Representações sobre a História em Santa Catarina
As Representações sobre a História que a população de seis cidades do nordeste do Estado de Santa Catarina apresentou é o objetivo dessa discussão. A pesquisa que resultou neste artigo foi realizada entre 2003 e 2006 e teve como metodologia a utilização de técnicas múltiplas quais sejam: aplicação de formulários, entrevistAs orais, entrevistas grupais e análise de jornais. Os principais resultados demonstram uma forte ligação de grande parte da população estudada com a história tradicional e essa concepção reflete-se na maneira como enxergam e agem com relação à preservação de seu patrimônio histórico.
Este artigo é fruto de parte de uma pesquisa maior denominada "Representações sociais sobre o Patrimônio Histórico e Pré-colonial dos municípios circunvizinhos à Baía da Babitonga", financiada pelo FAP/UNIVILLE e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico-CNPq entre 2003 e 2006.
Muito se tem falado sobre as mudanças que a história sofreu durante o século XX, desde as inovações da Escola dos Annales, que trouxeram, principalmente, a história problema e a interdisciplinaridade, passando pela História Nova com seus novos objetos, novas discussões teóricas e novas abordagens e chegando à Nova História Cultural que aprofunda as discussões sobre o mundo da cultura, principalmente relacionadas ao imaginário e às representações.
Essas discussões, que vêm sendo realizadas há algum tempo na academia, mostram a importância da história do cotidiano, a necessidade de evitar o fetiche pelo documento e evidenciam os novos temas da história; mas será que essas novas formas de pensar a História chegam àqueles que não fazem parte do seleto grupo de historiadores e professores de história? Até que ponto essas novAs visões conseguiram modificar as concepções da História tradicional onde os grandes heróis, as datas e os fatos eram vistos como sinônimos de história?
Este artigo propõe-se a discutir quais as representações sobre a História existentes entre a população de seis cidades no nordeste de Santa Catarina - Joinville, Araquari, São Francisco do Sul, Balneário Barra do Sul, Garuva e Itapoá - encontradas durante uma pesquisa maior que visava compreender quais as representações que essas sociedades possuíam sobre o seu Patrimônio Histórico e Pré-colonial.
Compreende-se que as representações são sociais e, portanto, identificadas em grupos que tenham afinidades entre si, quer sejam educacionais, religiosas, políticas ou de outros tipos. Essas representações são construções feitas acerca da realidade e, além de serem influenciadas pelas vivências culturais de cada grupo, o são, também, pela mídia1. Para identificar as representações que os diferentes grupos sociais das cidades em estudo possuem sobre a história foram utilizadas diferentes técnicas2: aplicação de formulários, entrevistas orais e entrevistas focais, além da análise de jornais.
Foram aplicados proporcionalmente à população dos seis municípios 853 formulários, de forma aleatória, visando-se uma homogeneidade entre os sexos e abordando as pessoas em diferentes pontos das cidades, conforme mostra a Tabela 1.
Tabela 1: Porcentagens de entrevistados por cidade, segundo o sexo.
| Cidades/sexo | Araquari | Barra do Sul | Garuva | Itapoá | Joinville | São Frco. do Sul |
| Feminino | 41,4% | 47,1% | 55,6% | 36,1% | 52,5% | 46,9% |
| Masculino | 58,6% | 52,9% | 44,4% | 63,9% | 47,5% | 53,1% |
| Número de entrevistados | 99 | 85 | 90 | 61 | 343 | 175 |
Ainda com relação ao perfil dos entrevistados, em média 33% tinham segundo grau completo, 74% eram naturais do Estado de santa Catarina, 40% possuíam renda familiar entre três e Cinco salários mínimos e em torno de 40% eram assalariados, independentemente da cidade em que moravam. Com relação às idades dos entrevistados, obteve-se a seguinte distribuição:
Tabela 2: Porcentagens de idades dos entrevistados, por cidade.
| Idades/Cidades | Araquari | Barra do Sul | Garuva | Itapoá | Joinville | SFS |
| Não informou | 1,0% | 1,2% | 1,1% | 0,0% | 0,9% | 6,3% |
| De 16 a 24 | 17,2% | 20,0% | 24,4% | 27,9% | 31,8% | 24,6% |
| De 25 a 34 | 25,3% | 18,8% | 23,3% | 23,0% | 23,9% | 13,1% |
| De 35 a 49 | 32,3% | 30,6% | 30,0% | 27,9% | 23,3% | 31,4% |
| De 50 a 65 | 15,2% | 22,4% | 16,7% | 18,0% | 14,9% | 21,1% |
| 66 ou mais | 9,1% | 7,1% | 4,4% | 3,3% | 5,2% | 3,4% |
O material coletado foi tabulado e analisado, comparando-se e Cruzando-se as diferentes informações das questões formuladas. Para responder especificamente ao objeto desse artigo, ou Seja, às representações sobre história, foram utilizadas apenas questões que diziam respeito ao significado de Patrimônio, Patrimônio Histórico e Museus. Inicialmente os dados foram analisados separadamente, cidade por cidade, sendo que, quando havia similaridade das respostas e também do perfil do grupo entrevistado, os mesmos foram tratados de forma globalizada e, quando havia diferenças, elAs foram evidenciadas.
A primeira questão específica, após a identificação do perfil dos entrevistados, foi relativa a "O que é Patrimônio". As respostas mostraram uma identificação da palavra "Patrimônio" com uma propriedade, com algo que é seu. Em cinco das cidades pesquisadas essa diferença chegou a atingir entre quarenta e Cinqüenta por cento dos entrevistados. A única exceção Foi Joinville, onde aqueles que deram essa definição empataram percentualmente com aqueles que disseram que "Patrimônio" é aquilo que é conseguido com o trabalho, pela compra. Essa característica encontrada nas respostas dos moradores de Joinville, o maior parque industrial do Estado, pode reforçar um estereótipo que a cidade carrega desde o início do século XX, o de ser "a cidade do trabalho".
Esta definição de Patrimônio como algo que tenha Sido comprado, apareceu como segunda resposta nas cidades de Araquari, Balneário Barra do Sul, Garuva e Itapoá e somente em terceiro na cidade de São Francisco do Sul.
Para os moradores de São Francisco do Sul a relação de que patrimônio é sinônimo de história, de museus ou de algo antigo apareceu em segundo lugar nas respostas sobre o que era Patrimônio. Da mesma forma, em uma outra questão, quando se perguntou a razão de se preservar o patrimônio, esta relação entre Patrimônio e história apareceu com mais intensidade na cidade de São Francisco do Sul do que nas demais cidades, onde 20% dos entrevistados fizeram essa relação direta, enquanto nAs demais cidades essa referência se deu em menos de 6% das respostas. Esta identificação dos francisquenses com a história deve-se, provavelmente, ao fato da cidade ter todo o Seu centro histórico tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional desde 1986 e, também, porque justamente durante o levantamento dos dados havia intensa propaganda a favor dos supostos 500 anos que a cidade estava comemorando em 2004.
São Francisco do Sul, cidade com pouco mais de 36 mil habitantes, tem a sua fundação datada de 1662, sendo a cidade mais antiga do Estado de Santa Catarina, mas alguns atribuem à passagem do navegador francês Binnot Paulmier de Gonneville em 1504 o início da colonização no local3. de qualquer forma, nossas pesquisas mostraram claramente que toda a movimentação da cidade com relação a seu patrimônio histórico não passou despercebida pela população local, para a qual a história está Sempre presente.
Outra questão indagava os entrevistados sobre a necessidade ou não de se preservar o Patrimônio Histórico, ao que a maioria, em todas as cidades, respondeu que sim, enfatizando que essa preservação possibilitaria com que todos pudessem conhecer a história da cidade, principalmente As novas e futuras gerações e os turistas.
A seguir, foi perguntado quem deveria cuidar do Patrimônio Histórico da cidade. Para os entrevistados de Joinville, Balneário Barra do Sul e Itapoá, a preservação deve ser uma atribuição dos governantes, enquanto que em Araquari e Garuva a população reconhece que a comunidade também deva participar da preservação, embora estando em maior número a opinião de que deva Ser uma atribuição da Prefeitura.
Em São Francisco do Sul, ao contrário, a visão predominante é de que a preservação é um dever de toda a comunidade (40%), superando a daqueles que acham que seja somente da Prefeitura (34%). Percebe-se, novamente, que naquele município existe um maior comprometimento da população para com sua história, em relação às demais cidades estudadas.
Quando perguntados sobre a razão pela qual acreditavam que o Patrimônio Histórico de sua cidade devesse ser preservado, entre 40% e 50% do total dos entrevistados em cada cidade demonstraram acreditar que esse Patrimônio deva ser preservado porque é história, e que a história deve ser preservada. As pessoas que fazem parte desses grupos têm o mesmo perfil da maioria entrevistada, não havendo diferenciação significativa entre as cidades.
Uma outra questão, mais específica, indagava a população sobre a existência ou não de um local em sua cidade que preservasse a história. Nesse sentido, nas cidades que possuem museus, Joinville4 e São Francisco do Sul5, a relação de preservação com essas instituições é evidente. Em Joinville 60% dos entrevistados lembraram primeiramente dos museus como locais de preservação histórica, destacando-se o Museu Nacional de Imigração e Colonização, mais conhecido como Museu dos Príncipes. Apesar de Joinville possuir um Arquivo Histórico ele foi lembrado apenas por uma pequena parte da população - 11%. isso talvez se deva ao fato de que o Arquivo Histórico não é um local de "visitação" pública e onde somente pessoas interessadas em algum tipo de pesquisa costumam freqüentar. em São Francisco do Sul o entendimento de que os museus sejam responsáveis pela preservação da história da cidade foi ainda maior, atingindo 80% dos entrevistados. essa identificação, quando não apareceu generalizada em "nos museus", dividiu-se entre o Museu do Mar e o Museu Histórico com uma leve preferência em relação ao primeiro. É interessante salientar que em São Francisco do Sul, apesar do Centro Histórico ser tombado e se perceber a ligação da população com a história da cidade, somente 21%6 da população entrevistada colocou esse centro histórico, ou simplesmente "o casario", como responsável pela guarda da história da cidade.
Nas outras quatro cidades (Araquari, Balneário Barra do Sul, Garuva e Itapoá) onde não há museus ou arquivos históricos, a maioria da população mostrou não saber se alguém ou algum local guarda a memória histórica da cidade. Em Araquari o total de pessoas que desconhecem onde a história da cidade esteja sendo preservada atingiu 62%, enquanto 20% reconheceram a Casa da Cultura como um local que exerce essa função. Esta lembrança se deve ao intenso trabalho ligado à preservação da cultura imaterial de Araquari, desenvolvido pela Casa da Cultura, e ao qual é envolvida grande parte da população.
Em Balneário Barra do Sul, enquanto 49% dos entrevistados não reconhecem qualquer local de preservação histórica na cidade, outros 26% fazem referência à natureza, dunAs e praias, principalmente. Essa ligação dos moradores de Balneário Barra do Sul com a natureza é bastante evidente também em outros tipos de entrevistas, como As gravadas individuais ou coletivas. Nessas entrevistas nota-se uma afinidade dos moradores com a sua memória oral, váriAs pessoas lembravam de fatos que deveriam ser "guardados" em algum local, como as várias histórias sobre a pesca da baleia, da qual muitos moradores participaram. Trata-se de uma cidade praiana onde as principais atividades econômicas são a pesca artesanal, a construção de barcos e o turismo de verão. Desta forma, a ligação com o mar é intensa em todos os momentos da vida dos moradores, e essa ligação reflete-se na memória histórica da comunidade.
Já em Itapoá e Garuva, respectivamente 72% e 56% dos entrevistados desconhecem um local onde a história das cidades esteja sendo preservada, mas, em ambas, 19% dos entrevistados afirmaram que a biblioteca pública deve estar exercendo essa função. Percebeu-se nas respostas dadas nessas cidades que, ao contrário do que foi visto em Balneário Barra do Sul, quando falamos de história as pessoas pensaram em museus ou em documentos escritos, sendo mínima a referência à cultura imaterial ou à natureza.
Deve-se salientar que, no momento em que a pergunta sobre a existência de um local onde a história ou a memória da cidade estivesse sendo guardada, muitas pessoas, das quatro cidades onde não existem museus, expressavam sua surpresa em terem notado, naquele momento, que a cidade não possuía um local onde a documentação histórica estivesse sendo preservada. Assim, muitos entrevistados comentaram a Necessidade de que suas cidades tivessem um museu e aproveitavam para criticar as autoridades locais. Por outro lado, nas cidades onde existem museus a resposta de que eram eles os responsáveis pela "guarda da memória" era praticamente imediata.
As representações sobre a história ficaram bem evidentes sempre que o assunto abordado fosse relativo a museu. em toda a pesquisa apenas duas pessoas referiram-se a outros tipos de museus que não fossem de história, evidenciando a total identificação de museu como sendo um local de preservação da história. Essa conclusão Foi obtida através de uma das perguntas do formulário aplicado que era: "para que serve um museu?"
A afirmação de que um museu serve para preservar a história atingiu, em média, 60% das respostas em todas as cidades pesquisadas. Para se aproveitar melhor os dados, As respostas descritivas sofreram um trabalho de análise de discurso7, o que mostrou uma maior incidência dos verbos: centralizar, conservar, cultivar, guardar, manter, marcar, organizar e preservar, indicando uma visão estática dos museus. Quando foram analisados os substantivos ligados àqueles verbos, percebeu-se a grande incidência das palavras "história" e "passado", aparecendo algumas vezes também "cultura", porém como sinônimo de algum objeto, cultura material. Uma forte ligação com a história e o passado é evidente, denotando que os museus, para a maioria daqueles que expressaram a sua opinião, são lugares onde se "guarda" a história, confirmando os registros feitos anteriormente. Reforça-se, portanto, a noção de História como sendo sinônimo de passado, de coisas remotas, distantes do presente, sendo que as expressões "coisas antigas" ou "antiguidades" apareceram em várias respostas. Em algumAs situações fica visível a idéia de que os museus, além de guardarem essa história distante, retiram dela apenas aquelas coisas bonitas e boas, "resgatar As bonitezas", "guardar as riquezas", "guardar o que tinha de bom no passado", "para as relíquias do passado"; desprezando o que não se encaixe nessas categorias.
Percebe-se que, juntamente à idéia de museu como sendo uma simples casa de exposições de algo histórico, aparece também a noção de que essa história preservada no museu deve ter uma função utilitária, que é a de servir de exemplo para os mais jovens ou a outrAs pessoas. Nesse sentido os museus devem refletir as coisas boas que os antigos fizeram para que as novas gerações possam se espelhar. Nota-se, em muitas respostas, que essa função dos museus e da história como "educadores" é importante, mas para os outros e não para aqueles que estavam sendo entrevistados: "para mostrar para a posteridade o que existe de bom", "para os visitantes verem as coisas bonitas", "para as crianças verem como era o passado", "para os escolares", "para os adolescentes e recém chegados acompanharem a evolução da cidade", dentre outrAs respostas.
A utilidade do museu e, consequentemente, da história como Fundamental para o conhecimento "daquilo que se deve conhecer", fica muito clara no depoimento oral de uma ex-diretora do mais visitado museu de Joinville, o Museu Nacional da Imigração e Colonização ou "dos Príncipes":
[a cidade] tem uma raiz, eles [os que vêm de fora] precisam aprender essa raiz. Porque Joinville é assim, como é que Joinville foi fundada, saber respeitar as particularidades de Joinville. Tem gente que chega de fora, que não tem raiz Nenhuma aqui e acha que vem e pode impor a sua cultura, o seu modo de viver, de ser, os seus costumes. Não é bem assim, tem que respeitar um pouquinho o que Joinville era. Acho que isso é importante, pra isso o Museu também é importante, para as pessoas pensarem o que é para pensar. 8
Pode-se aqui tirar uma primeira representação de museu, ou seja, a de que são lugares onde se guardam coisas antigas e preciosas da história das localidades. No entanto, ao contrário do que se supunha, eles não foram, na maioria das opiniões, identificados como lugares para se guardar "coisas velhas e sem utilidade". Esses objetos, apesar de antigos, devem ter um grande valor, permanecendo a idéia de museu como centro de preservação daquilo que é "único", "importante" e também daquilo que possa educar.
A fim de relacionar as respostas obtidas nos formulários de que os museus e a história servem para educar, principalmente os mais jovens, foi empregada, junto a grupos de professores de todas as cidades, a técnica de entrevistas focais9. A maioria deles mostrou ter clareza do que seja Patrimônio Histórico. Porém, quando perguntados sobre a forma como esse assunto é tratado por eles em sala de aula, a maioria diz que procura visitar os museus com seus alunos, mas encontram Dificuldades por parte da infra-estrutura que lhes é oferecida, tanto das próprias direções das escolas, que não permitem saídas com alunos, como pela falta de verbas para o transporte, ou mesmo pelas própriAs deficiências dos museus que não têm profissionais suficientemente capacitados para atender aos visitantes.
Eu percebo assim que, os alunos, têm muita Dificuldade de visitar um museu, acho que sentem muita dificuldade em conseguir compreender um museu, [...]. Eu trabalhei lá [em um museu da cidade] eu via: chegavam [professores], empurravam aqueles alunos lá para dentro, e os alunos ficavam, olhavam uma coisinha aqui, olhavam outra coisinha ali, mas sem ninguém para indicar, porque acho que, num museu tem que ter uma pessoa capacitada para dizer [...], não que o que a pessoa vá Dizer seja adequado, mas pelo menos para tentar guiar o pensamento, ou o desenrolar do conhecimento do aluno. [...] Chegava aquela montoeira de criança ali dentro, daqui a pouco já estavam correndo pra lá, outro subindo escada, outro dentro da batera, meu Deus do céu! E aí, as crianças saíam dali mais vazias do que quando chegavam. Entendeu? [...]10
Neste trecho de uma das entrevistas focais percebe-se que, além da falta de pessoal preparado para atender aos escolares nos museus, fica evidente a tentativa de não identificar também essa deficiência nos próprios professores que levavam seus alunos e os deixavam sair dali "mais vazios do que quando chegaram".
Às dificuldades apontadas pelos professores para trabalharem os museus e a história regional, deve-se acrescentar a falta de material historiográfico sobre as cidades em que moram. com exceção de Joinville e São Francisco do Sul, As demais cidades não possuem um livro sequer sobre sua história, dependendo de folhetos ou apostilas escritas sem a menor base teórica ou metodológica. Essa falha, com certeza, reflete-se no ensino e no conseqüente conhecimento que se tem sobre a história das cidades.
Em pesquisa realizada especificamente junto aos alunos do segundo grau de Joinville sobre as representações que possuíam sobre a história e sobre o ensino de história ficou evidente que essas representações são construídas a partir do fato do então aluno "gostar ou não" do professor. Setenta por cento dos jovens entrevistados disseram que gostam de história, mas somente quando o professor "é bom", "estimulante". Os que não gostam de história justificam "[...] porque a professora faz as aulas se tornarem monótonas e pouco dinâmicas" ou "[...] acho que tem coisas mais importantes para se saber, conhecer, do que querer saber do passado" 11. Repete-se a visão negativa de que a história é estática, de forma semelhante ao que se vê com relação aos museus, e que não é interessante. No mundo da internet, das informações rápidas e globais, a maneira de se trabalhar a história parece estar bastante defasada, não alcançando os ideais dos jovens e não conseguindo modificar as representações tradicionais da história.
Quando se examina o que a mídia tem a dizer sobre a História e, nesse caso, a mídia impressa, já que a falada e a televisionada raramente guardam suas reportagens, vê-se que as matérias dos jornais de Joinville12 analisadas e anteriores a 1990 fazem referência ao Patrimônio Histórico como ligado a um tempo passado, enfatizando a visão tradicional da história. Porém, as matérias mais recentes, escritas após 1990, enfatizam o "Patrimônio como algo que permite o vislumbre do contraste de dois tempos: o passado e o presente, o patrimônio histórico compreende a ambos".13 Assim, percebe-se que o que os jornais vem dizendo nas últimAs décadas não é absorvido pelas camadas sociais identificadas na pesquisa14, o que não é de se surpreender se pensarmos que a maioria da população brasileira não lê Jornais.
Assim, os resultados dessa pesquisa possibilitaram a visualização de uma representação acerca da própria história que é colocada como o estudo de um passado distante e que procura preservar os fatos mais importantes, aqueles "dignos de serem lembrados". Apesar de todos os esforços no sentido de se modificar a visão tradicional da história, é ela que ainda é determinante para as representações que a população da região estudada forma acerca da história. Se pensarmos que é dentro dessa concepção que também são elaboradas as representações sobre o Patrimônio Histórico e de tudo o que diz respeito à história das cidades, logicamente só Será preservado aquilo que for reconhecido como histórico, como digno das gerações futuras ou de mostrar aos turistas para que saiam da cidade com uma boa impressão do local. Ações mais efetivas para modificar essa realidade devem ser implementadas para garantir que a conscientização e não a imposição ajude a preservar o patrimônio histórico.
Notas
1 MOSCOVICI, Serge. Representações sociais. Investigações em psicologia social. Petrópolis: Vozes, 2003.
2 SPINK, Mary Jane. Desvendando as teorias implícitas: uma metodologia de análise das representações sociais. In: GUARESCHI, Pedrinho A., JOVCHELOVITCH, Sandra (orgs). Textos em representações sociais. 6 ed. petrópolis: Vozes, 2000. p.138
3 Sobre este assunto ver GUEDES, S.P.L.C. A construção do herói In: Anais da XXIV Reunião da SBPH. Curitiba: SBPH, 2004. p.285-289.
4 Os museus de Joinville são: Museu Nacional de Imigração e Colonização, Museu Arqueológico de Sambaqui, Museu de Arte, Museu Casa Fritz Alt, Museu dos Bombeiros, Museu da Fundição, Museu da Bicicleta, Museu do 62o B.I e Museu da Indústria.
5 São três os museus de São Francisco do Sul: Museu Nacional do Mar, Museu Histórico e Museu do Forte.
6 Deve-se chamar a atenção para o fato de que algumAs pessoas citavam mais de um local como centro de preservação histórica e todos foram registrados, por isso a soma dos percentuais ultrapassa os cem.
7 A análise seguiu as orientações apresentadAs por ROBIN, Regine. História e Lingüística. São Paulo: Cultrix, 1977.
8 BOEBEL, Maria Tereza. Maria Tereza Boebel: depoimento [out. 2003]. Entrevistadores: Diego Finder Machado e Eleide Abril Gordon Findlay Joinville, 2003.1 Fita cassete. Entrevista concedida para o projeto de pesquisa para a pesquisa "Memória e identidade: O Museu Nacional de Imigração e Colonização de Joinville e a reafirmação da identidade local".
9 Técnica qualitativa, não-diretiva, cujo resultado visa o controle da discussão de um grupo de pessoas. Que possuam afinidades entre si. No caso a afinidade foi a da profissão e da cidade onde moravam.
10 Entrevista focal com Professores de São Francisco do Sul [jul.2004]. Entrevistadoras: Sandra P.L. de Camargo Guedes e Eleide Abril G. Findlay. São Francisco do Sul, 2004. 1 fita cassete. entrevista concedida para o projeto de pesquisas "Representações sociais sobre o Patrimônio Histórico e pré-colonial dos municípios circunvizinhos da baía da Babitonga".
11 CRUZ, Valdir Ribeiro da; SOUZA, Edson; VICENTE, Rafael e GUEDES, Sandra P.L.C. (orientadora) Formandos do ensino médio de Joinville 2005 - Representações sociais sobre a história e o curso de história da UNIVLLE. Caderno de Resumos IX Ciclo de Debates sobre História Regional. Joinville:UNIVILLE, 2005.
12 Deve-se chamar atenção para o fato de que são os jornais de Joinville, A Notícia principalmente, que também circulam nas demais cidades estudadas.
13CUNHA, Vinicius; GUEDES, Sandra P.L.C. O Patrimônio Representado nos jornais. Caderno de Resumos IX Ciclo de Debates História Regional. Joinville: UNIVILLE, 2005.
14 Deve-se salientar que o perfil dos entrevistados confirma o perfil da maioria da população das cidades envolvidas na pesquisa, conforme dados do IBGE.




