eclesiástica através de bispados, das paróquias e das missões entre os indígenas.
Para a compreensão da obra do padre Gonçalo Soares da Franca, dois textos publicados recentemente foram fundamentais. O primeiro estudo é o de Fábio Pedrosa que apresenta um panorama da Academia Brasílica dos Esquecidos (1724). Neste texto encontramos informações de como se desenvolvia a intelectualidade no Brasil do século XVIII. O autor afirma que o ano de 1724 é considerado como um marco do movimento acadêmico na colônia. A sua análise sobre a dita Academia é sucinta, pois o seu objetivo é apresentar o que foi produzido sobre a História Natural do Brasil, cujo autor é Caetano de Brito29.
Outro estudo, o de íris Kantor, sobre as academias literárias do século XVIII foi fundamental para nos esclarecer o contexto e a produção intelectual acadêmica. A pesquisa efetuada por íris Kantor apresenta uma análise fundamentada das duas academias onde a autora demonstra um profundo conhecimento do que foram essas academias no contexto e do papel que elas desempenharam na sociedade brasileira. O padre Gonçalo Soares da Franca faz parte, portanto, de um seleto grupo que reflete sobre a história do Brasil. As Dissertações de História Eclesiástica do Brasil inaugura o pensamento local sobre a evangelização do Brasil e sua relação com a Igreja universal.
Na introdução às Dissertações, são apresentados Os povoadores do Brasil. Para tal fim, Soares da Franca, num misto de "humildade" e erudição, demonstra conhecer os historiadores clássicos: "Bem instruído (sem vaidade o digo) nas partes, de que deve constar o todo de uma história, ou já pelos preceitos aprendidos com indagação nos Túlios, Políbios, Agripas, Tácitos etc.(...) que são os que com mais felicidade a escreveram, tinha já a minha pena, senão voado, que as asas dos pobres não voam." 30
Elogia os jesuítas e questiona as outras Ordens religiosas por não terem escrito as suas respectivas histórias. Dos franciscanos, grupo que me interessa de perto, ele diz não existirem nem livros e nem memórias, todas as Ordens perderam seus referenciais espirituais. Falta de escritos sobre suas origens e seus fundamentos místicos dificultam a eleição de material impresso e manuscrito. Essa constatação de ausência de fontes teria levado o autor a optar por uma narrativa revisionista do que já foi escrito.
"Se perguntardes à religião do esclarecido Patriarca São Francisco pelas origens, e progresso, das suas fundações na Bahia, não vos darão outra notícia, que a que dá em curtas regras Jorge Cardoso no seu Agiológio Lusitano; pois a religião do Serafim humano, aquele jardim onde floresceram os Escotos, os Boas Venturas, os Ales, os Mástrios, e tantos outros, sem livros e sem memória? Essa é a desgraça da sua e minha história. Se fizerdes a mesma pergunta, à religião dos Príncipes dos Patriarcas São Bento, da mesma sorte ouvireis que ainda da sua religião ainda se não fez crônica no Brasil; pois a religião de São Bento, aquele arquivo de Letras, onde por tantos séculos se depositaram tão insignes sujeitos, como os Bedas, os Egídios, os Damiões, ou Lauretos, os Bercórios, e outros, sem crônicas, e sem memória? Essa é a infelicidade da sua, e minha história. Se inquirirdes da Religião Carmelitana o princípio das suas casas, e progressos dos seus religiosos neste novo mundo, escutareis quase idêntica resposta, que ainda se não publicou Livro, que trate de seus progressos, e das suas casas; pois dos filhos de Elias, daquele que em triunfante carro soube triunfar da morte há de triunfar o esquecimento? O Carmelo aquele abreviado firmamento, onde brilharam os científicos astros dos Mantuanos, dos Delgadilhos, dos Lesanas, dos Guadalajaras, e outros, sem livros e sem memórias? Essa é a pouca sorte da sua, e minha história. Se desejardes saber dos modernos religiosos da mística Santa Tereza, e dos moderníssimos filhos de Agostinho (moderníssimos digo na Bahia) os princípios das suas fundações, quase estou em vos dizer que vos hão de responder o próprio; pois dos filhos de duas águias, que examinaram o Sol das Ciências, se há de presumir que degeneraram em pombas, que não escrevem livros, que não conservam memórias? Esse é o infortúnio da sua e minha história".31
Resumo da obra do Padre Gonçalo Soares da Franca que tem como título: Dissertações da História Eclesiástica do Brasil. A obra é dividida em duas partes. A primeira consta de cinco dissertações e a segunda de três dissertações. A primeira dissertação da primeira parte têm o título Da história eclesiástica do Brasil, trata do seu descobrimento32. O autor no início do texto relata a falta de escritos ou crônicas acerca do descobrimento do Brasil. Dessa forma, o autor descreve a história eclesiástica desde os primórdios da colonização. Ele relata desde os preparativos da armada cabralina até a chegada ao Brasil, o texto se esmera em apresentar os detalhes desta armada como o número de homens (de mar, de guerra e de religiosos). Na chegada á Terra da Santa cruz, o autor também relata as minúcias em que se deu esta chegada. O Padre Gonçalo S. da Franca faz uma crítica a respeito dos dias em que Cabral permaneceu em território brasileiro, pois há divergências sobre o assunto, o autor afirma que é inverosímil a armada de Cabral só ter ficado alguns dias. Nesta primeira dissertação constam as primeiras impressões dos portugueses sobre os nativos como também a primeira missa realizada em território brasileiro.
A segunda dissertação, Em que se descreve geograficamente o Brasil33, é uma descrição geográfica do território brasileiro e dos seus habitantes. Fala-se dos gentios que "não tinham malícia" e dos benefícios da terra devido ao seu clima, á sua fauna e á sua flora. A descrição feita dos indígenas é de certa curiosidade, pois podemos considerar um reflexo da época, preconceituosa e que diminuía os índios; o autor também descreve a localização das nações indígenas como também os seus comportamentos e os seus costumes. Em que se resolve quem foram os primeiros povoadores do Brasil, quando, e como, a êle passaram34, este é o título da dissertação terceira que se refere a uma idéia mágica do aparecimento dos nativos. O padre Gonçalo s. da Franca relata as várias teorias sobre os povos antigos que poderiam ter chegado ás Américas, como os Fenícios e os Cartagineses, mas o autor logo nos diz que isto não ocorreu. Segundo o autor, duas objeções descartam essas hipóteses: a primeira que estes povos antigos utilizavam a navegação de cabotagem e a segunda são as invenções náuticas as quais só foram descobertas no período anterior ao do livro.
O padre Gonçalo S. da Franca nos traz a teoria de que os indígenas são os descendentes dos judeus. Ele compara os costumes das duas etnias mostrando várias coincidências entre elas e supondo outras. Para o autor, os primeiros habitantes das Américas são os descendentes de Noé e para afirmar o que diz ele reforça com a afirmativa dos indígenas saberem nadar muito bem.
Na quarta dissertação, Se na América passou são Tomé35, o autor quer mostrar a veneração dos índios por Tomé, um homem branco. Segundo os indígenas, ele teria mostrado o verdadeiro caminho do céu. A veneração por São Tomé era tanta que diziam existir pegadas do apóstolo por várias partes das Américas. Os índios atribuem a São Tomé o ensino de cultivar e beneficiar a mandioca como também o modo de viver dos índios. O autor confirma a passagem de São Tomé a partir de citações bíblicas e também apresenta alguns autores que escreveram sobre São Tomé e suas pregações, como o padre jesuíta Manoel da Nóbrega. O padre Gonçalo S. da Franca mostra duas razões para que São Tomé tenha pregado na América. A primeira razão ele faz um paralelo entre os apóstolos que pregaram em todo o Mundo Antigo e São Tomé que, segundo o autor, teria pregado nas Américas, porque se o os apóstolos pregaram em todo o mundo antigo porque São Tomé não poderia ter pregado nas Américas. São Tomé pregou na ásia e por que não nas Américas: Se os índios do Brasil tinham alguma lei, como e quando a êle passou a Católica Romana36, este é o título da dissertação quinta da primeira parte. Inicialmente o texto aborda a falta de fé dos índios quando da chegada dos colonizadores. Mas os gentios tinham as suas crenças que ao autor compara com os animais. O padre Gonçalo S. da Franca faz uma breve descrição de como o reino de Portugal vai se tornando cada vez mais católico, culminando com as grandes navegações, ou seja, Portugal chegou a ser uma potência por ser católico. No texto está claro que a chegada de Cabral não foi um mero acaso e sim uma tomada de posse. Há o relato das expedições que ocorreram depois do "descobrimento" , após a costa ser mapeada o el-rei decidiu povoar o Brasil. Tomé de Souza se tornou "Governador e Capitão Geral de todo o Brasil" e com ele uma comitiva muito grande e entre eles estavam alguns religiosos da Companhia de Jesus.
Como o comando normativo religioso indígena no Brasil passou a ser Católico Romano ? De acordo com os valores e o pensamento clerical da época, os índios não tinham leis porque, ao contrário dos indígenas da América espanhola, quando ouviram as pregações de São Tomé não lhe deram ouvidos. Por outro lado, os indígenas teriam, segundo o pensamento da época, uma cognição muito nublada de uma "instância superior", a quem chamavam "Tupã", que por sua vez, tem feições teológicas ainda muito primárias, e isto tudo, segundo o clero, impedia um adequado conhecimento de Deus. A idéia de que os índios não possuíam leis racionais, pelo fato de serem regidos pelos próprios instintos, poderiam ser comparados às feras. Feras que a piedade dos monarcas Dom Manuel e Dom João III agraciou com a luz do evangelho, pois essa era "a vossa única e santa intenção".
El-Rei era o principal responsável pela dilatação da fé católica, e o objetivo da conquista da Terra da Santa Cruz era povoá-la. Os governadores foram os grandes artífices da intenção do monarca. Governar para "colher o fruto do seu trabalho na agricultura da palavra de Deus" permeava a atuação dos administradores. O governo exemplar mais citado pelo padre Soares da Franca é o Tomé de Souza - Governador e Capitão Geral de todo o Brasil - pelas suas ações militares na áfrica e na ásia. Entretanto, reconhece o padre, houve bastante abuso por parte daqueles que tinham o poder delegado da coroa aqui. Os privilégios outorgados aos administradores tornavam-se motivos de usurpação do poder.
Para o padre Soares da Franca, a Fé Católica Romana teria sido implantada no Brasil pela atuação do primeiro governador, Tomé de Sousa. Ele conquistou a terra, construiu locais para a soldadesca (Fortes e fortins) nos extremos da parte do Sul, às portas de São Bento, e às portas do Carmo e neles plantou oito peças de grossa artilharia. O passou seguinte foi o de desenhar a nova Cidade: repartiu as ruas, demarcou as praças, assinalou o local das igrejas, projetou o Palácio, o Senado, Cadeia, alfândega, armazéns, em suma, ele urbanizou a conquista. Foi ele também que construiu a primeira igreja, dedicada a Nossa Senhora da Ajuda, onde habitaram os religiosos da Companhia de Jesus.
A segunda parte da obra do padre Gonçalo S. da Franca contem três dissertações. Da história eclesiástica do Brasil: Trata da fundação das Igrejas37. O objetivo principal dessa primeira dissertação é o de mostrar as fundações das igrejas paroquiais, conventuais e as de missões. Desembarcados os "novos agricultores da vinha do Senhor" o maior incentivo para acender o zelo na evangelização, eles começaram a realizar obras evangélicas reduzindo os gentios e a tirá-los da barbárie. Esta dissertação pretende mostrar as fundações das igrejas. Compete aos Jesuítas a fundação das primeiras igrejas. A primeira é a de Nossa Senhora da Ajuda, na Bahia. Houve certa dificuldade em passar os preceitos católicos aos indígenas devido ao não conhecimento da língua nativa. Um dos que contribuíram para as primeiras formas de catolicismo no Brasil foi Diogo álvares "o Caramuru" e alguns degredados que foram deixados por Cabral. Para ficar mais perto das aldeias indígenas, a igreja de Nossa Senhora da Ajuda mudou-se de lugar e com isso aumentou o número de fiéis e seguidores da nova fé.
Os missionários fazem parte da milícia celeste e "os religiosos da Companhia de Jesus foram os primeiros soldados de Cristo que, marchando entre os soldados portugueses com seu governador Tomé de Souza, fizeram assento no lugar em que hoje se vê fundada a Bahia, e no sitio em que está edificada a Igreja de N. Sra. da Ajuda com a mesma com que fabricaram de taipa, a primeira Igreja (...) com eles, desembarcaram alguns sacerdotes do habito de São Pedro e nessa diligencia os seguiram e o imitaram." Coube aos sacerdotes, através da pregação, introduzirem a Lei de Cristo. Nas aldeias tocava-se uma campanhia e, congregando os índios, chamava-os a escutar a novidade. Mas antes de anunciar-lhes novidade da conversão, repartiam-lhes primeiro contas vermelhas de pergaminho, e outras peças semelhantes para os atrair.
Para batizar os recém-nascidos, os missionários usavam o método de molhar bem um lenço que quando exprimidos destilavam suficiente matéria para a realização daquele sacramento, única chave, segundo o padre Soares da Franca, que abre as portas do céu. Um dos maiores obstáculos, entretanto, ainda era a falta de intérprete para a língua brasílica.
Algumas vezes esse limite da evangelização era contornado com a chegada, de outras partes, de intérpretes nativos. Assim, notificava que "Com o novo intérprete, que chegou em breves dias a Bahia, saiam os religiosos e demais sacerdotes com maior confiança a doutrinar e batizar adultos e crianças; mas como uma planta, já crescida, ainda que truncada, sempre deixa raízes que renovam segundo as folhas." E o aumento do número de convertidos como também a propagação da religião católica ia revelando sinais de mudanças nos habitantes, tornando-os "novos homens aqueles que não tinham mais de humanos". Crescendo o fruto espiritual, crescia também o campo de trabalho, porque quanto mais se estendia a evangelização mais se fazia sentir a diminuição dos "agricultores" da vinha do Senhor.
O título da segunda dissertação é Continuam as fundações das Igrejas38. O texto continua a apresentar as paróquias erigidas pelo segundo bispo do Brasil, Dom Pedro Leitão. Ele fundou, em 1562, as paróquias de Itaparica e de Vera Cruz, o autor novamente faz a descrição que fez com a primeira freguesia na dissertação anterior. Com esta descrição podemos ter um parâmetro entre as paróquias, pois temos em mãos dados importantes como o número de habitantes e as rendas que dão ás paróquias. Assim podemos então ter uma idéia de como se comportava a sociedade nestas paróquias, se as mesmas eram ricas ou pobres e, em algumas delas, o autor ele apresenta a descrição da terra e até mesmo de que as pessoas retiravam a sua renda.
Essa característica vai continuar também na terceira dissertação que tem o título de: Em que se prossegue as erecções das Igrejas Paroquiais39. O autor continua a descrever as paróquias que foram erigidas pelos bispos do Brasil, a última paróquia mencionada pelo autor é erigida em 1682. Trata-se da paróquia de Santo Antônio de Jacobina, área privilegiada por suas jazidas de ouro e prata, nos informa o padre Gonçalo S. da Franca.
A dissertação terceira apresenta as ereções das Igrejas Paroquiais. Padre Soares da Franca vai apresentar as datas, suas delimitações geográficas, os vigários, número de homens e mulheres, criados, escravos e almas, assim como também as rendas das paróquias. O autor afirma que o leitor encontrará notícias jamais encontradas em outros tomos ou livros, jamais ditas, mas nesta dissertação ele vai escrever o que os outros acharam, ou disseram40. "Já temos aberto os alicerces da nova Igreja Brasílica, e suposto que a alguém pareceriam ajustadas as pedras deste edifício como conduzidas de tão longe, todavia agora se cera como todas foram precisas e adequadas para a fábrica, que pretende erigir a nossa história eclesiástica. (...) será o nosso principal objeto mostrar nesta segunda parte o que pertence à fundação das Igrejas assim paroquianas como conventuais, Missões, etc., e os mais sucessos, que tocamos serão acessórios de tal sorte, porém, enlaçados, que o que referirmos do topográfico, ou militar seja como meio, que respeita ao fim do eclesiástico 41."
Da política à religião, o eixo dos pensadores do Brasil colonial residia no esforço de descobrir em que consistia o país e as gentes que formaram a sociedade por eles observada. As Américas sempre foram consideradas um grande laboratório a ser observado, analisado e estudado. O Brasil, por suas singularidades face à América espanhola, chamou a atenção por suas diferenças e paradoxos. Neste sentido, o esforço do padre Soares da Franca é o de sintonizar o Brasil com o mundo, inserindo-o num lento processo de conexão com as descobertas e com as tradições do Ocidente. O autor dasDissertações pretende mostrar um percurso evangelizador ligado à tradição apostólica. Segundo Soares da Franca, quatorze autores "modernos" tratam do assunto e confirma a tradição de ser São Tomé o apóstolo da América42. Dois autores são mencionados e transcritos:
"(...) yase en la mar del sur uma aldea llamada Guatulio, aonde veneraban los índios una cruz, que se ladió San Tomé, cuya imagem, y próprio nombre teniam esculpidos em piedra viva (...)" (Frei Joaquim Brúlio, História do Peru) "(...) consta por tradiciones imemorabiles que los índios de Chiapa teniam noticias de los mistérios de nuestras redención, que les fueron declarados por unos hombres blancos, barbados, y cubiertos hasta los tovillos, nombrando a uno de los Tomé (...)". (Bartolomeu de lãs Casas)
O fundamento, para o autor dasDissertações, que liga as Américas à tradição cristã é, sem dúvida, o mito da passagem de São Tomé pelas Américas. Seguindo o mandado de Cristo, os apóstolos pregam o evangelho por toda a terra, e a todas as criaturas, sem exceção, nem de pessoa, logo às Nações da América pregou algum apóstolo43.




