A Cultura Racional e o campo religioso brasileiro contemporâneo
A nossa problemática de trabalho é a relação entre a chamada "Cultura Racional" e o campo religioso brasileiro. Está relação é ambígua, uma vez que a "Cultura Racional" não se mostra, nas fontes já consultadas, como uma religião. Contudo, a mesma parece estar impregnada da lógica que preside as religiões formalmente constituídas e integrantes do campo religioso contemporâneo. A "Cultura Racional" surgiu em 1935, quando o então médium de "Umbanda", Manoel Jacintho Coelho, teria "recebido" os ensinamentos do chamado "Racional Superior". Essa entidade suprema da "Cultura Racional" é quem ensinaria aos "estudantes" de onde vem o homem, para onde vai e o que ele é. Esses ensinamentos são obtidos através da Imunização Racional, que seria o conhecimento que "libertaria" as pessoas, através da leitura da obra "Universo em Desencanto", obra imensa com mais de 1000 volumes. A primeira sede da "Cultura Racional" foi no Rio de Janeiro- RJ, no bairro do Méier. Já em Belford Roxo-RJ, na década de setenta, a "Cultura Racional" atingiu o auge de sua popularidade, atraindo "estudantes" famosos, como por exemplo, Tim Maia. Atualmente a "Cultura Racional" tem sua sede em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, chamada de retiro racional. Após a morte do líder, em 1991, quem assumiu sua direção foi, Atna Jacintho Coelho, filha do mesmo, que dirige o movimento até hoje.
Nosso estudo diz respeito à articulação da Cultura Racional ao campo religioso brasileiro. A Cultura Racional é uma organização que se coloca como um "movimento cultural", que traria os conhecimentos sobre nossa origem, natureza e destino. Contudo, podemos observar através da análise das fontes relativas ao movimento, que o discurso da Cultura Racional apesar de buscar afastar-se, está sim impregnado da lógica que preside a inserção das religiões no campo religioso. E essa forma peculiar de articulação da Cultura Racional com o campo religioso deve-se, como observamos em nossos estudos, ao contexto em que a mesma foi criada. Nesse sentido buscaremos compreender um pouco do contexto que cercava a Cultura Racional na época de sua criação, na primeira metade do século XX.
A Cultura Racional é uma organização que surgiu em 04 de outubro de 1935, na então capital federal, Rio de Janeiro - RJ. Sua criação deu-se quando o médium de Umbanda, Manoel Jacintho Coelho, teria recebido1 do chamado "Racional Superior"2 os ensinamentos sobre o principio e o fim do mundo. Esses ensinamentos estão contidos na obra Universo em Desencanto.3
Durante sua trajetória a Cultura Racional mudou de sede três vezes. Saindo primeiramente do Méier no Rio de Janeiro para Jacarepaguá, depois mudando-se para Belford Roxo e finalmente para Nova Iguaçu, onde funciona até hoje a central da organização, o "Retiro Racional".
A organização conta hoje com 15.000 adeptos4. Esses são chamados de "estudantes", vestem-se de branco, e cumprimentam-se com a expressão Salve! Os estudantes encontram-se em datas especiais5 da Cultura Racional, no Retiro Racional, ou nas "Livrarias Racionais". As Livrarias estão espalhadas pela maioria das capitais brasileiras 6 e servem como ponto de encontro dos estudantes e local de divulgação do movimento. Essas livrarias são também bibliotecas. Essas bibliotecas funcionam para passar o conhecimento àqueles que não tem o poder aquisitivo para adquirir a, diga-se de passagem, vasta obra, Universo em Desencanto. Elas são administradas por voluntários, e os estudantes associados dão uma pequena contribuição para sua manutenção. Há também artigos de papelaria, e suvenires com a marca Cultura Racional, além de cd’s de música de divulgação da Cultura Racional. isso já que para os adeptos da organização a leitura da Obra Universo em Desencanto seria a "salvação".
Essa "salvação", que viria com a leitura da obra seria a chamada "Imunização Racional". A doutrina da Cultura Racional alicerça-se, então, na leitura da obra "Universo em Desencanto". Seria essa leitura da obra que faria com que os adeptos conquistassem a imunização e o contato com o Racional Superior: "uma vez imunizado, entra em contato com o Racional Superior, então, vem às orientações para o equilíbrio de tudo na vida, na saúde, dos negócios, dos casos necessários, enfim, de tudo que o vivente precisa, (...)." 7 Para a Cultura Racional a "Imunização Racional" seria a única solução para a humanidade. isso já que esse conhecimento "ultrapassaria" a filosofia, a ciência, e a religião:
"A Cultura Racional, Manoel, é a Cultura do verdadeiro estado natural, do conhecimento de retorno da humanidade a seu verdadeiro mundo, através da Energia Racional, elo de ligação do ser humano com o Mundo Racional. Com o início da Fase Racional, à partir de agora, o espiritismo deixa de ter sentido, você sabia."8
Nesse sentido é que vemos a peculiaridade da articulação da Cultura Racional ao campo religioso brasileiro. Como podemos observar em sua doutrina a Cultura Racional nega seu caráter religioso, "-Não será filosofia, nem religião, mas uma cultura transcendental." Porém, analisando as fontes, em nosso caso o livro, "Cavaleiro da Concórdia"9, e a obra, "Universo em Desencanto", percebemos o forte caráter religioso da Cultura Racional. isso já que o movimento mostra-se como detentor da verdade e da "salvação". Por outro lado isso acontece, pois o discurso da Cultura Racional insere-se na relação de interlocução própria do discurso religioso, conforme foi estudado por Eni Orlandi10. Ou seja, o referente discursivo reafirma uma ordem transcendente, na qual, principalmente, o discurso do fundador, aparece em uma relação, que aprofunda a enorme distância entre Deus (ou quem, como o fundador da Cultura Racional, por ele quer falar) e a massa anônima dos fiéis.
Como já afirmamos antes, o porquê dessa peculiar articulação só pode ser compreendido se analisarmos o contexto que cercava a criação da Cultura Racional. Esse contexto era o da urbanização do sudeste brasileiro (em nosso caso do Rio de Janeiro), o da perseguição às religiões mediúnicas, o dos debates internos da Umbanda (antiga filiação de Manoel), e o de uma política ambígua de Getúlio Vargas para com as religiões mediúnicas.11
A urbanização do sudeste brasileiro foi de extrema importância para a Umbanda e para a Cultura Racional. Nesse sentido, Emanuel Zespo, um intelectual da Umbanda, assim manifestava-se sobre a inserção da Umbanda no meio urbano brasileiro:
"[...] suas práticas de religião primitiva estão incompatíveis com o mundo atual; e, sua subsistência em nosso meio só será possível mediante a uma modernização e adaptação do ritual externo. Não estamos mais em condições de sacrificar galos vermelhos a Exu e largá-los na primeira encruzilhada
de um centro urbano. Tal rito, no mato, não estaria fora de ambiente, mas em plena Avenida Rio Branco... isto não é mais exeqüível."12
Se, mesmo na antiga religião de Manoel existia o esforço em representar-se mais próximo dos foros urbanos, com mais razão ainda teria o autor de aprofundar essa tendência.
As perseguições às religiões mediúnicas foram um outro fator ligado ao projeto de Manoel. Para isAIA, as perseguições ao campo mediúnico brasileiro pela Igreja Católica e alguns discursos como o jurídico e o médico revelavam uma construção discursiva extremamente simplificadora da realidade. Nessa construção, as religiões mediúnicas "representavam o inverso da segurança nômica propalada pela religião institucionalizada pela religião institucionalizada e pelos saberes oficiais."13
Todos esses foram motivos que levaram a Umbanda a um debate interno, e Manuel, na perspectiva desse debate de sua antiga filiação, a criar a Cultura Racional. Esses debates propunham a desafricanização da Umbanda e sua codificação, e isso seguindo o discurso de tom "evolucionista"do Kardecismo, como podemos observar em isaia:
"O endosso ao evolucionismo Kardecista dava-separa os intelectuais umbandistas, juntamente com o esforço desafricanizante encetado na primeira metade do século XX."14
Podemos ver assim, na tentativa de fuga da Umbanda de sua matriz africana e de sua codificação pela idéia evolucionista característica do
Kardecismo, uma das principais idéias assumidas por Manoel, ao criar a Cultura Racional.
Por outro lado, temos que levar em conta a política de Vargas em relação às religiões mediúnicas, marcada por uma dubiedade, que oscilava entre a explícita repressão e a tolerância em certas ocasiões, jogando com interesses conjunturais.15 Referindo-se ao beneplácito varguista ao Espiritismo, escreve isAIA:
"O beneplácito do Estado Novo ao Espiritismo fazia eco com os valores assumidos pela elite brasileira e pelo senso comum. Em um país em que a prática se alastrara-se consideravelmente, a elite passava a tolerar bem mais o contato com os seres invisíveis, desde que fosse resguardado seu caráter experimental e científico."16
Nosso trabalho buscou até aqui, através da analise critica das fontes, articular a Cultura Racional ao campo religioso brasileiro contemporâneo. Nesse sentido, mostramos como o discurso da Cultura Racional, que não se coloca como religião, está sim impregnado da lógica que preside a inserção das religiões no campo religioso. Essa forma peculiar de articulação, conforme estudamos, advém do momento histórico em que a mesma foi criada. Razão essa que nos fez compreender a Cultura Racional, não apenas como uma idéia original e espontânea de Manoel Jacintho Coelho, mas a partir de todo o contexto em que se deu a sua criação. Desse modo, podemos nesse momento analisar e tentar compreender a posição da Cultura Racional no campo religioso, na época de sua criação, e atualmente.
Notas
1 Essas expressões são usadas unicamente no sentido fenomenológico, não se atendo, portanto, à questão ontológica da religião. "(...) a teoria sociológica (e na verdade, qualquer outra teoria que se move na estrutura das disciplinas empíricas) sempre há de encarar a religião sub specie temporis, deixando aberta necessariamente, portanto, a questão de se e como ela também poderia ser vista sub specie aeternitatis. Assim, a teoria sociológica deve, por sua própria lógica, encarar a religião como projeção humana e, pela mesma lógica, não pode ter nada a dizer acerca da possibilidade de esta projeção se referir a algo além do ser que a projeta." Ver BERGER, Peter. O dossel sagrado. Elementos para uma teoria sociológica da Religião. São Paulo: Paulinas, 1985.
2 Entidade suprema da Cultura Racional (equivalente a Deus para os cristãos), que teria ditado seus ensinamentos sobre de onde vem, o que são e para onde vão os seres humanos, a Manoel Jacintho Coelho.
3 Essa obra soma mais de mil volumes (21 livros da Obra, mais 21 da Réplica, 21 da tréplica e 943 livros do Histórico) e só foi terminada por Manoel em 1988. COELHO, Manoel Jacintho. Universo em Desencanto: Imunização Racional, 1º Vol. 1º ed. Ed. M. Jacintho Coelho, Belford Roxo, RJ, s.d.
4 MASSON, Celso. A viagem esotérica de Tim Maia. São Paulo, SP, Revista Trip, ano 15 (94): Pp. 84, outubro de 2001.
5 As datas importantes são: dia 13 de maio - "Dia da Libertação da Matéria", dia 02 de setembro - "Dia da Divina Providência", dia 04 de outubro - "Dia da Cultura Racional", e dia 30 de dezembro - "Dia do Sábio".
6 MASSON, Celso. A viagem esotérica de Tim Maia. São Paulo, SP, Revista Trip, ano 15 (94): Pp. 84, outubro de 2001.
7COELHO, Manoel Jacintho. Universo em Desencanto: Imunização Racional, 1º Vol. 1º ed. Ed. M. Jacintho Coelho, Belford Roxo, RJ, s.d. Pp. 311.
8 ELIAS, Jorge. O Cavaleiro da Concórdia, O homem de outro mundo. 1º ed, Racional Gráfica Editora LTDA, 1988, Belford Roxo, RJ. Pp. 104
9 O livro o Cavaleiro da Concórdia data de 1988. Essa é uma obra de autoria de Jorge Elias, um adepto do movimento e amigo pessoal de Manoel. "O Cavaleiro da Concórdia nasceu da minha amizade com o Mestre Manoel Jacintho Coelho, da sugestão dele, bem como da cobrança de nossos amigos." Segundo Jorge Elias o livro foi confeccionado com base em "passagens da vida do Mestre Racional e fatos ocorridos com ele, antes e após o surgimento da Cultura Racional. Muitos destes episódios foram contados pelo próprio Mestre Manoel e por certo teriam sido varridos pelo tempo, não fosse a sua privilegiada memória. Outras foram colhidas por mim, aqui e ali, nas minhas andanças, com muito carinho e interesse." isso significa que devemos dar um tratamento especial a essa fonte, fazendo considerações sobre a sua origem e seu conteúdo. Porém a intenção neste momento não é criticar a veracidade ou não do que se passa na obra, mas sim historicizar a Cultura Racional, levando em consideração apenas os fatos plausíveis.
10ORLANDI, Eni Pulcinelli. A linguagem e seu funcionamento. As formas de discurso. Campinas: Pontes, 1987.
11ISAIA, Artur Cesar. Ordenar Progredindo: a obra dos intelectuais de Umbanda no Brasil da primeira metade do século XX. Anos 90. Porto Alegre: UFRGS, 11(11): 97-120.
12Idem, p. 106.
13 APUD isAIA, Artur Cesar. Ordenar Progredindo: a obra dos intelectuais de Umbanda no Brasil da primeira metade do século XX. Anos 90. Porto Alegre: UFRGS, 11(11): 97-120., p. 99.
14 Idem, p. 111.
15Idem
16Idem, p. 108.




