O diário da imigrante britânica Caroline T.: trabalho e sociabilidades. Curitiba: 1880-1882
Nas décadas de 1860 e 1870, Paraná, Santa Catarina e São Paulo receberam grandes levas de imigrantes ingleses, irlandeses e escoceses. Nas três províncias, eles eram encaminhados para as colônias agrícolas de Assunguy, Príncipe Dom Pedro e Cananéia, respectivamente, mas a grande maioria não permaneceu naquelas localidades definitivamente. Sua insatisfação com condições de vida em grande medida desfavoráveis, e o consequente alto grau de mobilidade, tornou-os notórios. Enquanto uns procuraram retornar para seus países de origem, outros mudaram para outras cidades brasileiras e/ou países estrangeiros. Alguns estabeleceram-se em Curitiba, formaram empresas de serviços e produtos, e desenvolveram laços de amizade e parentesco, com outros imigrantes e com brasileiros. Caroline T. chegou ao Paraná, com seu marido e filhos, em dezembro de 1868. Em 1880, viúva há seis anos, decidiu mudar-se para Curitiba. Seu diário registra uma seleção de acontecimentos do seu cotidiano, da cidade e de outros residentes, mesclando suas vidas públicas e privadas, universo que pudemos ampliar através de pesquisas nos periódicos locais.
No ano de 1859-60, um Decreto Imperial criou, no Paraná, a Colônia do Assunguy. Localizada a aproximadamente 100 km de Curitiba, foi planejada para receber imigrantes europeus, mas, eventualmente, passou a aceitar brasileiros, que acabaram por tornar-se maioria naquela comunidade composta também de alemães, franceses, ingleses, irlandeses, poloneses, italianos, espanhóis, portugueses e islandeses. Colônias agrícolas para recebimento de imigrantes europeus, similares à Assunguy também foram fundadas em Santa Catarina (Príncipe Dom Pedro, na região de Itajaí) e São Paulo (Cananéia). A grande maioria dos colonos britânicos no Assunguy e em Cananéia eram ingleses, tendo quase todos os irlandeses e/ou católicos de Wednesbury sido encaminhados para Santa Catarina. Todas enfrentaram um alto grau de mobilidade, principalmente por parte dos imigrantes britânicos, cuja insatisfação com as condições encontradas tornou-se notória através de manifestações públicas, divulgação nos periódicos locais, da capital do império e de seus países de origem, e correspondências enviadas às suas representações diplomáticas no Brasili. Eram muitas as queixas dos britânicos. Alvo de uma intensa campanha imigratória, tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos, deixaram seus países com a promessa de que aqui encontrariam todas as condições imagináveis para o sucesso de suas empreitadas. Na verdade, as descrições edênicasii das regiões para onde seriam enviados -: planícies de terras férteis e apropriadas para toda e qualquer cultura, criação de animais e extração dos mais valiosos metais; suaves condições de aquisição de amplas faixas de terras, já prontas para a construção de suas casas e o plantio de algumas espécies; sementes e ferramentas; oferta de trabalho em obras públicas; locais para o culto de suas 2 religiões, a educação de seus filhos e o tratamento de suas saúdes, e muito mais – eram boas demais para se revelarem verdadeiras. Mas, entre os encorajadores da imigração para o Brasil encontravam-se: sindicatos ingleses de trabalhadores, escritórios diplomáticos, agentes de imigração brasileiros, como Quintino Bocaiúva e Joaquim de Almeida Portugaliii -, ingleses – como Thomas Alsop em Warwickshire, Edward Haynes in Oxfordshire e William Ebenezer Yeats em Gloucestershire, e até mesmo um padre, George Montgomery. Pároco da Igreja de St. Mary em Wednesbury, e preocupado em salvaguardar a fé de seu rebanho, Montgomery tornou-se um fervente proponente da emigração para o Brasil, país onde, a religião oficial sendo o catolicismo, poderia, segundo pesquisas de Oliver Marshalliv, da Universidade de Oxford, reunir uma grande comunidade composta de emigrantes no que viria a ser uma Nova Irlanda. A pesquisasv, revelaram, outrossim, que não foram apenas os pobres os atraídos pela idéia de emigrar para o Brasil. Não apenas procedentes da Inglaterra, mas também da Alemanha e da França - para não citar outros países que extrapolam os limites da nossa busca -, vieram para o Brasil emigrantes de classe média, possuidores de capital tanto cultural quanto financeiro, e até mesmo indivíduos portadores de títulos nobiliárquicos, como o alemão Alfred von der Osten e o Conde Pinot de Moira. Inicialmente instalados na Colônia do Assunguy, aqueles dois imigrantes e suas famílias acabaram por estabelecer relações de amizade e, mais tarde, de parentesco, com a família Tamplin, que, por sua vez, ampliou o grupo, associando-se às famílias Mason e Withers. Não são conhecidas as razões específicas que motivaram a vinda deles ao Brasil, e as especulações em torno das motivações são bastante romantizadas. No caso dos ingleses talvez possamos encontrá-las no contexto da Inglaterra da segunda metade do século XIX. Na Inglaterra vitoriana, era forte o desdém para com aqueles econômica e socialmente inferioresvi. Logo, as pessoas aspiravam a “subir na vida”, emigravam para escapar às más condições em casa ou procurar melhores no exterior. Com relação ao Brasil, decerto a possibilidade de possuir amplas faixas de terra num país que parecia querer recebê-los calorosamente, além de todos os outros atrativos já mencionados, bem como um clima mais ameno, tudo deve ter contribuído. Acrescente-se a isso o fato de que, conforme Eric Hobsbawn, na segunda metade do século XIX os homens “se põem a caminho”, viajam, mudam, desenraizam3 se – voluntária ou involuntariamente. Segundo ele, entre 1851 e 1880, cerca de 5,3 milhões deixaram as Ilhas Britânicas, a maioria seguindo para os Estados Unidos, seguidos da Austrália e Canadávii. Mas muitos vieram para a América Latina, principalmente Brasil e Argentina. Aventurar-se fazia parte do ‘espírito do tempo’viii. É dentro desse contexto que encontramos Caroline Tamplin. Nascida Maxwell na Escócia e casada com o inglês Albert Tamplin, no ano de 1868 eles deixaram Londres, onde moravam e, com os filhos, embarcaram naquela grande aventura para o Brasil. Do Rio de Janeiro, seguiram para Paranaguá, Curitiba e finalmente, juntamente com mais de sessenta imigrantes ingleses, para a Colônia do Assunguy, onde chegaram poucos dias antes do Natal de 1868. Aparentemente (porque ainda não há provas conclusivas a respeito), Albert Tamplin tinha formação médica, e, nessa categoria prestou serviços por um determinado período no Assunguyix. Na verdade, muitos colonos eram empregados pela direção da colônia em trabalhos na construção de caminhos e outras obras públicas, e na prestação de serviços. Mas, na hora de receber o que era então chamado de ‘gratificação’, encontravam as mais árduas dificuldades, tendo sido bastante comum que muitos acabavam por não receber nada do que lhe seria devido ou recebendo apenas parcialmente. Este tipo de ocorrência era comum e foi uma das mais freqüentes reclamações feitas pelos colonos aos órgãos do governo imperial e do governo britânico, resultando numa vasta coleção de fontes existentes nos arquivos nacionais e estrangeiros. O Sr. Tamplin não foi poupado deste dissabor. Tão longa foi sua luta neste sentidox, que teria abalado e fragilizado sua saúde a tal ponto que ele morreu, no final do ano de 1874, conforme consta do depoimento dado por sua esposa, Caroline Tamplin, ao cônsul Lennon Hunt em Setembro de 1874xi. Viúva e com filhos para criar, Caroline permaneceu na Colônia por mais 6 anos. Nesse ínterim passou a exercer a função de professora da localidade do Turvo, núcleo onde ficavam assentadas suas terras e as terras da maioria das famílias de origem britânica. Assim como outros colonos, ela também enfrentava dificuldades para receber sua gratificação, além de inúmeros outros problemas que fizeram parte do cotidiano do Assunguy desde sua inauguração em 1860 até sua emancipação em 1882 e, sem dúvida, mesmo depois, o maior deles tendo sido a inexistência de uma estrada trafegável. Outros problemas eram a falta de hospital e medicamentosxii. 4 Também não havia escolas, e era uma luta constante tentar estabelecê-las. Caroline Tamplin, por exemplo, teve que receber alunos em sua própria casa e, quando pediu uma certa variedade de livrosxiii, teve seu pedido restringido pelas autoridades locais, aparentemente bem pouco preocupadas com os ideais professados em discursos e relatórios oficiais. Outros problemas foram a dificuldade que os britânicos tiveram para habituar seus paladares a uma alimentação completamente diferente daquela a que estavam acostumados. Nos depoimentos dados ao cônsul Lennon Hunt contam que grande parte dos alimentos, particularmente farinha, feijão, carne de porco chegavam completamente podres, impróprios para o uso; ou que tiveram que passar meses e meses a base de milho verde e abóbora. Muitos, principalmente crianças, morreram de fome e desnutrição, conforme os relatos. Por volta de novembro de 1880, quando o filho mais velho Maxwell tinha morrido, a filha Kathleen ido embora para a Inglaterra, o filho Cowper, casado com Gertrude von der Osten se estabelecido em Curitiba como comerciantexiv, Caroline colocou um grande anúncio no periódico Dezenove de Dezembro, declarando-se discípula de Thalborg (sicxv)e oferecendo-se como professora de línguas e artes – (piano, canto, francês, inglês, geografia, desenho e prendas domésticasxvi) – e, acompanhada de dois filhos adolescentes , Mildred e Fritz, muda-se para Curitiba. Na colônia deixa, sob os cuidados da amiga Emma Julia Norman, sua filha mais nova, Alberta. Não sabemos se é apenas a partir desta data que Caroline dá início à escrita de diários, mas o único exemplar conhecido e fonte principal de nossos estudos, registra seu cotidiano a partir de Novembro de 1879. O diário de Caroline Tamplin tem o formato de um caderno, com folhas originalmente em branco, sem linhas nem margens. Na capa, há o desenho de um círculo formado por dois galhos com folhas e frutas silvestres ou brotos entrelaçados, identificado na parte posterior esquerda com as iniciais W.H.& S. e à direita, London. No centro do círculo duas linhas, uma com o título Diary for 1881 e a outra com o nome Caroline Tamplin. O caderno contém 69 folhas perfazendo um total de 138 páginas e, na verdade, cobre o período de 29 de Novembro de 1879 a 27 de Novembro de 1882. Todas as páginas são utilizadas para anotar uma seleção dos fatos de cada dia, mas as últimas 5 páginas registram os livros lidos e as cartas enviadas e recebidas nos anos de 1881 e 1882. Os registros diários, escritos em inglês, são meticulosos: informam também, à esquerda de cada página, a data, o dia da semana, o clima, o santo do dia, quando a data faz parte do calendário das celebrações católicas mais conhecidas, os aniversários de nascimento, casamento, morte. Em virtude da regularidade e disciplina nos registros, logo o pesquisador pondera se teria havido outros cadernos, perdidos, jogados no lixo, queimados naquelas grandes limpezas que as gerações mais novas das famílias fazem muitas vezes para livrar-se das coisas velhas, empoeiradas, emboloradas, guardadas e ocupando espaços, sem que ninguém lhes conheça os conteúdos. Segundo depoimento prestado por descendentes de Caroline e guardiões do original do diário, foi exatamente isto o que aconteceu: o único exemplar foi retirado a tempo de uma fogueira no jardim. O diário suscita muitas perguntas e lança luz sobre muitas outras. Por que alguém escreve um diário? Quais teriam sido as suas intenções ao fazê-lo? Muitos autores debruçaram-se sobre esta questãoxvii, outros escreveram belos textos a partir deste tipo de fontexviii. O fato é que já era bastante comum na Europa do século dezenove, e até antes, que os indivíduos, recolhidos na privacidade de seus quartos, fizessem, ao final do dia, um balanço de seus atos e os anotasse, com a firme intenção, particularmente entre os mais jovens e protestantes, de melhorar sua conduta. Na Inglaterra, o hábito de escrever diários também ocorria entre amigos, que os trocavam entre si. Segundo Elaine McKay, da Queens University de Belfast, havia desde o século dezesseis uma rede de diários na Inglaterra, dos quais trezentos e sessenta e três teriam sobrevivido e sido catalogados por William Matthews em sua pesquisa sobre diários britânicos. Os principais fatores que influenciaram no crescimento da escrita de diários teriam sido, em primeiro lugar, o aumento gradual no número de pessoas alfabetizadas durante o século dezessete, e em segundo uma tendência ao individualismo e autoconhecimento ocorridos a partir da tendência humanista da Renascençaxix. Existem vários tipos de diários, entre eles o diário íntimo, considerado uma forma de confessionário dos Puritanos. O outro, no estilo adotado por Caroline Tamplin, é mais um registro do cotidiano e, neste sentido, fonte valiosa para o pesquisador que, 6 ao corroborá-lo com outras fontes verificáveis, amplia o conhecimento sobre o contexto público e privado de um período de uma forma que outras fontes não permitiriamxx. Qual a contribuição do diário de Caroline Tamplin? Em primeiro lugar, dá a conhecer aspectos da vida pública e privada de homens, mulheres, jovens e adultos, de famílias e grupos mais amplos na cidade de Curitiba no final da segunda metade do século dezenove. Em seguida, permite verificar a presença em Curitiba de um micro-cosmo bastante significativo da presença britânica nessa capital, sobremaneira similar àquela mesma presença, ampliada, em outras capitais do país, como Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Isto significa que em Curitiba, além da presença marcante de Caroline Tamplin, como professora particular de línguas, música e arte para membros das famílias da alta sociedade curitibana, do Collegio Inglez, dirigido pela inglesa Mrs. Braundxxi, e do Externato S. Thereza (onde, além de desenho xxiie inglês, ensinava alemão) , havia ainda vários outros ingleses distribuídos naqueles ramos de negócios em que eles se destacaram nas capitais acima mencionadas: • Mr. Withers, dono da Casa Inglesa, uma casa de comércio instalada à Rua das Flores 84 que fornecia carnes, presuntos e banhas fabricados em sua própria indústriaxxiii; • Mr. Henry Mason, anunciado como “decorador de Londres, apto a encarregar-se da pintura de brasões, paysagens, quadros de todas as qualidades, taboletas para casas de negócio, carros e ...todo o serviço concernente à sua arte”xxiv; • Mr. B. Balster, leiloeiro e importador de vinhos, conservas, maquinas, louças, fazendas e ferragens, instalado à Rua da Imperatrizxxv; • Walter Joslin, empreiteiro de obras públicas, particularmente na construção e manutenção de pontesxxvi; • Mr. Phillip Tod e Mr. Fowler, proprietários de uma fazenda de criação de cavalos, a Bacacheri Stud Farmxxvii, do Prado Inglezxxviii -, onde aos domingos havia corridas de cavalos -, e de outros investimentos na Colônia Argelina, que acabaram conhecidos como O Parque Inglez ou Parque dos Inglesesxxix, local que chegou a ser visitado por D. Pedro II quando de sua vinda ao Paraná em 1884. 7 Esse interesse dos ingleses no comércio, indústria e serviços em Curitiba, levou a pesquisa a prestar maior atenção aos artigos divulgados nos periódicos da época, resultando em descobertas adicionais. Já em 1867, o Dezenove de Dezembro reportava que a Casa de Negócios situada na Rua da Carioca e até então conhecida como sendo de Charles Browne, passava a contar com um sócio, William Grey. No mesmo ano Mr. Browne foi preso e, no começo de 1868, desapareceuxxx. Em 1876 Mr. H.R. Arnold apresentou proposta para o estabelecimento de uma fábrica de conservas de carnesxxxi, mas perdeu a concorrência para Mr. Withersxxxii. Em Setembro de 1888, uma comissão do Syndicato Inglez, liderado pelo investidor irlandes Mr. A. Taaf, chegou à Curitiba para especular sobre a possibilidade de comprar terras e desenvolver uma indústria pastoril. De acordo com a nota, ele já era conhecido na província pela exploração de áreas na região do Tibagyxxxiii . E, em 1888, o inglês Ricardo Liffer, encaminha ao governo da província documento manifestando seu interesse em implementar uma fábrica de tecidos.xxxiv Na verdade, esse empreendedor vinha tentando, desde 1885, investir no Paraná, tendo nomeado como seu procurador naquele ano, Mr. William Withersxxxv Nos anos cobertos pelo Diário, a vida social de Caroline incluía as famílias da alta sociedade curitibana, alguns estrangeiros, principalmente alemães, e, dos ingleses residentes na cidade e arredores, aparentemente, apenas os Withers e os Mason. Com relação ao Prado Inglez ela parecia ter reservas, conforme interpretação feita a partir de um pequeno comentário em seu diário. Se mudou de idéia posteriormente e passou a freqüentar, não se sabe por enquanto. As evidências indicam que a nacionalidade comum não é suficiente para aproximar os ingleses, nem mesmo quando residentes em países estrangeiros; seu convívio social restringe-se, outrossim, àqueles considerados iguais social e economicamente. A vida social na Curitiba da década de 1880 revela-se bastante intensa: a cidade recebia muitos artistas, tanto concertistas quanto companhias de teatro. Outras vezes, havia exposições de arte, no caso pinturas. Alguns de seus alunos destacaram-se, entre Paulo Assumpção, filho do Tenente Coronel Manuel Euphrasio d’Assumpção que, em nota na “coluna social” da cidade, presta-lhe homenagem e agradecimentos. Além desses eventos, os anúncios dos periódicos da época, particularmente o Dezenove de Dezembro, informavam sobre pequenos prazeres como tomar sorvete de ananás na Casa de Camilo José Belache, experimentar o cardápio do Restaurante 8 Americano, reuniões em clubes literários e étnicos, concertos no Salão Lindemann, visitas de autoridades imperiais e, muitos piqueniques. Entre essas visitas, as mais importantes foram, em datas diferentes, as do Príncipe e Princesa d’Eu e de D.Pedro II e suas comitivas. Uns eram convidados para as recepções oferecidas nessas ocasiões;outros eram recebidos por suas altezas imperiais, entre os quais, Caroline Tamplin quando, acompanhada por outras damas da sociedade, apresentava concertos de piano, tudo registrado pelas colunas sociaisxxxvi. Numa época em que o espaço público era defendido como domínio do masculino, devendo as mulheres restringir-se ao privado, Caroline circulava e muito, embora aparentemente sempre se fizesse acompanhar, geralmente pelo filho. Recebida, respeitada, homenageada, não sem enfrentar a ocasional intriga de alguémxxxvii, parece-nos possível propor que ela passou de outsider para estabelecida exatamente por ser mulher, de meia idade e viúva. Num mundo que resguardava suas mulheres, seria mais difícil a um homem gozar de tal receptividade. Além disso, tinha a seu favor os atributos da época: européia, inglesa, oriunda da nação considerada a mais desenvolvida no ocidente à época, Caroline era culta, possuidora de savoir faire, experiente no trato social; portanto, apta a freqüentar a privacidade das casas, conquistar a confiança, compartilhar de suas sociabilidades. De fato, além de trabalhar muito dando aulas, Caroline estava sempre a receber e retribuir visitas, umas mais curtas, outras para o tea, que em inglês tanto refere-se ao conhecido ‘chá das cinco’, quanto a uma refeição mais completa como o jantar até um certo horário que não muito tarde (porque senão seria o supper (ceia), não incomum entre os ingleses que jantam cedo). No diário de Caroline podem ser encontradas, também, evidências da preservação da memória gustativa; ela registra as refeições com pratos ingleses: Yorkshire Pudding, Christmas Pudding,Steak and Kidney Pie xxxviii, favoritos ainda nos dias atuais. E hábitos, como a vida ao ar livre, o interesse em jardinagem, a pintura de paisagens, na qual os ingleses se destacaram no século dezenovexxxix. A pesquisa não está concluída; resgatar e reunir as memórias preservadas pelos descendentes daqueles imigrantes britânicos residentes em Curitiba durante o tempo de província faz parte da próxima fase. Sabe-se que alguns deles já juntaram os resquícios não apagados de todo pelo tempo e os reuniram em relatos ora singelos (Kendrick) ora dramáticos (Bond), ora idílicos, como as memórias escritas no Canadá na década de 9 1950 pelo Sr. Albert Tigar, neto de Caroline Tamplin, nascido na colônia do Assunguy por volta de 1874 e emigrado para a Inglaterra e posteriormente Canadá em 1880.
NOTAS
i Nos anos de 1872 e 1873 as reclamações dos britânicos encaminhadas aos seus representantes diplomáticos foram tantas, que um cônsul, G. Lennon Hunt, foi enviado ao Assunguy para averiguar os fatos. Ele colheu depoimentos e elaborou um Relatório apresentado em 1875 à ambas as Casas do Parlamento Britânico, reproduzido na íntegra pela revista MONUMENTA (Curitiba: Aos Quatro Ventos, verão 98) e com comentários do Prof. Magnus Roberto de Mello Pereira, da UFPR.
ii Ver: MONUMENTA... , p.133.
iii Segundo o pesquisador Oliver Marshall, em novembro de 1867, Joaquim Maria de Almeida Portugal, um ex oficial da Marinha brasileira que apresentava-se como representante em Londres de sua Agência Comercial do Brasil, colocou os primeiros anúncios nos jornais ingleses promovendo a emigração brasileira, em termos considerados pelo comissário do escritório de emigração colonial britânica, “muito liberais e vantajosos, especialmente no que se referia a adiantamento de passagens e garantias de posse de terra( MARSHALL, Oliver. English, Irish and Irish-American Pioneer Settlers in Nineteenth- Century Brazil. Oxford: England: Centre for Brazilian Studies. University of Oxford, 2005.p.52-53).
iv Ibid, p.35-87. v GILLIES, Ana Maria Rufino. Diários e MemóriaS de imigrantes britânicos no Paraná: 1860-1890: Representações,Cultura e Poder . Projeto de Pesquisa para uma Tese de Doutoramento. UFPR, Previsão de Defesa: Fev.2010. vi Ver: LONDRES, 1851-1901: a era vitoriana ou o triunfo das desigualdades. Organizado por Mônica Charlot e Roland Marx. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993 e CHASTENET, Jacques. A vida quotidiana em Inglaterra no começo da era vitoriana:1837-1851. Lisboa: Edição “Livros do Brasil”, s.d. vii HOBSBAWN, Eric. A Era do Capital: 1848-1875. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.2.ed. viii Também Gilberto Freyre, em seu Ingleses no Brasil: aspectos da influência britânica sobre a vida, a paisagem e a cultura do Brasil (Rio de Janeiro: José Olympio, 1948) cita um dos contos de Eça de Queiroz onde um dos personagens comenta que não havia um lugar no planeta, por mais recôndito que fosse, onde não se pudesse encontrar um inglês. De fato, conforme Eric Hobsbawn (A Era das Revoluções,...) os ingleses espalharam pelo mundo, seu capital excedente, na forma de empréstimos ou investimentos, suas estradas de ferro, seus manufaturados, seus engenheiros, negociantes, bancos, empresas de navegação e seguros, seus diplomatas e outros funcionários de níveis mais baixos.
ix Ver: AP 1873/10/408/98
x Embora fosse de conhecimento público que ele, de fato, atuara no atendimento médico da colônia, a AP 1874/20/448/157 alegou que ele não tinha documento comprovando o pagamento que requeria. xi Ver: MONUMENTA, ...p. 50-51.
xii Havia uma enfermaria, mas o único médico que se sabe, por enquanto, devidamente qualificado, foi o Dr. Julio Parigot, um francês que atuava, na mesma época (1868-1869, conf. Códice 07/08/0380, Arquivo Público do Paraná) como diretor da colônia e intérprete. Na enfermaria eram empregados colonos, como da família inglesa Renaudin, por exemplo.
xiii AP 1875/5/460/178, Arquivo Público do Paraná, Curitiba. xiv Ver: DEZENOVE DE DEZEMBRO, Sabbado, 4.Setembro.1880, p. 4 e 5.Fevereiro.1881, p. 4. xv Sigismund Thalberg, compositor e pianista; nascido em Geneva mas de nacionalidade Austríaca era filho natural de um príncipe. Estudou piano em Viena e Londres e, na 2ª. metade do século XIX, era considerado o único capaz de rivalizar Franz Liszt. De fato, a rivalidade existente entre os fã-clubes de ambos, levou-os a um concerto “duelo” de piano em março de 1837 em Paris, resultando com cada um provando a sua grandeza e peculiaridade. Em 1843, após casar-se com a filha de um barítono napolitano, ele mudou-se para Nápoles e criou a ‘Escola Napolitana de Pianismo’.Ele tocou em praticamente todo o mundo ocidental, até morrer, em 1871. Em Nápoles há um monumento erigido em sua homenagem. xvi Ver: DEZENOVE DE DEZEMBRO, Sabbado 17.Abril.1880. xvii Entre eles: Philippe Artières, Contardo Calligaris, Myriam Moraes Lins de Barros, Philippe Lejeune, Ângela de Castro Gomes, e outros, cujos textos foram reunidos na revista ESTUDOS HISTÓRICOS. Rio de , Janeiro: CPDOC da Fundação Getúlio Vargas, 1997, n.19.
xviii PERROT, Michelle. As mulheres e os silêncios da história. Bauru, SP: EDUSC, 2005; Escrita de si Escrita da História. Org. Ângela de Castro Gomes. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 2004. 10 xix Ver: Ariès, Philippe. Por uma história da vida privada. In: História da Vida Privada: da Renascença ao Século das Luzes. Org. Roger Chartier. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. p. 7-19. xx Ver: PERROT, Michelle. As mulheres ou ... xxi Ver: DEZENOVE DE DEZEMBRO, Sabbado, 16.Dezembro.1882, p.4 e Sabbado, 23.Agosto.1884, p.2. xxii Ver: DEZENOVE DE DEZEMBRO, Domingo, 14.Setembro.1884, p. 3. xxiii Ver: DEZENOVE DE DEZEMBRO, Quarta-Feira, 7.Julho.1880, p. 4 ; Quarta-Feira, 11.Junho.1884, p.1 e Quinta-Feira, 25.Setembro.1884, p. 4.
xxiv Ver: DEZENOVE DE DEZEMBRO, Sabbado, 30.Outubro.1880, p.4.
xxv Ver o periódico PROVÍNCIA DO PARANÁ, Sabbado 29.Março.1884, p.4 e Quarta-Feira, 25.Setembro.1889, p. 4. xxvi Ver: DEZENOVE DE DEZEMBRO, Abril.1884, seção ‘A Pedido’, sobre uma discórdia entre Walter Joslin e Henry Mason; e Coleção História de Araucária. A construção de uma história: a presença étnica em Araucária, v. 5, p. 40-43. xxvii Ver: DEZENOVE DE DEZEMBRO, Sabbado, 30.Agosto.1884, p. 4. xxviii Ver: GAZETA PARANAENSE, Domingo, 11.Outubro.185, p. 2 e Domingo, 1.Julho.1888, p.3. xxix Ver O Parque Inglez (subsídios para a história do bairro do Bacacheri).in: Boletim da Casa Romário Martins. Ano VI, n. 41. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, xxx Ver: DEZENOVE DE DEZEMBRO, Sabbado, 8.Dezembro.1867,p. 4 ; Quarta-Feira, 5.Fevereiro.1868, p.2 e AP 1867/14/264/33-36; 38-49. xxxi AP 1876/1/507/006-7, Arquivo Público do Paraná, Curitiba. xxxii Ver: AP 675 (1809) v.1, ano 1882, 268, Arquivo Público do Paraná, Curitiba.
xxxiii Ver: DEZENOVE DE DEZEMBRO, Quinta-Feira, 6 de Setembro de 1888, p. 2. xxxiv Ver: AP 1888/5/833/130, Arquivo Público do Paraná, Curitiba. xxxv Ver: DEZENOVE DE DEZEMBRO, Terça-Feira, 5.Maio.1885, p.1. xxxvi Ver: DEZENOVE DE DEZEMBRO, Terça-Feira, 9.Dezembro.1884, p.4.
xxxvii No dia 2 de Agosto de 1888, a GAZETA PARANAENSE publicou em sua seção In editorial “MISS TAMPLIN. Segundo se diz, muda-se muito breve, desta para a capital de S.Paulo a Sra. Tamplin. Parabéns às famílias curitibanas”. A partir de 3.Agosto e quase até o final daquele mês, são publicadas em resposta notas de repúdio ao desrespeito e de solidariedade à Mrs. Tamplin, assinadas por centenas de pessoas de todas as áreas da sociedade curitibana. Chamado a identificar-se o autor não o fez e até hoje ainda não foi solucionado o mistério. Mas algum tempo depois (não pudemos ainda esclarecer exatamente quando), Caroline muda-se, de fato, de Curitiba para São Paulo, onde vive até falecer, em 1903.
xxxviii Um tipo de Suflê inglês que acompanha carnes assadas ou com molho, um tipo de Bolo de Frutas de Natal e Torta de Rim, respectivamente. xxxix Ver: ARTE MODERNA. In: O MUNDO DA ARTE. Enciclopédia das Artes Plásticas em todos os tempos. Encyclopedia Britânica do Brasil, 1979, p.33-35.




