Gaúchos, matutos e sertanejos: identidades em contraste na literatura e no pensamento político brasileiro
Este trabalho objetiva analisar a criação de uma oposição simbólica o gaúcho e os demais tipos regionais brasileiros, tomando como referência os dois volumes da obra “Populações Meridionais do Brasil”, de Oliveira Viana. O primeiro volume, publicado em 1920, é dedicado à caracterização do homem do centro-sul, enquanto o segundo, publicado postumamente, em 1952, é o esboço de uma grande obra inacabada sobre a organização social do extremo sul do país. A partir daí, buscaremos definir a criação de uma mitologia da identidade gaúcha, delimitando contornos ideológicos que, no limite, conduzem à idéia de uma função política sui generis a ser assumida pelo Rio Grande do Sul no âmbito nacional. Para tal, pretendemos incorporar referências a escritores como Euclides da Cunha, Alcides Maya e Roque Callage, numa análise comparativa que observe o diálogo entre a história, a literatura e o discurso político.
A partir das últimas décadas do século XIX, a descrição do gaúcho como tipo social característico do extremo-sul do Brasil firmou-se como um tema da literatura, da historiografia e dos estudos sociais, em nível regional e nacional. Definir as peculiaridades do homem sulino compreendia explicar sua gênese social, interpretar sua experiência histórica, descrever seus modos de vida, sua cultura material e sua mentalidade, determinar seu papel na construção da nação brasileira e contrastá-lo com os demais tipos regionais brasileiros, uma vez que toda criação identitária apóia-se no estabelecimento da diferença em relação aos demais. A construção do mito do gaúcho foi determinada, sobretudo, por uma dada interpretação da experiência histórica do Rio Grande do Sul, de forma que, em diversos momentos, imaginação literária, historiografia e análise sociológica acabaram por aproximar-se. Neste trabalho, buscaremos acompanhar algumas expressões do arquétipo do gaúcho, estabelecendo alguns pontos de apoio para o entendimento de sua manifestação na obra de Oliveira Viana, maior teórico do autoritarismo brasileiro, que dedicou ao tipo regional do extremo-sul um volume de análise sociológica fortemente contaminada pela mitificação literária.
Em célebre ensaio, Augusto Meyer descreveu o lento processo histórico de transformação do sentido da palavra “gaúcho”. Durante o século XVIII e até o início do século XIX, confundia-se com “guasca” e “gaudério”, definindo o tipo aventureiro voltado ao furto, ao contrabando ou ao coureamento, agregado às tropas em missões esporádicas relacionadas aos conflitos de fronteira, ou contratados para a prestação de serviços ocasionais aos proprietários. O termo “gaúcho”, relativo aos mestiços indígenas, nômades por natureza, assumia uma conotação, portanto, inteiramente depreciativa, num contexto em que a extrema concentração da propriedade territorial e os conflitos comerciais com a região platina os condenavam a uma condição marginal face ao mundo da lei, do trabalho regular e da efetiva ocupação da terra. Em meados do século XIX, entretanto, as transformações sociais relacionadas à intensificação e organização das atividades produtivas e dos esforços de defesa do território explicam uma gradativa positivação do termo. Aquele tipo social passa a ser incorporado de forma mais sistemática à rotina das estâncias e aos conflitos bélicos e, à medida que atende a demandas sociais mais prementes e constantes, o tipo gaúcho passa a ser valorizado por atributos de fato relacionados à sua vida marginal, mas então socialmente convenientes: a destreza nas lides campeiras e na guerra, o que os convertia em um duplo personagem, peão em tempos de paz e soldado em tempos de confronto. Daí em diante, a palavra “gaúcho” se vê nobilitada a ponto de tornar-se um gentílico definidor da população sul-rio-grandense, revertidos seus aspectos degradantes em encomiásticos: o ócio em liberdade, a violência em bravura, a rebeldia em altivez. A transformação de uma palavra denota, como demonstra o autor, uma romantização do antigo elemento social do Rio Grande, processo que acaba por desfigurar a história em favor da criação de um mito de longa duração.1 O texto de Meyer é uma referência fundamental para se observar as possibilidades de manipulação dos dados da realidade objetiva e da observação histórica de acordo com uma certa operacionalidade ideológica: o enobrecimento da virtude bélica capaz de cooptar a população rural em torno de objetivos defensivos e de apoio à hegemonia das classes proprietárias.
O arquétipo heróico do gaúcho emergiria na literatura brasileira em 1870, através da pena de José de Alencar, que o tomou como o primeiro tipo regional a ser explorado no contexto de seu projeto regionalista, embasado pelo discurso, mais tarde convertido inúmeras vezes em fundamentação programática, da tendência dos povos jovens à imitação do estrangeiro, da dissolução dos costumes legitimamente nacionais sob o influxo da civilização européia, da busca de exploração das verdadeiras reservas de brasilidade representada pelos tipos rurais.2 O gaúcho de Alencar nada mais é do que uma das variantes dos tipos heróicos que povoam suas narrativas românticas, alimentado por doses extras de galhardia e belicosidade. Manuel Canho reúne os clássicos atributos do gaúcho típico: agilidade, vigor físico e rigidez moral, estrita lealdade à honra familiar, instinto vingativo, bravura e ímpeto guerreiro, apego desmedido aos cavalos, ódio ao castelhano e obediência irrestrita ao chefe militar – no caso, Bento Gonçalves. A comunicação com a história regional é então estabelecida como verdadeiro princípio de uma literatura que, desde seus primórdios, dialoga com o passado, seja como testemunho da memória social, escrita a partir de experiências individuais exemplares, seja como coadjuvante da escrita historiográfica, ao fixar o sentido dos fatos, mormente a consagração dos heróis, a defesa do ideal civilizatório representado pelo respeito aos valores e convenções sociais e à lei e, sobretudo, a inquestionável fidelidade ao Brasil, que espanta o fantasma separatista ao afirmar a Revolução Farroupilha como manifestação de um ideal libertário em última instância patriótico.3
Foi sob a inspiração de Alencar, dos poetas do romantismo brasileiro e do romance histórico do Alexandre Herculano que a literatura produzida no Rio Grande do Sul começou a produzir sua auto-imagem.4 O vaqueano José de Avençal, de Apolinário Porto Alegre, do romance surgido em 1872, reúne os atributos marciais que consagraram o tipo gaúcho na literatura regionalista, combinados com as virtudes do herói romântico agradável ao público urbano, homem gentil, sensível e introspectivo, que “nos combates era o delírio personificado” e, simultaneamente, da guerra “saía sempre incólume, ainda que pesaroso”, sob o olhar admirado e respeitoso de seus iguais. O José de Avençal de Apolinário é um cognato do Manuel Canho de Alencar, reproduzindo suas virtudes, motivações e lealdades, mas cabe ressaltar dois aspectos da obra do escritor rio-grandense dotados de significativa relevância ideológica. Em primeiro lugar, afirma-se que as qualidades que definiam seu protagonista eram, com a exceção de seu misterioso ar melancólico, comuns não apenas ao homem da campanha, mas ao habitante do Rio Grande do Sul, em geral: “Os principais traços característicos de fisionomia que esboçamos de leve são tão reais, que os encontramos a cada passo em nossa Província, desde o posteiro até o senhor da estância, desde a existência errante do tropeiro até a existência sedentária do guasqueiro ou trançador de lonca.”5 Apolinário Porto Alegre opera, neste momento, dois prodígios equivalentes e articulados: consagra o gaúcho como sinônimo do rio-grandense, colando a representação do homem às fronteiras político-administrativas da província, assim afirmando o termo como gentílico, ao mesmo tempo em que defende o caráter democrático da sociedade aí estabelecida – idéia que teria futuramente inúmeros desdobramentos. Ou seja, ao definir o gaúcho, o escritor apaga tanto as diferenças locais, no interior do território da província, quanto as diferenças de classe, no interior de sua estrutura social, criando um tipo transcendente que se prestava à perfeição a um discurso nivelador em que o Rio Grande do Sul apresentava-se como uma causa e de um destino comuns.
A criação literária-ideológica do gaúcho faria longa tradição no Rio Grande do Sul, e se comunicaria à cultura do país de forma algumas vezes inesperada, como é o caso d’Os sertões, de Euclides da Cunha. O próprio Augusto Meyer, ao historiar a palavra “gaúcho”, dedicou-lhe uma brilhante crítica, ao observar a simplória sucessão de clichês mobilizados pelo escritor para compor o gaúcho como a perfeita antítese do sertanejo, “acumulação quase caricata de adjetivos” contrapostos para criar efeito estético, mas vazia de sentido e desprovida de qualquer fundamento sociológico.6 Vale observar, no entanto, mesmo em função da forte influência intelectual exercida pelo escritor, alguns aspectos importantes desta antítese. Devemos ter em mente a ambigüidade com que Euclides da Cunha aborda o sertanejo em sua obra, e não apenas neste trecho, embora análises apressadas tendam a resumir-se à famosa sentença, “antes de tudo, um forte”. Em sua descrição do sertanejo nada denuncia constância, na “intercadência impressionadora entre extremos impulsos e apatias longas.” É difícil imaginar como, passando dois terços de sua existência em uma “rede amolecedora”, o sertanejo seja capaz de exibir tamanha tenacidade e energia, convertendo-se num “centauro bronco” quando repentinamente sua força física é demandada para alguma tarefa excepcionalmente penosa, após a qual decairia, novamente, “com a aparência triste de um inválido esmorecido”.7 Ao contrário, ao referir-se ao gaúcho, não há dubiedade, e sim um tipo definitivo, garboso, íntegro e heróico, que não deixa muito a dever à idealização romântica de José de Alencar e seus epígonos: nenhum dos predicados atribuídos a ele é de fato negativo. Resta ainda lembrar que este contraste, que coloca o tipo gaúcho em evidente vantagem, é também ditado pelo que seria a harmônica relação do homem sulino com o meio físico, à qual se opõe a dura “luta pela vida” do sertanejo, “perfeita tradução moral dos agentes físicos da sua terra”, o que demonstra a ascendência do determinismo geográfico na construção do argumento. Enquanto o gaúcho seria a verdadeira expressão do domínio do homem sobre um meio que fornece a ele completa liberdade e suporte, o sertanejo sobreviveria penosamente a uma árdua e sempre incompleta adaptação a um espaço rude e hostil: enquanto um se diverte, o outro se exaure. O gaúcho “desperta para a vida amando a natureza deslumbrante que o aviventa; e passa pela vida, aventureiro, jovial, diserto, valente e fanfarrão, despreocupado, tendo o trabalho como uma diversão que lhe permite as disparadas, domando distancias, nas pastagens planas, tendo aos ombros, palpitando aos ventos o pala inseparável, como uma flâmula festivamente desdobrada”.8 Além disto, embora seja o único tipo regional brasileiro a ser diretamente comparado com o sertanejo n’Os sertões, o gaúcho não é citado como uma das etnias rurais obsoletas que o escritor vê condenadas à extinção, por sua pretensa incapacidade de progresso: nesta condição são arrolados, juntamente com os sertanejos do Norte, os tabaréus e os caipiras.9
O pensamento de Euclides da Cunha converge neste ponto com o do jovem Alcides Maya que, já antes da publicação d’Os sertões, refletia sobre a relação entre a fixação da identidade regional no contexto da realidade brasileira, conclamando o Rio Grande do Sul a ocupar sua posição de “vanguarda do Brasil”, não exatamente por sua virtude bélica, mas pela canalização de suas energias combativas em direção à modernização do país.10 No artigo “O Rio Grande Mental”, escrito nos últimos anos do século XIX, Maya defende a capacidade do estado de constituir uma cultura própria e original, apesar de um passado belicoso que por longo tempo teria desviado sua vitalidade em direção à guerra, onde, “sem amparo de ninguém, esmagou no berço a serpente castelhana, que o ameaçava”.11 Neste ponto, o tipo rio-grandense é contraposto ao platino, seu habitual antípoda, que se teria deixado contaminar pela luta caudilhesca e desprovida de ideais, enquanto o Rio Grande do Sul mantivera sempre sua lealdade ao Brasil como causa suprema de sua mobilização para guerras sempre legítimas. Simultaneamente a esta afirmação do sentido brasileiro da história do Rio Grande do Sul, o autor estabelece a superioridade do rio-grandense também sobre os demais tipos regionais do país, pois “o mestiço mais característico da história americana é o gaúcho”, afirma ele, argumentando que apenas o mameluco paulista, ou seja, o bandeirante, teria uma história comparável à sua.12 No entanto, esta, como as demais etnias do interior brasileiro, ter-se-ia desvirtuado e desaparecido, sob o influxo da imigração. Já no caso do gaúcho, o autor reforça a idéia de sua integridade física, mesmo defendendo que “desaparecesse o seu tipo fisionômico, tombassem em desuso os seus costumes, os seus trajes, os seus trabalhos, ainda assim, ele ficaria na alma do Rio Grande. O espírito rio-grandense é fundamentalmente gaúcho em algumas de suas notas.”13 Ecoando a identificação entre gaúcho e rio-grandense afirmada por Apolinário Porto Alegre, o autor alega que a base da formação da identidade regional estaria sobretudo em uma mentalidade específica criada sob o influxo do ciclo bélico da Campanha, uma integridade moral resistente à mudança histórica que o autor não reconhece nos demais mestiços brasileiros. Embora baseada no fundamento orgânico – a integridade da “raça” – esta identidade seria capaz de transcendê-la e tornar-se a raiz de uma liderança de ordem moral. O autor, neste sentido, nega o argumento belicista ao mesmo tempo em que o afirma como raiz da vitalidade, física e espiritual, do gaúcho, e fonte privilegiada para a imaginação literária; recusa o determinismo mesológico para, em seguida, afirmar a superioridade do meio físico do Rio Grande do Sul sobre o do restante do país, impondo-o como espaço privilegiado para a criação cultural; da mesma forma, afirma a integridade étnica do gaúcho, para em seguida dispensá-la em prol de uma identidade espiritual mais relevante. A partir dista mistura eclética de retórica romântica e argumentos científicos de ordem racial e geográfica, Alcides Maya constrói um discurso mobilizador colado à interpretação histórica, mas devotado à atribuição de um novo sentido à história do estado, através de uma reformulação do legado guerreiro em que este perde seu sentido literal, convertendo-se em um espírito de comando que constrói a idéia algo messiânica de uma missão a ser cumprida pelo estado em âmbito nacional.
O jornalista e escritor regional Roque Callage é outro exemplo desta prática de valorização da identidade gaúcha a partir de uma perspectiva comparativa. Na visão de Callage, o tipo brasileiro mais representativo era o caboclo, exemplar, no entanto, de uma formação étnica imperfeita e ainda em curso. Sua descrição do mestiço indígena sertanejo recorda as de Monteiro Lobato e Euclides da Cunha, sem a relativização que o higienismo trouxe ao primeiro e sem a observação de caracteres positivos na gênese do homem do sertão, como no caso do segundo – estes autores são, aliás, citados pelo próprio Callage. As expressões que o escritor utiliza, em texto de 1920, para definir o sertanejo, não dão margem a sutilezas: “única mancha que afeia a beleza incomparável do sertão”, “o esboço de um derrotado”, “um vencido antes da luta”, “figura sorna” que não teria experimentado nenhuma evolução ao longo da história brasileira, e que não teria sabido converter em riqueza material a imensa fonte de prosperidade representada pelas matas brasileiras. Este seria apenas um exemplo específico no caso geral da mestiçagem no país, mescla de tipos “inferiores” iniciada com o consórcio entre os criminosos degredados de Portugal e os tipos nativos, “mistura mórbida” que teria o caboclo como resultado. Inversamente, em sua opinião, o tipo regional gaúcho é um depositário das mais nobres virtudes, embora formado pelos mesmos elementos raciais – indígena e “branco suspeito”. A explicação do autor é simplória e lança raízes na teoria mesológica que havia aportado ao Brasil cinqüenta anos antes: no ambiente de florestas, a abundância de meios fáceis de sobrevivência favoreceria o ócio.14 O gaúcho, ao contrário, seria o fruto de outro ambiente, mais saudável, porém menos abundante. Além disto, seus horizontes são amplos, o que daria a ele perspectivas seguras, espantando o temor. “O piraguara sertanista dos roçados fala de cócoras, tímido, indeciso, num resfolegar de raça desfibrada; o ‘guasca’ campeiro, responde de pé, ligeiro e petulante.”15 A lida na guerra e no campo e a intimidade com o cavalo na vida do gaúcho teriam favorecido o desenvolvimento de um físico ágil e de um espírito intrépido, dotado de iniciativa e de constância: eis, renovado, o mito do “centauro dos pampas”. Soma-se a estas idéias a observação da influência positiva da imigração européia, que estaria criando um novo tipo, “uma nova energia triunfante”: o colono gaúcho, que substituíra a guerra pelo esforço sistemático em busca do conforto material. Resta saber aonde nos conduziria, na visão do autor, este contraste entre os dois tipos regionais brasileiros dramaticamente contrapostos. Sua literatura de ficção se dividiria entre o discurso saudosista face à derrocada da tradição campeira e à influência deletéria das inovações tecnológicas sobre as práticas, comportamentos e sensibilidades do gaúcho típico, por um lado e, por outro, a confiança de que “estava ali um Rio Grande novo para ele, mas que seria o Rio Grande de amanhã, desdobrado em novas forças, em novas energias, em novas atividades, em novas expressões de trabalho.”16 Para além da tradição, existiria, portanto, uma essência atemporal capaz de manter a inteireza do tipo gauchesco na modernidade, com todo o vigor e combatividade de seus tempos heróicos.
O trecho citado acima está num conto de Roque Callage dedicado a Oliveira Viana, pensador de expressiva influência política nos anos de 1920, e que elaborou mais uma das expressões da contraposição entre o tipo regional rio-grandense e os demais grupos étnicos brasileiros, com evidente vantagem do primeiro. Vê-se então, como no caso de Euclides da Cunha, que o ufanismo gauchesco não é exclusivo dos intelectuais do Rio Grande do Sul. Em comum, estes três autores, Euclides da Cunha, Roque Callage e Oliveira Viana têm a ênfase no determinismo geográfico, pois afirmam conjuntamente a centralidade do meio físico do pampa na formação da sociedade gaúcha. No caso de Oliveira Viana, a geografia é, de fato, causadora da diferenciação da nacionalidade em três grandes grupos: os matutos, representativos das regiões de cobertura florestal do centro-sul do país, equivalentes aos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, seriam os únicos tipos verdadeiramente nacionais, pois esta região foi predominante na história do país, como núcleo político-administrativo de onde derivaram as diretrizes de seu governo; os gaúchos, habitantes da região de campos, têm sua especificidade explicada pela modelagem do meio físico do pampa, assim como pela influência da base econômica da pecuária e da história dos conflitos platinos; já o tipo sertanejo, que teria como principal representante o cearense das caatingas, é um tipo pastoril cujas condições de desenvolvimento são ditadas pelas condições específicas do meio físico rústico do semi-árido.17
A caracterização do tipo regional gaúcho em oposição ao matuto do centro-sul, rapidamente esboçada no clássico primeiro volume das “Populações Meridionais do Brasil”, foi aprofundada no segundo volume. Em que pese seu caráter inacabado, esta obra dedicada ao campeiro rio-grandense condensa, de forma exemplar, a convergência entre imaginação literária, análise histórica e discurso político, a partir da simbolização do tipo popular, em conformidade com um arquétipo já operativo na cultura rio-grandense e brasileira, embora o discurso de Oliveira Viana pretenda ser, antes de tudo, uma análise científica embasada na teoria sociológica. As fontes em que se apóia o autor são, entretanto, bastante restritas, tanto numérica quanto qualitativamente, o que faz com que sua obra recaia num subjetivismo não muito distinto do que se apresenta nas obras ensaísticas e romanescas citadas acima. Para o jurista fluminense, a condição de fronteira desprotegida face às ameaças externas foi uma fatalidade mesológica que lançou o civismo gaúcho à defesa intransigente de sua terra. Na ausência de obstáculos naturais à invasão estrangeira, estabeleceu-se uma condição de guerra constante em campo aberto, traduzida por Oliveira Viana como uma verdadeira luta entre a barbárie caudilhesca dos platinos e a civilização dos gaúchos brasileiros, assentada numa sólida disciplina militar. Derivada da peculiaridade geográfica que tornaria o território rio-grandense mais suscetível às invasões, a constituição do espírito guerreiro necessário à defesa das propriedades ter-se-ia estabelecido como elemento de organização da sociedade, conferindo aos variados grupos sociais uma direção conjunta nos esforços defensivos, ou seja, táticas sistematizadas que submetiam os lutadores convocados à defesa da terra – os estancieiros e seus sequazes – ao mando dos chefes militares.18
Excepcionalmente dotados para a luta pela vigorosa lida cotidiana na criação de gado, os milicianos campeiros submetidos à estratégia militar integravam-se, postula o sociólogo, a uma poderosa oligarquia armada, verdadeira classe dirigente da região, capaz de exercer, em função do esforço comum de guerra, uma autoridade inquestionável sobre seus subordinados. A natureza do trabalho no campo conferiria, simultaneamente, um aspecto democrático a esta sociedade, uma vez que a elegância, a destreza e o vigor exigidos pelos afazeres da estância dariam ao trabalho uma feição enobrecedora, capaz de congregar as diversas classes sociais, efetivamente cooperantes no cotidiano do trabalho. Similarmente, diz o autor, a escolha dos chefes militares entre os estancieiros era conduzida segundo um processo de debate e eleição, de acordo com critérios meritocráticos que garantiam o imediato referendo da população, não sendo outros senão a habilidade tática, a coragem e a capacidade de organização bélica. Ao contrário, no sertão e no centro-sul do país as chefias impunham-se pelo poder econômico ou pela tradição familiar, e não pelas virtudes de liderança, impondo-se à população sem que esta fosse chamada a se manifestar, o que obstava o desenvolvimento do espírito público, restritas as lealdades ao nível dos clãs locais. No caso gaúcho, os líderes assumiam a responsabilidade de mobilizar o povo para o esforço de guerra, em “ebulição patriótica”. Para o autor, a manifestação das habilidades marciais do rio-grandense em circunstâncias posteriores – a conquista do Acre, por exemplo – demonstrava “a fixidez dos caracteres culturais do grupo gaúcho”,19 definindo-o, ao contrário dos demais tipos nacionais, como uma etnia constituída. A caracterização física do gaúcho por Oliveira Viana nada fica a dever à máxima idealização literária do tipo local, refletindo na descrição física seus pretensos atributos morais: “Em suma, com a sua estatura elevada, o tórax amplo, o corpo espaduado [sic] e musculoso; tendo, na fisionomia franca, um ar de segurança; e a palavra sonora; e a imaginação hiperbólica; e os gestos desembaraçados; e mais a forte tendência para os exageros e as gabolices – tudo indica no gaúcho de outrora, como no gaúcho de hoje, o homem dotado de uma pletora de vida, um equilibrado, um forte, um eugênico, enfim.”20
Estudando a formação do gaúcho, Oliveira Viana caracteriza a guerra como uma escola de liderança em que os chefes desenvolviam seu sentido de autoridade e de comando, o que implicava, acentua ele, no fortalecimento da capacidade de repressão, de imposição da disciplina, de julgamento de condutas, e de determinação de penalidades, o que, segundo o autor, criava uma mentalidade insensível e brutalizada. Por outro lado, a coibição da sensibilidade é vista como necessária à formação do líder político e do estadista, atribuindo a ele “um temperamento admiravelmente adaptado ao exercício da autoridade.”21 Como vemos, mesmo os atributos virtualmente negativos são positivados por esta tipificação que quase nada relativiza, ao construir a imagem do líder regional como uma figura peculiar dentro da galeria de tipos brasileiros. A estas virtudes eminentemente políticas o autor adiciona um elemento que já havia sido desenvolvido no primeiro volume da obra, qual seja, a solidariedade social inspirada, no Rio Grande do Sul, pela articulação de esforços em torno do objetivo comum de defesa contra as agressões externas. As conseqüências disto são de grande relevância, já que indicam um comportamento político totalmente diverso do restante do país, e que responde àquelas virtudes cívicas que, na opinião do autor, só seriam desenvolvidas no Brasil a partir da formação de um estado centralizado capaz de estabelecer a autoridade, conferir uma diretriz segura à vida nacional, e articular os interesses particulares em torno de um projeto comum. À tendência centrífuga das forças políticas do restante do país, identificada por Oliveira Viana, opõe-se automaticamente a consciência de coesão e de disciplina que o jurista identifica no Rio Grande do Sul, extrapolando o ciclo platino por haver configurado uma “‘cultura’ regional”. O estado seria caracterizado, portanto, por uma vocação para a vida pública ausente tanto no centro-sul quanto no Norte do país, instáveis, efêmeros, personalistas, mal dotados para a política por sua incapacidade de estabelecer, espontaneamente, um sentido de autoridade capaz de submeter os interesses individuais ao bem-estar coletivo. Além disto, ressalte-se que, na visão de Oliveira Viana, o “instinto de conservação” que moveu o desenvolvimento da sociedade rio-grandense e que conferiu a ela um original sentido de solidariedade implicou também no desenvolvimento de outra virtude ausente nas demais regiões brasileiras: a consciência de que a ação individual deveria colar-se ao interesse público, baseando-se não na retórica e nos sonhos, mas nas providências concretas a serem tomadas para a reação a problemas reais e imediatos, ao contrário, portanto, do “idealismo” das elites liberais do centro-sul – um dos principais pontos da doutrinação política do autor.
Não há elementos para afirmar com segurança a que serve esta idealização do tipo gaúcho por Oliveira Viana, muito embora seja tentador associar o elogio da autoridade, da capacidade de liderança, do instinto solidário e da consciência do bem público ao processo político de centralização do poder iniciado no Brasil com a Revolução de 1930, com a ascensão do gaúcho Getúlio Vargas ao poder – processo este que teve em Oliveira Viana seu principal ideólogo. O fato é que, já no primeiro volume das “Populações Meridionais do Brasil”, lançado em 1920, o jurista definia algumas das principais virtudes da sociedade gaúcha em oposição ao que seriam as deformações da ordem política do centro-sul. De qualquer modo, a afirmação da especificidade do Rio Grande do Sul no contexto brasileiro construiu uma longa tradição discursiva que se comunicou à literatura, à historiografia, aos estudos sociais e, como vemos, à análise política. Dentre os elementos citados por Oliveira Viana em sua análise, vários já haviam se consolidado como temas literários, conforme vimos acima: a harmonia entre o indivíduo e o meio físico, que comunicaria a ele o apreço pela liberdade; a invencibilidade heróica na guerra, dadas a força, a maleabilidade e agilidade da “cavalaria de centauros”; a lealdade do peão-soldado aos chefes, como escola de obediência e de respeito absoluto à autoridade; a valorização do trabalho na estância, simultaneamente como diversão, formação para a guerra, ocupação cavalheiresca e prática democratizante, por promover o convívio cotidiano de peões e estancieiros; o reconhecimento coletivo ao mérito individual; o instinto patriótico que define suas lutas a partir da fidelidade à causa nacional; a virtude civilizadora frente à barbárie do inimigo platino; o vigor físico de uma etnia pretensamente estável, traduzido cientificamente como qualidade eugênica; a fixação de uma cultura própria e fundamentalmente imutável; a aptidão para o exercício da autoridade e o poder de liderança em âmbito nacional. A partir da criação de uma mitologia enraizada na história do estado, os dados da realidade foram selecionados e significados em função de sua capacidade de mobilização política e de canalização dos conflitos internos e externos em direção a um consenso que, de forma algo dúbia, afirma a pertinência do Rio Grande do Sul à história brasileira, ao mesmo tempo em que atribui ao estado uma missão nada corriqueira: não apenas sua brasilidade é inquestionável, como sua posição é sempre superlativa em face dos destinos nacionais.
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1 MEYER, Augusto. Gaúcho, história de uma palavra. In: Prosa dos pagos. 1941-1959. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1960. p. 9-42.
2 ALENCAR, José de. Prefácio. In: Sonhos d’ouro. São Paulo: Ática, 1981. p. 7-12. 1. ed. 1872.
3 Para tal, ver sobretudo o didático diálogo imaginário entre Bento Gonçalves e o general Juan Lavalleja, herói da independência uruguaia. ALENCAR, José de. O gaúcho. Porto Alegre: L&PM, 2002. p. 29-32.
4 CÉSAR, Guilhermino. História da Literatura do Rio Grande do Sul (1737-1902). 3. ed. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro: Corag, 2006. c. XI. CHAVES, Flávio Loureiro. Simões Lopes Neto. 2. ed. revista. Porto Alegre: Ed. da UFRGS: Instituto Estadual do Livro, 2001. c. 1.
5 PORTO ALEGRE, Apolinário. O vaqueano: narrativa. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1927. 1. ed. 1872. p. 14.
6 MEYER, A., op. cit. nota 1, p. 38.
7 CUNHA, Euclides da. Os sertões. Ed. crítica. São Paulo: Brasiliense, 1985. 1. ed. 1902. p. 181.
8 CUNHA, E. da. op. cit. nota 7, p. 182.
9 CUNHA, E. da. op. cit. nota 7, p. 85.
10 MAYA, Alcides. Nota final. In: Pelo futuro. Porto Alegre: Franco & Irmão, 1987. p. 109-113. Citação: p. 113.
11 MAYA, Alcides. O Rio Grande mental. In: Através da imprensa. Porto Alegre: Octaviano Borba & Irmão, 1900. p. 93-106. Citação: p. 98.
12 MAYA, A. op. cit. nota 9, p. 102.
13 MAYA, A. op. cit. nota 9, p. 102.
14 Sobre a influência do determinismo geográfico sobre a intelectualidade brasileira a partir de 1870, ver MURARI, Luciana. Brasil, ficção geográfica: ciência e nacionalidade no país d’Os sertões. São Paulo: Annablume, 2007. c. 1.
15 CALLAGE, Roque. Índio X Caboclo. In: Terra natal. Aspectos e impressões do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Barcellos, Bertaso & C., 1920. p. 11-15. Citação: p. 15.
16 CALLAGE, Roque. Lida nova. In: Quero-quero. Scenas crioulas. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1927. p. 117-122. Citação: p. 121.
17 VIANNA, Oliveira. Populações meridionais do Brasil. História – Organização – Psicologia. v. 1. Populações rurais do centro-sul. Paulistas – Fluminenses – Mineiros. 5. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1952. 1. ed. 1920. p. 13-17. Seria realizado também um pequeno ensaio sobre a expansão do tipo sertanejo pelo ambiente amazônico. O autor concretizou, no entanto, apenas a primeira parte de seu projeto, o volume das Populações Meridionais do Brasil referente à sociedade matuta. O segundo volume, de que nos ocuparemos, foi publicado postumamente, como esboço de uma obra inacabada sobre o homem do pampa. Já os estudos sobre as populações setentrionais não foram realizados.
18 VIANNA, Oliveira. Populações meridionais do Brasil. História – Organização – Psicologia. v. 2. O campeador rio-grandense. 5. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1952. c. IX.
19 Op. cit. nota 17, p. 200.
20 Op. cit. nota 17, p. 335.
21 Op. cit. nota 17, p. 204.




