Lino Guedes: a fulgurante trajetória de um afro-descendente
A finalidade desta comunicação é apresentar alguns apontamentos referentes à biografia de Lino Guedes (1897-1951), dando atenção especial para sua atuação no jornal Progresso. A partir da trajetória desse jornalista, poeta e ativista negro, percebe-se que – apesar de todas as dificuldades, tensões, ambivalências e contradições – uma parcela dos descendentes de africanos em diáspora no Brasil granjeou distinção (social e cultural) sem precisar prescindir de sua consciência racial.
É comum pensar que o negro depois da abolição da escravatura – em 13 de maio de 1888 – ficou completamente à deriva, excluído do mercado de trabalho e da vida nacional. O retrato completo dessa explicação aponta para um negro anômalo: desempregado ou realizando serviços braçais, analfabeto, desarticulado social e politicamente, despreparado para o mundo civilizado e vida moderna e, por fim, soterrado em seu complexo de inferioridade. Essa explicação esquemática, simplista e reducionista tem sua parcela de verdade, mas não é tudo que pode (e deve) ser dito acerca do destino dos ex-escravos e de seus descendentes. A história é mais complexa, multifacetada, contraditória e rica de fatos, cenários, personagens e contextos do que a nossa vã consciência imagina. Além dos negros que ficaram marginalizados – que por sinal foram muitos –, houve aqueles que também ascenderam social e culturalmente, destacando-se em profissões de prestígio, sendo reconhecidos em ambientes letrados e respeitados pelos mais diferentes estratos da sociedade.
Um desses casos foi Lino de Pinto Guedes – mais comumente conhecido por Lino Guedes –, nascido na cidade de Socorro, interior de São Paulo, em 24 de junho de 1897. Seus pais eram dois ex-escravos, que levavam uma vida humilde e pacata. Quando recém-nascido, perdeu o pai, o que fez com que sua mãe ficasse responsável pela educação dele e de sua única irmã, Gracinda Guedes. Com parcos recursos materiais, recebeu ajuda do “coronel” Olympio Gonçalves dos Reis, um dos líderes políticos mais poderosos da cidade. Foi a partir dessa relação paternalista de “proteção” e dependência a este “coronel” que Guedes conseguiu ingressar e se manter na escola, num período em que não era fácil arcar com as despesas dos estudos e vários estabelecimentos de ensino de São Paulo (e de outros lugares do país) se recusavam a matrícula de crianças negras.
Depois de ter concluído o equivalente ao antigo ensino primário, mudou-se para a cidade de Campinas em 1912, a fim de dar continuidade aos estudos na escola normal e torna-se professor. Na nova cidade, ampliou seu ciclo de amizades, passou a freqüentar novos ambientes e descobriu outros horizontes culturais. Como resultado, desistiu da carreira docente e assumiu a sua verdadeira vocação: o jornalismo. Seu primeiro emprego foi no jornal Diário do Povo, onde foi contratado como revisor auxiliar. Em seguida, trabalhou no Correio de Campinas, como revisor-chefe, e na redação do Correio Popular.
Paralelamente ao trabalho na grande imprensa, Guedes dedicou-se à militância em defesa da “classe dos homens de cor” (como se falava na época). Afinal, um de seus grandes sonhos era ver a elevação moral, social e cultural desse segmento populacional. Munidos de muita disposição de luta e um discurso cada vez mais racializado, freqüentou grêmios recreativos e eventos sociais da comunidade negra e, principalmente, engajou-se obstinadamente na chamada imprensa negra (jornais criados por e para os afro-brasileiros). O primeiro desses jornais a contar com sua colaboração foi A União, em 1915, quando Guedes dava os primeiros passos na profissão. Em companhia de Gervásio de Moraes e Benedito Florêncio, fundou o Getulino, em 1923. Vale ressaltar que, em termos de militância, sua grande inspiração foi o abolicionista negro Luiz Gama, conhecido pela alcunha de Getulino. Foi, aliás, para homenageá-lo que Guedes convenceu seus companheiros a escolher Getulino como título do novo jornal. Mas este, assim como outras publicações do gênero, não teve vida longa. Três anos depois, Getulino encerrou suas atividades.
Tudo indica que Guedes passou a achar a cidade de Campinas pequena para suas ambições pessoais e profissionais, por isso transferiu-se para a capital paulista ainda em 1926. Começou a trabalhar no Jornal do Comércio, tendo atuado, até o fim de sua vida, em vários órgãos da imprensa escrita: O Combate, A Razão, Correio Paulistano e, por último, Diário de São Paulo, onde por vários anos chefiou o seu departamento de revisão. Essas várias mudanças de emprego podem sinalizar o quanto Guedes era respeitado e transitava no meio jornalístico de São Paulo, não lhe faltando oportunidade de trabalho.
Em São Paulo, deu continuidade à sua militância em defesa dos direitos dos “homens de cor”, participando de associações recreativas e reuniões sociais da comunidade negra, até que, em 1928, colaborou com Argentino Celso Wanderley na fundação do Progresso, jornal cujo objetivo declarado era angariar recursos para a construção de uma herma a Luiz Gama. Nele, Guedes procurou convencer seu público leitor que suas propostas – baseadas num discurso moralizador, nacionalista, de valorização da “raça”, da educação formal e cultura ocidental – em prol da ascensão do negro eram as melhores. Devido aos seus posicionamentos político-ideológicos, entrou em divergência com algumas das principais lideranças afro-paulistas. Fora acusado de ser arrogante, personalista e ter uma postura elitista, em descompasso com os anseios da maior parte da população negra. O fato é que, se na época de sua chegada a Capital Guedes foi elogiado, depois passou a ser criticado, o que o fez perder cada vez mais espaço no movimento associativo da “classe dos homens de cor”.
Simultaneamente à carreira profissional e ao engajamento político, ele também se dedicou ao mundo da literatura. Sua paixão era a poesia. E ao traduzir em linguagem poética seus desejos, sonhos, expectativas, alegrias e frustrações, Guedes notabilizou-se por escrever o que foi denominado de literatura negra – uma literatura produzida por afro-brasileiros e voltada para tratar de suas questões. Suas primeiras poesias foram publicadas nos jornais da imprensa negra, tanto em Campinas quanto em São Paulo. Em 1924, publicou o livro Luiz Gama e sua individualidade, como forma de render, mais uma vez, tributo ao seu maior ídolo. Dois anos depois, deu-se o lançamento de Black, seu primeiro livro de poesia.
Segundo o prefaciador de uma de suas obras, ele escreveu o primeiro livro intrinsecamente getulino no Brasil, ou seja, um livro em nome da e para a comunidade negra. Essa opinião é de certa forma compartilhada por David Brookshaw, para quem “Lino Guedes foi o primeiro poeta negro do Brasil a experimentar e expressar conscientemente a alma de seu povo”.
Guedes publicou mais de dez obras (como O Canto do Cisne Preto, 1927; Ressurreição Negra, 1928; Urucungo, 1936; Negro Preto Cor da Noite, 1938; Suncristo, 1951), sempre tematizando direta ou indiretamente a questão racial. Dada à dificuldade que os escritores afro-brasileiros enfrentavam para publicar naquela época, trata-se de uma proeza. Cumpre lembrar, porém, que a maior parte dos livros era opúsculo, com edição patrocinada pelo próprio autor; baixa tiragem, distribuição precária e circulação limitada. De toda sorte, o talento literário de Guedes transcendeu ao meio negro, sendo reconhecido e respeitado por vários intelectuais, como Coelho Neto, João Ribeiro e Orígenes Lessa. Foi membro da Sociedade Paulista de Escritores. Pela ocasião de seu falecimento, em 1951, A Gazeta publicou um obituário e uma foto em que ele aparece ladeado de Arthur Ramos, Mário de Andrade e Couto de Magalhães Neto.
Lino Guedes rompe com alguns dos estereótipos associados ao negro nas primeiras décadas do pós-Abolição. Sua trajetória revela como havia indivíduos desse segmento populacional que não eram xucros ou ocuparam apenas cargos e posições subalternas. Sem abdicar de sua consciência racial, ele foi capaz de fazer uma carreira de sucesso no jornalismo, levar uma vida socialmente emergente (fazendo parte da “elite de cor”); lançar-se como escritor (circulando nos ambientes de cultura erudita) e procurar cumprir um papel proativo no destino nacional. Longe da imagem de passividade e desajustamento, seu exemplo sinaliza como os afro-descendentes em diáspora no Brasil foram batalhadores, dinâmicos, inteligentes, articulados, apropriando-se seletivamente dos códigos da “civilização” e “modernidade”.
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