Reflexões metodológicas sobre o uso da Análise do Discurso nos estudos da História Política Cultural
Partindo do reconhecimento das possibilidades de abordagens múltiplas no campo da história na atualidade, é inquestionável a contribuição da Lingüística para os estudos históricos. Partilhamos, historiadores e lingüistas, dos mesmos objetos de estudo tais como os discursos, as falas, as narrativas, os textos, etc. Assim, entendemos que cabe ao historiador que se propõe a analisar acontecimentos do campo político, numa perspectiva interdisciplinar, procurar se aproximar da Lingüística, no campo da Análise do Discurso (AD) para ampliar suas questões e discussões. Na abordagem da História Política e Cultural, essa aproximação se mostra particularmente importante, dado que lidamos constantemente com as práticas discursivas e não discursivas entrelaçadas pelo jogo político. Em nossa comunicação, pretendemos, então, trazer para o debate os momentos de encontro e desencontro da História com a Lingüística, particularizando o campo da Análise do Discurso e suas possibilidades de leitura dos fatos ligados à política de repressão. Nossas pesquisas, centradas na era Vargas e situadas na análise da repressão policial sobre um grupo tido como seu aliado, os integralistas, tem se utilizado de documentos produzidos pela polícia política e do referido movimento procurando mostrar como a repressão política se legitimou pelo campo discursivo. Entretanto, conforme procuraremos mostrar, as dificuldades ainda são grandes para os historiadores que desejam investir na interdisciplinaridade com a Lingüística. O que pretendo apresentar é, então, uma síntese de nosso percurso teórico-metodológico, as dificuldades e os procedimentos de pesquisa possíveis num campo ainda em discussão. Procuraremos, ainda, mostrar como utilizamos, na atualidade, determinadas ferramentas da Análise do Discurso para estabelecer um estudo comparativo da relação histórica discursiva e cultural entre Brasil e Portugal no que se refere ao período salazarista versus varguista, ambos conhecidos como governos dos Estados Novos Ditatoriais do século XX.
Dentro das novas possibilidades de trabalho do historiador, pelas quais se busca ir ao passado com o olhar e questões do presente, dentro de novas condições de produção da escrita da história, o historiador encontra nos trabalhos de fronteira com outra ciência novas formas de olhar e escrever sobre esse passado. Atualmente, após tantos momentos de debates e criticas, é inquestionável a contribuição que o campo da Lingüística pode propiciar ao historiador. Conforme nos disse Luiz Antônio Marcuschi, um dos maiores lingüistas de nossa atualidade e um leitor competente do campo da história e da filosofia, "a língua sempre foi um imperativo social e cultural. Pela linguagem constituímos nossos discursos, nossas identidades, formulamos nossas crenças, construímos nossos mundos e, sobretudo, interagimos com nossos semelhantes. Admitir esses aspectos é estender o estudo da linguagem para muito além da gramática, a fonologia ou o léxico, investindo na sua inserção em outros campos, a exemplo da história."1 Para ele, partilhamos, historiadores e lingüistas, dos mesmos objetos de estudo tais como os discursos, as falas, as narrativas, os textos, etc. Assim, entendemos que cabe ao historiador que se propõe a analisar acontecimentos da História Política Cultural, numa perspectiva interdisciplinar, procurar se aproximar da Análise do Discurso para ampliar suas análises documentais. Na abordagem da História Política Cultural, essa aproximação se mostra particularmente importante, dado que lidamos constantemente com as práticas discursivas e não discursivas entrelaçadas pelo jogo político. Em nossa comunicação, pretendemos, então, trazer para o debate os momentos de encontro e desencontro da História com a Lingüística, particularizando o campo da Análise do Discurso (AD) e suas possibilidades de leitura dos fatos ligados à política de repressão ligadas à era Vargas em relação aos integralistas quando tratou de retira-los do campo político. Nossas pesquisas, centradas na era Vargas e situadas na análise da repressão policial sobre um grupo tido como seu aliado, os integralistas, tem se utilizado de documentos produzidos pela polícia política e do referido movimento procurando mostrar como a repressão política se legitimou pelo campo discursivo. Entretanto, conforme procuraremos mostrar, as dificuldades ainda são grandes para os historiadores que desejam investir na interdisciplinaridade com a Lingüística, particularmente no campo da AD.
A problemática em torno da relação interdisciplinar entre a História e a Lingüística proposta pela Nova História ainda suscita muitos debates e reflexões por parte do historiador, dado que muitos ainda se mantêm afastados dessas possibilidades de trabalho . Diante da questão, pretendemos destacar alguns aspectos da proposta interdisciplinar defendida por alguns representantes da Escola dos Annales e a resistência que alguns demonstram a essa proposta, quando vivemos, paralelamente, um contexto de produção de discursos inflamados em favor da interdisciplinaridade entre os historiadores e outros profissionais do campo das ciências humanas.
Entendemos que, hoje o debate sobre as questões em torno das aproximações teórico-metodológicas entre a História e a Lingüística, no campo da Análise do Discurso, passa essencialmente por uma discussão em torno da noção que ainda hoje se produz acerca do trabalho do lingüista e dos estudos da linguagem e da língua, bem como dos discursos, que predomina entre alguns historiadores situando-os no campo do estruturalismo. Michel Foucault tem sido relido e muito utilizado no campo da história e suas contribuições na fronteira da história com a AD tem fornecido uma perspectiva de abordagem da história para além dos limites estruturais, que se quer enquadrá-los. Sabe-se que a resistência para o reconhecimento de trabalhos na fronteira entre a História e a Lingüística tem suas raízes desde que historiadores chamavam os lingüistas de estruturalistas e estes viam no trabalho do historiador apenas uma preocupação com os grandes personagens e datas heróicas, afirmando suas posturas positivistas.
Entre os lingüistas também predomina um acirrado debate sobre a nova relação da AD com a História. Patrick Charaudeau e Dominique Maingueneau, por exemplo, destacam que o momento de incompreensão entre historiadores e lingüistas se dá no campo das questões ligadas aos novos estatutos científicos que redefinem novos lugares para essas ciências. Para os autores, apesar do debate, sobre as aproximações entre História e Lingüística, ter surgido durante as duas guerras, com a escola dos Annales, introduzindo novos objetos, novos problemas e novas abordagens no campo da história, através dos quais Febvre (1953), seguido por Mandrou e Dupront, passaram a atribuir uma grande importância à linguagem como objeto da história, ainda permanece indefinido esse campo de fronteira. Os anos 70 abriu espaço para a introdução de novos debates e a introdução de novas categorias aos estudos do historiador, no qual se destaca a categoria do "discurso" como objeto da história, gerando a origem de um novo tipo de historiador do discurso. 2 Contudo, apesar de surgir nesse contexto novos trabalhos preocupados com essa relação como o de Regine Robin, Baktin etc,3 ainda não está claro qual o novo estatuto da relação dessas duas ciências. Segundo Charaudeau e Maingueneau, Koselleck trouxe uma noção mais clara acerca das aproximações entre historiadores e lingüistas com propostas para contornar o estudo das condições linguageiras das formas discursivas para o acesso a uma compreensão histórica sem qualquer prejulgamento sobre a ligação da realidade ao discurso,4 mas, ainda vai longe o momento em que estas discussões estejam claras para muitos historiadores.
Se da parte dos lingüistas (e entre estes também alguns analistas do discurso), observa-se uma ampla discussão sobre as aproximações entre estas ciências, o mesmo não podemos dizer da parte dos historiadores. Apesar das posturas atuais afirmarem a importância dos discursos no campo da história, temos poucos trabalhos que usam a categoria discurso em suas perspectivas de análise, não se observa em nosso campo a presença de debates que invistam nesse campo de trabalho. E, mesmo sendo possível identificar alguns historiadores que defendem tal abordagem e utilizarem da Análise do Discurso em seus estudos históricos, ou mesmo de reconhecer que há historiadores que defendem o estatuto do discurso como objeto da história, não são poucos os que se mantêm desconfiados com esta perspectiva de abordagem, especialmente inseguros sobre a questão da produção de sentido através dos discursos. Devendo essa abordagem receber mais discussões para atingir alguma maturidade na sua utilização pelo historiador que deseja discutir a materialidade do fato.
Dominique Maingueneau, analista do discurso da corrente francesa, numa de suas leituras de nossa tese de doutoramento, chamou-nos a atenção para o fato de que há por parte do historiador muita superficialidade na utilização da categoria discursos. Segundo ele, é comum localizar trabalhos nos quais se afirma estar fazendo análise do discurso, quando na realidade estão apenas utilizando a categoria do discurso para definir a tipologia dos mesmos: discurso autoritário, discurso religioso, discurso político, etc., mas, que não se preocupam em mostrar como tais discursos são construídos e produzem sentido numa dada época e sociedade. Sobre isso, os analistas do discurso dizem: "onde estão os discursos, vocês são muito factais". Do outro lado, alguns historiadores dizem: "onde está a história? Aqui só tem análise do discurso!" Como se pode daí concluir, parece que ainda vai demorar um pouco o momento de uma definição clara dessa relação. Para alguns historiadores, sem um aprofundamento da análise das condições de produção e sentido dos discursos na história, entremeando discursos como acontecimentos discursivos, muitos fazendo análise do discurso e não história. Essas posturas reconhecem nos discursos apenas os elementos de uma estrutura lingüística e não as possibilidades de um acontecimento tratado em sua irrupção histórica, uma vez que não há uma análise das práticas discursivas ou do discurso como acontecimento discursivo. 5
Em nosso entender, seria interessante localizar qual o estatuto da Lingüística hoje junto aos historiadores que vêm ampliando suas perspectivas de abordagem da história para relações com outras ciências. As abordagens propostas pelos Annales desde as décadas de 60/70, especialmente com Jean-Claude Chevalier, levantaram o seguinte questionamento: "Se vê a lingüística perder-se na - ou apoderar-se da - semiótica, ciência dos signos; vê-se ela apoderar-se dos discursos (discurso político fechado) - e ai o historiador fica de orelha em pé -, mas, trata-se ainda da mesma disciplina que estuda a língua como instrumento social?"6. A preocupação de Chevalier era lembrar aos historiadores que, da mesma forma que a história evoluiu para novos objetos, novas abordagens e novos métodos, também os lingüistas enredaram-se por novos caminhos acerca do estudo da língua e dos processos de linguagem nas diferentes culturas. Nesse sentido, propomos rediscutir essas questões e rever os novos estatutos dessas ciências e seus pontos de encontro e desencontro em nossa atualidade.
Luiz Antônio Marcuschi diz que uma das posições mais assumidas pelos lingüistas na atualidade é a que defende língua como atividade sócio-interativa sistemática, de caráter cognitivo e instauradora de sentidos na história. Ainda segundo ele, o funcionamento de uma língua no dia-a-dia é antes de tudo um processo de integração social. Língua, cultura e sociedade se pressionam mutuamente de maneira muito dinâmica e integrada. Para ser mais explicito ele afirma: "Com efeito, dominar uma língua sempre foi um imperativo social e cultural. Por isso, nós que trabalhamos com a linguagem lidamos com um dos aspectos fundamentais da vida humana. Pela linguagem constituímos nossos discursos, nossas identidades, formulamos nossas crenças, construímos nossos mundos e, sobretudo, interagimos com nossos semelhantes, construímos nossos argumentos, nossas teorias e visão de mundo". 7
A noção defendida por Marcuschi, aproxima os lingüistas do campo da história e afirma estar os estudos da língua para além das formas gramaticais formais. E, ainda segundo ele, essa aproximação é mais decidida quando se trata dos analistas do Discurso. Para estes, especialmente uma corrente francesa aqui já comentada, mais alguns representantes da corrente inglesa a exemplo do Normam Fairclough e Teun Van Djik (que tratam especialmente de discursos jornalísticos, de exclusão e racismo na história) o discurso deve ser analisado nas suas condições históricas de produção e sentido, nas quais são fundamentais a análise das condições de produção e sentido do discurso.
Segundo Eni P. Orlandi, analista do discurso brasileira também muito usada por alguns trabalhos de história, o importante é conceber a dispersão dos sentidos e dos sujeitos como condição de existência dos discursos, mesmo que, para funcionar, ele tome a forma de unidade. Para ela, é nessa relação entre as diferentes formações discursivas em determinados momentos históricos que se pode localizar a produção de sentido dos discursos. Pois, conforme se pode daí inferir, o sentido não está no dito, nem no sujeito, mas na relação entre eles em determinados contextos. 8 Já para nós historiadores, não importa apenas buscar a produção dos discursos e os sentidos enquanto ditos historicamente situados, mas em que medida tais discursos se consubstanciam como práticas ou acontecimentos histórico-discursivos. Assim, devemos, nós os interessandos em aprofundar a relação da história com a lingüista, no campo da AD ou outro campo dessa ciência, aprofundar mais um pouco esse debate e situar as atuais virtualidade e epistemologias dessas duas ciências tão importantes para uma maior compreensão do homem em sociedade nas suas várias dimensões política e cultural.
Na atualidade, nosso investimento num estudo comparativo do lugar dos integralistas na implantação das ditaduras de Getúlio Vargas e a de Salazar se apresenta como um lugar frutífero para refazer essas leituras e situar essa relação na atualidade. Tanto Getúlio Vargas como Salazar subiram ao poder depois da utilização do interdiscurso com os integralistas, entrelaçando política com religião. Daí, na perspectiva de abordagem desse tema nos situaremos na História Política e Cultural auxiliada pela Análise do Discurso, numa perspectiva comparada. Sobre isso, salientamos que o processo de seleção, análise e interpretação dos documentos da história aqui delimitada sugere a possibilidade do uso de múltiplas categorias de análise que, ao invés de prejudicarem a cientificidade da história, oferecem um leque de opções para que o historiador possa se aproximar de compreensões e explicações plausíveis, já que a idéia de se alcançar "a verdade" dos fatos históricos constitui um ideal esgotado depois da crise dos paradigmas do início do século XX. Sob essa perspectiva, procuraremos investir na análise dos discursos de Getúlio e Salazar entremeados aos dos integralistas no campo antiliberal, anticomunista e antidemocrático como lugares de construção do consentimento social para a legitimação dos Estados Novos que consolidam as ditaduras desses dois governos.
Notas
1 MARCUSCHI, Luiz Antônio. Linguagem, cultura e ensino: reflexões para uma integração frutífera. UFPE/UFMG, 2004.
2 CHARAUDEAU, P.; MAINGUENEAU, Dominique. Dicionário de Análise do Discurso. São Paulo: Contexto, 2004 p. 264; ROBIN, Regine. História e Lingüística. São Paulo: Cultrix, 1977.
3 ROBIN, Regine. Op.cit.
4 Koselleck, R. L’expérience de l’histoire. Paris, Gallimard/Seuil, 1997.
5 De acordo com Patrick Charaudeau & Dominique Maingueneau (op.cit.) está é uma noção empregada desde os anos 60 entre o vocabulário marxista e o de Foucault. Quando se diz prática discursiva em vez de "discurso" efetua-se um posicionamento teórico que considera o discurso como uma forma de ação sobre o mundo produzida nas relações de forças sociais. Em Foucault (1969b: 153), é um conjunto de regras anônimas, históricas sempre determinadas no tempo e no espaço as condições de exercício da função enunciativa. Com isto, Foucault põe em primeiro plano a historicidade radical do discurso e as condições institucionais da enunciação. Cf. CHARAUDEAU, Patrick; MAINGUEGENEAU, Dominique.op.cit. p. 396. Sobre isso vide também FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1996. p. 57, quando trata de definir "acontecimento discursivo" e COSTA, Eleonora Z. Sobre o acontecimento discursivo. In: SWAIN, Tânia Navarro (org.) História no Plural. Brasília: UnB, 1994. p.189-207.
6 CHEVALIER, Jean-Claude. A Língua: lingüística e história.In: LE GOFF, Jacques; NORA, Pierre.(orgs.) História: novos objetos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976. pp. 84-98.
7 MARCUSCHI, Luis Antônio.O papel da heterogeneidade cultural nos materiais didáticos. texto apresentado no IV Seminário Internacional em Letras: Linguagem, ensino e inclusão social. Centro Universitário Franciscano - UNIFRA: Santa Maria, setembro de 2004.
8 ORLANDI, E.P. As formas do silêncio: no movimento dos sentidos 5. ed. Campinas, SP: Unicamp, 2002. p. 18.




