O Diário de Bordo de um Jesuíta Expulso do Estado do Grão-Pará e Maranhão, 1757-1758.
Roma, 1773, o Papa Clemente XIV, eleito com o apoio das Cortes francesa e espanhola dos Bourbon, decretou a supressão da Companhia de Jesus. Era o golpe final contra a ordem que, fundada no século XVI para atuar junto às conquistas de além-mar, tornara-se no XVIII um obstáculo à afirmação das monarquias. No entanto, foi o longínquo Estado do Grão-Pará e Maranhão, no extremo norte da América Portuguesa, um dos primeiros palcos da perseguição geral sofrida pela ordem no século das luzes. O governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do Marquês de Pombal, já em 1757 expulsou 15 jesuítas da região, dentre eles o missionário alemão Lourenço Kaulen (1716-?). Autor da Relação Abreviada das Coisas Notáveis da Nossa Viagem do Desterro do Pará a Lisboa, Kaulen narra em detalhes os apuros e conflitos vivenciados pelos jesuítas expulsos do Grão-Pará e Maranhão.
Essa "poderosíssima corporação de gente", segundo o texto da Dedução Cronológica e Analítica - saída à luz em 1768 por ordem do Marquês de Pombal (1699-1782) - , não constituía uma Religião preocupada com a salvação das almas, antes, empenhava-se em aniquilar todos os poderes legítimos, por meio de intrigas, conflitos e, conseqüentemente, anarquia. E, sob a acusação de conspiradores, praticantes do crime de lesa-majestade, ladrões de ouro e portadores de riquezas ilícitas, os jesuítas, confessores régios por excelência e mestres dos principais colégios da Europa, foram expulsos do Império Português em 1759. No entanto, antes mesmo de Lisboa ou Roma, o longínquo Estado do Grão-Pará e Maranhão, no extremo norte da América Portuguesa, tornou-se um dos principais palcos da perseguição geral sofrida pela Companhia de Jesus no século das luzes.
A região, que até às primeiras décadas do século XVIII não despertava interesses mais diretos por parte da Coroa, sendo administrada na prática pelas ordens religiosas via Regimento das Missões (1668), tornou-se alvo de atenção especial a partir do governo de D. José I (1750-1777). Tanto que entre os anos de 1751 e 1759 o cargo de governador-geral do Estado foi ocupado por Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão e importante aliado de Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro Marquês de Pombal.
Aliás, foi Mendonça Furtado que sugeriu ao 1º. Ministro de D. José o estabelecimento de uma companhia monopolista de comércio no Estado do Grão-Pará e Maranhão. O objetivo era desenvolver, sob o controle da Coroa, as potencialidades econômicas da região, além de prover os colonos de mão-de-obra escrava africana. Os apelos do governador foram prontamente atendidos por Pombal, que instituiu a Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão em 1755, simultaneamente, aliás, às leis de seis e sete de junho do mesmo ano.
Deixando de lado o Regimento das Missões, essa legislação subtraía aos padres toda a autoridade temporal exercida junto aos nativos, uma vez que decretava a liberdade completa dos indígenas aldeados e a sua integração à administração colonial através da transformação das missões em vilas.
Evidentemente tais medidas não foram recebidas com agrado por parte dos missionários e, em especial, pelos jesuítas. Os inacianos arrogavam a si o direito de permanecerem nas terras das antigas missões, ou, ao menos, o de conservarem seus bens. Em cartas dirigidas ao governador, argumentavam possuir um estatuto diferenciado das demais ordens, estando submetidos diretamente ao papado, e não à Coroa. Porém, nada poderia ser mais fatal num tempo de atritos constantes entre poderes secular e religioso... .
Essa intransigência jesuítica fez com que Francisco Xavier de Mendonça Furtado, já em 1757, expulsasse do Grão-Pará e Maranhão 15 jesuítas, dentre eles o padre alemão Lourenço Kaulen (1716-?), autor da Relação Abreviada das Coisas Notáveis da Nossa Viagem do Desterro do Pará a Lisboa.1
Em sua Relação, na verdade uma espécie de diário de bordo, Kaulen registra todos os pormenores da viagem, inclusive seu mal estar frente à figura de Mendonça Furtado. Informa que o embarque dos desterrados em direção a Lisboa se fez no dia 28 de novembro, na cidade do Pará. E, já nas primeiras linhas, chama a atenção às péssimas condições de higiene a que ele e os companheiros estavam submetidos, haja vista que "todos íamos em um lugar tão limitado que mal permitia estarmos todos em pé, pior que qualquer prisão; o fedor, bafo, e hálito de tanta gente criava nojo, e enjôo, nem tínhamos um moço próprio que nos servisse".
Se faltava higiene, a situação não era melhor em termos de segurança da embarcação. O padre Kaulen observa que a nau Nossa Senhora do Atalaia, embora forte e "armada em guerra de 40 peças debaixo das bandeiras da companhia nova de comércio, que se levantou em Pará e Maranhão", possuía "fracos e incapazes aparelhos, de modo que todos os dias estavam ocupados em consertar as cordas, e amarrar que por serem podres a cada fiapo arrebentavam". E não bastasse o fato de não levar "nem soldados, nem artilheiros, nem marinheiros [...] que soubessem como deviam o seu ofício", quinze dos marinheiros embarcaram doentes, "e incapazes para servir, outros convalescentes, e sem forças’".
é possível identificar uma sutil ironia dispensada por Kaulen à "companhia nova de comércio", o que não é gratuito. Afinal, o estabelecimento da Companhia do Grão Pará e Maranhão infligia um duro golpe à influência exercida pelos padres junto ao comércio e às populações locais. A propósito, a temática dos negócios praticados pelos jesuítas era uma constante nas cartas escritas por Mendonça Furtado a Pombal. Em uma delas, datada de 1756, referindo-se aos colégios dos jesuítas como "grandes armazéns", o governado salientava que era "fato notório que desde que os navios dão fundo no porto da cidade do Pará, [...], é uma feira grossíssima dentro dos ditos armazéns, na qual os mesmos padres [jesuítas] vendem a maior parte dos gêneros que neles juntam. [...] porque deles são os azeites de jandiroba, a manteiga de tartaruga, [...], salgas de peixe, uma grande parte das carnes, as farinhas, o feijão e arroz, e finalmente quase todos os comestíveis, e um grande número de arrobas de algodão, açúcar e aguardente".
Porém, se Mendonça Furtado acusava os jesuítas de contrabandistas, a recíproca era a mesma em termos de sentimentos. Em determinado trecho de seu relato, o padre alemão sublinha o pedido nada cristão, na verdade quase uma tentativa de assassinato, feito por Mendonça Furtado ao comandante da nau, Agostinho dos Santos, que "ainda que bastantemente bom homem, mal praticado do governador do Pará contra nós, o qual na última despedida do dito capitão lhe disse: que seria do seu especial agrado e gosto, se metesse alguns dos padres presos na arca da bomba, em tendo ocasião, e alguma razão de queixa contra eles na viagem, e que lhe havia agradecer ao seu tempo este obséquio".
Mas não são apenas as querelas entre o governador e os padres da Companhia que merecem destaque no relato do jesuíta alemão. Situações que apontam para os percalços que uma viagem desse porte envolvia no século XVIII são igualmente registradas, tal como o ataque sofrido pela nau Nossa Senhora do Atalaia por dois navios corsários ingleses, na madrugada do dia vinte de dezembro, que era dia de São Tomás. Lourenço Kaulen comenta que o cerco dos malfeitores gerou "muito medo e consternação", uma vez que eles, "vendo que nós não defendíamos aos tiros que nos davam de longe, meteram [...] a sua lancha no mar, e vieram ter conosco para nos reconhecer".
A tripulação não estava preparada para receber a inusitada visita. "Na nossa nau", relata o jesuíta, "tudo estava embaraçado, e mal se podiam defender com uma banda se acaso tivessem ido oficiais para isso". Na verdade, "nem armas, nem balas estavam fora; aos 14 soldados, que nem tinham farda para vestir, nem experiência das armas, repartiram-se algumas armas e espadas, das quais umas ao depois se achavam sem pedreiras, [...], e algumas sem fecho capaz de atirar fogo, [...]; e enquanto vinha chegando o escaler do corsário mandavam-se retirar os religiosos que enquanto estavam os novos hóspedes a bordo não apareciam".
Os corsários, no entanto, para alívio de todos, não levaram o ataque adiante, antes, "contentaram-se e mandaram recolher a sua soldadesca que estava toda pronta para dar fogo sobre nós". Na opinião do perspicaz desterrado, tamanha sorte não foi obra da providência divina, afinal, que proveito os piratas teriam em atacar tão despreparada embarcação? Por isso, atesta Lourenço Kaulen, "depois de verem nossas desordens, e pouco preparo se foram; pois nem tanta providência houve que os impedisse para não ir ver tudo o que havia na nau, dentro, em cima, e de baixo".
Finalmente, após apuros e sustos de toda a sorte, os desterrados avistaram Lisboa no dia nove de fevereiro e, no dia treze, terminaram a longa viagem por mar, que durou oitenta dias. Permaneceram ainda por cinco dias no Tejo, até que finalmente o Provincial da Companhia em Portugal, o padre João Henríquez, deu a ordem para o desembarque.
Antes, porém, de prosseguirem por terra aos locais de exílio, Lourenço Kaulen e outros dois jesuítas, o padre visitador, Francisco de Toledo (1694-1784), e o também alemão, padre Antônio Meisterburg (1719-?), foram intimados a comparecer à Casa Professa de São Roque a fim de receberem instruções. Kaulen registra o fato escrevendo em terceira pessoa, como se, de algum modo, estivesse resguardando sua identidade: "foi só o padre visitador porque já iam andando os outros dois por estar muita gente na praia do porto da cidade a considerar este infame espetáculo. A razão por serem chamados os ditos padres era para lhes intimar que [...] não passassem por lugares grandes, e não falassem pondo sua inocência ao público para não originar-se mais alguma melentia [sic.], pois os tempos estavam mui melindrosos, e os confessores todos expulsos do Palácio".
Francisco de Toledo, superior da Companhia de Jesus no Estado do Grão-Pará e Maranhão, era acusado pelo governador de "tolerar e dissimular as desordens de seus súditos". Pouco antes da viagem do desterro, Toledo procurou responder às acusações e reafirmar a inocência dos jesuítas. Em carta dirigida a Mendonça Furtado, afirmava: "Exmo.sr. estamos todos prontos [...] os mandados por Vª.EXA. para o nosso desterro com muito gosto e conformidade, por termos mais isso a oferecer a Jesus Cristo, a quem ao menos eu tenho muito ofendido em minha vida; principalmente por nesta parte irmos todos, quanto eu entendo, inocentes. E pouco importa que neste mundo fiquemos publicamente infamados de ladrões, roubadores e profanadores de coisas sagradas, como se os Religiosos fossem alguns hereges, [...]".2
Essa mesma idéia de martírio, de um sacrifício próximo ao de Cristo, igualmente condenado sem razões, sublinha toda a parte final da Relação de Lourenço Kaulen. O jesuíta enumera detalhadamente as inúmeras privações enfrentadas por ele e seus companheiros ao longo de doze dias de viagem por terra até o local de exílio, a vila de Lapa, Beira. Atormentados que estavam por pulgas e piolhos que traziam do navio, "exaustos da viagem marítima", eram "obrigados a fazer esta por terra no rigor do inverno, e no meio da quaresma, quando se não achava nada pelas estalagens". "Aos vinte e quatro de fevereiro fomos em uma barca o Mondego para cima, padecendo tal frio e vento rijo que mal o podíamos aturar; [...] passamos assim Sardão e Agada, e ficamos no meio dia em Ferreiros, aonde nem havia pão, e comemos quase nada, e mesmo foi de noite em Pontefora, [...], todos ainda mais fracos e incapazes, passando a noite fria, todos gemendo, uns vomitando da fraqueza do estômago que não tinha nada, nem pão, nem água ardente se achava, o vinho era vinagre que não se podia tragar, [...]".
Porém, a despeito de tamanhas desventuras, os padres jesuítas, ao passarem pelo Montemor, foram recepcionados de maneira calorosa pela população local. Lourenço Kaulen não esconde a satisfação ao registrar o episódio. Afinal, os moradores "aqui nos receberam com tal afeto e cortesia que se não pode bastantemente encarecer, pois vieram nos buscar da estalagem para as suas casas, e obrigaram ao nosso superior repartir-nos todos que éramos 15 pelas casas dos senhores, que todos nos trataram com sumo amor, honra e caridade, sem conveniência alguma, e sem nos conhecerem. Eu como não sei os nomes dos outros, em gratidão e memória, apontei a casa na qual fiquei com outros três agasalhados; chamava-se o dono dela João Rodrigues da Costa Boticário".
Tal passagem é extremamente significativa, pois demonstra que os conflitos políticos desenvolvidos entre a Companhia de Jesus e o governo português não invalidavam o sentimento positivo do povo comum para com os padres. Na cabeça dessa gente rústica, distante das intrigas palacianas e das disputas de poder, os padres da Companhia eram simplesmente missionários.
* * *
Sobre Lourenço Kaulen: O padre Kaulen, nascido a 4 de maio de 1716 em Colônia, Alemanha, era mestre em Artes quando entrou para a Companhia de Jesus em 1738. Missionário e cartógrafo, embarcou a pedido da Corte de Lisboa para as missões do Grão-Pará e Maranhão, em 1750. Deportado para Lisboa em 1757, e confinado no Colégio de Nossa Senhora da Lapa, Beira, foi transferido no ano de 1759 para os cárceres de Almeida e dali, em 1762, para os de São Julião da Barra. Saiu da prisão com a queda do Marquês de Pombal, em 1777, mantendo-se em Lisboa na defesa pela restauração da Companhia de Jesus. No ano de 1786 escreveu uma resposta apologética ao poema O Uruguai, de Basílio da Gama, cujos versos narravam o desmantelamento das missões jesuíticas ao Sul do Brasil pelas forças portuguesas, e eram dedicados justamente a Francisco Xavier de Mendonça Furtado. O velho jesuíta ainda vivia em Lisboa por volta de 1797, contando oitenta e dois anos de idade.
Notas
1 Relação das coisas notáveis da nossa viagem do desterro do Pará para Lisboa, a qual fizeram dez religiosos da Companhia, Padre Domingos Antônio, Reitor do colégio do Pará, Luiz álvares, Manuel Afonso, Manuel dos Santos, Joaquim de Carvalho, Antônio Meisterburg, Lourenço Kaulen, João Daniel, Joaquim de Barros, Anselmo Eckart; e alguns dez religiosos de São Francisco, na nau chamada Nossa Senhora do Atalaia, no ano de 1757. IHGB - Arquivo 2-3-13. Fizeram esta viagem do desterro quinze inacianos. Além dos citados no título, havia ainda o pe. Visitador, Francisco de Toledo, o pe. Reitor do Maranhão, José da Rocha, o pe. Luiz da Oliveira, o pe. Procurador geral das Missões no Pará, Antônio Moreira e o pe. David Fay, missionário no Maranhão.
2 Marcos Carneiro de Mendonça. A Amazônia na Era Pombalina: correspondência inédita do Governador e Capitão-General do Estado do Grão-Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado (1751-1759). Rio de Janeiro: Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, tomo III, 1963.
Bibliografia
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COUTO, Jorge. "O Poder Temporal nas Aldeias dos índios do Estado do Grão-Pará e Maranhão no Período Pombalino: Foco de conflitos entre os jesuítas e a coroa (1751-1759)". In: Maria Beatriz Nizza da Silva (Org.). Cultura Portuguesa na Terra de Santa Cruz. Lisboa: Editorial Estampa, 1995.
FRANCO, José Eduardo. "Fundação Pombalina do Mito da Companhia de Jesus". In: Revista de História das Idéias - O estado e a Igreja. Coimbra: Instituto de História e Teoria das Idéias, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2001, v. 22.
KAULEN, Lourenço. Relação das coisas notáveis da nossa viagem do desterro do Pará para Lisboa, no ano de 1757. Instituto Histórico Geográfico Brasileiro (IGHB): Manuscrito. Arq.2-3-13.
LEITE, Serafim, S.J. História da Companhia de Jesus no Brasil. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2000.
MENDONÇA, Marcos Carneiro de. A Amazônia na Era Pombalina: correspondência inédita do Governador e Capitão-General do Estado do Grão-Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado (1751-1759). Rio de Janeiro: Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, tomo III, 1963.




