Carlos Malheiro Dias. Trajetória de um intelectual português no Brasil
O escritor português Carlos Malheiro Dias (1875-1941) viveu no Brasil em dois períodos distintos. No fim do século XIX integrou a legião de emigrados portugueses que rumavam para o Brasil em busca da fortuna. Depois, entre 1913 e 1935, já escritor renomado, exilou-se no Brasil em razão de questões políticas e oportunidades econômicas. No Brasil desenvolveu intensa atividade no jornalismo e nas instituições culturais portuguesas localizadas no Rio de Janeiro. Defendeu a aproximação cultural luso-brasileira e polemizou com os intelectuais nacionalistas antilusitanos.
Carlos Malheiro Dias (1875-1941) ocupa uma posição privilegiada nas relações luso-brasileiras, no período compreendido entre o fim do século XIX e o primeiro terço do século XX. O pai, Henrique Malheiro Dias, era representante de uma companhia francesa de seguros e a mãe, Adelaide Carolina de Araújo Pereira, era brasileira natural do Rio Grande do Sul. A ascendência brasileira pelo lado materno foi sempre salientada por Malheiro Dias, principalmente, nos momentos de acirramento das polêmicas em que se envolveu com antagonistas brasileiros. As origens familiares, nesse sentido, atuavam como reforço identitário individual e afetivo do vínculo histórico e cultural entre Brasil e Portugal.
As origens sociais de Malheiro Dias encontram-se enraizadas no meio burguês do Porto oitocentista. Cidade mercantil, voltada para o ultramar e núcleo de imigrantes “torna-viagem” - os “brasileiros” – que, por meio de suas pequenas poupanças ou grandes fortunas, dinamizavam a economia regional, chegando alguns a possuir grande prestígio político. O Porto também fora o fulcro da resistência ao miguelismo e fundamental para a constituição da monarquia liberal portuguesa do século XIX. Um dos avós de Malheiro Dias participou da guerra civil ao lado de D. Pedro IV e dos liberais, fato do qual sempre demonstrou orgulho.Após os estudos no Colégio de Santa Quitéria, em Felgueiras, e no Liceu de Lamego, Malheiro Dias iniciou o curso de Direito em Coimbra, mas logo se transferiu para o Curso Superior de Letras, em Lisboa, concluído em 1899. Entre a conclusão dos estudos liceais e a entrada no curso superior, Malheiro Dias rumou para o Rio de Janeiro, cidade na qual viveu entre 1893-1897 e onde estreou na literatura, publicando contos e folhetins em jornais e revistas literárias. Os motivos da viagem ao Brasil são quase que ausentes nas notícias biográficas sobre Malheiro Dias.1
O comércio e a carreira caixeiral estão no centro dessas motivações e, nesse aspecto, o jovem de 18 anos seguia a trajetória de milhares de jovens emigrantes do norte português que demandavam ao Brasil para trabalhar no retalho e atacado das cidades litorâneas. Oriundo de uma família burguesa envolvida com o comércio, nada mais natural que o direcionamento de Malheiro Dias para essa atividade. Assim, no Rio de Janeiro, empregou-se numa firma de comércio de café em cujas proximidades residia num pequeno quarto cedido pelo patrão.
O jovem caixeiro demonstrou mais intimidade com a literatura do que interesse pelo comércio. O fato foi percebido pelo patrão, o negociante Vasconcelos, que adotou uma atitude condescendente em relação ao aprendiz. Logo, Malheiro Dias tornou-se colaborador de A Semana, revista dirigida por Valentim Magalhães e Max Fleiuss. Uma dessas colaborações mereceu elogios de Valentim Magalhães.2 Em 1894, na linha do romance histórico, tendo como pano de fundo a Antiguidade, Malheiro Dias estréia com um livro denominado Cenários. Fantasias sobre a História Antiga, seguido da peça teatral, em cinco atos, Corações de Todos (1896) e da publicação de A Mulata (1896). Este último romance é ambientado no Rio de Janeiro no início da república, e nele, o jovem Malheiro Dias inspirou-se em elementos colhidos pelo testemunho pessoal tanto dos distúrbios políticos - a guerra civil dos governos de Floriano Peixoto e Prudente de Moraes (revolução federalista, revolta da Armada, a campanha lusófoba) - como da vida literária da época. A publicação de A Mulata (1896) propiciou uma fama precoce ao seu autor, que então se assinava Carlos Dias. A reação ao romance, entretanto, por uma parcela do público motivou o retorno a Portugal. De fato, publicada em plena inquietação nacionalista na primeira década republicana, A Mulata foi alvo de críticas acerbas, mais de cunho político do que literário, e garantiu para o autor uma acolhida bastante desfavorável nos círculos intelectuais e políticos nacionalistas antilusitanos.
A residência no Brasil entre 1893 e 1897 propiciou a Malheiro Dias, de um lado, a estréia na literatura e, de outro, o vínculo com o comércio, empreendimentos aparentemente antagônicos, mas que o acompanharam por toda a vida numa multiplicidade de intervenções na esfera intelectual e na esfera econômica o que possibilitou a tessitura de uma notável rede de sociabilidades. Malheiro Dias fez-se presente nos círculos literários do Rio de Janeiro fin de siècle e relacionou-se com importantes figuras da colônia portuguesa do Rio de Janeiro, indivíduos que integravam a direção das instituições patrocinadas pela elite, como a Beneficência Portuguesa e o Gabinete Português de Leitura, cuja biblioteca freqüentou, como inúmeros outros compatriotas, como leitor e para qual legou sua biblioteca pessoal.
Em Portugal, após o casamento (1898) e da conclusão do curso universitário (1899) Malheiro Dias teve uma rápida ascensão no mundo político, apoiado por relações familiares e de amizade com políticos do partido Regenerador. Em paralelo às atividades políticas dedica-se à literatura e ao jornalismo campos nos quais constrói um sólido prestígio.3 Em 1906, foi eleito para a Classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa e, no ano seguinte, para a Academia Brasileira de Letras, como sócio-correspondente, na vaga de Eça de Queiroz (algo emblemático para um escritor apontado como epígono do realismo queirosiano), por iniciativa de Euclides da Cunha, Olavo Bilac e Salvador de Mendonça. O êxito intelectual, político e mundano foi acompanhado pelo exercício do jornalismo. Tornou-se editor da Ilustração Portuguesa em que, em suas crônicas - As Cartas de Lisboa -, comentava aspectos da sociedade e da capital portuguesa. Esta experiência na imprensa cotidiana foi de grande importância para as atividades que posteriormente desempenhou no Brasil como editor de revistas (Revista da Semana e O Cruzeiro).
O período entre 1899 e 1910 é marcado por uma vertiginosa acumulação de variadas formas de capital social por Malheiro Dias, demonstrável pelas insígnias de reconhecimento social como o recebimento de comendas honoríficas e a participação nas academias. O sucesso de crítica e de público consolidou sua posição no mundo das letras, mas também na mundanidade social da Belle Époque, cujo ápice foi a entrada do escritor no círculo íntimo da casa real portuguesa que o marcou de forma perene. A atração pela monarquia e pela aristocracia fundiária, engrandecida como exemplo da tradição e fidalguia portuguesa, decerto estava associada às origens burguesas de Malheiro Dias. O escritor mostrou-se ao longo da vida desejoso de equiparar-se àqueles grupos, socialmente mais elevados, em razão do nascimento, da cultura ou da fortuna.
Mário Mesquita sublinha o fato de Malheiro Dias ser um escritor dividido entre a modernidade e a tradição. Elogia os latifundiários do Alentejo nas suas crônicas, mas descreve a miséria dos camponeses do Minho em Os Telles de Albergaria.4 A tensão entre a modernidade e a tradição se acentuaria com a proclamação da república, em 5 de outubro de 1910, e a mudança de rumo que operou na trajetória de Malheiro Dias levando-o ao exílio no Brasil como opção pessoal. A lealdade à monarquia, personificada na figura do rei D. Carlos, travou a carreira política de Malheiro Dias, pois se obstinou em não aderir ao novo regime. Esta atitude ia de encontro à adesão de inúmeros políticos e intelectuais ligados à monarquia ao novo regime como os seus amigos Augusto de Castro, Eduardo Schwalbach e Julio Dantas.
Abandono da ficção, afastamento da política parlamentar e isolamento, estas são as características que definiram a vida pública de Malheiro Dias, após a queda da monarquia e foram, por ele próprio, assumidas enquanto tomava corpo o comentarista da contemporaneidade e advogado da moderação política. O interesse maior de Malheiro Dias centrava-se nas vicissitudes da república, principalmente, a radicalização política empreendida pela facção do Partido Republicano liderada por Afonso Costa, ministro da Justiça em 1911-1912 e presidente do Conselho de Ministros entre 1913 e 1914, o protótipo do político republicano democrata cujas práticas políticas voltadas para a “rua” iam de encontro às atitudes de concertação, moderação e tolerância valorizadas pela cultura política liberal. Para um monárquico liberal como Malheiro Dias tratava-se de uma ruptura com as condições de governabilidade do Estado e do exercício da autoridade pública, pois a política do liberalismo parlamentar marcada pelo equilíbrio era substituída por ações incitadoras da inquietação social. A demagogia democrática, nascida da Revolução Francesa, sufocava as capacidades criadoras e a independência das elites para em seu lugar instalar a ignorância e uma nova tirania, a da plebe: “Não há nada menos democrático do que a revolução. A revolução é a tirania voltada pelo avesso”. A aversão à democracia seria depois, aprofundada com a perspectiva de que as “idéias francesas”, alheias à realidade do país, fracionavam o povo entre réprobos e eleitos e dilacerava a nação. 5
Aos problemas políticos e financeiros, juntaram-se outros de ordem íntima e familiar que o levaram a emigração voluntária no Brasil, em 1913 No plano político doutrinário, após a guerra de 1914, Malheiro Dias adotou o nacionalismo tradicionalista, mas na literatura, mesmo com nuances, afirmou, como no prefácio de Jardim das Tormentas, de Aquilino Ribeiro, uma sensibilidade artística aberta para novas estéticas literárias.
No Brasil, em 1915, Malheiro Dias tornou-se sócio da Companhia Editora Americana proprietária da Revista da Semana, então uma das principais publicações semanais editadas no Rio de Janeiro, em que introduziu várias modificações na impressão (importação de máquinas dos Estados Unidos) além de enfatizar o público leitor feminino e notícias na vida mundana. Estas características não impediram que a Revista da Semana destacasse o desenrolar da guerra e que as simpatias pela Tríplice Entente assumissem um caráter explícito com a entrada em março de 1916 de Portugal no conflito.
O esforço de guerra português mobilizou as elites da colônia portuguesa no Brasil. No Rio de Janeiro foi constituída em 1917 a Comissão Pró-Pátria com o objetivo de apoiar o esforço de guerra. Dela faziam parte importantes figuras da comunidade lusa envolvidas com o comércio, a indústria e a finança e a cultura: Espelhando a trégua entre as facções políticas (a União Sagrada) formada em razão do conflito, a Comissão abrigava, entre os seus titulares e colaboradores, monárquicos e republicanos. Malheiro Dias auxiliou a Comissão principalmente na campanha em benefício da Obra de Proteção aos Órfãos de Guerra e na avaliação da viabilidade da História da Colonização Portuguesa no Brasil.
Em razão da Primeira Guerra Mundial, a contestação da cultura política liberal assumiu múltiplas dimensões. Os efeitos da guerra foram percebidos pelo jornalista Malheiro Dias que não se furtou em comentá-los em artigos publicados na grande imprensa do Rio de Janeiro, principalmente em O Paiz, nos quais atacou o expansionismo alemão e o bolchevismo, e apoiou a intervenção portuguesa no conflito. 6
No Brasil, a entrada na guerra em 1917 ocorreu no momento de ascensão da instabilidade social nos meios urbanos e também do início da vaga nacionalista que se espraiaria até meados da década de 20. O antilusitanismo, uma das faces da desconfiança em relação ao estrangeiro, mormente ao imigrante, retornou com força acompanhando os debates em torno da questão nacional e da crise do Estado liberal oligárquico. Nestas polêmicas a imprensa foi um campo fértil de manifestações para a mobilização da opinião pública por parte de diversos grupos de pressão reunidos em diversas formas de associação (ligas, centros, partidos). A discussão em torno da influência da herança colonial e de Portugal na formação da nacionalidade brasileira ou no seu caráter inconcluso abrangeu desde a dimensão cultural até a avaliação da presença e ação do imigrante português no meio social. As lutas de representação travadas em torno de uma memória a ser chamada de “nacional” mobilizou um espectro amplo da intelectualidade da época, os especialistas dotados da eficácia argumentativa capaz de balizar e interpretar de forma lógica as múltiplas perspectivas sobre a história luso-brasileira.
Nesse contexto, Malheiro Dias adquiriu proeminência na defesa da herança portuguesa no Brasil frente tanto ao discurso antilusitano e lusófobo quanto às reações brasilófobas que este provocou em Portugal e em parte da colônia portuguesa. Nestas intervenções, ele assumiu-se como “escritor luso-brasileiro” com o qual foi louvado nos panegíricos construídos em torno da “fraternidade luso-brasileira” (João de Barros e Nuno Simões) e prestigiado como orador oficial do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro.
É no período da guerra, a partir de 1916 com a conferência Rumo à Terra, que Malheiro Dias intervém de forma constante nas questões políticas e culturais do lusobrasileirismo. Esse envolvimento marcou também o “retorno” do escritor à vida cultural e política portuguesa da qual mantivera afastamento desde emigração para o Brasil no fim de 1913. No Brasil, Malheiro Dias defendeu a prevalência portuguesa - tanto no aspecto cultural quanto social - na formação da nação brasileira. Esta tese guiou a organização e a escrita da História da Colonização Portuguesa do Brasil assim como os discursos pronunciados por ocasião das comemorações do centenário da Independência em 1922 e encaminhou as polêmicas em torno da literatura e da história nas quais procurava tangenciar a política interna brasileira de modo a não ferir as sensibilidades extremadas pelo fervor nacionalista. A cautela, porém, teve parcos resultados, como demonstra as polêmicas travadas com João Ribeiro, Antonio Torres e Jackson de Figueiredo entre 1918 e a primeira metade dos anos 1920. De fato, Malheiro Dias tornou-se alvo da lusofobia do semanário ultranacionalista Gil Blas tão atacado quanto João do Rio.
A polêmica não se limitou aos antilusitanos. A estratégia de moderação e comprometimento do escritor na consolidação das relações Brasil-Portugal gerou reações adversas em alguns setores da colônia portuguesa no Rio de Janeiro e também em Portugal. Nesse caso mesclavam-se fatores da política interna dos dois países na passagem dos anos dez para os anos vinte. O fim do consulado sidonista (dezembro de 1918) e da guerra trouxe novamente à descoberto a divisão das elites da colônia portuguesa entre republicanos (principalmente os partidários de Afonso Costa) e um amálgama de insatisfeitos que reunia desde monarquistas até aqueles autoidentificados como patriotas descontentes com a situação vivida pela mãe-pátria. Malheiro Dias foi chamado de monárquico e arrivista pelos “afonsistas” que controlavam o Grêmio Republicano Português no Rio de Janeiro. Era o porta-voz das elites antirepublicanas da colônia, os “grandes comendeiros” encastelados no Gabinete Português de Leitura.
A questão dos poveiros (1920) e os ataques à Portugal promovidos pela imprensa e associações nativistas causaram inquietação entre os imigrantes no Brasil e em Portugal houve uma reação brasilófoba cuja manifestação mais incisiva foram as invectivas dos jornalistas Guedes de Oliveira em O Primeiro de Janeiro e Homem Christo em O Povo de Aveiro.
Malheiro Dias procurou, mais uma vez, o “juste milieu”. De um lado, defendeu a posição dos pescadores portugueses - os poveiros - instalados no Brasil. Louvou-os como patriotas que preferiram retirar-se do Brasil a perder a nacionalidade portuguesa. Por outro lado, criticou a campanha antibrasileira conduzida por Guedes de Oliveira e Homem Christo e dissociou do sentimento lusófobo as autoridades brasileiras, simbolizadas pelo presidente Epitácio Pessoa. Os lusófobos estavam isolados no contexto da sociedade brasileira e circunscritos a cidade do Rio de Janeiro.
O pseudo Brasil nativista (...) circunscreve-se ao Rio de Janeiro, e no Rio de Janeiro à pequena sala de redação dum panfleto jacobino, onde alguns patriotas escrevem desaforos contra Portugal e os portugueses, a que o Sr. Homem Christo replicava no Povo de Aveiro, com desaforos ao Brasil e aos brasileiros.7
No âmbito de Portugal, Malheiro Dias, apresentava-se como um defensor do lusobrasileirismo. Esta atitude esteve associada também à sua intervenção na política e cultura portuguesa contemporânea na qual a nação era interpretada pelo viés tradicionalista, idealista e socialmente conservador. E esta posição foi manifestada na polêmica travada com António Sérgio entre 1924 e 1925, em torno da publicação de Exortação à mocidade.8
As visitas mais constantes a Portugal, a partir de 1917, levaram Malheiro Dias a manter contato e assimilar o nacionalismo reacionário e o antiliberalismo de correntes político-ideológicas disseminadas desde o período pré-guerra na Europa ocidental como a Action Française de Charles Maurras e divulgadas em Portugal no ideário do Integralismo Lusitano de António Sardinha, Alberto Monsaraz, Hipólito Raposo e Luís de Almeida Braga. O conservadorismo social e o nacionalismo mesclados ainda ao liberalismo que caracterizaram o pensamento político de Malheiro Dias nestes anos encontraram no Integralismo aspectos doutrinários bastante atraentes - como o tradicionalismo, o passadismo e o anátema do vintismo - para torná-lo um simpatizante deste movimento. 9
Se a Exortação à Mocidade é o auge da atividade de polemista e a História da Colonização Portuguesa do Brasil um esforço ímpar de erudição histórica, a fundação e o êxito editorial de O Cruzeiro (1928) significaram a fortuna e a segurança financeira almejadas desde a mocidade por Malheiro Dias como coroamento de uma projeção social conquistada como homem de letras. Em seguida, a presidência da Federação das Associações Portuguesas no Brasil (1931) foi um reconhecimento ao intelectual que ao longo dos anos vinte combateu pela defesa dos interesses de Portugal no Brasil, mas principalmente pela construção da fraternidade luso-brasileira. A fortuna amealhada no Brasil, porém, perdeu-se em negócios que escapavam da sua compreensão. Homem de boa fé e inapto para o comércio esta seria no entendimento de Sarmento Pimentel, a combinação de qualidades fatais na vida de Malheiro Dias.
Na década de 30 as concepções de uma sociedade pautada pela hierarquia, ordem e tradição com as elites numa posição central pareciam próximas do triunfo. Se em Portugal, o “prodigioso taumaturgo Oliveira Salazar” 10 já iniciara a reconstrução da nação sob a égide de sua férrea autoridade, no Brasil o mesmo caminho era trilhado por meio do movimento integralista liderado por Plínio Salgado.11 O Estado Novo aparentava ser a restauração do Portugal tradicional. Liberto das injunções da tirania da maioria fundada pela república democrática, a nação recuperava a identidade e a glória dos Descobrimentos. Esta imagem envolveu e conquistou o pensamento, e atraiu o apoio de uma fração da intelectualidade portuguesa desiludida do liberalismo e marcadamente nacionalista como foi o caso de Malheiro Dias cujos discursos, na primeira metade dos anos 30 no Brasil e em Portugal exaltavam a ditadura de Salazar.
A malograda nomeação para embaixador na Espanha, em 1935, seria a recompensa à sua adesão ao regime12 ou nas palavras de Sarmento Pimentel, Salazar “trouxe-o à corda com a promessa de fazê-lo embaixador em Madrid”.13 Talvez a embaixada fosse algo mais transcendental do que recompensa ou astúcia de Salazar. Para Augusto de Castro, tratava-se de uma aspiração da adolescência e a consagração oficial da existência moral e material de Malheiro Dias. 14
A incerteza quanto à efetivação da embaixada, em razão da gravidade da doença que o vitimara na mesma época, trouxe dissabores a Malheiro Dias então em difícil situação financeira e só foi solucionado pela intervenção de Marcelo Caetano, admirador confesso do escritor.15 O distanciamento do regime salazarista teve motivações que extrapolavam o malogro da embaixada na Espanha. Por certo, o sentimento nacionalista e patriótico foi apaziguado com a estabilidade autoritária proporcionada pelo regime e a mística imperial para o qual Malheiro Dias colaborou em seus escritos principalmente na década de 20. No fim dos anos 30, contudo, ele já expressava a alguns confidentes, como Joaquim Paço d`Arcos e José Osório de Oliveira, a desilusão e o desconforto com o regime de Salazar, ao menos com a asfixia cultural, a censura e a violação da dignidade humana.16
No relato do seu encontro com o escritor alquebrado pela hemiplegia, Paço d´Arcos aponta os indícios desta mudança no reconhecimento que Malheiro Dias lhe fizera da posição adotada por António Sérgio - “António Sérgio tinha razão!” - na polêmica travada entre ambos no início da década de 20 sobre o sebastianismo.17 Por sua vez, Osório de Oliveira, um antigo simpatizante do Integralismo Lusitano, numa missiva destinada a Malheiro Dias faz alusão a uma “longa e comovente carta sobre as suas desilusões políticas” que confirmaria o afastamento do autor de Exortação à Mocidade da ditadura salazarista.18 A desilusão de Malheiro Dias com o salazarismo não estava isolada no meio intelectual nacionalista cuja crítica, efetuada na esfera privada e de forma cautelosa, centrava-se no esmagamento do individualismo e da cultura que identificavam nas práticas políticas do fascismo mas também do bolchevismo.19
O dilema moral ou o tolhimento da liberdade de criação artística se mostrou insuficiente para que, nesse período, uma fração da intelectualidade portuguesa, nacionalista e antiliberal, evitasse a cooperação com o regime. Vários outros correspondentes de Malheiro Dias exerciam funções públicas de certa importância na burocracia do Estado Novo. Osório de Oliveira era funcionário do Ministério das Colônias e mais tarde do Secretariado Nacional de Informação. Paço d´Arcos, em 1936, chefiava a seção de imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros.20 Nesse contexto, as honrarias concedidas a Malheiro Dias no ocaso da carreira como a vaga na Academia Portuguesa de História, recriada em 1937, ou a sua indicação para cerimônias oficiais, como o Congresso Luso-Brasileiro de História, em 1940, não são surpreendentes.21
No Brasil, durante a primeira metade da década de 30, Malheiro Dias, além da presidência da Federação, dedicou-se a conferências nas associações e grêmios portugueses e ao envio de artigos para o Diário de Notícias (dirigido pelo seu amigo Eduardo Schwalbach) até ser acometido, em 1934, pela hemiplegia que o deixou afásico e incapacitado para o exercício da embaixada em Madrid. O retorno definitivo a Portugal, em 1935, ocorreu debaixo de uma situação bastante delicada. A saúde abalada, a falência econômica e a frustrada embaixada formam o pano de fundo dos últimos anos de vida de Malheiro Dias. Julio Dantas, seu amigo de quase meio século, ao discursar no sepultamento sublinhou as características literárias da obra de Malheiro Dias, mas, principalmente, destacou o fato de que a vida do escritor/criador ter superado o drama dos personagens saídos da sua imaginação.22 No mesmo sentido, Augusto de Castro caracterizou Malheiro Dias, como o romancista da desilusão:
E esse foi, de resto, o seu próprio drama – drama íntimo, drama vivido, que só tem, entre nós, paralelo com a fatalidade de Camilo, de quem ele herdara o gênio da desgraça. Ninguém esperou mais da vida. Ninguém dela menos teve. (...) O destino pareceu sempre comprazer-se em tudo lhe prometer – e tudo lhe recusar. 23
Carlos Drummond de Andrade, numa entrevista concedida em 1984 à jornalista Leonor Xavier, recupera Malheiro Dias como um homem de grande cultura, valorizando a outra vertente da vida do escritor português, o seu lugar no mundo das letras.
Na década de 20 morou no Brasil e era diretor de revistas semanais um autor português muito discutido chamado Carlos Malheiro Dias, organizador daquela monumental História da Colonização Portuguesa do Brasil. Já viu esse livro? Eu vou lhe mostrar. É uma coisa realmente monumental, uma coisa estupenda. Esse homem era monarquista e saiu de Portugal para ganhar a vida, em função de revistas mundanas, revistas fúteis aqui, embora fosse um homem de grande categoria. Depois, entrou em entendimentos com capitalistas brasileiros e fundou-se uma editora que publicava os livros portugueses no Brasil, feitos aqui mesmo, e também livros brasileiros que deveriam ter divulgação em Portugal. Muitos desses livros que eu conheci eram publicados por eles. 24
A trajetória intelectual de Carlos Malheiro Dias desdobrou-se na política e na cultura. Patriota e homem de categoria. Espectador de um mundo em transformação e no qual, ao mesmo tempo, intentou exercer um papel ativo e influente como romancista ou formador de opinião. Malheiro Dias não foi um inovador na literatura ou um formulador original de idéias políticas. Na literatura e na política aplicou com eficiência, dedicação e talento pressupostos estéticos literários e teorias políticas extraídos do seu mundo histórico e social e com os quais tinha identificação. Nas clivagens ideológicas, acirradas em Portugal a partir de 1910, acompanhou a transição de frações significativas da intelectualidade lusitana do liberalismo para o nacionalismo e vinculou-se a uma dessas correntes nacionalistas, o nacionalismo tradicionalista, tornando-se um simpatizante do nacionalismo integral de António Sardinha.
No caso das relações luso-brasileiras, outros intelectuais emigrados para o Brasil, antes ou depois de Malheiro Dias, também deixaram as marcas da passagem nas terras de Santa Cruz como Álvaro Pinto, Fidelino de Figueiredo, Jaime Cortesão, Jorge de Sena, Adolfo Casais Monteiro e Agostinho da Silva. Malheiro Dias, em sua época, ocupou um lugar privilegiado nos interstícios da colônia portuguesa da qual se apresentou, e foi combatido por isto, como intérprete e de onde militou pela aproximação luso-brasileira. Este lugar ou espaço estava alicerçado numa sólida formação cultural e uma enorme força de trabalho intelectual que ia da literatura à história, da crônica jornalística a conferências, paralisada apenas pela doença que o vitimou já sexagenário. No Brasil recuperou de certa forma a projeção social e intelectual que desfrutara em Portugal no início do século XX. As escolhas efetuadas no campo intelectual e político podem ter sido equivocadas, anacrônicas ou guiadas por um resistente sentimento saudosista. Mas simbolizam as condições do seu tempo e um exemplo, resgatado da massa documental, de como o indivíduo desafiou, respondeu ou sensibilizou-se com e na história, ou seja, como um ser histórico e social que explica a história e por meio dela é compreendido.
1 Cf. Vida Social. Carlos Malheiro Dias. O Paiz, 29.6.1918.
2 Tratava-se do excerto de um romance histórico ambientado na União Ibérica. Cf. Max Fleiuss. A Semana. Crônicas de Saudades. (1893-1895). Rio de Janeiro: s.ed. 1915, p. 28.
3 Datam desse período a publicação dos romances O Filho das ervas (1900), Os Telles de Albergaria (1901) e Paixão de Maria do Céu (1902); da peça teatral O Grande Cagliostro (1905) e do volume de contos de A Vencida (1907). É agraciado com as comendas e ordens honoríficas, como a comenda de São Tiago concedida pelo rei D. Carlos, após a récita de O Grande Cagliostro.
4 Mário Mesquita. Introdução. In: Carlos Malheiro Dias. Ciclorama crítico de um tempo (Antologia), p. 17.
5 Carlos Malheiro Dias. Prefácio. In: Aquilino Ribeiro. Jardim das Tormentas. Lisboa/Rio: Aillaud, Alves & Cia/
Francisco Alves & Cia., 1913, p. XII-XIII.
6 Carlos Malheiro Dias. A Esperança e a Morte. Lisboa/Rio de Janeiro: Portugal e Brasil Ltda. Sociedade Editora – Cia. Editora Americana/Livraria Francisco Alves. s.d.
7 Carlos Malheiro Dias. Carta aos Estudantes Portugueses. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada. s.d. ,p.10.
8 Embora de uma geração intelectual anterior, identificada à conjuntura do Ultimato inglês de 1890, Malheiro Dias compartilhava o ideário nacionalista proclamado por grupos intelectuais ascendentes com o novo regime republicano em 1910 como o Integralismo Lusitano ou aqueles reunidos em torno das revistas A Águia, Orfeu e Seara Nova.
9 “O integralismo agudamente diagnosticou a enfermidade que, há pouco mais de um século, vem devastando e desassociando a alma coletiva da nação portuguesa. Eis-nos perante a causa primária, invisível à insensibilidade da análise racionalista, de onde deriva o cortejo dos nossos males”. Carlos Malheiro Dias. Exortação à mocidade. Nova edição precedida de uma resposta à carta – prefácio do sr. António Sérgio no seu livro “O Desejado”. Lisboa: Portugal-Brasil Sociedade Editora Arthur Brandão & Cia., 1925, p. 29.
10 Carlos Malheiro Dias. Discurso no lançamento da pedra fundamental do prédio do Liceu Literário. Liceu Literário Português: 100 anos de vida a serviço do ensino e da cultura. Rio de Janeiro: s/ed. 1968, p. 33.
11 Carlos Malheiro Dias. Plínio Salgado. In: Pensadores brasileiros. Pequena Antologia.Lisboa: Livraria Bertrand, s.d., p. 133-154.
12 Cf. Eduardo Schwalbach. A lareira do passado. Lisboa: Edição do Autor, 1944, p. 382.
13 Norberto Lopes. Sarmento Pimentel ou uma geração traída. Diálogos de Norberto Lopes com o autor das “Memórias do Capitão”. Lisboa: Editorial Áster, 1977, p. 161.
14 Augusto de Castro. O Ultimo grande romântico. In: Homens e Sombras. Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade, s.d., p. 161.
15 Carta de Marcelo Caetano a Malheiro Dias. Lisboa. 27.7.1937. J 74. Real Gabinete Português de Leitura (RGPL). Coleção Carlos Malheiro Dias.
16 Carta de C. Viana a Malheiro Dias. Lisboa. 27.03.1937. J36 /J37. RGPL. Coleção Carlos Malheiro Dias.
17 Joaquim Paço d’Arcos. Carlos Malheiro Dias. Escritor Luso-Brasileiro. Ocidente, LX (274-277), p. 1-76. IV Colóquio Internacional dos Estudos Luso-Brasileiros. Salvador: 1959, p. 63-64.
18 Carta de José Osório de Oliveira a Malheiro Dias. Lisboa, 14.1.1938. J83. RGPL. Coleção Carlos Malheiro Dias.
19 Trata-se de uma situação complexa como observa Rafael Gonçalo Filipe. “Estamos no domínio das conjecturas (...) não nos custa admitir que ele, como homens da envergadura moral de um Afonso Lopes Vieira ou de um Luís de Almeida Braga, tivesse tomado funda e apreensiva consciência da lógica liberticida e catastrófica do Estado salazarista, então (estávamos em 1939), no ápice da sua arrogância”. Rafael Gonçalo Gomes Filipe. Introdução. In: Em redor de um grande drama (Antologia 1905-1925). Lisboa: Veja, 1985, p. 25.
20 Cf. Massaud Moisés. A Literatura Portuguesa. 12ª ed. São Paulo: Editora Cultrix, 1974, p. 363.
21 A inauguração do Congresso Luso-Brasileiro de História na Academia de Ciências. Comemorações centenárias (jornal s.i., s.d.). RGPL. Recortes de Jornais. Coleção Carlos Malheiro Dias. A comitiva do Brasil ao congresso visitou Malheiro Dias. O grupo era formado pelo general Francisco José Pinto, Olegário Mariano, Melo Franco e Edmundo da Luz Pinto. Cf. A embaixada brasileira visitou, ontem, o insigne escritor. A Voz, 1940. RGPL. Recortes de Jornais. Coisas da minha vida e do meu tempo. Coleção Carlos Malheiro Dias.
22 Cf. João Bigotte Chorão. Carlos Malheiro Dias na ficção e na História. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa (ICALP), 1992, p. 101.
23 Augusto de Castro. Op .cit.,. p. 161.
24 Diário de Notícias. Lisboa. 7.10.1984. Apud Arnaldo Saraiva. O Modernismo Brasileiro e o Modernismo Português: Subsídios para o seu Estudo e para a História das suas relações. Campinas: Editora da Unicamp, 2004, p. 617.




