A chegada da corte portuguesa e as mudanças nos hábitos alimentares cariocas (1808-1840)
Com a chegada da família real e toda a sua burocracia governamental e a instalação dos comerciantes portugueses e estrangeiros, especialmente os ingleses, os horários das refeições tenderam a se diversificar, especialmente o da principal, o jantar, ao meio-dia. Desta forma, a hora do jantar passou a flutuar em função das exigências da vida, isto é, de acordo com a profissão do dono da casa. Assim, o negociante português, que residia no sobrado do imóvel de sua loja, jantava à uma hora da tarde; o funcionário público, depois das duas horas, quando terminava seu expediente; e o negociante inglês que fechava a sua loja na cidade lá pelas cinco horas da tarde e voltava a cavalo para a sua casa, “num dos arrabaldes mais arejados da cidade”, só jantava às seis horas. As mudanças nos hábitos alimentares nos meios cariocas mais abastados já podiam ser observadas no início dos anos 1830. O pão de farinha de trigo já aparecia à mesa na hora do jantar, o café, como “excelente estimulante”, começava a substituir o chá e o chocolate na primeira refeição matinal e “em muitas famílias uma xícara de café forte” era tomada ao amanhecer, “seguindo-se uma refeição substancial”, o “almoço de garfo”. Aos poucos, o “horário dos estrangeiros” se instalava. A vinda da corte portuguesa para o Rio de Janeiro inaugurou, portanto, um período onde a população recentemente imigrada, mais exigente e mais sofisticada, introduziu o “início do luxo moderno” na mesa carioca. Já em 1817, a cidade “oferecia aos gastrônomos recursos bem satisfatórios, provenientes da afluência prevista dos estrangeiros por ocasião da elevação ao trono de D. João VI”. E, efetivamente, eles trouxeram, juntamente com os ingleses e alemães que eram os comerciantes e viajantes vindos inicialmente em maior número, a necessidade de satisfazer os hábitos de luxo europeu. E, segundo J.-B. Debret, “o primeiro e mais imperioso desses hábitos era o prazer da mesa”.
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