José do Patrocínio e os "republicanos de 14 de maio": as tentativas de indenização aos senhores de escravos
A atuação de José do Patrocínio (1853-1905) no processo abolicionista não serviu para atenuar as críticas que sofreu, por parte dos republicanos, devido ao seu apoio à Princesa Isabel. Apesar de ardoroso defensor da República e crítico contumaz do regime monárquico, Patrocínio sempre priorizou a luta contra o cativeiro. Após a abolição, ele exprimiu, através dos editoriais do Cidade do Rio, jornal de sua propriedade, uma atitude de “gratidão” em relação à Princesa Imperial. Logo, era lógico atritar-se com os republicanos, especialmente com aqueles que ele denominava “republicanos escravocratas”, ou “de 14 de maio”, alusão à mudança de atitude de alguns proprietários em relação à monarquia e que defendiam uma indenização aos antigos senhores em virtude do término da escravidão.
José Carlos do Patrocínio (1853-1905) nasceu em Campos, na Província do Rio de Janeiro, da união do pároco João Carlos Monteiro, grande fazendeiro local, e de uma jovem quitandeira negra, Justina Maria do Espírito Santo. O abolicionista, na sua infância, habitava a propriedade paterna, tendo uma educação sob critérios similares aos aplicados aos filhos dos grandes proprietários no Brasil, o que não o impediu de confessar: “sou filho de uma pobre quitandeira”. E, ainda: “do vigário de Campos que não me perfilhou, mas que toda a gente sabe que era meu pai”.1
A infância de Patrocínio transcorreu na casa da cidade ou na fazenda do Imbé, situadas em Campos, pertencentes ao pai. A instrução primária obteve nos colégios campistas. Quando criança, retornando de um passeio a cavalo, desferiu uma forte pancada, com o cabo do chicote na cabeça de um velho escravo que demorou a abrir a porteira. O pai admoestou-o quando foi informado sobre o ocorrido. Ele considerou este episódio como o marco inicial de sua vida, pois lhe permitiu o aumento da capacidade de percepção sobre as condições de exploração dos cativos. Em função da aquisição de uma maior consciência, ele começou a entrar em atrito com o genitor em virtude do tratamento dispensado aos escravos e à sua própria mãe, abandonando a casa paterna por causa das dificuldades de convivência.2 Ainda menino se estabeleceu na Corte, em 1868, trabalhando “como quase servente” da farmácia da Santa Casa de Misericórdia. Com o auxílio de amigos protetores conseguiu estudar, o que lhe possibilitou o ingresso no Curso de Farmácia, de onde saiu diplomado no ano de 1874. Jamais, contudo, exerceu a profissão, sobrevivendo como professor de “primeiras letras” a alunos. 3
O seu envolvimento com a propaganda republicana ocorreu com a participação nas reuniões do Clube Abolicionista e Republicano de São Cristóvão, bem como na casa de um dos seus líderes, o Capitão Emiliano Rosa de Sena, o seu futuro sogro. Foi assim que Patrocínio ampliou o seu círculo de amizades e o espaço que lhe abriu, de uma forma definitiva, as portas do jornalismo da Corte, inicialmente, como conferente de revisão do jornal liberal A Reforma.4 Patrocínio ingressou, em 1877, na Gazeta de Notícias, periódico no qual militou até 1881, quando rompeu com a direção em virtude da sua atuação mais contundente em relação ao movimento abolicionista.
No começo do ano de 1880, Patrocínio atuou na “Revolta do Vintém”, reação popular, ocorrida no Rio de Janeiro, contra a taxa, criada pelo governo, que recaía sobre o transporte urbano, repassada para o usuário. Estas manifestações de protesto tiveram como conseqüência a destruição de bondes, no centro da cidade e uma repressão policial violenta que resultou em mortos e feridos.5 Elas marcaram, profundamente, o início da década, pois favoreceu a participação de novos atores no cenário político da Corte e do Império. Segundo Sandra Graham, a “Revolta do Vintém” permitiu que as discussões políticas não ficassem restritas ao Parlamento, ganhando as ruas e praças públicas.6 Pela primeira vez, os abolicionistas deixaram as discussões realizadas em salões fechados, ou no Parlamento, e ganharam as ruas, através de passeatas, palestras, conferências e comícios. O próprio Patrocínio, juntamente com outros participantes, foi ameaçado de prisão. 7
Em 1881, Patrocínio adquiriu parte da sociedade e depois a propriedade da Gazeta da Tarde que tinha acabado de perder um dos seus proprietários, Ferreira de Menezes. Segundo o articulista, o jornal atravessava uma grave situação financeira que foi resolvida através de empréstimos: “[...]pedindo crédito e obtendo-o, satisfiz os meus compromissos, de modo que se evidenciava o meu trabalho e o meu sacrifício [...]”.8
Patrocínio, durante o ano de 1886, participou de duas eleições. A primeira foi realizada, em janeiro, para o preenchimento das vagas para a Câmara de Deputados, após sua dissolução, efetuada no final do ano anterior durante o governo do Barão de Cotegipe. Concorreu, pelo Município Neutro, sob os auspícios do Partido Republicano com o apoio da Confederação Abolicionista. No seu manifesto, intitulando-se representante da “grande obra de reconstrução social”, reafirmou as suas convicções republicanas e anti-monarquistas, embora enfatizando o seu caráter abolicionista.
Republicano desde os primeiros dias da lucidez do meu raciocínio, em toda parte a que pode chegar uma palavra minha, na imprensa como na tribuna popular, protestei sempre contra o sistema que nos enfraquece e desnatura os sentimentos e o caráter, que nos deforma e brutaliza os atos e as aspirações: a monarquia constitucional. [...] Pedindo os vossos sufrágios, srs. eleitores, para aventurar-me à luta sem tréguas contra a monarquia e a escravidão.9
As eleições constituíram-se em uma grande derrota para os abolicionistas, inclusive Patrocínio, pois o Gabinete Cotegipe utilizou todos os mecanismos da máquina governamental para preservar a maioria conservadora. O jornalista comentou, na Gazeta da Tarde, o resultado do escrutínio que expressava, segundo as suas palavras, a força de um governo baseado “na coerção política”.10 Apesar de derrotado, tentou, novamente, a carreira política conseguindo uma cadeira de vereador na Câmara Municipal da Corte, após uma campanha que tinha como plataforma básica a eliminação do trabalho escravo da cidade do Rio de Janeiro.11 Patrocínio não se destacou como legislador municipal em virtude de seu envolvimento com a luta antiescravista.
Em virtude de problemas financeiros, Patrocínio associou-se, em meados de 1886, ao comerciante Luiz Ferreira de Moura Brito. Ao lado do título do jornal Gazeta da Tarde, observamos a referência à sociedade: Patrocínio & Brito, a qual se manteve até setembro de 1887, quando o abolicionista vendeu a sua parte.12 Logo depois, no final de setembro de 1887, Patrocínio fundou o Cidade do Rio, no qual participou das celebrações pela vitória do movimento abolicionista.
O reconhecimento de seu empenho no processo de desagregação da escravidão não serviu para atenuar as críticas que sofreu, por parte dos republicanos, devido ao seu apoio à Princesa Isabel. Apesar de ardoroso defensor da República e crítico contumaz do regime monárquico, Patrocínio sempre priorizou a luta contra o cativeiro. Quando pressentiu a possibilidade de “solução” para a “questão servil”, através do governo, mudou o tom do discurso, aprovando, através da sua pena, os atos da Princesa Isabel. Tratando, por exemplo, das festas carnavalescas teceu elogios à Regente. Narrou as “batalhas de flores”, de Petrópolis, embaladas ao som das marchas, como parte do cenário para que se encaminhassem estratégias para a eliminação do cativeiro: “[...]por entre as flores da batalha irrompia o pensamento em prol da abolição da escravatura. Presidindo ao flóreo tiroteio estava a Princesa Isabel, que de Nice nos trouxe essa inovação para as festas carnavalescas [...]”. Comentou a atitude dos príncipes, filhos da Princesa Isabel, que, através de um jornal, em Petrópolis, posicionaram-se a favor da abolição. Ressaltou que esta atitude só ocorreu em virtude do beneplácito da mãe. Concluiu o texto, cobrando uma definição por parte do Gabinete Cotegipe, o qual deveria optar entre “ser abolicionista ou retirar-se do poder”.13
A demissão do Gabinete Cotegipe foi perseguida por Patrocínio, através do seu jornal: “[...]o ministério da escravidão não pode continuar sem ofensa ao país [...]”; solicitava à Regente que não conciliasse mais com aquele Gabinete pois, assim, passaria à história como a “[...] imagem viva da hipocrisia, quando aliás é sabido que o seu coração está limpo dessa culpa [...]”.14 A queda de Cotegipe e a formação do ministério, sob a liderança de João Alfredo, foram saudadas efusivamente por um editorial, do Cidade do Rio, assinado por Patrocínio: “[...] seja festejado esse extraordinário momento em que foi despedido do poder esse homem que pôs seu talento ao serviço das senzalas [...].”15
Os elogios e a aproximação com a Princesa Isabel acentuaram-se. Em outro editorial, logo depois da mudança do Gabinete, Patrocínio, praticamente, defendeu o estabelecimento de um reinado sob a égide da Regente: “[...] Vossa Alteza está salva, pode reinar utilmente sobre este povo, digno de um governo honesto e patriótico [...]”.16Observa-se que ocorreu um processo de mitificação da figura da Princesa Isabel com o apoio dos abolicionistas, mesmo sendo de matizes, aparentemente, diferentes. Joaquim Nabuco, no discurso proferido na Câmara, na sessão em que se discutia a extinção legal da escravidão, louvou a Regente, contribuindo, desta forma, para a criação da “heróica Redentora”. Ressaltou a atuação da “Princesa Imperial” merecedora da “[...] máxima gratidão do nosso povo [...] ” porque transformou o Império num “país livre”, cimentando “[...] em um dia essa união do trono com o povo [...].”17
Após a abolição, Patrocínio exprimiu, através dos seus textos no Cidade do Rio, uma atitude de “gratidão” em relação à Princesa Imperial. A “sereníssima carola”, que era, até então, criticada veementemente, passou a ocupar um lugar de destaque na imprensa do Rio de Janeiro. Assim, o abolicionista não fugiu à regra. Assumiu a defesa da “Redentora”, da “espartana coroada”, da “alma de diamante”, da “brasileira intemerata”, a qual se cercou de um governo responsável, segundo suas palavras, para estabelecer uma “pátria reabilitada”.18 O abolicionista sofreu diversos ataques dos republicanos em virtude desta postura. Em um desses, respondeu às acusações de que teria se ajoelhado, por ocasião da assinatura da “Lei Áurea”.
Quando foi que pedi, de joelhos, a libertação? Seria pedir de joelhos o manter-me dez anos em guerra contra tudo e contra todos os que não eram abolicionistas? Por que caluniar miseravelmente aquele a quem aplaudiram na véspera? Onde está o ato meu, durante a propaganda abolicionista, que demonstre um simples pestanejar diante do perigo? Esses bandidos, em cuja cara eu sempre escarrei, nos tempos da propaganda abolicionista, acharam que era agora o momento de vingarem-se contra a minha altivez.
Disse-o sempre: o meu único fito em meu país é cooperar. Antes de tudo, para a extinção da escravidão. Nunca iludi ninguém. Apoiei o Sr. Dantas, sendo entretanto republicano [...]
Declarada de direito a extinção da escravidão, entendi que devia ficar ao lado do governo, para vê-la realizada de fato, o que ainda não se deu, por culpa do Republicanismo [...] Disse que hei de honrar a Princesa e que lhe agradeço, como ao governo, ter decretado a abolição [...]19
Em outro editorial, ele repudiava as acusações, efetuadas pelos republicanos, de “vendido” ao governo porque o estava apoiando. Ironicamente, afirmava que era “vendido” ao ministério “que salvou a sua raça”; um “vendido” à Princesa Isabel por suas atitudes: “[...] mulher sagrada e meiga, boa e santa, que enquanto a república agachava miseravelmente diante da lavoura para apanhar-lhe votos, ela expunha a sua coroa a tufões desencontrados da falsa república [...]”.20
Logo, era lógico atritar-se com os republicanos, especialmente com aqueles que ele denominava “republicanos escravocratas”, ou “de 14 de maio”, alusão à mudança de atitude de alguns proprietários em relação à monarquia, que desejavam estabelecer uma República de “agricultores e advogados”. Patrocínio os acusava de tentarem preservar os seus privilégios, abandonando os ideais republicanos dos quais afirmava que nunca tinha se afastado, e apoiarem os projetos que concediam uma indenização aos antigos senhores em virtude do término do cativeiro.21
Muito antes da abolição, em 1884, Patrocínio já repudiava as atitudes tímidas dos defensores da República em relação ao abolicionismo. Estas foram, inclusive, as razões alegadas pelo jornalista para o seu rompimento com os republicanos, quando pressentiu que a abolição da escravidão não estava entre as suas prioridades.
Se a república, que se quer fundar no Brasil, pretende se limitar a escrever um programa e a deixar perdurar todos os erros sociais, contra os quais ela se insurge, melhor é deixar-nos ficar como estamos, porque ao menos a monarquia vai procurando mascarar diante da América e do mundo a nossa vergonha.22
Portanto, os conflitos com os republicanos antecederam a abolição. Com esta, as contradições se acentuaram, pois, Patrocínio, de forma nenhuma, alterou o seu comportamento em relação à Princesa Isabel e ao gabinete responsável pelo término do escravismo, liderado por João Alfredo. Por ocasião do primeiro aniversário da assinatura da “Lei Áurea”, o jornalista, através do Cidade do Rio, comentou o desenrolar do movimento abolicionista, rechaçando as acusações de ter se “vendido” à “[...] Isabel, a Redentora, no dia 13 de maio; fui apenas reiterar o protesto abolicionista de fidelidade e solidariedade com a política atual da Coroa [...]”.23
Ele foi, também, acusado pelos republicanos de afirmar que o sangue e a honra abolicionistas estariam, sempre, ao lado do trono da Princesa. Ele repudiou esta frase, ressalvando que ela foi retirada, de forma isolada, de um texto, ignorando-se, propositalmente, o restante do seu discurso, pois, “[...] lançada em circulação sem considerações, que a precederam, semelhante frase, concordo, seria a mais terrível ameaça à democracia, a justificação prévia de todos os abusos do poder”.24
Portanto, várias polêmicas ocorreram entre o jornalista e os republicanos em virtude das posições antagônicas relativas à condução do movimento abolicionista. O agravamento desse antagonismo acentuou-se após a abolição em virtude das pretensões dos setores escravistas, que faziam coro com as hostes republicanas, no que tange à indenização pela perda da propriedade em relação ao término da escravidão. Alguns defendiam claramente que os fazendeiros tinham direito à indenização. Essa situação encontrava eco, principalmente, entre os proprietários de café do Vale do Paraíba, o último baluarte da escravidão, completamente endividados em virtude da baixa produtividade de suas terras.25 Dos nove votos, na Câmara dos Deputados, contra a Lei de 13 de maio, que acabava legalmente com a escravidão, oito pertenciam a representantes da Província do Rio de Janeiro, o outro era de Pernambuco.
Durante a discussão da lei que extinguia legalmente a escravidão, o Barão de Cotegipe, denunciava que ela “violava os direitos de propriedade”. Segundo ele, com a aprovação da lei, o Estado poderia mais tarde decretar a “divisão das terras”, sem “indenização”, expropriando-a e não levando em consideração “o direito natural”.26 Assim, nada mais natural que, após a abolição, projetos a respeito de indenização começassem a ser apresentados ao Parlamento. Cotegipe, por exemplo, submeteu à apreciação do Senado, em 19 de junho, um pedido de autorização para a emissão de títulos para reembolso dos antigos proprietários.27 Apesar dessa proposta, entre outras, ter sido rechaçada pelo Governo de João Alfredo, a indenização foi sistematicamente debatida no Parlamento durante o ano de 1888. Essas tentativas foram combatidas enfaticamente pela pena dos abolicionistas, particularmente por José do Patrocínio.
Pouco se importa o Sr. barão de Cotegipe com suas contradições. Ontem, S. Ex.ª dizia no Governo à regente: não ceder ao abolicionismo porque ele é revolução; hoje, quando o escravismo se revoluciona, francamente, audaciosamente, apesar da sua impotência, filha da sua impopularidade, o Sr. barão de Cotegipe empunhou a bandeira revolucionária da indenização e quer plantá-la no Senado.
S. Ex.ª diz que está convencido de que a propriedade escrava é tão sagrada como a que mais o seja; [...]
O nosso fim é outro: deixar demonstrado que o Sr. barão de Cotegipe tem apenas em vista, como demagogo, perturbar o início do terceiro reinado, em nome da escravidão.
Os do conselho negro espalham que têm votos para derrubar o Ministério, ou melhor, para pôr em prova a confiança da Coroa.28
Percebe-se, pelas palavras de Patrocínio, como ele vincula a atuação de Cotegipe aos interesses dos proprietários que pleiteavam a indenização. Por outro lado, o que está em jogo também, é a preservação do regime monárquico. Para o jornalista, a aprovação de indenização maculará o governo e dificultará o estabelecimento de um terceiro reinado, retirando-lhe a “auréola redentora, sua maior força”. E mais adiante, acusa frontalmente os defensores da escravidão de desejarem “apoderar-se de novo do Governo”. Claro que essa afirmação destinava-se ao Barão de Cotegipe substituído por João Alfredo, responsável pelo encaminhamento da lei de 13 de Maio.
Para o Sr. barão de Cotegipe tudo serve. Se ele consegue arranjar maioria para a indenização, há de acontecer uma de duas: ou o Ministério retira-se, e neste caso a indenização atirará com os abolicionistas para o campo revolucionário; ou a Coroa dissolve a Câmara, e as novas eleições dão à nova assembléia a agitação revolucionária, que o escravagismo por todos os meios provoca para vingar-se da heroicidade da princesa, que fulminou a pirataria.29
Além da defesa intransigente da Princesa Isabel, Patrocínio elogiava a atuação do Gabinete João Alfredo, “o glorioso brasileiro” que retirou da “escravidão” a “mamadeira da boca”, terminando com os seus privilégios. A ironia perpassa nesse editorial do Cidade do Rio quando ele acentua que acabou as vantagens, até então existentes para os donos de escravos: “adeus leite, adeus franga e adeus ovos”. Mais adiante, na mesma linha, sua pena desferia comentários ferinos contra os antigos donos de escravos e amigos do Barão de Cotegipe que desejavam manter “o presente de casas, feito pelo Estado” e as “fazendas de saúva e samambaia”. Enfim, para o abolicionista encerravam-se as benesses derivadas da escravidão! Entretanto, segundo Patrocínio, a indenização ameaçava a consolidação da abolição porque os seus interessados queriam que ocorresse com “a lei de 13 de maio o mesmo que se deu com a de 7 de novembro de 1831”, ou seja, outra lei para inglês ver! E mais adiante, através de sua pena alertava:
Que diabo! É preciso apanhar uma lambujem e a melhor é a república de tenentes-coronéis e barões, república que já nasce confiscada pelos indenizadores; república que é uma nova fazenda, cujo primeiro título é a dívida antes da fundação.
Ah! Tartufos! Como a história os há de amaldiçoar.30
Patrocínio estabeleceu analogias entre as dificuldades que os abolicionistas enfrentaram com os Clubes da Lavoura, criados para preservar a estrutura escravista, com os Clubes Republicanos, compostos por proprietários ressentidos pela extinção da escravidão: “Os clubes neo-republicanos são os mesmos clubes de lavoura da escravidão. O tom, a ameaça são os mesmos. O povo que vê nas mãos da maioria desses republicanos das dúzias o calo do chiquerador de eito [...] oligarquia que ontem era conservadora de fazer inveja e hoje ameaça eleger republicanos”.31 Nesse mesmo editorial, ele enfatizou a necessidade de implementar medidas complementares para a eliminação dos resquícios da escravidão, como educação básica e distribuição de terras para os ex-escravos. Como Joaquim Nabuco já assinalava, a emancipação deveria ocorrer paralelamente com a “[...]democratização do solo. Uma é o complemento da outra. Acabar com a escravidão não basta; é preciso destruir a obra da escravidão”.32 Para a concretização desse objetivo, Patrocínio defendeu medidas mais efetivas que amparassem os libertos.
É necessário não ouvir a grita que parte do lado dos vencidos.
Que promova desde já a desapropriação das terras à margem das estradas de ferro e dos rios navegáveis, e sistematize para aí a imigração; que faça rever os traçados de nossas estradas de ferro e lhes dê uma orientação econômica; que abra as portas à laicização completa e absoluta do país; finalmente entre numa política larga e prática e deixe vozear para aí a pirataria despeitada, que, não podendo mais explorar o negro, quer explorar o Tesouro.33
No entanto, Patrocínio ressalvava os “velhos republicanos sinceros, os que pugnaram sempre pela verdadeira República”. A questão crucial relaciona-se à possibilidade de indenizar os proprietários que se bandearam para o movimento republicano, numa perspectiva oportunista -os “republicanos de 14 de maio”-, e que ele denominava também como os “[...] neo-republicanos da indenização e aos seus patronos, que viram neles o melhor instrumento para os seus despeitos encanecidos [...]”.34
Com a abolição e o apoio de Patrocínio à monarquia, os choques acentuaram-se, provocando ataques diversos: Quintino Bocaiúva, Rui Barbosa e Silva Jardim entraram no rol dos seus desafetos, acusados, conforme o jornalista, de defensores dos “republicanos escravocratas”.35 As divergências com o primeiro eram mais antigas; elas se originaram na Assembléia Geral do Partido Republicano, realizada em 1881, para a formalização da candidatura de Quintino Bocaiúva a Deputado.
O debate, ocorrido entre os dois, naquela reunião, demonstrou as vacilações do líder republicano em relação à “questão servil”. Quintino repudiou, praticamente, a abolição imediata e quaisquer medidas que, segundo as suas palavras, apelassem para a “revolução material”. Ao mesmo tempo, censurou os abolicionistas, inclusive Patrocínio, por se situarem na fronteira da “agitação”. A réplica do jornalista estabeleceu um verdadeiro divisor de águas entre os dois grupos: “[...] Se o Partido Republicano quer fazer aliança com os Senhores de escravos, nós outros havemos de fazê-la até com o Imperador [...]”, mais adiante, de uma forma irônica, caracterizou as palavras de Quintino como um “sussurro de cafezal”.36 O antagonismo aprofundou-se quando Quintino Bocaiúva foi derrotado na eleição para deputado, em 1888, por Ferreira Viana, Ministro da Justiça do Gabinete João Alfredo, candidato apoiado por Patrocínio, pela Confederação Abolicionista e, segundo expressão do jornalista, pelos “abolicionistas sinceros.37
Os desentendimentos entre os dois aprofundaram-se devido aos conflitos de rua, ocorridos na cidade do Rio de Janeiro, entre defensores da monarquia e republicanos. Quintino Bocaiúva acusava, constantemente, Patrocínio de se ter vendido ao Estado Imperial, em especial ao Ministério da Justiça, com a finalidade de obter recursos para cobrir os seus gastos excessivos e fazer frente às despesas com a manutenção do Cidade do Rio que atravessava uma situação financeira difícil.38 Após o estabelecimento da República as divergências atenuaram-se, provavelmente em virtude da ascensão de Quintino ao Ministério, quando ele assumiu a pasta das Relações Exteriores do governo provisório do Marechal Deodoro da Fonseca, e, também, pelo próprio processo de marginalização política de Patrocínio.39
Uma polêmica que assumiu um caráter bastante agressivo foi aquela entabulada com Rui Barbosa causada pelas opiniões conflitantes sobre os “crimes” cometidos pelos escravos contra os senhores e feitores antes da abolição. Enquanto o jurista era contra perdoar tais crimes, Patrocínio alegava que eles foram produtos da própria violência da instituição escravista e, sendo assim, não havia porque imputar penas aos cativos. Rui Barbosa afirmava que esta posição era conseqüência do abolicionismo radical e inconsciente de Patrocínio. Segundo Patrocínio, os desacordos com Rui Barbosa começaram quando ele, em 16 de novembro de 1889, se opôs “ao golpe militar e ao decreto que instaurou a República”, afirmação inverídica como veremos adiante. Rui Barbosa, conforme o jornalista, “[...] intrigante e mexeriqueiro, como uma beata, odiento como uma solteirona feia, e ingrato, como uma víbora, fazia o trabalho da desconfiança do Governo Provisório contra mim [...]”.40
Silva Jardim, ardoroso propagandista republicano, entrou, também, em rota de colisão com Patrocínio, por ocasião de uma Conferência, realizada por aquele, no Clube Ginástico Francês, do Rio de Janeiro, em 30 de dezembro de 1888. Durante o evento, elementos de uma associação de libertos, Guarda Negra, defensora da monarquia, interrompeu o seu discurso de forma violenta. O conflito se generalizou travando-se uma “verdadeira batalha campal”.41 Sobre os acontecimentos, Silva Jardim responsabilizou o jornalista pelo apoio à Guarda Negra, afirmando que tal obra só foi possível porque ao lado do governo se encontrava um homem – Patrocínio – que disseminava o ódio e mentiras “[...] muito estúpidas, mas capazes de produzir impressão em cérebros quase incultos [...]”, contra os republicanos.
[...] a isso se prestou, por ambição de lucros diretos ou indiretos, por vaidade de gozo do aulicismo, ou por servilismo [...]. Este homem de cor, mas até então tolerado por todos os brancos, que jamais lhe haviam feito questão de raça, muito amado mesmo pela mocidade e pelo público generoso, em vista de uma suposta dedicação à causa dos escravos – converteu-se em órgão da dinastia, principalmente da Princesa D. Isabel, e do ministério, que apenas presidira ao ato parlamentar da abolição; e daí começou de sustentá-los, traidor então de sua raça, que por proletária no Brasil carece claramente, para o seu desenvolvimento de um regime republicano, traidor do partido a que dissera pertencer.42
Estas palavras de Silva Jardim servem para aquilatar como Patrocínio havia se distanciado, pelo menos naquele momento, dos republicanos. Oportunismo, ou não, na verdade o propagandista da abolição apresentava todo um discurso contrário aos membros do Partido Republicano, endossando a opinião de uma parcela marginalizada da sociedade, especialmente aquela que ocupava o espaço urbano da Corte.
A oposição aos defensores da República não se limitava a Patrocínio. A população mais humilde, incluindo os libertos, mulatos e brancos pobres, identificava a Princesa Isabel como a “heroína” e “defensora” dos oprimidos. As idéias republicanas não tinham grande penetração nos chamados “setores populares”, sendo que o próprio Imperador detinha grande prestígio entre os segmentos marginalizados.43
Não causa estranheza, portanto, que Patrocínio ficasse marginalizado com a República apesar de buscar conciliar com os novos detentores do poder. Conflitos antigos que se acirraram com a abolição e que o incompatibilizaram com os republicanos. O sentimento de “gratidão” o fez aproximar-se da monarquia e do Gabinete de João Alfredo, assumindo a defesa intransigente da Princesa Isabel. Com a ascensão do Gabinete Ouro Preto, em junho de 1889, o jornalista iniciou, paulatinamente, um armistício com os republicanos. Durante o segundo semestre do ano, os editoriais do Cidade do Rio, começaram a modificar os comentários a respeito da República. Em julho, assinou uma matéria que reafirmava, categoricamente, a sua posição em relação aos partidos: não estava filiado a nenhum, porém era “republicano só pela República”.44 Às vésperas do término do Império, ele condenava as autoridades governamentais pelo tratamento dispensado ao exército.45 No dia 15 de novembro de 1889, como fez no dia 13 de maio de 1888, Patrocínio saudou o governo engrossando as fileiras daqueles que diziam existir um grande entusiasmo pela vitória do exército.46 A figura da República substituiu a da “Redentora”. O “Proclamador Civil da República”, como ele se autodenominou, após obter uma moção de apoio da Câmara de Vereadores da Corte ao novo regime, deslocou o abolicionista. Entretanto, estas mudanças de comportamento não conseguiram atenuar a desconfiança com que os novos governantes o tratariam. Com a República, Patrocínio entrou na fase do ostracismo que o perseguiu até a sua morte em 1905.
1 - Patrocínio escreveu uma autobiografia para justificar a sua ascensão social, publicada na Gazeta da Tarde em 29 de maio de 1884. Ela foi utilizada pelos seus biógrafos, como por exemplo: MAGALHÃES JR, Raimundo. A Vida Turbulenta de José do Patrocínio, Rio de Janeiro: Sabiá, 1969. ORICO, Osvaldo. O Tigre da Abolição, Rio de Janeiro: Olímpica Edit., 1953.
2 - Cf. SENA, Ernesto. Rascunho e Perfis, 2a ed., Brasília: UNB, 1983, ps. 300/1. Esse texto, publicado inicialmente em 1905, transcreveu parte da autobiografia de Patrocínio. O artigo serviu de fonte básica, aos diversos biógrafos, para a reconstituição da vida do jornalista.
3 - Gazeta da Tarde. 29 de maio de 1884.
4 - Fundado em1869, foi um dos primeiros jornais antiescravistas da cidade do Rio de Janeiro, sendo superado por outros periódicos mais atuantes em meados da década de 1870. MAGALHÃES JR., ob. cit., p. 28.
5 - Gazeta de Notícias. 10 de janeiro de 1880.
6 - GRAHAM, Sandra Lauderdale. “O Motim do Vintém e a Cultura Política do Rio de Janeiro em 1880”, in Revista Brasileira de História, no. 20, São Paulo: ANPUH/Marco Zero, agosto de 1990. Um vintém valia vinte réis.
7 - Gazeta de Notícias.10 de janeiro de 1880. BERGSTRESSER Rebeca. The Movement for the Abolition of Slavery in Rio de Janeiro, 1880-1889. Tese de Doutorado, mimeo., Stanford, 1973, ps. 35/48; 101/102;189/192. MACHADO, Humberto Fernandes. “O abolicionismo ‘ganha as ruas’ no Rio de Janeiro”, in Revista da SBPH, Curitiba: Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica, 1998.
8 - Gazeta da Tarde. 29 de maio de 1884.
9 - Gazeta da Tarde. 5 de janeiro de 1886.
10-16 de janeiro de 1886.
11- Gazeta da Tarde. 25 de abril de 1887.
12- 1 de setembro de 1887.
13- Cidade do Rio. 15 de fevereiro de 1888.
14- 26 de fevereiro de 1888.
15- 8 de março de 1888.
16- 12 de março de 1888.
17- “Apresentação do Ministério João Alfredo”, em 7 de maio de 1888, in: Discursos Parlamentares. (1879-1889), São Paulo: Instituto Progresso Ed., 1949, p. 327. Transcrito pelo Cidade do Rio, 10 de maio de 1888.
18- 1 de junho de 1888.
19- 31 de julho de 1888. O jornalista se referiu ao Gabinete Dantas que tentou encaminhar um projeto gradual de eliminação do cativeiro, não conseguindo, entretanto, apoio do Parlamento.
20- 28 de setembro de 1888.
21- CONRAD, Robert E. Os Últimos Anos da Escravatura no Brasil: 1850-1888. Trad. de Fernando de Castro Ferro. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978. p. 334.
22- Gazeta da Tarde. 27 de agosto de 1884.
23-13 de maio de 1889.
24-18 de maio de 1889.
25- MACHADO, Humberto Fernandes. Escravos, Senhores e Café: a Crise da Cafeicultura Escravista do Vale do Paraíba Fluminense. 1860-1888. Niterói: Cromos,1993.
26- Anais da Câmara.1888. ps. 59/73.
27- Anais do Senado.1888. ps. 109/111.
28- Cidade do Rio.18 de junho de 1888.
29- Cidade do Rio.11 de junho de 1888.
30-11 de junho de 1888.
31- Cidade do Rio. 18 de junho de 1888.
32- 4ª. Conferência no Teatro Santa Isabel. 30 de novembro de 1884, in O Abolicionismo e Conferências e Discursos Abolicionistas. São Paulo: Instituto Progresso Editorial. 1949, 377/378.
33- Cidade do Rio. 18 de junho de 1888.
34- Cidade do Rio. 31 de julho de 1888.
35- Conforme MAGALHÃES JR., ob. cit., p. 246/54; 272/3.
36- “Assembléia Geral do Partido Republicano a15 de agosto de 1881, in BOCAIÚVA, Quintino. Idéias políticas de Quintino Bocaiúva. Cronologia, introdução e notas bibliográficas e textos selecionados por Eduardo Silva, Brasília: Senado Federal, Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986, p. 564; 567/9. Também na Gazeta da Tarde, 9 de setembro de 1884.
37- 13 de abril de 1888. Ver também os números de: 18 e 20 de abril de 1888. Sobre as críticas de Quintino às eleições ver: “Carta a Rangel Pestana, Rio, 29 de maio de 1888”, in: BOCAIÚVA, Quintino, ob. cit., p.599/600.
38- Conforme MAGALHÃES JR. ob. cit., p. 253/4/5. Cidade do Rio, 3 e 4 de janeiro de 1889.
39- Cidade do Rio. 5 e 6 de fevereiro de 1901.
40- Cidade do Rio. 5 de fevereiro de 1901. A respeito das posições antagônicas entre os dois, consultar os números do Cidade do Rio de: 3 de janeiro, 29 de abril e 3 de maio de 1889, além daqueles referentes à primeira quinzena de fevereiro de 1901. Também: MAGALHÃES JR., ob. cit., p. 257/68; 385/395; BARBOSA, Rui. Emancipação dos escravos. O Projeto Dantas (dos sexagenários) e o parecer que o justifica, (1884), Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988. Abolicionismo, Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988. Obras Completas, vol. XII, T. I, 1885.
41- MACHADO, Humberto F,. A Guarda Negra......
42- JARDIM, Antonio da Silva. Propaganda Republicana. (1888-1889), Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, Conselho Federal de Cultura, 1978, p. 321/4.
43- CARVALHO, José Murilo. Os Bestializados, O Rio de Janeiro e a República que não foi, São Paulo: Cia. das Letras, 1987.
44- 27 de julho de 1889.
45- 14 de novembro de 1889.
46- 15 de novembro de 1889.




