A Ordem Terceira de São Francisco no Rio de Janeiro Colonial
A comunicação pretende apresentar uma síntese da vida associativa dos irmãos terceiros no período colonial, com ênfase nas atividades caritativas desenvolvidas pela associação e nas relações que mantinha com os religiosos franciscanos do Rio de Janeiro.
Esta comunicação sintetiza vários aspectos contidos na obra de minha autoria, intitulada Membros do corpo místico: ordens terceiras no Rio de Janeiro (c. 1700-1822). Tese de Doutorado apresentada à Universidade de São Paulo, sob a orientação de Maria Beatriz Nizza da Silva. São paulo: mimeo., 2001, 2v.
A maior parte dos moradores do Rio de Janeiro é capaz de localizar ou identificar, na paisagem urbana, o convento de Santo Antônio. Situado no largo da Carioca, em pleno coração da cidade, atrai até os dias de hoje uma expressiva massa de fiéis e curiosos. Nas dependências da igreja, a freqüência de ambos os sexos torna-se particularmente notável no dia do padroeiro conventual. Nesta ocasião, os devotos que conhecem as virtudes casamenteiras do santo agradecem as graças alcançadas ou lhe fazem novos pedidos.1 A relativa popularidade da sede dos religiosos contrasta com os discretos visitantes que freqüentam o templo da Ordem Terceira de São Francisco. Localizada à direita da nave conventual, do ponto de vista de quem a observa de frente, a capela dos terceiros franciscanos permaneceu durante muitos anos fechada à visitação pública. Após ser restaurado, o templo dos irmãos terceiros revelou a opulência com que o culto religioso era praticado em suas dependências. Entretanto, não é o luxo que particulariza a Ordem Terceira em relação a outras instituições religiosas, mas sim as diversas ligações que mantinha com os religiosos franciscanos da província do Rio de Janeiro.
Os vínculos que uniam os frades de São Francisco aos irmãos terceiros formaram-se no continente europeu no começo do século XIII. Uma das maiores preocupações espirituais de São Francisco de Assis foi a de abrir caminhos para a participação mais ativa dos fiéis na vida devocional. Até então, predominava entre as ordens monásticas, que seguiam as regras de São Bento e de Santo Agostinho, uma atitude de isolamento e desprezo em relação aos católicos que viviam com suas ocupações no mundo. Em contraste, o ideal de perfeição cristã delineado pelos franciscanos colocou-se ao alcance de todos, fossem clérigos ou leigos. Bastava seguir o modelo dos primeiros cristãos, cujo modo de vida era marcado pela ausência de hierarquias, pregação itinerante e pobreza material. Daí a denominação "mendicante", aplicada aos franciscanos e a outros religiosos que seguiam semelhante espiritualidade. A mensagem do santo de Assis tocou a sensibilidade dos católicos da época, particularmente aqueles que viviam nos centros urbanos. Pensando em tais fiéis, São Francisco, assistido pelo cardeal Ugolino, elaborou em 1221 um projeto de vida para os irmãos e irmãs da Penitência. Recebendo aprovação da Santa Sé apenas em 1289, tal documento ficou conhecido como Regra da Ordem Terceira de São Francisco. Incitava os membros a observar a austeridade nos trajes, a viver em concórdia, a praticar jejuns, e a confessar e Comungar com freqüência. A designação de Terceira se explica porque, anos antes, também sob a inspiração de São Francisco, o serafim humano, haviam se formado mais dois institutos religiosos, destinados a homens e a mulheres. Ao contrário da Ordem Terceira de São Francisco, aberta aos fiéis leigos, a Ordem dos Frades Menores (Primeira) e a Ordem das Irmãs Pobres (Segunda) exigiam dos membros respectivos a observância de votos de castidade, pobreza e obediência.2
Nos manuais devocionais que os religiosos franciscanos elaboraram para os irmãos terceiros, que constituíram um item importante no vasto manancial da literatura devocional do Antigo Regime,3 as relações entre as respectivas ordens eram constantemente representadas por meio de imagens, como a da árvore:
É a nossa Religião e Família Seráfica uma tão prodigiosa árvore, que seus filhos enchem e cobrem não só grande parte da terra, mas também do Céu. Tendo esta misteriosa árvore da Religião e Família Seráfica um só tronco, tem muitos ramos e braços, cada um dos quais mais dilatado. São as três sagradas Ordens Seráficas.4
De modo complementar, o autor assinala que as três ordens formavam um corpo místico ou alegórico. A referida metáfora era constantemente empregada pelos letrados no período, para indicar que a interdependência das funções dos diferentes membros que compunham a sociedade ou a própria Igreja era semelhante à complementaridade dos diferentes órgãos e partes do corpo humano. Conforme indicava o pe. Manuel Bernardes, "o mesmo que passa na constituição natural do corpo humano, passa na constituição moral do corpo místico, que são as monarquias e Repúblicas".5 No que toca à família franciscana, diversos religiosos utilizaram a imagem do corpo místico para assinalar a dependência mútua existente entre os diversos membros que a compunham. Fr. Antonio Arbiol indicou que a Ordem dos Frades Menores, a de Santa Clara e a Terceira da Penitência formavam um único corpo místico indivisível quanto à participação em todas as indulgências e privilégios.6 Outros religiosos franciscanos, como o já citado fr. Manoel de Maria Santíssima e o fr. Jerônimo de Belém, enfatizaram o mesmo argumento. isto é, a estreita união existente na família franciscana se baseava na comunicação mútua dos dividendos espirituais auferidos pelos diferentes ramos que a compunham. De acordo com diversas concessões efetuadas pela Santa Sé, a comunicação de indulgências e obras espirituais diversas era também extensível às outras ordens religiosas.7 Assim, sob o ponto de vista das recompensas espirituais, tornava-se muito mais vantojoso para um fiel ingressar em uma ordem terceira do que em uma simples irmandade. Toda a argumentação aqui apresentada fica melhor ilustrada a partir da citação de outro manual devocional que, ademais, assinala que o corpo alegórico ou místico representativo da família franciscana justifica, no plano jurídico, a dependência espiritual dos irmãos terceiros em relação aos prelados da Ordem dos Frades Menores:
Que as três Ordens instituídas por Nosso Seráfico P. S. Francisco formem um Corpo Místico, persuade a razão, prova-o a união moral de uma Suprema Cabeça, que é o nosso Reverendíssimo Padre Ministro Geral (...) e seus indivíduos, partes que compõem este todo, e o confirmam os Decretos Pontifícios. Suposta esta indivisibilidade moral entre as três Ordens Seráficas, não admite dúvida alguma a participação de obras meritórias entre eles, nem a comunicação de privilégios, Graças, etc, e este segundo não somente as três Ordens entre si, Senão em ordem a todas as demais Religiões.8
Dos séculos medievais aos princípios do período moderno, variaram muito as condições em que se encontravam os irmãos terceiros na Cristandade. Entretanto, a Difusão sistemática de associações de irmãos terceiros de ambos os sexos parece ter sido apenAs decidida no capítulo ou assembléia geral dos religiosos franciscanos celebrado em 1606 na cidade de Toledo. Poucos anos depois, em 1615, o missionário espanhol frei Inácio Garcia organizou uma associação da Ordem Terceira de são Francisco na Corte de Lisboa. Nas décadas seguintes, o instituto dos irmãos terceiros conheceu rápida difusão no Reino de Portugal, nas ilhas atlânticas e na América portuguesa.9
A instalação dos religiosos franciscanos no Rio de Janeiro ocorreu entre 1606 e 1615, quando se fixaram na colina de santo Antônio, dando início às obras do convento. A fundação conventual foi rapidamente acompanhada pela criação da Ordem Terceira de São Francisco na mesma cidade. Em 1619, Luís de Figueiredo e a esposa Antônia Carneiro, recém-chegados de Lisboa, desejando ingressar no instituto dos irmãos terceiros, foram atendidos por frei Custódio de Santa Catarina. No mesmo ano, os religiosos ofertaram ao casal de irmãos um terreno contíguo à nave conventual, para a construção do templo onde se praticariam os exercícios espirituais dos terceiros franciscanos. A primeira capela da Ordem foi concluída em 1622, sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição.10 Este primeiro templo figurava em um ângulo de 90º em relação à igreja conventual, ligando-se a ela por intermédio de uma arcada, até hoje existente. A Disposição perpendicular entre os edifícios de Culto pode ser apreciada em uma gravura anônima holandesa, de 1624.11
Nos anos seguintes, os irmãos terceiros receberam outrAs doações de terrenos dos religiosos para erigirem uma nova capela de exercícios. Estes chãos localizavam-se defronte ao convento, onde atualmente se situa o largo da Carioca. Mais tarde, o projeto original foi abandonado, pois os irmãos terceiros preferiram ampliar a primitiva capela no próprio lugar onde esta se encontrava. Devido ao limitado espaço Disponível no cume da colina de Santo Antônio, os irmãos terceiros mandaram levantar paredões de pedra para sustentar as novas dependências. As obras no corpo da igreja foram concluídas em 1748, conforme se verifica no dístico de pedra incrustado sobre a porta principal da capela. O término definitivo da construção das novas dependências do edifício religioso data somente de 1775, após o que o templo dos irmãos terceiros adquiriu as feições que mantém até hoje. Abandonando a disposição perpendicular que mantinha em relação à igreja dos religiosos, a nova capela dos irmãos terceiros alinhou a própria fachada com a do convento.12
Em algumas características arquitetônicas, a capela dos irmãos terceiros exibe os laços de hierarquia e dependência que a uniam à Ordem Primeira. Além das passagens que ligavam os dois edifícios religiosos, pode-se mencionar a ausência de torre de sinos no templo da Ordem Terceira. Para efetuar os dobres de sinos com que eram homenageados os irmãos falecidos e os santos de devoção da Ordem, esta recorria sempre ao campanário conventual. Esta característica tão distintiva do templo dos irmãos terceiros pode também ser observada em outras localidades, como nas cidades de São Paulo e de Salvador.13 Com efeito, segundo a legislação eclesiástica da época, o templo da Ordem Terceira era considerado uma capela lateral e anexa às dependências do convento. Perto da conclusão das obras da fachada da capela, o provincial dos franciscanos do Rio de Janeiro exigiu que a porta externa do templo abrisse apenas quando desse autorização. A chave da mesma ficaria na posse do porteiro do convento. Com essa medida, os irmãos terceiros não tinham acesso direto ao próprio templo, sendo obrigados a entrar primeiro na igreja conventual.
Durante o período colonial, os frades franciscanos foram sempre os superiores e diretores espirituais dos irmãos terceiros. Devido a tais relações de dependência, a Ordem Terceira não estava sujeita à jurisdição eclesiástica comum, representada pelo bispo, ao nível diocesano, e pelos vigários das freguesias, no plano local. A autoridade dos religiosos era manifestada diretamente na Ordem através das atividades do padre comissário visitador. Este religioso era escolhido a voto pelo provincial e demais frades franciscanos da província do Rio de Janeiro.14 Não obstante, a seleção do comissário era efetuada a partir de uma lista de candidatos elaborada pelos irmãos terceiros. Entre as atribuições que cabiam ao comissário, podem ser lembrados os sermões e a cerimônia da profissão dos irmãos. Após a referida solenidade, que ocorria cerca de um ano após a entrada na Ordem, o irmão noviço tornava-se um terceiro professo. O comissário visitador tomava parte das decisões da mesa, que cuidava dos assuntos administrativos mais importantes da associação. Além do representante dos religiosos franciscanos, a mesa compunha-se também de irmãos leigos. O irmão ministro era aquele encarregado de presidir a discussão das matérias e encaminhá-las à votação da mesa. Na ausência do mesmo, ao irmão vice-ministro estavam reservadas as mesmas atribuições. Também ocupavam posição de destaque na mesa o Secretário, encarregado do manuseio dos livros, e o síndico, responsável por toda a contabilidade da associação.
Nos modelos de espiritualidade propostos pelos religiosos aos irmãos terceiros, são também flagrantes os vínculos que uniam ambas as partes do corpo místico. O núcleo da piedade dos irmãos leigos era ocupado pela identificação ocorrida entre Cristo e São Francisco. A apresentação do santo de Assis como verdadeira efígie de Cristo remonta ao século XIII, elaborada nos escritos de São Boaventura, que assim interpretou a impressão das cinco chagas no corpo do santo de São Francisco.15 A temática do alter Christus (segundo Cristo) situava-se em estreita sintonia com as formas ascéticas de piedade difundidas pelos missionários da época da Reforma Católica, pois a imagem da impressão das chagAs sublinhava simultaneamente os sofrimentos de Jesus e de São Francisco. Na interpretação dada por fr. Arbiol ao milagre da impressão das cinco chagas no corpo do referido santo, tornam-se visíveis as hierarquias existentes no interior da Ordem franciscana:
A impressão das cinco chagas não foi ao mesmo tempo, senão com três intervalos distintos. Primeiro nas mãos, depois nos pés e por último no lado. A impressão das chagas das mãos, pela instituição da primeira Ordem, que é a dos Religiosos, os quais por sua rigorosa pobreza, nenhuma coisa própria podem ter. A impressão das chagAs dos pés, pela instituição da segunda Ordem, que é a das Religiosas de Santa Clara, as quais pelo voto da Clausura têm os pés cravados. E a impressão da chaga do lado, pela instituição da Ordem Terceira da penitência, cujos fervorosos filhos só por amor se ajustam à sua Regra, porque não lhes obriga.16
Na Colônia, a imagem de São Francisco recebendo as cinco chagas nas mãos, pés e costados tornou-se preponderante em relação às demais representações pictóricas do referido santo. Tal motivo iconográfico ocupou lugar de destaque em diversas filiais da Ordem Terceira de São Francisco eretas na América portuguesa. No altar-mor do templo dos terceiros franciscanos do Rio de Janeiro, contemplava-se a imagem do Santo de Assis recebendo as chagas de Cristo, cena que se situava em idêntico lugar nas capelas dos ditos irmãos fundadas em São Paulo e no Recife.17 O lugar central que correspondia à referida representação no templo da Ordem Terceira de São Francisco no Rio de Janeiro prolongava-se no cotidiano religioso dos respectivos membros. A festa das Chagas, realizada em setembro, constituía um dos pontos altos do calendário religioso dos irmãos terceiros, Situando-se em nível de importância logo após a procissão das Cinzas. Por ocasião da referida solenidade, costumava-se realizar desde 1642 na capela da Ordem uma missa cantada pelos irmãos terceiros sacerdotes, com acompanhamento musical e exposição pública do Santíssimo Sacramento.18 No ano seguinte, estipulou-se o comparecimento obrigatório dos ditos irmãos à capela por ocasião do dia das Chagas, quando então haveria comunhão geral. um cronista informou inclusive que o mais antigo documento existente no arquivo da Ordem no Rio de Janeiro era "um Breve do Papa Clemente IX, datado de 18 de dezembro de 1668, concedendo indulgência plenária, durante quinze anos, na Festa das Chagas".19 Em 1681, fr. Agostinho da Conceição pregou no convento de Santo Antônio por ocasião da festa das Chagas um sermão alusivo à milagrosa impressão, no corpo do santo de Assis, dos estigmas da Paixão de Cristo.20 No triênio compreendido entre 1684-1687, o referido frade ocupou o cargo de provincial dos franciscanos no Rio de Janeiro, sendo um dos primeiros religiosos a elaborar estatutos locais para a Ordem Terceira de São Francisco.21
Além da devoção ao fundador da Ordem, os religiosos buscaram incentivar nos irmãos terceiros a veneração a diversos outros santos franciscanos. em manuais espirituais destinados à Ordem Terceira, percebe-se o empenho em corresponder cada um dos diferentes estados em que se dividiam os irmãos leigos a um santo tradicionalmente associado à Ordem:
As classes dos homens, que vivem fora da Religião, hábeis de professar esta Ordem Terceira Seráfica, se reduzem a Eclesiásticos, casados e livres. Os estados das mulheres se contém em casadas, viúvas, virgens e livres. E para que cada um e cada uma em sua classe tivesse nesta Ordem Terceira um espelho e exemplar de Consumada perfeição, parece fez empenho a Providência Divina de dar logo algum Santo Canonizado ou Beatificado por sua Igreja, em cada um dos sobreditos estados.
Os Senhores Eclesiásticos (...) tiveram logo São Ivo...
Os homens casados (...) têm São Luís, Rei de França...
Os homens livres têm São Roque...
As mulheres casadas (...) têm por exemplar admirável Santa isabel, Rainha de Portugal...
As Mulheres viúvas da Ordem Terceira Seráfica, têm Canonizada Santa isabel viúva, filha do Rei da Hungria...
As Irmãs da Ordem Terceira, que têm o feliz estado de virgindade no século, têm Santa Rosa de Viterbo...
As mulheres livres, que em algum tempo correram o caminho tenebroso dos vícios e torpezas, mas já penitentes e desenganadas (...) têm para alentar suas esperanças Santa Margarida de Cortona.22
Segundo os cronistas da Ordem Terceira de São Francisco no Rio de Janeiro, imagens e altares dedicados a alguns dos santos já mencionados existiram efetivamente no templo da associação. da mesma forma, as efígies sagradas eram conduzidas durante a maior festividade realizada pelos terceiros franciscanos no Rio de Janeiro, a procissão da quarta-feira de Cinzas. Em primeiro lugar, na referida solenidade, figurava o andor de São Lúcio e Santa Bona, considerados tradicionalmente os primeiros seguidores de São Francisco pertencentes à Ordem Terceira; em seguida, Cristo e São Francisco, cada qual carregando uma cruz às costas; em terceiro lugar, o Santo de Assis recebendo do papa Inocêncio III a confirmação da Regra dos frades menores; em quarto, São Elizário e Santa delfina; em quinto, Santo Antônio de Catajerona; em sexto, Nossa Senhora da Conceição; em sétimo, Santa margarida de Cortona; em oitavo, "a imitação do Famoso quadro de Murilo: o Crucificado abraçando a São Francisco"; em nono, São Roque, acompanhado de um cão; em décimo, São Luís; em décimo primeiro, Santa isabel, rainha de Portugal e, no último andor, a representação da impressão das Chagas.23 Assim, por ocasião da procissão das Cinzas, combinavam-se dois tipos de espiritualidade: uma, mais tradicional, que consistia na exibição dos diferentes santos da Ordem Terceira; e outra que, ao enfatizar a identificação de Cristo a São Francisco por intermédio das cinco chagas, procurava estimular o ascetismo entre os fiéis, constituindo assim um contraponto às mútuas trocas de favores estabelecidas entre os leigos e os seus respectivos santos de devoção. Conforme Silva Dias
O lugar central que os mistérios e devoções da Paixão conquistaram na piedade cristão desta época está em consonância com a preocupação de dar à prática religiosa uma intensidade espiritual e um conteúdo ético que forçassem os limites do formalismo.24
Os vínculos entre a Ordem Terceira e os frades franciscanos do Rio de Janeiro manifestavam-se também nos aspectos econômicos. Os franciscanos fluminenses seguiram diversas diretrizes adotadas no Século XVI em Portugal nas províncias da Piedade e da Arrábida.25 Tais disposições buscavam incentivar a simplicidade material no interior do claustro, através da limitação de doações materiais aos religiosos. Assim, os religiosos franciscanos do Rio de Janeiro mantinham-se com pequenAs ajudas monetárias concedidas regularmente pela Ordem Terceira e outros benfeitores leigos. Em troca, os ditos frades prestavam uma série de serviços espirituais, como sermões, Ladainhas, missas, entre outros. Ao contrário dos frades carmelitas e dos monges de São Bento, os religiosos franciscanos não podiam administrar legados mais expressivos constituídos por imóveis ou capitais, com cujos rendimentos ou juros eram realizadas missas e obras de caridade destinadas à salvação das almas dos doadores. Para suprir as limitações dos frades franciscanos, a Ordem Terceira de São Francisco especializou-se no recebimento de bens vinculados, cuja administração implicava na celebração dos atos piedosos referidos. Em 1808, a associação dos terceiros franciscanos tornara-se a principal proprietária de imóveis urbanos no Rio de Janeiro, administrando um total de 186 unidades, entre casas térreAs e sobrados. Com os rendimentos obtidos, mandava celebrar, a cada ano, de 2066 a 3076 missas pelas almas dos benfeitores, entre outras obrAs de misericórdia.
Até mesmo na hora da morte, os vínculos espirituais dos irmãos terceiros em relação aos religiosos transpareciam de forma evidente. A maior parte dos terceiros franciscanos do Rio de Janeiro escolhia como veste funerária o hábito dos religiosos, que era adquirido no convento de Santo antônio por quantias que variavam entre 4 e 16$000 réis. O número dos irmãos que preferiram sepultar-se com As referidas mortalhas sobrepujava inclusive o daqueles que escolhiam ser enterrados com os próprios hábitos da Ordem Terceira. A opção pelas duas vestes funeráriAs explica-se pela fruição de indulgências plenárias aos fiéis que assim procediam, desde que, tendo antes confessado e comungado, estivessem sinceramente arrependidos das suas culpas.
Embora a união espiritual, jurídica, arquitetônica e material trouxesse benefícios mútuos para os frades franciscanos e os irmãos terceiros, nem sempre as relações que mantinham foram marcadas pela cordialidade. Um dos primeiros conflitos a opor a Ordem Terceira à Primeira ocorreu no ministério do doutor Cláudio Gurgel do Amaral. A razão da desordem estava na recusa do irmão ministro e da mesa da Ordem em cumprir diversos itens dos estatutos que os religiosos haviam elaborado para a associação dos irmãos terceiros. Em 1704, os frades da província do Rio de Janeiro resolveram expulsar o irmão ministro, pelas culpas de "conspirador, caluniador público e perturbador da paz", Juntamente com outros membros da mesa.26 Nas décadas seguintes, os irmãos terceiros continuaram a desafiar as relações hierárquicas que os uniam aos religiosos franciscanos. Desta vez, o principal líder das discórdias foi o irmão ministro Francisco de Seixas da Fonseca, rico negociante da cidade. Por trás das rivalidades, aparecia novamente a disposição dos irmãos terceiros em interferir em pontos das regras e dos estatutos que a legislação canônica reservava aos religiosos. em 1717, os irmãos terceiros expulsaram da mesa o comissário visitador, fato sem antecedentes na história da associação. Desde esta época, solicitaram também às autoridades civis a graça de fundarem um hospício ou pequeno convento no meio da cidade, onde poderiam manter dois religiosos para as tarefas de culto, "em tal forma que os poderão lançar fora quando lhes parecer necessário".27 Esta cláusula, que feria a subordinação dos irmãos terceiros aos religiosos, foi aprovada pelo alvará do monarca D. João V de 10 de janeiro de 1720. Os religiosos não se conformaram, e aprovaram uma sentença de expulsão de Francisco de Seixas da Fonseca e seguidores. em 1721, a Ordem Terceira encontrava-se dividida em dois grupos opostos: os dissidentes, que passaram a se reunir na igreja do hospício da cidade, localizada na rua do Rosário, e os irmãos terceiros que assistiam na capela da Ordem, sob a obediência dos frades. O conflito acabou apenas alguns anos depois, quando Francisco de Seixas da Fonseca entregou a igreja do hospício, depois que um breve do papa Inocêncio XIII apoiou a causa dos religiosos franciscanos. Em 1726, o ex-ministro dos irmãos terceiros foi desterrado para a capitania de Pernambuco, de acordo com as ordens dadas pelo governador do Rio de Janeiro.
A Ordem Terceira de São Francisco, assim como a Santa Casa de Misericórdia e outras irmandades de maior prestígio, recrutava os respectivos membros no interior de uma parcela reduzida da população colonial. Os candidatos a irmãos terceiros deviam provar a ausência de defeitos de nascimento, provocados por ascendentes mulatos ou cristãos-novos. Sobre estes últimos, pairava quase sempre uma certa suspeita de heresia. Em 1663, o casal de irmãos Bento da Mota e Maria Carneira, que tinham sido aceitos no Rio de Janeiro com documentos emitidos pela filial da Ordem Terceira de São Francisco existente em Lisboa, foi preso pelo Santo Ofício. Após isto, a associação do Rio de Janeiro decidiu não mais admitir irmãos procedentes de outras filiais da Ordem, Sem antes efetuar uma exata investigação. De acordo com os estatutos locais aprovados em 1686, proibia-se a entrada a "qualquer cristão-novo, e se algum for admitido, que se lhe recuse a profissão; caso porém tenha professado, Não entrará em cargo nenhum" da Ordem.28 A existência de tais restrições de acesso, Somadas ao orgulho e à opulência material dos terceiros franciscanos do Rio de Janeiro, revelam ao leitor de hoje a distância que os separava dos ideais do Santo de Assis. Entretanto, é isto que intriga e fascina aqueles que se dedicam a estudar As atividades da referida associação, e de outras que Compunham a vida devocional dos tempos coloniais.
Notas
1 Renata de Castro Menezes. A dinâmica do sagrado. Rituais, sociabilidade e santidade num convento do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2004.
2 Ver, entre outras obras: André Vauchez. A espiritualidade na Idade Média Ocidental (séculos VIII a XIII). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995; D. Bornstein e R. Rusconi (Eds.). Women and Religion in Medieval and Renaissance Italy. Chicago: The University of Chicago Press, 1996; Fr. Lázaro Iriarte, O. F. M. Cap. História franciscana. Trad. Petrópolis: Vozes, 1985; Jacques Le Goff. "As ordens mendicantes" In: Jacques Berlioz (Apres.). Monges e religiosos na Idade Média. Lisboa: Terramar, 1996, p. 227-241.
3 Em um balanço parcial realizado em Portugal, relativo aos séculos XVI e XVII, podem ser contabilizados dezesseis manuais devocionais destinados aos irmãos terceiros de São Francisco e do Carmo. As referidas obras consistem, no mais dAs vezes, em comentários das regras e dos estatutos que deveriam ser seguidos pelos ditos irmãos. Cf. José Adriano de Freitas Carvalho (Dir.). Bibliografia cronológica da literatura de espiritualidade em Portugal (1501-1700). Porto: instituto de Cultura Portuguesa, 1988.
4 Fr. Manoel de Maria Santíssima, O. F. M. Terceiro franciscano instruído nas obrigações do seu instituto da Terceira Ordem da Penitência; com a notícia das muitas indulgências concedidas aos professores deste instituto. Lisboa, na Oficina de Antonio Gomes, 1787, p. 157.
5 Pe. Manoel Bernardes. Os últimos fins do homem: salvação e condenação eterna. Tratado espiritual dividido em dois livros. In: Obras. Porto: Lello & irmão, 1974, v. V, p. 276.
6 Fr. Antonio Arbiol, O. F. M. Los terceros hijos de el humano serafin. la venerable y esclarecida Orden Tercera de Nuestro Patriarca San Francisco. En Zaragoza, Por Pedro Carreras, 1724, p. 166.
7 Fr. Manoel de Maria Santíssima, loc. cit.; Fr. Jerônimo de Belém, O. F. M. Palestra da Penitência, Sendo corifeu, autor e mestre o milagroso Deus Menino, e seu Legítimo substituto o Patriarca dos Pobres, o grande pequeno São Francisco de Assis... Lisboa Ocidental, na Oficina de Antonio isidoro da Fonseca, 1736, p. 148.
8 Fr. Domingo de la Soledad, O. F. M. Sol Seraphico, que colocado en el cenit del Catholico Cielo, ilustra al Cristiano Orbe con los beneficos rayos del Origen, Exelencias, Frutos, Regla e Indulgencias de la estimada de Dios, apreciada de los Pontifices, y venerada de los Hombres, la siempre Venerable Orden Tercera de Penitencia de N. S. p. S. Francisco. s. e, s/d, [2. ed. Cádiz: Jerónimo de Peralta, 1728], p. 493.
9 Fr. Bartolomeu Ribeiro, O. F. M. Os terceiros franciscanos portugueses. Sete séculos de sua história. Braga: tip. Missões Franciscanas, 1952, p. 53-56.
10 Antônio Ramos Machado. Resumo histórico da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência. Rio de Janeiro: Tip. Jerônimo Silva, 1905, p. 3-11; Fr. Basílio Röwer, O. F. M. Páginas da história franciscana do Brasil. Petrópolis: Vozes, 1941, p. 87; e Mário Barata. Igreja da Ordem Terceira da Penitência do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Agir, 1975, p. 11 e 59.
11 Cf. Nestor Goulart Reis. Imagens de vilas e cidades do Brasil colonial. São Paulo: Edusp: Imprensa Oficial do Estado, 2000, p. 159.
12 Mário Barata, op. cit., p. 62-75.
13 Para São Paulo, ver fr. Basílio Röwer, O. F. M. Páginas da história franciscana..., cit., p. 107-108. Com relação a Salvador, cf. fr. Venâncio Willeke, O. F. M. (Int. e notas). Atas capitulares da província franciscana de Santo Antônio do Brasil (1649-1893). Revista do IHGB. Rio de Janeiro, n. 286, jan-mar. 1970, p. 140.
14 Fr. Antonio das Chagas, O. F. M. (ed.) Estatutos municipais da província da Imaculada Conceição do Brasil, tirados de vários capítulos da Ordem (...) feitos, Ordenados e aceitos no capítulo que se celebrou no convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro aos 7 dias do mês de abril de 1710 (...). Lisboa Ocidental, na Oficina de José Lopés Ferreira, Impressor da Sereníssima Rainha Nossa Senhora, 1717, p. 168-9.
15 André Vauchez, op. cit., p. 132.
16 Fr. Antonio Arbiol, op. cit., p. 40.
17 Vide, respectivamente: Mário Barata, op. cit., p. 33; fr. Adalberto Ortmann, O. F. M. História da antiga capela da Ordem Terceira da Penitência de São Francisco em São Paulo. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1951, p. 68; e Fernando Pio. A Ordem Terceira de São Francisco do Recife e suas igrejas. 5. ed. Recife: UFPE, 1975, p. 110.
18 AVOTSF, Recopilador, f. 1v.
19 Herculano Gomes Matias. Suplemento da notícia histórica da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência. Rio de Janeiro, s. e., 1961, p. 67.
20 Fr. Augustinho da Conceiçam, O. F. M. Sermam do Serafim chagado, príncipe dos pobres evangelicos. Na festividade, que a Igreja Católica celebra em 17 de Setembro, e a venerável Ordem Terceira da Penitência do Rio de Janeiro, como a Orago soleniza na prodigiosa impressão dAs Chagas Santíssimas, em o seu Seráfico corpo pelo mesmo Redentor, que na Cruz para nosso remédio as recebeu. Pregado pelo seu mais indigno filho seu Fr. Augustinho da Conceiçam (...) em o Convento de Santo Antônio, ano de 1681. Lisboa: na oficina de Manoel Lopes Ferreira, 1690. Não pude consultar o referido sermão.
21 Fr. Basílio Röwer, O. F. M. História da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, através da atuação de seus provinciais de 1677 a 1901, precedida de um capítulo sobre a Origem e ereção canônica da província. petrópolis: Vozes, 1951, p. 31.
22 Fr. Antonio Arbiol, op. cit., p. 140.
23 Fr. Adalberto Ortmann, op. cit., p. 117-118.
24 José Sebastião da Silva Dias. Correntes de sentimento religioso em Portugal (séculos XVI a XVIII). coimbra: Instituto de Estudos Filosóficos da Universidade, 1960, v. 1, p. 449-450.
25 Idem, ibidem, p. 145-155.
26 Fr. Basílio Röwer, O. F. M. O convento de Santo antônio do Rio de Janeiro. Sua história, memória, tradições. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1945, p. 92.
27 IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro), arq. 1.1.25 (Cópia das consultas do Conselho Ultramarino). O governador e capitão general da capitania do Rio de Janeiro, aires Sldanha de Albuquerque, responde à ordem que lhe foi para informar no requerimento do ministro e irmãos da Ordem Terceira, acerca da licença que pedem para fundarem um Hospital e Capela na dita Capitania (1720), f. 239v-240v.
28 Fr. Diogo de Freitas, O. F. M. Elenco biográfico de religiosos antigos da província franciscana da Imaculada Conceição do Brasil. Petrópolis: Vozes, 1931, p. 19-21.




