Visconde de Guarapuava: Personagem na História do Paraná
O fazendeiro Antônio de Sá e Camargo pode ser tomado como modelo de uma sociedade particular em tempo determinado: o Brasil do século XIX, nos Campos de Guarapuava, e que contribuiu, ora mais ora menos, para as mudanças ocorridas na localidade. Sua trajetória insere-se na história local, regional e nacional; portanto, um homem que soube representar os papéis que lhe foram atribuídos, determinados e conquistados, correspondendo, assim, a um modelo coletivo valorizado. Mas, tornar-se um “ilustre paranaense” não significava apenas estar de acordo com padrões estabelecidos, isto é, reproduzir as normas.
Ao adentrar os sertões, irá, junto com seu grupo de parentes e outros fazendeiros, manter a estrutura organizacional da sociedade, baseada na hierarquia, atualizando simultaneamente as formas de relações sociais. O modo particular como realizou a intermediação entre o coletivo e o individual, o tradicional e o novo, levou-o a ser percebido pelos seus memorialistas como destemido bandeirante e progressista entusiasta.
Sua permanência efetiva, na localidade, propiciou o diferencial na sua trajetória de vida, fazendo com que a comunidade o elegesse como um dos homens capazes de comandar o poder local, no decorrer do século XIX. Fixou-se na região de Guarapuava, muito jovem, com apenas 19 anos, mas isso não atrapalhou sua conduta e habilidade para tratar das questões que afligiam a pequena comunidade. Foi escolhido para desempenhar diversas funções na Vila: membro da Guarda Nacional, Inspetor das primeiras Letras, administrador de estradas, administrador dos índios, administrador das obras da Igreja, subdelegado de polícia1.
Contudo, este homem público, aos 28 anos de idade, não constituíra ainda uma família nos moldes esperados pela sociedade da época para um “homem digno e de respeito”. Para continuar aumentando seu prestígio na localidade e também fora dela, deveria seguir as normas da sociedade, e assim o casamento era essencial .
O matrimônio era considerado, no século XIX, assunto de interesse das famílias abastadas e deixava pouco espaço para escolhas baseadas em preferências individuais. A preservação e ampliação do patrimônio presidiam os critérios para a escolha dos cônjuges. Para Eni de Mesquita SAMARA (1983, p. 43), “na sociedade brasileira, especialmente no século XIX, os matrimônios se realizavam num círculo limitado e estavam sujeitos a certos padrões e normas que agrupavam os indivíduos socialmente em função da origem e da posição sócio-econômica ocupada”.
A Igreja Católica, desde o início da ocupação do território brasileiro, fez-se presente no processo disciplinador da população. O discurso de cunho normatizador, praticado pelos seus representantes, difundia padrões de comportamento nos sermões dominicais, no confessionário, nos sermões nas longínquas capelas, nos casamentos, e tinha um fim determinado: domesticar/civilizar os moradores no novo mundo.
Para a historiadora Mary DEL PRIORE (1995, p.29), a igreja [...] regulamentava o cotidiano das pessoas pela ética, pela catequese, pela educação, pelo ritmo semanal recortado pelo domingo e pelo calendário anual [...] e pelo ciclo santoral dos diferentes apóstolos, confessores e, sobretudo, pelas festas de Nossa Senhora. A Igreja fazia-se presente ainda em momentos da vida como o batismo, a eucaristia, o casamento, [...].
A análise da autora privilegia o período colonial, mas as práticas da Igreja Católica ultrapassaram o período e estenderam-se ao século XIX. Os avôs, os pais, os irmãos e o próprio Antônio de Sá e Camargo, participaram como sujeitos desse universo descrito pela autora, na localidade da Palmeira. Receberam o ensinamento das normas determinadas pela igreja, através do padre Antonio Duarte de Passos.
Em uma de suas viagens a Curitiba e Paranaguá, para cuidar de seus negócios, ficou surpreso ao rever seus familiares em Palmeira; mais ainda quando encontrou sua prima Zeferina, a filha dos tios José Caetano e Cherubina. Como tinha que seguir viagem, foi logo oferecendo seus préstimos aos familiares, que lhes solicitaram várias encomendas da capital.
Na visita que fez aos tios, antes do seu retorno, pediu a mão da prima Zeferina, que contava apenas com quatorze anos de idade, em casamento, o que foi aceito pelos tios, com muito gosto. A preservação da fortuna e a manutenção da linhagem familiar seriam garantidas com essa união entre primos.
O casamento de Zeferina e Antonio, aconteceu no dia 3 de dezembro de 1836, na igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição de Palmeira, depois de terem corrido os proclames exigidos na época e da dispensa dada pelo vigário, Antonio Joaquim, em razão do 2º grau de consangüinidade em linha parental entre os noivos. Zeferina passaria a assumir o universo feminino de dona de casa, mulher prestativa e submissa ao seu marido, porque estaria longe da casa e dos olhos paterno e materno, mas deveria exercer as recomendações recebidas, ser boa esposa e uma mãe dedicada aos futuros filhos que deveriam nascer dessa união. Deveria também estar sempre ligada à igreja da nova localidade.
Segundo Alzira Lobo de Arruda CAMPOS (2003, p.447-448), “as noções de escrita e leitura, apanágio da minoria, articulava-se à arte do bordado, da costura, das rendas... Quietas, modestas, prendadas. Prendadas para o lar, para servir aos futuros maridos e filhos deveriam desenvolver suas funções de esposa adequadamente”.
A chegada do primeiro filho era aguardada com bastante expectativa e, para que a descendência fosse assegurada, este deveria ser homem. O nascimento do menino Firmino, em 18 de junho de 1838, foi muito bem recebido pelo pai, principalmente porque era seu primogênito e perpetuaria o nome da família Sá e Camargo no território paranaense, especificamente na região de Guarapuava.
Mas, a perda inusitada do filho aos dois anos e meio de idade, e o retorno da esposa para a casa paterna, constitui uma tragédia que marcou profundamente a vida dos pais e comoveu a população de ambas as vilas, Palmeira e Guarapuava2. A fronteira entre o vivido e o transmitido, o dizível e o indizível, o confessável e o inconfessável sobre a tragédia apontou uma memória subterrânea de lembranças proibidas, o que, segundo Michael Pollak (1989, p. 7), corresponderia ao “ não-dito” da tragédia.
Desfaz-se o projeto familiar de Antonio de Sá e Camargo, isto é, ter uma família com descendentes. Ele contava então com trinta e dois anos mais ou menos. Entretanto, foi respaldado pelos demais membros da comunidade local, em iguais condições à sua: grandes proprietários de terra, gado, riqueza e detentores do poder econômico e político. Mas, a ruptura do projeto cria um conflito e leva a uma situação de drama social que, de acordo com Victor TURNER (1974, p.39) implica renegociar a realidade em confronto com outros sujeitos ou grupos, manipulando e dando sentido ao conjunto de valores existentes na sociedade. Significa estabelecer estratégias particulares para depois da crise, manter-se integrado, utilizando uma ação reparadora.
No caso do indivíduo Antonio de Sá e Camargo, ao devolver a esposa aos pais, não se separando oficialmente, atribuiu uma nova visão aos valores estabelecidos sobre a família conjugal, porém manteve as alianças com o grupo da parentela. Desse modo, permaneceu no grupo, recebendo solidariedade de todos que poderiam, em princípio, ter sofrido o mesmo infortúnio, pois foi essa possibilidade que a tragédia com o filho revelou.
Com o passar do tempo, o drama pessoal vivido por Antonio deu-lhe credibilidade na comunidade que passou a vê-lo como um homem capaz de enfrentar suas perdas, romper com as regras institucionalizadas, tomar decisões, um indivíduo capaz de liderar pessoas acima de seus vínculos pessoais.
Ao buscar indícios a respeito da trágica morte de Firmino, localizou-se o registro de óbito da criança, o qual evidencia que a queimadura com água quente foi o que ocasionou sua morte 3.
Outro documento em que se localizaram indícios sobre o menino foi a lista nominativa de 1840, dos moradores de Vila de Guarapuava, onde consta que Antonio de Sá e Camargo morava no 4º quarteirão, casado com Zeferina de dezessete anos, e um filho de nome Firmino de um ano de idade e mais nove escravos.
As informações deixadas pelo cônego Braga, ao registrar o óbito de Firmino, de que a criança tinha “dois anos de idade mais ou menos”, deixaram equivocada a narrativa construída a respeito da tragédia, de que Zeferina teria colocado seu filho na bacia com água quente. Isso só seria aceitável para um recém-nascido, não para uma criança com quase três anos de idade que, com certeza, já andava e falava. Outra constatação foi a de que a criança teria “queimado-se em água quente”, com isso, pode-se entender que o acidente teria sido provocado pela própria criança e não pela sua mãe.
Outra observação feita foi relativa à forma como o registro foi assentado no livro de óbito. Observa-se que a página foi deixada em branco, tem-se o último registro de morte na página 7, anterior à morte do menino, a página 8 foi deixada em branco até 1867, quando o padre teve a autorização da igreja para realizar o registro que se encontra escrito na posição lateral, ocupando toda a página. Na outra folha, página 9, encontram-se os registros posteriores à sua morte. O próprio padre esclareceu que o registro foi feito posteriormente ao acontecimento.
O que teria levado o padre Braga a não efetuar o registro de óbito antes do sepultamento? A possibilidade que se apresenta seria a descrição da “causa mortis” e a vergonha de um tal registro, na qual ficaria evidenciada a negligência de Zeferina em relação aos cuidados com seu filho, o que afetaria negativamente sua condição de esposa e mãe. Tal circunstância revelou a importância ou o significado do drama não apenas para Antonio e sua esposa como também para a comunidade, uma vez que, no jogo das relações sociais, haveria o questionamento dos papéis de pai e mãe.
O que seria da vida de Zeferina depois do episódio vivido pela perda de seu filho? O que essa moça/mulher esperaria da vida, perdendo seu filho e seu marido? Uma vida de confinamento e recato, o recolhimento à casa paterna foi o que o futuro reservou a essa mulher que, na opinião do marido, fora negligente com os cuidados que deveria ter para com o filho.
Ao procurar notícias a respeito de como Zeferina sobreviveu à tragédia, foram encontradas as cartas do Barão do Tibagi, seu pai, ao filho Jesuíno Marcondes de Oliveira e Sá e ao genro, o Comendador Antonio Caetano de Oliveira. “A Nhasinha esta sofrendo com resignação os remédios furiosos de que esta usando, e seu marido em Guarapuava [...] . Isto fez logo que chegou do Rio, deixando entregue aos cuidados do médico e da Anninha (irmã de Zeferina) [...]”4. Zeferina nasceu em 1822 e faleceu no início do século XX com oitenta e quatro anos de idade.
A relação de proximidade de Antonio com Zeferina, depois da tragédia, deu-se especialmente para o cumprimento das obrigações religiosas como a festa da padroeira e os batizados. Manter as relações de compadrio era necessário porque implicava articulações do poder e mando na região e, nesse período, o futuro Visconde de Guarapuava já tinha se tornado um notório senhor com muito prestígio.
Outro momento de proximidade do casal foi nas assinaturas de compra e venda de imóveis, terrenos e subestabelecimento de procuração para o marido ou parentes próximos como o pai, tios e cunhados, o que revela, mais uma vez, a importância das relações parentais. Observou-se nessa tipologia de documentos que depois do recebimento da titulação dada a Antonio, pelo Imperador, Zeferina passaria a utilizá-la também. Num primeiro momento, foi reverenciada como Baronesa de Guarapuava e posteriormente de Viscondessa de Guarapuava.
Dentro do universo privado, nas negociações e transações que Antonio realizou ao longo de sua existência, a presença de Zeferina de forma alguma foi dispensada, mesmo que isso fosse mediante procuração dada por ela ao marido.
No inventário de Antonio, segundo seu testamenteiro e inventariante, Major Manoel de França Camargo, os bens deixados pelo falecido Visconde revelaram que o patrimônio era composto por oitenta apólices da divida pública, vinte ações do Banco do Paraná, dinheiro em conta corrente com os senhores Oliveira do Valle & Companhia, no Rio de Janeiro, dinheiro em conta corrente no Banco do Paraná, dinheiro a título de empréstimo ao Tesouro Nacional, 97 ações da Sociedade (?) Amigos do Progresso, em Guarapuava, dinheiro a juros para terceiros. Não existe referência a terras, o que levou a entender que Antonio já tinha transformado boa parte das suas terras em capital financeiro, tendo feito doações do restante aos sobrinhos, em período anterior à sua morte, pois o falecimento do filho em 1841, não deixou herdeiro direto para transferir suas terras. Por ter-se tornado um homem solitário, sem descendentes, a fortuna que edificou através da compra e venda do gado na feira de Sorocaba e de outros negócios foi aplicada em ações, títulos, empréstimos a terceiros, a partir de um determinado período de sua vida. Do seu patrimônio referente ao imóvel edificado, consta no inventário somente uma casa com mobília, na cidade de Palmeira, a qual ficou para sua esposa.
A trajetória de vida de Antonio marcada pela trágica morte do filho leva o historiador a pensar em questões como racionalidade, paixões, neuroses, condições para compreender sua atitude de abandonar a esposa após a tragédia. Para tentar entender sua atitude, deve-se pensar nas normas, nas práticas, nas regras da sociedade e da família, no século XIX, pelas quais foi educado e sob as quais viveu, e que eram o pano de fundo de suas ações; perceber as questões em torno das potencialidades e possibilidades; como isso funcionou com o futuro Visconde de Guarapuava? qual a verdadeira dimensão das escolhas e atitudes na sua vida? como tomou a decisão de separar-se de Zeferina em um momento de muita tristeza para ambas as vidas? Pode-se tentar uma justificativa para sua decisão em razão dos seus sentimentos ou de comportamentos que lhe foram impostos pela educação, religião, meio social; era o que deveria fazer na época. Porém, trata-se de um universo muito grande de respostas possíveis.
Vavy Pacheco BORGES (2001, p.306), que pesquisa a trajetória de vida de Gabrielle Brune-Sieler, ao buscar entender as escolhas realizadas pelo seu personagem de pesquisa indaga:
como isso funcionou em particular para Gabrielle? Qual a “verdadeira amplitude de escolha” que ela teve em sua vida? Este é o nó central. Como tomou as decisões para os atos que praticou: evidentemente se decidiu em função do que sabia na época, do que sentia, do que podia fazer no momento das decisões; assim, percebo que tenho que pensar muito, a cada momento da sua vida que parece mais decisivo, que determine certa ruptura, sobre quais eram os problemas e as opções que precederam seus atos. Os atores históricos (nós todos) não são modelos de coerência, continuidade, racionalidade; as tensões entre o vivido e o imaginado e desejado são fundamentais.
Norbert ELIAS (1995, p.13) analisou a tragédia do compositor Mozart em sua dualidade, sem separar o artista do homem.
Para se compreender alguém, é preciso conhecer os anseios primordiais que este deseja satisfazer. A vida faz sentido ou não para as pessoas, dependendo da medida em que elas conseguem realizar tais aspirações. Mas os anseios não estão definidos antes de todas as experiências. Desde os primeiros anos de vida, os desejos vão evoluindo, através do convívio com outras pessoas, e vão sendo definidos, gradualmente, ao longo dos anos, na forma determinada pelo curso da vida; algumas vezes, porém, isto ocorre de repente, associado a uma experiência especialmente grave. Sem dúvida alguma, é comum não se ter consciência do papel dominante e determinante destes desejos. E nem sempre cabe à pessoa decidir se seus desejos serão satisfeitos, ou até que ponto o serão, já que eles sempre estão dirigidos para outros, para o meio social.
O autor dá a pista de que, para estudar um indivíduo, é necessário ser capaz de traçar um quadro claro das pressões sociais que agem sobre o mesmo. O modelo teórico elaborado pelo sociólogo para estudar o indivíduo despertou novas possibilidades de empreender sondagens para pensar no modelo das estruturas sociais do século XIX, para compreender o que o Antonio, “envolvido por tal sociedade, era capaz de fazer enquanto indivíduo, e o que – não importa sua força, grandeza ou singularidade - não era capaz de fazer” (ELIAS, 1995, p.19). Deve-se levar em consideração que o futuro Visconde foi um representante com poderes na sociedade em que estava envolvido. Mas, isso não anula a idéia do texto para entender as coerções inevitáveis que agiam sobre ele e como se “comportou em relação a elas - se cedeu à sua pressão e foi assim influenciado,” (ELIAS, 1995, p.19) em suas decisões no jogo social.
As colocações desses dois autores auxiliam na reflexão sobre o personagem, no que diz respeito às ações praticadas por ele. Tais reflexões devem procurar mostrar a amplitude da sua trajetória como um indivíduo que viveu em conflitos, teve decepções, perdas, sofrimentos, solidão, e também, experienciou paixões, alegrias, encantamentos; entender que a reconstrução da sua trajetória estará imbricada nos universos indissociáveis - íntimo, privado e público -, que se articularam em toda sua existência.
A narrativa do episódio da morte do filho de Antonio e Zeferina, demonstra tratar-se de uma estrutura narrativa interessante e com apelo dramático, a qual deveria ser investigada com maior profundidade.
A perda inusitada do filho desfaz o projeto familiar de Antonio, que contava então com trinta e dois anos mais ou menos. Até a sua morte, em 1896, não refez formalmente o casamento com Zeferina, nem construiu outra unidade familiar. A documentação existente não sugere outros filhos fora do casamento. Ela permanece como sua única esposa, em todos os atos formais em que sua presença era requisitada. Encontrou-se somente no registro de óbito de Antonio, realizado pelo vigário Domingos Vicente, a referência à sua separação. “Antonio de Sá e Camargo, Visconde de Guarapuava, 89 anos, casado, separado, aos sete de novembro de mil oitocentos e noventa e seis nesta paróquia faleceu de morte natural [...]5.
Esses elementos desafiadores, embora presentes nas sociedades, são pensados como anômalos, e significam alterações profundas na vida dos envolvidos. Não afeta, porém, só o grupo imediato, “a morte insólita ocorrida fora da rotina, longe das previsões, colhendo de surpresa os sentimentos sociais. Provocam uma comoção especial: ferem incisivamente. Devem ser seguidas das mais cristalinas reiterações dos símbolos de solidariedade” (RODRIGUES, 1986, p.59).
No caso do indivíduo Antonio de Sá e Camargo, ao devolver a esposa aos pais, não se separando oficialmente, atribuiu uma nova visão dos valores estabelecidos sobre a família conjugal, porém manteve as alianças com o grupo da parentela. Desse modo, permaneceu no grupo, recebendo solidariedade de todos que poderiam, em princípio, ter sofrido o mesmo infortúnio, pois foi essa possibilidade que a tragédia com o filho revelou.
O infortúnio da morte do filho e o casamento desfeito reforçam a concepção e a imagem que a população da Freguesia de Nossa Senhora do Belém elaborou a seu respeito, pois simultaneamente ao trágico episódio da vida privada, Antonio é indicado como membro da Guarda Nacional.
Para ingressar na Guarda Nacional e assumir funções na hierarquia dessa corporação, o indivíduo precisava ser um distinto senhor e gozar da condição política de ser um homem-livre, ter independência econômica e o direito conquistado de participar autonomamente na comunidade local. Do outro lado, o Estado deveria ser generoso com esses senhores, oferecendo distinções honoríficas pelos serviços prestados, comendas militares e os títulos de nobreza, sem remuneração salarial.
1 A idéia de ver uma época através da trajetória de um homem é muito complexa, e tal propósito já foi exercitado por historiadores, como Giovanni LEVI,a trajetória pessoal do indivíduo Giovan Batista Chiesa, Carlo GINZBURG,do moleiro friulano, Domenico Scandella, e Eduardo SILVA, o personagem D.Obá II D’África, Cândido da Fonseca Galvão, o rei negro que viveu no Rio de Janeiro, no século XIX.
2 Zeferina, mandou duas escravas prepararem o banho do bebê. As escravas começaram a preparar a bacia, colocando primeiro a água quente e retornaram para apanhar a água fria para temperar o banho, mas Zeferina, que estava em outro cômodo da casa, entra com a criança no quarto e, achando que o banho já estava pronto, despiu Firmino, pegou o filho nos braços e o colocou na bacia, para banhá-lo. Que triste percepção, ao sentir suas mãos queimarem-se com a água fervente. Acabou deixando o menino debater-se na bacia por alguns instantes, mas logo agarrou a criança, que chorava desenfreadamente, retirando-a da bacia. Quando as criadas ouviram os gritos de desespero da patroa, correram para o quarto, encontrando mãe e filho desmaiados. Nesse momento, uma das escravas pediu para que o escravo José fosse às pressas chamar Antonio. Quando recebeu a notícia saiu em disparada para chegar o mais breve possível em sua residência, em gritos pediu para ver seu filho, que não acreditava estivesse morto, mas nada mais poderia fazer. Nesse momento de desespero, culpou Zeferina pela morte do menino. Todos os que se achavam presentes ficaram calados vendo a triste tragédia que destruiu o lar de Antonio e Zeferina. O escravo Constantino saiu às pressas para chamar o padre Ponciano José de Araujo para ajudar a família nesse triste momento. Depois do enterro do pequeno Firmino, Antonio pediu a Francisco que levasse a notícia até Palmeira e, também, solicitasse aos seus tios, José Caetano e Cherubina Rosa, que viessem buscar Zeferina, porque ele tinha tomado a decisão de não mais viver junto dela. Depois da partida de Francisco, Antonio decidiu que ele mesmo deveria devolver Zeferina para os tios, e pediu para as escravas que preparassem a bagagem de sua mulher e partiu para Palmeira, ao encontro dos parentes. A chegada do casal causou muita surpresa, ninguém esperava essa atitude de Antonio. Chegando na casa de José Caetano, relatou aos familiares a tragédia e pediu aos tios que recebessem Zeferina em sua casa, de volta. José Caetano recebeu sua filha e seu genro, deixando claro que receberia sua filha de volta, mas aceitar o acontecido, somente o tempo poderia dizer. Zeferina precisava do apoio do pai e da mãe que, com uma atitude de carinho, acolheram sua filha e também não desamparam seu sobrinho e genro.O relato narrado a respeito da morte de Firmino foi o que permaneceu na memória coletiva a respeito do acidente, tanto em Guarapuava como em Palmeira, morte esta que marcou profundamente a vida de seus pais e comoveu a população de ambas as vilas.
3 Aos vinte e tres de agosto do ano de mil oitocentos e sessenta e sete, em virtude da autorização que me foi conferida, e a pedido do Coronel Antonio de Sá e Camargo faço o seguinte lançamento do assento de óbito. Firmino inocente, aos 26 de janeiro do ano de mil oitocentos e sessenta e sete, digo aos vinte e seis de janeiro do ano de mil oitocentos e quarenta e um, nesta vila de Guarapuava faleceu da vida presente, queimado-se em água quente, Firmino, inocente, de dois anos de idade, mais ou menos, filho legitimo do mesmo Coronel Antonio de Sá e Camargo, e de Zeferina Marcondes de Sá. Seu corpo foi sepultado no cemitério desta mesma vila. Para constar faço este assento. Cônego Antonio Braga de Araujo(ARAUJO, 1867). Aos vinte e tres dias de agosto do ano de mil oitocentos e sessenta e sete, em virtude da autorização que me foi conferida, e a pedido do Coronel Antonio de Sá e Camargo faço o seguinte lançamento do assento de óbito.
4 OLIVEIRA, J. C. Carta. Palmeira, 25 fev, 1862. Arquivo da Biblioteca Publica do Paraná – Divisão Paranaense.
5VICENTE, Domingos. Registro de óbito de Antonio de Sá e Camargo. Livro de assentos de óbitos pessoas livres nesta paróquia, Guarapuava. 07 nov. 1896, registro n. 33.
REFERÊNCIAS:
BOLETIM DO INSTITUTO HISTÓRICO GEOGRÁFICO E ETNOGRÁFICO PARANAENSE. Vol. IV, abril 1950.
BORGES, V. P. Desafios da memória e da biografia: Gabrielle Brune-Sieler, uma vida (1874-1940) In: BRESCIANI; S. NAXARA, M. Memória e (re)sentimento: indagações sobre uma questão sensível. Campinas: Unicamp, 2001.
CAMPOS, A. L. de A. Casamento e família em São Paulo colonial: caminhos e descaminhos. São Paulo: Paz e Terra, 2003.
DEL Priore, M. Ao sul do corpo: condição feminina, maternidade e mentalidades no Brasil colônia. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995.
_____. Revisão do paraíso: os brasileiros e o estado em 500 anos de história. Rio de Janeiro: Campus, 2000.
ELIAS, N. Mozart, sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
GINZBURG, C. O queijo e os vermes; o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
LEVI, G. A herança imaterial: trajetória de um exorcista no Piemonte do século XVII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v.2, n.3, p.3-15, 1989.
RODRIGUES, J. C. O tabu do corpo. 4.ed., Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986.
SAMARA, E. de M. A família brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1983.
_____. Estratégias matrimoniais no Brasil do século XIX. In: Revista Brasileira de História. São Paulo: v.8, n.15, p.91-105, st1987/fev.1988.
SILVA, E. Dom Obá II D´africa, o príncipe do povo: vida, tempo e pensamento de um homem livre de cor. São Paulo: Companhias das Letras, 1997.
TURNER, V. Dramas, Feilds and Metaphors: Symbolic Action in Human Society. Cornell University Press. USA: Ithaca and London, 1974. [Printed in the United States of America by Vail-Balloi Press, Inc.].
VON VELSEN, J. The sctended caso method and setuatinal analysis. Londres: Epstein Tawistock pub, 1967.




