Missões, história e arqueologia: frentes de colonização, contatos interétnicos, intercâmbios culturais.
Este é um estudo das aglomerações urbanas ibero-americanas coloniais fundadas por missionários no Rio da Prata, na transição das aldeias ao urbano, a partir de suas origens históricas indígenas e européias. Interpretar a transição das formas pré-urbanas às formas urbanas significa, antes de tudo, tentar compreender quando uma etnia e seus grupos sociais tornam-se sedentários e passam a se identificar em termos de uma identidade comunitária. A resposta a esta questão não é nada simples, nem para arqueólogos e nem para historiadores. Entretanto, existem indícios sobre o crescimento e o desenvolvimento destas novas aglomerações urbanas que podem ser obtidos na documentação histórica e na cultura material remanescente.
1. Introdução.
Pretender explicitar a noção de cidade exige que possamos entender os conceitos de polis grego, de civitas em Roma, de cité no mundo medieval, bem como os de pueblo e de cidade utilizados na época moderna. Significa também compreender em primeiro lugar aquilo que nenhuma conceituação simplista pode satisfazer. Ao afirmarmos que a cidade é uma aglomeração dos que não vivem do trabalho na terra ou que ela é um conjunto de edificações de caráter público e privado que se ordenam acompanhando ruas, apenas destacamos uma das possíveis características ignorando todas as demais variáveis. Tentar, entretanto, esta definição tem o mérito de levar em consideração alguns elementos fundamentais, discernir aspectos mais ou menos evidentes, estabelecer algumas importantes variáveis que podem nos servir de eixos norteadores para o nosso pensamento. Se estas variáveis forem combinadas, podem ser altamente esclarecedoras, estabelecendo algumas características mais importantes.
2. A cidade e os homens.
Devemos destacar em primeiro lugar a idéia de que a cidade é composta por homens na história, ou seja, organizados em relações sociais duráveis e comunidades estruturadas, mas em contínuas mudanças ao longo de um processo histórico. Nos documentos históricos que nos falam dos primórdios de uma cidade, predominam as referências aos seus habitantes: os “parisii”, os “atenienses” e os “guaranis” como os integrantes de Paris, de Atenas ou dos pueblos de índios missioneiros. Este fato não nos deve, entretanto, enganar: o critério quantitativo do número total de habitantes não é suficiente para definir se uma aglomeração urbana é ou não uma cidade. Não apenas temos dificuldades de calcular a quantidade de habitantes por falta de documentos, mas também algumas cidades com um número grande de residentes nunca receberam o título oficial de cidade. Os povoados missioneiros, maiores em alguns casos do que a maioria das cidades coloniais platinas, nunca receberam oficialmente o título oficial de cidade. Por outro lado, centenas de pequenas cidades com menos de 10.000 habitantes, fizeram parte muitas vezes de uma rede importante, ligadas entre si (como os trinta povoados missioneiros) ou a centros urbanos administrativos ou comerciais. Nem sempre é o número dos habitantes que define a cidade, mas quase sempre o seu dinamismo e a variedade de suas atividades (Kern 1998b, 11-93, Roux 2004: 16).
Por outro lado, estes grupos de homens não se apresentam como simples residentes. A cidade é antes de tudo formada por uma comunidade de cidadãos, na expressão de Aristóteles. Eles são indivíduos com certas prerrogativas e algumas vantagens, mas também com obrigações e imposições que os distinguem dos não-cidadãos: prerrogativas políticas, jurídicas e religiosas; vantagens sociais, obrigações militares e imposições fiscais (Lonis 2003: 25-27).
Esta comunidade constrói em conjunto uma história comum com seus heróis míticos e lendas de fundação. Ela estabelece toda uma série de costumes e normas que organizam esta vida em comum desejada por todos os cidadãos: cultos coletivos e procissões festivas a divindades protetoras.
a) As cidades e seus espaços:
Considera-se uma cidade “uma comunidade de considerável magnitude e elevada densidade de população que abriga em seu seio uma grande variedade de indivíduos especializados em tarefas não agrícolas, incluindo-se neste uma elite culta”, na definição de Gideon Sjoberg (Morris 1984:17). Poderíamos ainda acrescentar a produção de um excedente alimentar
Devemos salientar a maneira como se organizam os espaços urbanos e rurais, em uma dupla dimensão, na qual cidade e território formam um conjunto inseparável. A própria cidade é um território muito particular, ou melhor, uma combinação de territórios (Roncayolo 1993:19). Ela organiza o seu território a partir do qual ela satisfaz as suas necessidades quotidianas e suas fontes de alimentação. Nestes espaços se implantam seus poderes de dominação, se extraem serviços e se obtém rendimentos a partir de impostos ou de comércio. A organização do território exige a implantação de uma rede de relações sociais, cujos encontros e desencontros ocorrem nas áreas de mercado, nos espaços público e administrativo, nas zonas de ação e atração.
A implantação de uma cidade implica no domínio sobre um determinado território. Uma aglomeração urbana, fortificada ou não, tem que se apoiar em um território não necessariamente extenso, mas do qual ela retira os meios de subsistência e a partir do qual organiza a sua defesa, por sua posição estratégica ou pela inacessibilidade de sua acrópole. Esta dupla dimensão cidade-território se organiza em um espaço cívico para os seus cidadãos e é sentido fisicamente por todos os que a habitam. É um espaço urbano no qual podemos observar diversos pontos de referência que terminam por dar o sentido a uma identidade consciente. No espaço rural o território se materializa pelos caminhos que levam aos pequenos santuários ou capelas, pelas florestas onde se pratica a caça e a coleta (mel, frutos e raízes), nas terras cultivadas onde a atividade agrícola se desenvolve ao sabor das estações, nos lugares de pesca e coleta de moluscos (arroios, lagos ou litorais marinhos). No espaço urbano o território é marcado pelas muralhas, pelos templos ou igrejas, pela acrópole ou pelos espaços sociais que se denominaram de agora, fórum ou praça maior, ao longo do tempo.
A cidade inexiste sem um cenário físico, sem uma paisagem, sem um território: ela é antes de tudo uma cidade-estado, mesmo que não necessariamente independente. A cidade é uma entidade que gostaria de ser soberana sobre o seu território e independente em relação aos demais estados que a circundam. Entretanto, independente ou não, ela procura escolher seu próprio regime político (autoritário ou democrático, aristocrático ou tirânico), se organiza com uma legislação própria, não admite ofensas aos seus deuses ou heróis míticos, luta para defender-se de ataques à sua integridade territorial.
b) As funções sociais desenvolvidas na e pela cidade:
A cidade é um palco onde uma série de atividades se desenvolvem, não necessariamente ligadas à terra e que, de uma certa maneira, nos permitem esclarecer sobre quais são as funções urbanas (Roux 2004:17-18), mas também quais são as funções pré-urbanas ainda remanescentes. Uma delas, e a não menos importante, é a função religiosa. Não podemos imaginar as cidades greco-romanas sem seus templos nem os povoados missioneiros sem as suas igrejas face à praça maior. E, não podemos esquecer, quase todas as iconografias da época medieval nos mostram torres sineiras das igrejas aparecendo por trás das muralhas medievais. Outra função primordial é a da distribuição da justiça e exercício da administração local. Na cidade, há toda uma dimensão da civilização que está estreitamente ligada ao mundo do comércio, da produção artesanal e das trocas, e que poderíamos resumir como: saberes, justiça e poderes. E, finalmente, a função das atividades produtivas e de troca. Se a variedade de suas atividade e o seu dinamismo são características da cidade, impossível esquecer que o papel do comércio e do artesanato sempre foi um aspecto dos mais importantes.
As cidades não têm apenas características próprias, mas igualmente problemas comuns. Se as cidades concentram atividades não diretamente ligadas às atividades agrícolas, como fazer para resolver os problemas de abastecimento de alimentos, de água, de matérias primas? Elas são verdadeiros centros de consumo, pois concentram atividades não rurais e, ao mesmo tempo, seu artesanato exige a vinda de matérias primas do mundo externo.
E finalmente, é necessário também salientar que faz parte desta identidade das cidades o olhar dos outros. Como as demais sociedades a vêem a partir de um contexto internacional ou regional complexo, com o qual a cidade jamais deixa de interagir? Simples aldeia, pequena cidade, cidade-estado soberana, capital de um império, etc., são muitas as representações que a cidade pode despertar e os demais grupos de homens, camponeses das zonas rurais ou cidadãos de outras aglomerações urbanas próximas, podem vê-la de maneiras muito diferentes.
A história e a arqueologia procuram desvelar o quotidiano, aquilo que parece o banal da vida comum urbana: os comportamentos sociais, os ritos, os gestos e os costumes. Se, por um lado, os elementos materiais da cultura parecem mudar mais lentamente, os novos modos de vida dos habitantes das cidades se alteram mais rapidamente, o que fornece este quadro sempre contrastante do tradicional e do moderno, em cada cidade e em cada época. A cidade desperta também, sentimentos contraditórios, pois seus próprios habitantes podem elogiar os novos saberes e técnicas que nelas se desenvolvem e condenar a perversão moral e as contradições entre ricos e pobres.
Para concluir, não esqueçamos: a idéia de cidade implica em considerar, em primeiro lugar, que a sua existência na história se deve a uma decisão dos homens de viver em conjunto. Em segundo lugar, no estabelecimento de profundas raízes em um território escolhido. E, finalmente, pela aceitação de sua identidade pelas demais sociedades que coexistem no mesmo contexto histórico.
A possibilidade de analisar e interpretar os importantes processos de longa duração desta história das cidades somente é possível a partir dos dados que tanto a Arqueologia como a História nos fornecem. Partindo do estudo da dinâmica das interações sócio-culturais destes aglomerados pré-urbanos ou urbanos, bem como da sua persistência no tempo histórico, podemos analisar as ações e as reações que caracterizam este complexo processo de fundação e de desenvolvimento posterior. Podemos observar, no lento e dinâmico passar do tempo histórico, a emergência de sínteses culturais complexas, nas quais a persistência de aspectos do modo de vida dos cidadãos das poleis greco-romanas não é menos importante do que as tradições da cite na Idade Média e as novas manifestações urbanas da era moderna. Nos povoados missioneiros, por exemplo, “... complexos processos de transculturação ocorreram em todos os níveis da organização social, na economia, na política, na cultura, de maneira a fazer com que os indígenas guaranis abandonassem os seus padrões tribais neolíticos. (...) Entretanto, podemos compreender como foram assimiladas as novas práticas trazidas pelos missionários, assim como reinterpretados e reacomodados os novos traços culturais importados” (Kern 1991: 445-65).
Do pré-urbano ao urbano: a emergência e o desenvolvimento das cidades e de seus territórios.
Interpretar a transição das formas pré-urbanas às formas urbanas significa, antes de tudo, tentar compreender quando uma etnia e seus grupos sociais tornam-se sedentários e passam a se identificar em termos de uma identidade comunitária. A resposta a esta questão não é nada simples, nem para arqueólogos e nem para historiadores. Entretanto, existem alguns indícios sobre o crescimento populacional e o desenvolvimento destas novas aglomerações urbanas que podem ser obtidos na documentação histórica e na cultura material remanescente.
A arqueologia nos permite observar uma série de evidências, por exemplo, a ampliação do número de sítios arqueológicos históricos em uma região e, em cada um deles, o maior número de edifícios públicos e religiosos, de restos de habitações e de fossas de detritos, de utensílios metálicos forjados e de recipientes cerâmicos feitos no torno de oleiro. A arqueologia do espaço, nestes sítios, nos permite perceber não apenas edificações mais estáveis, mas também novas formas de organização: torres, muralhas, templos ou igrejas, palácios, espaços públicos e oficinas artesanais, por exemplo.
A documentação escrita de época nos permite perceber menções a, por exemplo, confrarias religiosas, atividades artesanais, regulamentos administrativos, levantamento de habitantes ou de casas para o pagamento de impostos, etc.
Todas estas inovações e modificações são extremamente importantes, sem dúvida. Entretanto, não podemos ignorar que nas etapas iniciais os ambientes rurais ainda predominam. As aglomerações urbanas, cidades ainda em gestação, deverão durante muito tempo ser uma minoria em meio a sociedades rurais. Alguns dos exemplos típicos são os povoados e cidades nascidos das aventuras coloniais e dos conflitos militares: as cidades novas greco-romanas, as bastides medievais, muitas aldeias do novo mundo.
Uma cidade é, antes de tudo, uma complexa realidade que se materializa em uma paisagem. Esta realidade física pode ser reconhecida por uma série de componentes: a aglomeração urbana, o centro histórico, os bairros, os subúrbios (faux bourg: o falso burgo das cidades medievais), os campos cultivados, os terrenos de pastagem, as pedreiras das construções, as minas, seus açudes para a contenção da água, seus bosques para o aprovisionamento em madeira, seus rios e arroios, com pontes e portos. Em alguns casos a cidade se protege: uma série de muralhas pode dividir a zona urbana da zona rural e uma série de postos de guardas de fronteira pode fazer face aos territórios vizinhos pertencentes a outras cidades, amigas ou inimigas.
O centro urbano é o coração da cidade e quase sempre o núcleo histórico do qual ela nasceu. Ele pode dispor seus prédios públicos e séries de habitações de maneira anárquica, ao sabor das sucessivas ampliações ocorridas. Mas, no caso das fundações militares ou coloniais, seu traçado urbano obedece ao rigoroso planejamento. Nestes casos, as ruas se organizam segundo um plano ortogonal, na forma de um tabuleiro de xadrez, separando quadras ou quarteirões onde as casas individualizadas se instalam, com seus quintais e pomares ao fundo, e a fachada das habitações voltadas para as ruas onde circulam pedestres, carroças e cavalos.
No centro histórico existe um espaço policêntrico (Lonis 20003: 102), o espaço cívico, no qual se exerce o poder político das cidades. Ele é formado pelos edifícios religiosos (santuários, templos e igrejas), por muralhas e fortins, pelas praças públicas (ágora, fórum, plaza mayor). Mas, é também onde os cidadãos exercem suas prerrogativas cívicas e desempenham os seus deveres.
A partir deste centro cívico, cidadãos foram convocados e milícias se prepararam para marchar, pois as cidades fizeram sempre as suas guerras a partir deste local onde a sua etnia ou sua identidade comunitária tem seus mitos enraizados. São múltiplas as causas das guerras: devido à exigüidade de seus territórios, à falta de alimentação, à necessidade de buscar escravos ou simplesmente para se defender dos ataques externos, provocados por outras sociedades que compartilham as mesmas paisagens e o mesmo contexto histórico. Na cidade grega, os exércitos são os cidadãos em armas que participam da defesa. Mas, nos povoados missioneiros platinos, “não é paradoxal que a Missão, que se propõe à cristianização, à oração e à paz, seja obrigada a se armar e a ter tropas?” (Kern 1998).
As cidades necessitam também alimentar seus cidadãos, inicialmente dos recursos de seu território em uma auto-suficiência que pode ser quase total. Entretanto, muito cedo, as relações mercantis se instalam, estruturas portuárias substituem os simples ancoradouros, mercadores e navios começam a singrar lagos, rios e mares. Busca-se solucionar os problemas de insuficiência de alguns produtos ou aproveitar a produção excedente para atender necessidades de mercados distantes.
Estamos perante um paradoxo interessante: “o pequeno mundo que constitui a polis é dividido desde a origem entre duas exigências: voltar-se sobre si mesmo para garantir sua independência e afirmar a sua identidade, mas ao mesmo tempo abrir-se para o mundo exterior, para assegurar a sobrevivência” (Lonis 2003: 123).
Neste pequeno universo, é lícito que possamos questionar se as atividades voltadas para o trabalho são obrigação de todos os cidadãos, ou se existem formas de trabalho servil ou escravo? Sabemos que existe uma variedade muito grande de formas de trabalho agrícola, uns realizados pelos homens, outros pelas mulheres. Outras formas de trabalho caracterizam as atividades desenvolvidas da pecuária, nas oficinas artesanais, nas minas e nas pedreiras.
Teriam as cidades do passado desenvolvido políticas econômicas? Talvez não no sentido que damos hoje a este conceito. Entretanto, todas as administrações públicas, mesmo de pequenas cidades, demonstraram preocupações econômicas (Lonis 2003: 135-6), com a “res pública” (a coisa pública).
Finalmente, é necessário destacar que as cidades, mesmo com recursos humanos e econômicos ilimitados, foram personagens históricos muito frágeis. Mas podem elas ser estudadas por nós desde sua obscura origem e mal documentada formação, até atingir importância ímpar em seu pleno desabrochar.
Novas leituras e releituras dos documentos nos permitem escrever novas páginas de uma produção sempre renovada da história dos espaços citadinos. “Pretendemos constituir séries comparáveis de vários indicadores que permitem a delimitação dos diferentes aspectos do fenômeno urbano, dos fluxos econômicos, dos movimentos populacionais, dos ciclos das construções e das modificações, das estratificações sociais e culturais; relacionam em seguida todos estes dados com uma localização, reconstituem a produção, o crescimento e os usos diversificados dos espaços urbanos, a ligação entre as paisagens citadinas e os meios culturais que representam” (Roche 1990: 94).
5. O plano urbano das Missões jesuíticas Platinas: um estudo de caso.
No século 18, Charlevoix1 escreveu que os jesuítas haviam estabelecido planos completos, aprovados pelos reis da Espanha, sugerindo que eles seriam uma criação exclusiva. Mais recentemente se afirmou que todos os planos urbanos destes povoados missioneiros eram não apenas semelhantes uns aos outros, como nas obras literárias utópicas, mas igualmente uma « unidade urbana e rural planificada com rigor”2 .
Estas interpretações, pela sua superficialidade, não se dão conta da complexa herança histórica, ao mesmo tempo ameríndia e européia, materializada nestes importantes sítios arqueológico
Sempre se afirmou que o plano urbano destes povoados seguiram as famosas “Leyes de Indias” dos soberanos espanhóis. Entretanto, mesmo se esta afirmação muito geral e superficial é uma verdade histórica, ele não esgota e nem resolve plenamente o problema. Uma analise mais aprofundada doesta iconografia, nos evidencia as relações muito estreitas com os modelos estabelecidos por duas fortes tradições culturais, a européia e a indígena. Este plano urbano nos evidencia uma série de padrões relacionados às normas milenares materializadas nas aldeias dos horticultores da floresta tropical e subtropical, e as planificações urbanas inovadoras do Renascimento. Entretanto, o que deveremos destacar neste trabalho, são as semelhanças e as diferenças existentes entre as Missões Jesuítico-Guaranis e as experiências realizadas na Europa da Idade Média, com as construções dos mosteiros medievais.
As pesquisas desenvolvidas na Biblioteca Nacional de Paris3, nos quadros do projeto Pró-Prata, levaram à descoberta de um novo desenho policromo, do sítio arqueológico de São João Batista. Ele nos permite muito bem analisar o processo de implantação dos “Pueblos de Índios”, estas aldeias novas fundadas para a instalação dos Guarani nas fronteiras do império espanhol platino.
O objetivo principal deste trabalho é apresentar os resultados ainda parciais, e portanto incompletos, das pesquisas que se desenvolvem atualmente tendo como referência este magnífico documento iconográfico de meados do século XVIII. O trabalho aqui desenvolvido é uma abordagem contextual, de caráter crítico e reflexivo, tendo como alvo o processo de urbanização do povoado missioneiro, e como estudo de caso o povoado de São João Batista. A análise da morfologia e do plano destes “Pueblos de Índios” coloniais, relacionado às práticas sociais, as mentalidades urbanas e aos aspectos simbólicos subjacentes, é tarefa extremamente difícil. E exige uma abordagem complexa de confrontação entre os dados provenientes de diversas fontes primárias (iconográficas, da cultura material e escritas), mas igualmente da bibliografia especializada existente4.
5.2. Adoção do plano e das normas relativas a ele.
As normas relativas ao plano urbano não apenas impõem mas igualmente propõem uma relação das estruturas materiais observadas, tanto nos levantamentos topográficos realizados no sítio arqueológico como no estudo da iconografia descoberta, com o seu contexto histórico. Os estudos contextuais, sejam históricos ou arqueológicos, são abordagens teóricas de médio alcance, ultrapassando os estudos pontuais sem atingir as visões especulativas da totalidade do processo histórico da humanidade. Eles englobam tanto o cenário do ambiente natural como os aspectos socio-culturais dos personagens históricos em presença5.
Não serão desenvolvidos aqui as relações entre o sítio urbano e o cenário, o espaço ambiental, ainda a serem estudados nesta pesquisa em andamento6. Nossa análise se desenvolverá na reconstituição das relações que nos evidenciam os ritmos e as formas da vida social e da cultura, tanto dos seus aspectos materiais como simbólicos.
Durante a primeira etapa histórica das incipientes missões, percebe-se que o plano urbano já se articula em torno de uma praça central e da igreja. A distribuição das estruturas já é muito precisa e ordenada. Entretanto, não é ainda tão complexa como posteriormente. Um exemplo deste primeiro ordenamento pode ser constatado em um documento de 1613, escrito por Roque Gonzales7, que descreve a implantação de um dos primeiros povoados construídos no Tape, no atual Rio Grande do Sul. Esta fundação de inícios do século 17 refere-se ao espaço da praça central, à igreja e à organização das casas retangulares em conjuntos ao redor do espaço central.
Poderíamos pensar inicialmente, que este novo urbanismo se deve tão somente às “Leyes de Indias”. Com efeito, desde o século 16 os soberanos espanhóis tornam explicitas em leis as normas que devem organizar as novas cidades coloniais. A cidade deve ser projetada, as ruas e os quarteirões de casas deverão ser traçadas “com régua e corda”, caracterizando-se por serem inteiramente regulares e geométricas8.
No decorrer do século 18, período do auge destes povoados, percebe-se que o plano evidencia uma longa reflexão. São mantidos muitos dos aspectos formais que tiveram sucesso e foram satisfatórios no passado. Entretanto, o plano é completado, sempre tendo em vista a sua coerência. Percebe-se que o complexo conjunto está agora perfeitamente estruturado, nada ocorrendo por acaso. Poderíamos concluir, afirmando que estamos em presença de um modelo que traz consigo uma exigência absoluta, sem deixar de evidenciar, entretanto, que é um modelo que admite contínuas transformações. Trata-se de dar bases a uma renovação sobre uma continuidade.
O Padre jesuíta Antônio Sep., o fundador de São João Batista nos dá uma idéia das preocupações de sua época com a adoção de um plano para o povoado:
“Yo queria evitar estos y otros errores y trazar mi pueblo metódicamente, según las reglas del urbanismo. La primera condición con la cual debía cumplir fue la medición y el amonojonamiento de los terrenos para la construcción de las casas con el cordel del agrimensor. Tuve que assignar a cada grupo de casas el mismo número de pies a lo largo y a lo ancho como a los otros. En el centro debia alinear la plaza, dominada por la iglesia y la casa del párroco. De aqui debían salir todas las calles, siempre equidistantes una de la otra. Una buena distribución en este sentido significaba una ventaja extraordinaria y, al mismo tiempo, el mejor adorno para el pueblo” 9 .
5.3. A implantação do plano urbanístico.
A implantação da Missão implica no domínio sobre um determinado território. Na Idade Média, as terras de uma abadia eram concedidas pelos senhores detentores dos feudos. Muitos séculos depois, na América colonial platina, são os governadores de Buenos Aires e de Assunção que concedem as terras para os “Pueblos de Índios”.
Seus limites nem sempre são claros. As relações territoriais com as demais Missões vizinhas, chegou a ser algumas vezes foi conflituosa. O território que separa cada uma das Missões pode ser percorrido em um dia de marcha. Se calcularmos um ritmo normal de caminhada de cinco quilômetros por hora, em oito horas teremos percorrido os trinta quilômetros que separavam em média estes povoados entre si.
A escolha do local para instalação do povoado missioneiro, exige um extenso e profundo conhecimento sobre os complexos mosaicos das diversas paisagens que compõem a região. As florestas são necessárias para o plantio da horticultura indígena e para as atividades de agricultura européia com o arado. Os campos servem para a reprodução dos rebanhos de gado e as manadas de cavalos. Exige também uma criteriosa escolha do local em função das necessidades de água para o povoado. Há uma lógica da água relacionada à vida comunitária: captação nas fontes de pedra trabalhada, canalização em direção às oficinas artesanais e à cozinha, contenção em açudes, irrigação da quinta e limpeza das latrinas, etc. O sítio deve ter de águas abundantes, mesmo em períodos de seca prolongada. Este conhecimento, apenas os Guarani possuíam. São diversos os sítios escolhidos, ora à beira do rio Uruguai, ora no cimo de colinas que se erguem suavemente até quase trezentos metros de altura, como é o caso de são João Batista. Este povoado nos evidencia o padrão das reduções localizadas no atual território do Rio Grande do Sul.
As reduções coloniais postularam uma planificação que tem sempre atraído a atenção dos historiadores: uma constelação de estabelecimentos satélites (fazendas de gado, zonas de exploração de erva mate, hortas e campos de atividades agrícolas, fornos cerâmicos, currais, etc) que envolvem como uma coroa o povoado missioneiro. Este é uma sede central que dirige o contexto, dividido em diversas unidade de produção. Estas estão localizadas em uma unidade geográfica concentrada e eqüidistante, a não mais do que um dia de marcha do povoado.
A sede deste conjunto se instala em um cenário bem escolhido. São João Batista se instala sobre uma suave coxilha. O relevo é uma plataforma que se inclina suavemente pelas encostas da colina. Muitas vezes a topografia exerce algumas restrições, como no caso de são João, obrigando a adaptação das estruturas às formas dinâmicas do relevo. Um exemplo disto é o deslocamento do “cotiguaçú” (casa das viúvas e dos órfãos), e o falta de alinhamento do conjunto formado pela igreja o cemitério, em relação ao claustro e à oficinas artesanais.
O cenário escolhido está diretamente relacionado à concepção de urbanismo vigente no século XVII. Limita-se o tamanho do núcleo urbano, ou seja, recusa-se a gigantismo das cidades10. Os motivos são muitos: dificuldades de obtenção de provisões, de manutenção de uma boa administração, etc.
Todo o conjunto se ordena em torno da praça central, a “plaza mayor” espanhola e ao longo de um eixo que se prolonga da entrada do povoado, atravessando a praça e acompanhando a linha de maior extensão da igreja. O conjunto se ordena simbolicamente, pois o eixo separa o povoado em duas partes. A leste percebemos todos os dias o nascer do sol e a reinstalação das condições propicias à vida. A oeste, podemos observar o por do sol e a gradual expansão das trevas da noite. Tanto pela manhã como pela tarde, o sol - fonte da vida - estará sempre iluminando o interior da igreja, pelas suas aberturas laterais.
Apesar das afirmações de Azara, não existem muralhas. Os mosteiros medievais, os burgos, os castelos e as fortificações européias tinham muralhas. O mesmo acontecia com as cidade da América colonial, construídas em função dos fortes portugueses e espanhóis, como podemos observar em Buenos Aires, Montevideu, Colônia de Sacramento, etc. Nas Missões, a defesa não é feita por muralhas de pedra e elas não existem, quer nos levantamento topográficos, quer na documentação iconográfica. Existe apenas um longo muro em torno da quinta, destinado mais a proteger as raras espécies européias ali plantadas, do gado e dos animais selvagens. A defesa do conjunto é propiciada pelas tropas e a cavalaria da milícia indígena. A mobilidade da infantaria e da cavalaria é propiciada pelas ruas largas, conforme as novas normas militares da Idade Moderna, as recomendações das Leis das Índias e o novo plano urbano moderno, criado pelo renascimento. Os novos ideais urbanos e os novos imperativos da circulação, exigem no século 17 ruas largas e retas, destinadas a facilitar as comunicações entre os diferentes setores do povoado e entre as edificações11 .
Poderíamos nos perguntar se não é paradoxal que a Missão, que se propõe à cristianização, à oração e à paz, seja obrigada a se armar e a ter tropas? As tropas da milícia indígena (normalmente) e as do exército espanhol (raramente), não são apenas a defesa móvel do povoado. Apesar de ter sido criada para a defesa dos territórios coloniais espanhóis platinos contra as investidas bandeirantes, desempenham uma função de ataque sempre que necessário. Ataques a Assunção (rebeldia contra o governador Hinestrosa), aos índios “infiéis” Charrua (batalha de Jy), aos portugueses da Colônia de Sacramento. Os padres jesuítas não são apenas os párocos/xamãs, mas treinam esta milícia indígena. Eles a acompanham quando em marcha contra os inimigos.
São as milícias indígenas que controlam as idas e as vindas dos visitantes estrangeiros à vida no povoado, e que podem afastar os neófitos dos verdadeiros objetivos de suas vidas, traçados pelos missionários jesuítas: a salvação de suas almas e a união com Deus. Este controle impede a introdução de informações perniciosas, de distrações e de epidemias, doenças para o corpo e para a alma. Este papel de isolamento e proteção era desempenhado, nas origens da Idade Média, pelas muralhas que envolviam os mosteiros medievais, protegendo os monges dos contatos externos, fossem eles fraternais ou belicosos. As normas espanholas, no caso das Missões limitava a uma curta temporada de três dias a permanência de estranhos no território do povoado missioneiro. Os neófitos guaranis deveriam permanecer no povoado, como os monges permaneciam no mosteiro medieval. Ele era uma proteção contra os malefícios do contato com o mundo dos brancos. Esta proteção é garantida e ampliada pelo regime econômico de autarcia e auto-suficiência do povoado, pois nele se produz tudo o que é necessário à vida da comunidade. Os beneditinos já salientavam, nas suas regras para os mosteiros medievais, que o controle dos contatos dos neófitos com o mundo exterior era um dos instrumento das boas obras e que eles deveriam portanto, para isto, “... afastar-se das maneiras do século”, segundo o capítulo IV da regra.
5.4. A herança européia: cidades da antiguidade e mosteiros medievais12:
Desde a antigüidade, a planificação urbana está sempre associada aos projetos de fundação das cidades novas, sobretudo nas colônias gregas e romanas. Um fenômeno semelhante deu nascimento, no mundo romano, aos acampamentos militares (castrum). Eles são muitas vezes o plano que dá origem a muitas cidades que guardaram o seu na sua fisionomia de cidade as orientações gerais deste projeto militar de organização do espaço.
Mesmo na Idade Média, nas fronteiras do sul da França, cidades novas ali fundadas com o nome de Bastides, tiveram o seu plano urbano planificado. A regularidade do plano contrasta com a irregularidade do tecido urbano das cidades medievais tradicionais. Estas experiências foram o ponto de partida para os planejamentos urbanos racionais que forma elaborados no Renascimento e que foram sugeridos nas “Leyes de Indias”.
Em toda a Europa, milhares de Abadias e de Mosteiros deram origem à ocupação de novos territórios, “no deserto”, como se dizia nesta época. Elas forma muitas vezes o núcleo central de uma nova experiência urbana. E deram origem a novas cidades, como ocorreu na época colonial na América colonial. Construir a ordem nesta nova cidade iberoindígena, significa também a organização de um nova sociedade. Afirmou-se nesta época que a cristianização do índio deveria estar integrada à sua redução à polis, ou seja, à vida da cidade.
Franciscanos, Dominicanos e Jesuítas fazem parte das últimas ordens religiosas fundadas, profundamente ligadas ao desenvolvimento das cidades do final da Idade Média e do Renascimento. Nos burgos da Europa, estas ordens vivem a era das catedrais e das universidades, dedicando-se à pregação e à educação. Entretanto, ao partirem para a América e ao se instalarem junto aos grupos indígenas nas fronteiras do mundo civilizado, necessitaram dos modelos rurais de implantação do cristianismo. Passaram a se guiar em parte, portanto, pela experiência monacal beneditina, dos cistercienses (Ordem de Cister) e cluniacenses (Ordem de Cluny). Passaram a seguir algumas das linhas gerais dos traçados dos monastérios beneditinos medievais, adaptando-os aos “Pueblos de Índios” americanos, fundados igualmente “no deserto” do mundo pagão. Os planos geométricos e racionais das missões jesuítico-guaranis, guardam a idéia de ordem e de centralização social em torno da igreja, como já o previra o “plano beneditino” medieval. Este plano monacal se caracteriza por uma série de construções, de volumes integrados entre si e que interagem num grande conjunto.
Podemos tentar algumas aproximações, entre a organização dos mosteiros e de certos setores da missão colonial, como hipótese de trabalho. Entretanto, é necessário esclarecer sempre que o modelo urbano aqui aplicado não se resume a um sonho de vida isolada em um monastério, mas na definição de relações institucionais entre todos os integrantes deste microcosmos, sejam padres ou leigos, jesuítas ou guaranis.
Por outro lado, não podemos igualmente esquecer a série de ideais urbanos modernos que a partir do século 17 se materializaram nestes povoados: o alinhamento das ruas e a regularidade das fachadas.. A cidade deve ser pensada como uma decoração teatral, onde o essencial são as fachadas e a aparência. Quando penetramos em um povoado missioneiro, por uma larga rua, percebemos a perspectiva monumental que forma com as duas capelas situadas na entrada da praça e, ao fundo, o conjunto formado pela fachada da igreja e as duas portas instaladas frente ao claustro e ao cemitério. Esta perspectiva monumental não deve nada à Idade Média, mas é uma nova idéia de urbanismo da Idade Moderna. O povoado, para ser belo, necessita corresponder a uma figura geométrica 13.
a) A Igreja.
Entre todos os prédios da Missão a igreja é o lugar mais importante, como o era nos mosteiros medievais, quer pelo seu volume estrutural face aos demais prédios, quer por suas dimensões, quer pelo lugar privilegiado que ocupa face à praça do povoado.
É o prédio no qual se materializam a produção arquitetônica e artística: pias batismais esculpida e ornamentadas, detalhes arquitetônicos em pedra e madeira finamente trabalhados, esculturas, portas e janelas trabalhadas em arenito esculpido, decorações para os altares, pilares e colunas com entalhes, naves imensas e torres sineiras, além de fachadas finamente trabalhadas e profusamente pintadas.
Sua forma é basilical. Desde o final do Império Romano, até o século 11, a basílica romana era o modelo de base das igrejas. Ela assume a partir de então a forma de uma cruz, com o transepto cortando transversalmente o eixo da nave. No ocidente europeu, as igrejas cruciformes predominaram até o início do século XX, quando este plano começou a ser substituído por outras formas mais ousadas. A Ordem Jesuítica, entretanto, marca o retorno ao plano basilical, desde a construção da igreja-tipo da Cia de Jesus em Roma. O edifício volta a ser retangular, com uma nave principal e duas naves laterais, destinadas a facilitar a circulação dos fiéis.
A extremidade da nave, oposta às portas de entrada, é um espaço fechado (“septum”) parcialmente isolado, destinado aos padres e seus auxiliares. Neste espaço se encontra o altar mor, o ponto focal do interior do edifício e a sua própria razão de ser. Ele é ladeado por dois altares laterais. Trata-se de um conjunto carregado de símbolos e de significado, de um cenário destinado a uma expressão litúrgica.
A própria orientação norte / sul da igreja torna tangível o mistério da morte e da ressurreição de Cristo, nesta linguagem simbólica. E neste ponto, a linguagem cristã em muito se aproxima da linguagem simbólica dos Guarani. O ocaso do sol, a oeste simboliza a morte do Cristo, enquanto que o nascer do sol a leste, pela manhã, representa a ressurreição de cristo, que sai da noite do seu túmulo para iluminar o mundo e o livrar do pecado. Para os Guarani, o nascer do sol (Quarai) representava igualmente o fim da noite e da morte que se haviam instalado na terra com o ocaso do dia anterior.
A Igreja (“eclesia”) materializa no seu conjunto a própria comunidade dos fiéis unida a Cristo. O edifício é sempre construído com muito cuidado e beleza, como pode ser muito bem observado em São João nos detalhes em arenito finamente trabalhados das aberturas das laterais. A fachada da igreja nos demonstra igualmente a profusão de cores que dá alegria e convida os fiéis a entrar.
A torre da igreja tem uma dupla função. Por um lado, seu sentido vertical indica a relação dos habitantes do povoado com a divindade. Por outro lado, seus sinos soam ao longo da jornada, estabelecendo ao ritmo das horas que passam, um emprego do tempo que se reflete na vida de todo o povoado. Desde a época dos mosteiros medievais até a dos povoados missioneiros, esta regulamentação do tempo é a responsável por muitas das atividades diárias. Os sinos soam quotidianamente, desde o despertar matinal até a noite. São as chamadas às reuniões, ao culto ou às orações. São as indicações das horas de trabalho manual, as chamadas ao almoço e à janta. E, quando necessário, o alarma chamando a atenção para os incêndios ou para os ataques inimigos. Pode-se afirmar que os sinos do povoado foram, como já haviam sido nos mosteiros medievais, um dos elementos fundamentais da gestão do cotidiano.14
A sacristia tem seu nome do latim eclesiástico sacristia, que significa uma relação com o sagrado. Ela é um anexo da igreja, que serve de comunicação com o claustro. Por ela os padres podem passar da residência para a igreja, afim de poder preparar-se para a missa. Trata-se de uma pequena peça, mobiliada por alguns armários e cômodas, onde estão guardados os objetos de culto e de procissões, além dos livros que são utilizados nas missas.
A estética cisterciense medieval se pautava por uma arte austera, baseada no despojamento e simplicidade dos edifícios monacais. A estética dos jesuítas é fruto não do Barroco mas do Maneirismo, e por isto temperada pela contenção das formas sugerida pelo Concílio de Trento. Na decoração das igrejas missioneiras, aceita-se o testemunho dos sentidos, característico da condição humana. E parte-se de uma certa exuberância de formas e cores para influenciar os neófitos e garantir a salvação dos fiéis. Não mais se recusam as esculturas e as cores, como nas origens beneditinas do monasticismo medieval.
No povoado de São João Batista, a igreja nos apresenta detalhes em pedra lavrada, nas aberturas, com os movimentos de formas contorcidas do barroco. Mas o que mais nos impressiona, é o extraordinário colorido da fachada. As suas formas e volumes tem inequívocas semelhanças com a imagem que se obteve com a reconstituição da igreja de São Luiz Gonzaga15. E também com as igrejas que os jesuítas construíram entre os Chiquitos. Trata-se de uma capela ampliada, afastando-se decididamente do estilo que o arquiteto jesuíta Primoli materializou na igreja de São Miguel. No século 18, praticamente na mesma época em que este desenho policromo foi elaborado, a igreja de são João Batista foi assim descrita:
“O templo deste Povo não é da arquitetura da Igreja de São Miguel, nem da sua grandeza; porém um pouco menos. As suas paredes são de taipa. No interior tem três naves, com colunas (...) de madeira entalhada, tudo de pintura e dourado”16
Estas considerações nos abrem horizontes inesperados para as pesquisas de história da arte missioneira.
b) O Claustro.
Vamos agora penetrar no espaço exclusivamente reservado aos padres jesuítas, denominado genericamente de “clausura”. Ele representa uma barreira aos intrusos do exterior. Se o povoado já é protegido pelas leis espanholas que limitam a permanência de estranhos no interior do povoado, a clausura é uma segunda barreira existente, pois seus limites são intransponíveis, a não ser por bispos da igreja ou governadores espanhóis, ou seja, importantes representantes da Igreja e do Estado. Nesta clausura se encontram o claustro e a residência conventual dos missionários.
Assim como a igreja, o claustro tem uma importância capital no conjunto arquitetônico herdado da Idade Média. O termo vem do latim, claustra, que significa espaço fechado. Ele é igualmente um dos elementos geradores do plano de conjunto, pois uma série de construções se agrupam e se organizam em seu entorno. Algumas vezes ele é denominado com uma certa impropriedade de “pátio da residência” ou “pátio do colégio”, porém é errôneo considerá-lo um mero espaço agregado, sem importância própria. Ele tem por si só uma função importante e uma tradição já milenar nas construções européias deste tipo. Tanto a Igreja como a residência tem uma série de aberturas para o claustro.
O espaço do claustro é geralmente quadrado, transformado em jardim e rodeado de uma galeria, uma varanda coberta de telhas, cuja função imediata é uma circulação mais cômoda de uma peça para a outra, ao abrigo do sol e da chuva. Ele propicia igualmente um lugar de proteção e recolhimento, ao abrigo do burburinho e da agitação do povoado guarani-missioneiro.
A analogia deste plano com aquele da casa romana, que agrupa as suas salas em torno de um átrio (atrium) é evidente. A filiação destes dois elementos, o átrio romano e o claustro medieval, é hoje em dia tradicionalmente aceito entre os estudiosos17.
Além destas considerações sobre a sua função imediata, de ordem prática, o claustro se reveste de um sentido simbólico muito mais elevado, por estar à disposição dos padres jesuítas. A figura fechada do quadrado orienta e dirige tanto as fachadas das construções como os olhares para o seu centro interior. O claustro exprime perfeitamente o desejo de isolamento do século, ou seja, do mundo considerado em seus aspectos laicos: profanos, materiais e utilitários. Ele representa a possibilidade dos padres de se centrar espiritualmente sobre a presença da divindade entre eles. A única grande abertura deste espaço está voltada para o céu. Ele é, igualmente, um espaço de liturgia, como um prolongamento da igreja, pois nele os padres podem realizar pequenas procissões e as orações quotidianas com o rosário ou o breviário. Este local propicia igualmente a meditação silenciosa, pois o recolhimento que ali se observa é obtido pelo silêncio que ali reina. Afirmou-se mesmo que o claustro, para os cristãos, era uma prisão livremente escolhida, uma prisão de portas abertas18.
Nos mosteiros europeus, o claustro exibe muitas vezes belíssimas obras de arte românicas e góticas, pois os pilares, as colunas e os capitéis são esculpidos. Os claustros missioneiros são extremamente despojados, segundo as orientações da Contra-Reforma. As galerias laterais são abrigadas por telhados, sustentados por uma estrutura de madeira que repousa sobre pilares retos e lisos, com bases trabalhadas singelamente. Uma ornamentação esculpida em madeira, com volutas, decora as laterais dos capitéis.
O claustro é erroneamente denominado “pátio do colégio”, por muitos autores regionais, inclusive arquitetos. Os edifícios que os jesuítas construíram sob a denominação de colégios, nas cidades portuguesas e espanholas, são verdadeiras escolas para as elites dirigentes européias e iberoamericanas, sendo muito conhecidos tanto na Europa como na América. Possuem características diferentes, pois os edifícios assim denominados são de grande porte, algumas vezes com diversos andares e com finalidades exclusivamente educativas. O fato de haver eventualmente uma sala para o aprendizado dos filhos dos caciques missioneiros, próximo ao claustro, não altera a denominação nem a especificidade deste espaço, conhecido por sua importância desde a Idade Média.
Nos mosteiros medievais, não existe nenhuma fachada externa, embelezada e decorada, pois o claustro não está destinado à recepção de estranhos. Este fato nos coloca um problema importante, em relação ao grande pórtico que se observa no muro que separa o claustro da grande praça central. Será um pórtico falso, uma mera decoração para completar um conjunto formado juntamente com a fachada da igreja e o grande pórtico que dá acesso ao cemitério? Ou realmente o pórtico se abre para o povoado, permitindo a entrada ao claustro dos missionários? Será esta a entrada de aparato, destinada aos bispos e governadores, representantes da Igreja e do Estado em visita ao povoado?
O isolamento do claustro, nas abadias cistercienses, nos mostra como “a aspiração a uma vida com base na ascese, na meditação, na oração e no trabalho, nunca deixou de interessar aos homens”19. O mesmo poderíamos afirmar em relação aos missionários jesuítas. Entretanto, sua função de párocos em uma pequena cidade colonial, nos mostra como eles podiam estar ao mesmo tempo separados e sempre presentes face à sociedade missioneira.
c) A residência dos jesuítas.
Uma das construções erguida em função do grande quadrado do claustro, é a residência dos missionários, sempre muito espaçosa para seus dois ou três ocupantes. A residência de São João Batista foi assim descrita, na época: “Os aposentos são muito alegres e grandes, com uma muito boa casa de refeitório. E pela Frente e oposto lado, correndo largas e espaçosas galerias, com colunas e balaustradas escadas de pedra lavrada”20
Ela está também ao lado da Igreja, pois esta arquitetura compacta foi planejada desde a Idade Média, de maneira que se esteja sempre próximo ao lugar onde se realiza a opus dei . Isto significa “a obra de Deus”, ou seja, a tarefa mais importante de todas as que realizam os missionários.
Nos mosteiros medievais beneditinos, os dormitórios são salas gigantescas. Ele ocupa todo o segundo andar da residência monacal. Ali dormem em conjunto os monges, sob a vigilância dos mais velhos. O mesmo não acontece nos claustros missioneiros, onde estes espaços são salas comuns, nas quais dormem os dois ou três padres e os jovens índios que os servem, ocupando assim seus respectivos dosmitórios. No espaço comunitário monacal, uma luz permanecerá sempre acesa, até o raiar do dia, o que também acontece na residência dos missionários, como nos descreve Sepp em seu diário. Ao fim da Idade Média já se concebia a coabitação total como excessiva e oposta à nova espiritualidade do Renascimento, que levava em conta o primado do indivíduo sobre o grupo. O dormitório coletivo foi então dividido por cortinas separando os leitos. Mais tarde, foram criadas as células individuais, com uma porta garantindo a privacidade e uma janela aberta para a luz. Voltava-se desta maneira a estabelecer um lugar solitário, onde o religioso poderá se retirar para ler, rezar e dormir. Este é, pois, o hábito mantido pelos jesuítas em suas residências missioneiras.
Desde os mosteiros medievais, próximo aos dormitórios deveriam ficar as latrinas, em um lugar isolado, servidas de uma canalização de água para a limpeza. Nas residências dos povoados missioneiros, as latrinas deveriam ficar atrás da residência, voltadas para a quinta. Como pode ser observado nas pesquisas de campo em São Lourenço, as águas captadas dos telhados da igreja podem ter sido aproveitadas tanto para a irrigação da quinta como para a limpeza das latrinas, situadas atrás da Igreja.
Uma ou duas salas são reservadas às leituras e aos trabalhos intelectuais, como é habito desde a Idade Média. Ali se encontram mesas e armários com livros, papéis, tinteiros, etc. São denominados de scriptorium, do latim scriptor, aquele que escreve. Nelas se elaboraram muitas das “Cartas Ânuas”, hoje importantes documentos históricos produzidos pelos jesuítas missioneiros, nas quais todos os anos relatavam os principais acontecimentos ocorridos nos povoados missioneiros. Nestas salas os missionários devem ter tomado decisões importantes para a vida do povoado. Devem ter discutido entre eles, decidindo por uma maior ou menor ingerência de sua autoridade paternal na vida dos seus paroquianos. Nestas trocas de idéias, devem ter oscilado entre o dirigismo, fenômeno que pode levar à resistência e à fuga dos indígenas para longe das reduções, e o desgoverno, que pode levar à desorganização da vida no povoado.
Dormitórios ou escritórios, as salas devem ser bem iluminadas, e de fácil acesso, como a sala escavada na Missão de São Lourenço, dotada de ampla janela gradeada e de duas portas. Uma delas permitia o acesso ao claustro e à igreja. A outra, estava voltada para a quinta e provavelmente permitia o acesso às latrinas. A janela estava voltada para a quinta, o que permitia uma certa privacidade e possúia dois bancos laterais, como se observa em muitos edifícios deste tipo. Todas as salas eram revestida de ladrilhos cerâmicos hexagonais ou retangulares.
Uma das salas mais importantes da residência foi criada em função das necessidade geopolíticas e da situação de fronteira das reduções jesuítico-guaranis, face ao império português em expansão. gradual rumo ao Rio da Prata. Trata-se da sala de armas (“armeria”), onde deveria ser armazenado uma parte considerável do poderio bélico do povoado: armas de fogo, barricas de pólvora, projéteis, pontas metálicas de flechas e de lanças. Ela só possui uma porta de entrada, voltada para o claustro e perfeitamente controlada pelos missionários. Na única parede exposta, voltada para a quinta, a sala de armas é protegida por uma estreita seteira. Seu piso é diferente das demais salas e revestido de resistentes lajes retangulares de arenito. Deveria ser equipada de prateleiras para o armazenamento das armas e dos recipientes de pólvora. Nas escavações de São Lourenço, ela foi localizada no extremo oeste da residência, próximo à igreja, mas separado desta por um amplo espaço. Esta extremidade da residência é a mais mais afastada do setor freqüentado pelos índios que estavam constantemente em atividades no pátio dos artífices.
O refeitório foi outro polo importante da vida social dos missionários, como já havia sido nos mosteiros da Idade Média. Antes de penetrar neste recinto, monges medievais ou missionários da idade moderna, deveriam lavar as mãos e o rosto em um lavabo. Gestos simples, mas carregados de sentido espiritual, pois deve-se pensar na purificação do coração e dos pensamentos, para se receber a alimentação necessária tanto ao corpo como ao espírito. Poderíamos mesmo pensar na correlação que existe entre o batistério e a igreja, por um lado, e entre o lavabo e o refeitório, de outro21. Esta sala retangular se encontra no extremo da residência, afastado portanto da igreja, ao lado do conjunto de salas destinadas às atividades artesanais. Seu mobiliário é simples. Nas mesas do refeitório não se sentam apenas os missionários, mas é o local onde são recebidos os visitantes ilustres, dignitários da igreja ou do estado22. Sob as tábuas do assoalho do refeitório, encontramos sempre as evidências de um porão, no subsolo. Trata-se de um espaço retangular como o refeitório, de pouca altura. É um local sempre fresco e onde a temperatura é constante, destinado à conservação dos alimentos perecíveis, do vinho, dos cereais, etc. Trata-se, portanto, ao mesmo tempo de uma adega e de um celeiro. A proximidade do refeitório e da cozinha limita a necessidade de deslocamentos e de transporte. Sua instalação sob o refeitório significa igualmente um controle de seu conteúdo, pelos missionários, pois ele se encontra dentro da clausura. Erroneamente, a crendice popular imaginou muitas vezes a existência de um subterrâneo neste local. As observações realizadas nos trabalhos arqueológicos de campo, em São Lourenço, São Miguel e São Nicolau, comprovam a função de porão ou de adega destes limitados espaços.
Ao lado do refeitório, está instalada a cozinha. Ela se encontra em realidade em uma sala pertencente a um outro conjunto de construções, destinadas às atividades artesanais, voltada portanto para o pátio dos artífices. Existe uma lógica funcional nesta localização, que aproxima o local da produção dos alimentos ao local de seu consumo. Este raciocínio, entretanto, não explica porque a cozinha está completamente separada do refeitório, não existindo nenhuma porta que possa facilitar a circulação. Nas pesquisas de campo realizadas em São Lourenço, observamos “in situ” apenas um passa pratos retangular que permite esta ligação. Poderíamos pensar em uma tentativa de impedir que cheguem ao refeitório os ruídos, as fumaças e os odores da cozinha? Existe aqui, igualmente, um sentido simbólico que explica esta localização e a cozinha não poderia estar em outro lugar, pois a parede que separa o refeitório da cozinha delimita a clausura dos missionários, sendo vedado portanto o acesso ao refeitório das mulheres índias que trabalham na cozinha. Nela deve se encontrar sempre um bom conduto e um depósito de água, para facilitar as tarefas da cocção e da lavagem dos recipientes e dos equipamentos.
d) As oficinas artesanais:
O regime econômico da Redução é de uma autarcia, ou seja, de uma unidade auto-gerida e auto-suficiente, atendendo a todas as necessidade do povoado e de sua população. São limitadas as necessidades que exigem a importação de produtos. Esta situação de autonomia se deve não apenas às distâncias dos centros políticos e econômicos da América Colonial ibérica, mas igualmente à sua condição de colônias de povoamento na fronteira do mundo cristão e civilizado da época.
Os jesuítas, entretanto, não são os criadores deste modelo, visando tornar os trinta Povos independentes ou mesmo com o objetivo de estabelecer as bases de um socialismo inovador, antecipando-se às diversas correntes socialistas do mundo contemporâneo. Outras ordens religiosas, em especial os cistercienses e beneditinos, foram destaques neste tipo de povoamento fronteiriço, implantando mosteiros e abadias, em plena Idade Média. Fundados nas fronteiras da Europa cristã, em plena expansão territorial, muitos destes mosteiros foram verdadeiras colônias de povoamento, funcionando em regime econômico-social autônomo, uma exploração típica de autarcia.
Devemos igualmente destacar um importantíssimo traço de união entre as duas experiências. Os mosteiros medievais foram na prática uma ruptura completa com o sistema senhorial dominante em todo o Medievo feudal europeu23. De maneira semelhante, as reduções jesuítico-guaranis foram uma recusa histórica aos sistema escravista estabelecido na América Colonial pelas metrópoles ibéricas.
Sabemos que a autarcia não era completa. Havia igualmente uma complementaridade entre os diversos povoados missioneiros, na medida em que alguns davam maior ênfase na produção de certos produtos, em função das possibilidades do ambiente natural. O regime de autarcia, portanto, era variável segundo as disponibilidade de matérias primas, solo, cobertura vegetal, micro-clima local, etc. Na Idade Média, o mesmo acontecia com muitas abadias cistercienses, pois se o domínio monacal era bem administrado e produzia acima de suas necessidades, procurava trocar ou comercializar os seus excedentes. Para facilitar o intercâmbio de produtos, muitos mosteiros dispunham já desde o século 12 de representações nas cidades, cuja finalidade era o de facilitar as relações comerciais. Um sistema muito semelhante ao dos “Ofícios das Missões “, espécie de escritórios de representação comercial, que se mantinham em Buenos Aires e Assunção para atender ao comércio missioneiro, vendendo seus produtos e comprando o que necessitavam.
Existe uma lógica relacionada às tarefas quotidianas, muito comum nos estabelecimentos religiosos cristãos, desde a Idade Média, relacionados com estas características do sistema de auto-suficiência: Ora et labora. Uma das conseqüências é a de que a inatividade e a falta de ocupações são inimigas da alma. Outra é a de que quem não trabalha com suas próprias mãos, não deve comer. Nos mosteiros medievais, estas atividades eram sempre realizadas pelos monges e nos povoados missionários pelos neófitos guaranis. Assim, além das instalações rurais, voltadas para as atividades agrícolas e de pecuária, existe toda um série de ofícios e de atividades artesanais que se desenvolvem em torno do povoado e no pátio dos artífices. As construções que abrigam as atividades artesanais e os espaços a elas correspondentes obedecem à esta lógica das tarefas que regula a vida comunitária.
Os fornos de produção da cerâmica, o forno metalúrgico e o moinho para a moagem de grãos e para as atividades metalúrgicas, se encontram mais distantes do povoado. Entretanto, uma série de atividades se desenvolvem nas oficinas que se distribuem em torno do pátio dos artífices. Ali se realizam trabalhos em madeira, metal, pedra, couro, tecidos, etc. São realizadas atividades artesanais muito delicados e de grande qualidade artística, tais como esculturas de santos, instrumentos musicais, elementos decorativos para a igreja, etc.
O padre Antônio Sepp nos relata quais eram as diversas profissões existentes no povoado de São João Batista e desempenhadas pelos neófitos guaranis. Dentre estas atividades podemos destacar os seguintes artesãos:
“... cincuenta carpinteros, veinte tejedores, cuatro constructores, doce armeros, seis escultores, diez pintores, ocho picapedreros, doce ladrilleros, ochenta obreros par la fabrica de ladrillos, dos panaderos, dos cocineros, seis enfermeros, cuatro sacristanes, un zapatero, doce curtidores (...), dos alfareros, dos torneros, tres toneleros, dos fabricantes de laúdes y arpas (...)24.
A organização das atividades artesanais, aqui descritas, seguem um modelo já milenar, existente na Idade Média européia, pois nos mosteiros medievais, eram os monges que se dedicavam a estas atividades. A importância destas atividades no povoado missioneiro, foi assim sintetizada por Neumann:
“ A existência de artesãos qualificados, com excelentes conhecimentos sobre as artes mecânicas, colocada as reduções administradas pela Companhia de Jesus como uma organização social diferenciada no mundo do trabalho local, devido ao alto grau de aprimoramento que atingiram as técnicas fabris e pela transmissão destes conhecimentos entre as várias gerações de guaranis”25
Estas oficinas devem ser exploradas em função da oferta de matérias primas, mas devem igualmente se ocupar da formação dos próprios artesãos e do desenvolvimento das capacidades necessárias para a realização das atividades de cada setor. Isto significa uma educação artesanal pela prática, que terminou formando artífices capazes de atender mais tarde às próprias necessidade do mercado interno das cidades espanholas da região .
e) As enfermarias:
Fala-se algumas vezes na existência de um hospital, ou seja, um local para acolher a população do povoado, em especial os enfermos e o velhos. Além do quarto para os doentes, deve haver uma sala para guardar os remédios. E um pequeno jardim, provavelmente junto à quinta, para as plantas medicinais. Os doentes serão tratados dentro dos princípios da fraternidade cristã. Devido às epidemias que assolavam algumas vezes a população das reduções, principalmente doenças transmitidas pelos brancos, deveria haver um setor mais isolado para evitar o contágio. No desenho policromo em estudos não há indicação do local onde poderia estar o hospital. Segundo as informações de Sepp26, foram construídos dois galpões com ladrilhos como assoalho, para as mulheres e os homens enfermos. Em vez de leitos, tinham locais para se estender redes. Deveriam se localizar nos arredores do povoado, pois as quarentenas obrigavam o afastamento dos doentes e o seu isolamento. Talves as enfermarias estivessem localizadas nas duas casas construídas em São João atrás da Quinta, pois os doentes estariam isolados e próximos das plantações de frutas e ervas medicinais.
f ) A hospedaria (Tambo):
Nos Mosteiros medievais, havia um monge porteiro instalado na portaria, único lugar de acesso através do muro de proteção do mosteiro. E, junto à portaria, havia a hospedaria.
Nos povoados missioneiros havia igualmente uma hospedaria, ou seja, um “tambo”, um local para acolher os viajantes ou os hóspedes que chegavam eventualmente. Normalmente era uma casa, simples como as demais, junto à praça.
Na Idade Média era necessário acolher os grupos de peregrinos que vinham ao mosteiro onde existiam relíquias sagradas ou o túmulo de algum dos santos da Igreja. Algumas vezes, houve necessidade de ampliar a hospedaria, para atender às novas necessidades. Algumas destas hospedarias possuíam uma capela para os hóspedes. Em São João, o “tambo”poderia ser a casa com capela situada à direita da praça, junto à ampla rua que dava acesso aos povoado e pela qual chegariam os visitantes.
Em São Miguel, uma hospedaria ampliada foi construída para tropas militares, com currais para os carros e para os cavalos. Deveria haver um depósito para guardar os alimentos dos animais e ainda um bebedor para estes. Essas tropas podiam descansar, refazer as suas forças e tornar a partir, quando fossem milícias de outros povoados. Em São Miguel, uma única porta de acesso à hospedaria e ao pátio interno, pode ser controlada por uma portaria, pois é uma área cercada. Não deveria existir a capela para os hóspedes, pois havia não apenas a Igreja aberta ao público, mas ainda as duas capelas da entrada da praça. Neste povoado, segundo os documentos históricos da época, acamparam tropas espanholas após a Guerra Guaranítica, possivelmente na hospedaria.
g) A quinta
Em todos os mosteiros da Idade Média, a quinta desempenhou importante papel, pois nela se plantava um pomar de árvores frutíferas. Era um local protegido, de consumo específico para os monges. Ela está sempre localizada atrás da igreja, do cemitério e dos edifícios que envolvem o claustro e o pátio dos artífices.
No povoado missioneiro, a quinta foi em primeiro lugar um local de aclimatação de plantas européias, trazidas pelos missionários. Foi também um pomar, mas serviu igualmente como horta e jardim. Nela se plantavam flores, hortaliças e plantas medicinais. Possuímos a descrição da quinta de São João Batista, fornecida pelo seu fundador Padre Antônio Sepp27. Durante todo o ano são produzidos diversos tipos de legumes, temperos, ervas medicinais e flores: saladas diversas (endivia, alface repolhuda, chicória), repolhos, nabos, espinafres, salsa, erva-doce, funcho, melões, pepinos, lírios, girassol, violetas, etc. Dentre as árvores frutíferas, podemos destacar: macieiras, pereiras, nogueiras, pessegueiros, limoeiros, laranjeiras, etc. Existia igualmente um grande vinhedo. Diversas plantas nativas, conhecidas pelos indígenas, foram plantadas na quinta. Segundo um testemunho da época, a quinta teria “... de comprido o mesmo que os dois pátios, e de fundo muito mais. Com várias ruas de laranjeiras e limoeiros, e muitas árvores de fruta”28.
h) O cemitério.
A tradição medieval das paróquias e dos monastérios, destinava ao cemitério a área situada ao lado da igreja. Esta zona é aquela que estabelece a cidade dos mortos ao lado da cidade dos vivos. Nos povoados missioneiros, mantém-se a localização original. Na estética barroca dos jesuítas, um pórtico da acesso a este local, simétrico ao pórtico frente à residência dos padres. Ambos os pórticos são simétricos em relação à fachada da igreja e compões de maneira extraordinária o cenário arquitetônico da praça maior.
Entretanto, as idéias do urbanismo do século 17 nos mostram uma profunda transformação, voltada para as novas exigências de salubridade29. Percebemos aqui também uma organização racional do espaço que se articula em alas e áreas separadas, separando os defuntos em setores que se articulam num conjunto. Ao fundo do cemitério percebemos a capela dos mortos, onde as últimas orações são proferidas antes do enterramento.
Na pesquisa arqueológica, não é apenas o achado arqueológico que é importante para as análises, mas igualmente o que não é mais encontrado. As urnas funerárias, onde os guaranis enterravam seus mortos em posição fetal, como uma espécie de retorno ao útero da mãe-terra, desaparecem completamente. Os enterramentos todos obedecem o ritual cristão, o que nos indica a profunda mudança ocorrida em certas práticas relacionadas ao sagrado e aos princípios religiosos.
Entretanto, encontramos aqui um contraste e uma hesitação, entre os princípios de igualdade e de unanimidade entre os homens e o princípio de hierarquia. O cemitério abriga os corpos dos indígenas guaranis, enquanto que os de seus párocos serão enterrados no espaço fronteiro ao altar. Na Idade Média, estes princípios eram igualmente seguidos, diferenciando os enterramentos no cemitério e no corpo da igreja.
6. Conclusões.
Nos povoados missioneiros, podemos perceber a racionalidade dos planos urbanos que nos são conhecidos desde a Antigüidade até o Renascimento. É necessário reconhecer, igualmente, as origens medievais de uma parcela deste plano urbano, a partir do plano-tipo das abadias beneditinas. E, além disto, nós podemos ali observar também a permanência dos hábitos sociais dos Guarani, nas casas comunais independentes que abrigam as famílias extensas, como nas aldeias neolíticas tradicionais no continente sul-americano.
Com certeza, a visão de regularidade e de simetria do conjunto do povoado, nos faz lembrar uma ordem perfeita e definitiva. As ruas se estendem em linhas retas e paralelas, entrecortando-se em ângulos retos. A igreja ocupa o lugar central da praça e sua fachada compõe um cenário extraordinário que se completa com as portas e arcadas em face do claustro e do cemitério. A igreja está centralizada em relação ao claustro e pelas oficinas artesanais, por um lado, e pelo cemitério e o cotiguaçu, por outro. No centro do povoado, a “plaza mayor”, orgulho das cidades do renascimento na Espanha, está cercada de casas (ocas”) dos Guarani, isoladas umas das outras à maneira amazônica. Mesmo que os jesuítas tenham em sua residência aposentos privativos, assim como os indígenas dispõem de suas casas, missionários e neófitos terminam por se encontrar nos grandes espaços de uso comunitário do povoado, principalmente na praça e na igreja.
Trata-se de um conjunto de construções ao mesmo tempo funcionais e despojadas, constituídas de materiais tangíveis e com base em um módulo humano de neófitos guaranis. Seu objetivo, entretanto, é “civilizar” e “cristianizar”. Procura conduzir os indígenas guaranis à transcendência divina, sem esquecer, entretanto, as dificuldades do mundo e os interesses geopolíticos da conquista ibérica do Rio da Prata.
A releitura que pode ser feita, tanto a partir das informações iconográficas, como das observações “in situ”, é agora muito clara. O povoado se materializa como uma síntese cultural de influências não apenas européias e indígenas, mas igualmente medieval, moderna e indígena.
Mesmo que estes povoados missioneiros contenham apenas uma sociedade restrita, limitada a alguns missionários e dezenas de famílias guaranis, esta sociedade é um verdadeiro microcosmo humano que resume a diversidade e a complexidade do mundo e da humanidade.
As possibilidades de analisar e interpretar os importantes processos de longa duração30 desta região platina, apenas se tornam possíveis a partir dos dados que tanto a Arqueologia como a História nos fornecem. Partindo do estudo da dinâmica das interações sócio-culturais destes povoados missioneiros, bem como da sua persistência no tempo histórico, podemos analisar as ações e as reações que caracterizam este complexo processo de desenvolvimento. No imenso cenário da região missioneira, do Guairá ao Tape, de Assunção a Buenos Aires, as sociedades européias e indígenas se encontram e se confrontam, em complexas relações interétnicas. Podemos observar, no lento mas dinâmico passar do tempo histórico, a emergência de uma síntese cultural complexa, na qual a persistência do modo de vida do Guarani não é menos importante do que as tradições ibéricas da Idade Média e as novas manifestações da era moderna.
As sociedades urbanas do passado nos deixaram um rico e variado legado cultural. Não se trata apenas de estruturas arquitetônicas remanescentes ou de uma rede viária urbana. As comunidades citadinas do passado nos deixaram como herança igualmente um modo-de-ser urbano, com suas características estruturas sociais e um sistema de valores morais e ideológicos (Roux 2004: 190). Ser um cidadão e viver em uma cidade, no passado da história ocidental foi ter o sentimento de pertencer a uma comunidade e de se sentir, de uma certa maneira associado aos assuntos políticos. Ser cidadão sempre foi, também, estar envolvido com tudo o que é feito ou dito no âmbito da cidade e poder afirmar a sua participação e a sua responsabilidade. Se pensarmos bem, ainda hoje isto é ser um cidadão (Lonis 2003: 291).
As sociedades urbanas do passado nos deixaram um rico e variado legado cultural. Não se trata apenas de estruturas arquitetônicas remanescentes ou de uma rede viária urbana. As comunidades citadinas do passado nos deixaram como herança igualmente um modo-de-ser urbano, com suas características estruturas sociais e um sistema de valores morais e ideológicos (Roux 2004: 190). Ser um cidadão e viver em uma cidade, no passado da história ocidental foi ter o sentimento de pertencer a uma comunidade e de se sentir, de uma certa maneira associado aos assuntos políticos. Ser cidadão sempre foi, também, estar envolvido com tudo o que é feito ou dito no âmbito da cidade e poder afirmar a sua participação e a sua responsabilidade. Se pensarmos bem, ainda hoje isto é ser um cidadão (Lonis 2003: 291).
Notas
1 CHARLEVOIX, P. Histoire du Paraguay. Paris: Didot, 1756.
2 A citação se refere ao plano como sendo fruto de um projeto original de implantação de uma nova forma de sociedade, denominada por seu autor de “socialisnmo missioneiro”. FREITAS, Décio. O Socialismo Missioneiro, Porto Alegre: Edit. Movimento, 1982. p.44. A crítica a este tipo de análise pode ser encontrada em: MÖRNER, Magnus. The political and economic activities of the Jesuits in the La Plata region. Estocolmo: Liv. Instit. Estudos Iberoamericanos,1953. p. 196. KERN, Arno Alvarez. Missões: uma utopia política., Porto Alegre: Editora Mercado Aberto, 1982. p. 208-13.
3 Pesquisas realizadas pelo autor na Seção de Mapas e Planos, da Biblioteca Nacional de Paris, França, em 1995.
4 HAROUEL, Jean-Louis. Histoire de l’urbanisme. Paris: Presses Universitaires de France, 1995. p. 3.
5 Segundo Ian Hodder, uma análise contextual arqueológica pode ser assim caracterizada: “Numa primeira abordagem, o contexto a ser analisado se refere tanto ao contexto ambiental como ao das sociedades presentes na área em estudos. Numa segunda abordagem, o contexto se refere tanto aos aspectos arqueológicos da cultura material quanto aos seus significados simbólicos” HODDER, Ian. Reading the past. Current approaches to interpretation in archaeology. Cambridge: Cambridge University Press, 1986. p. 118-46. A abordagem seguida foi plenamente explanada em dois trabalhos do autor: “Aspectos teóricos e metodológicos da Arqueologia Histórica do Rio da Prata”, nos Anais do VIII Congresso de Arqueologia Uruguaia (pg. 17) e em “ Método e teoria no projeto Arqueologia Históica Missioneira”, no primeiro volume da Coleção Arqueologia (Porto Alegre: EDIPUCRS, 1995-96, p. 181-202).
6 Estes aspectos da arqueologia espacial podem ser obtidos em BARCELOS, Arthur F.” Arqueologia espacial da Redução de São João Batista: uma proposta teórico-metodológica”. Coleção Arqueologia (no. 1). Porto Alegre: EDIPUCRS, 1995-96, p. 343-360.
7 MELIÁ, Bartomeu. Las reducciones jesuiticas del Paraguay: un espacio para una utopia colonial. Estudios Paraguayos 6 (1): 157-67, 1978.
8 HAROUEL, Jean-Louis. Opus cit., p. 81.
9 SEPP, Antonio. Continuación de las labores apostólicas. Buenos Aires: EUDEBA, 1973. p. 223.
10 HAROUEL, Jean-Louis. Opus cit., p. 47-9.
11 HAROUEL, Jean-Louis. Opus cit., p. 49.
12 Seguiremos aqui as orientações da obra de: BOUTTIER, Michel. Monastères. Des pierres pour la prière (5a. Edição). Paris, Derclée de Brouwer, 1995. p. 23-56.
13 HAROUEL, Jean-Louis. Opus cit., p. 53.
14 PRESSOUIRE, Léon. Le reve cistercien. Paris: Gallimard, 1990. p. 53
15 SCARAMELLA, Giovani; SCARAMELLA, Nidia; MAZUCO, Rose Maria. Reconstituição hipotética e parcial da Igreja da Redução de São Luiz Gonzaga, Rio Grande do Sul, Brasil. Historical Archaeology in Latin America 13: 99-114.
16 “Diário” de José Custódio de Sá e Faria, transcrito em: GOLIN, Luis Carlos. José Custódio de Sá e Faria e a Guerra Guaranítica (Dissertação de Mestrado). Porto Alegre: PUCRS, 1996. 3 vol., p. 373
17 BOUTTIER, Michel. Opus cit., p. 32.
18 PRESSOUIR, Léon. Opus cit.,p. 47.
19 PRESSOUIRE, Léon. Opus cit., p. 19.
20 “Diário” de José Custódio de Sá e Faria. In: GOLIN, Luis Carlos. Opus cit., 3 vol, p. 373.
21 BOUTTIER, Michel. Opus cit., p. 44.
22 Veja-se o diário de José de Sá e Faria, que narra a recepção dada no refeitório de São João Batista aos comandantes dos exérictos espanhol e portugues, quando ali estiveram quando da Guerra Guaranítica. GOLIN, Luis Carlos. Opus cit., p. 372. “Depois, os ( comandantes espanhol e português) levaram aos seus aposentos, e lhes pediram os padres quisessem Suas Excelências fazer-lhes a honra de jantar com eles no seu refeitório, onde já tinham tudo pronto”.
23 PREESSOUYRE, Léon.Opus cit., p. 16-7.
24 SEPP, Antonio. Opus cit. . p. 267.
25 NEUMANN, Eduardo. Guaranis missioneiros em Buenos Aires (1640 - 1750) (Dissertação de mestrado).
Porto Alegre: UFRGS, 1995. p. 77.
26 SEPP, Antonio. Opus cit. . p. 155.
27 HAUBERT, Maxime. Des Indiens et des Jésuites du Paraguay au temps des Missions Paris: Hachette, 1967. p. 200. A descrição de Sepp se encontra em seu diário publicado como “Viagem às missões e trabalhos apostólicos”.
28 “Diário” de José Custódio de Sá e Faris. In: GOLIN, Luis Carlos. Opus cit., p. 373.
29 HAROUEL, Jean-Louis. Opus cit., p. 51-2.
30 «Dialectique de la longue durée » são palavras muito conhecidas do historiador francês Braudel. BRAUDEL, Fernand. Ecrits sur l’Histoire, Paris: Flammarion, 1969, p. 43.




