Antonio Vieira: Matéria e performance da pregação
Nesse ano de 2008 comemora-se o quarto centenário de nascimento do Padre Antonio Vieira. Nascido em Lisboa e falecido na cidade do Salvador. O Padre Vieira viveu em várias partes do mundo. Nesses lugares ele semeou a palavra divina. Ele pregou em circunstâncias diversas de acordo com os acontecimentos do seu tempo. Ele defendeu grandes causas com eloqüência, entre as quais, a monarquia portuguesa. Os Sermões do Padre Antonio Vieira foram publicados nos séculos XVII e XVIII. Vieira organizou-os para estampa seguindo seus borrões. No primeiro volume da edição princeps dos Sermões configurava o Sermão da Sexagésima, pregado na Capela Real em 1655. Nesse sermão ele criticava a performance do pregador e o pouco fruto que se fazia as pregações. Para Vieira a pregação deveria ser dirigida para os olhos.
Pela tradição oral se contava, que o Pe. Vieira em oração diante da imagem de Nossa Senhora das Maravilhas, na antiga Sé da cidade do Salvador, sentiu um estalo em sua cabeça, que o tornou hábil e lúcido para argumentar. Esta lenda foi narrada pelo Pe. André de Barros na Vida do Pe. Antonio Vieira.
Já é notável que o Pe. Vieira era detentor do uso exímio da palavra nos seus sermões e nos seus escritos. Para seu biógrafo João Lúcio de Azevedo, o Pe. Vieira possuía qualidades que o distinguia: “Erudição, estilo grandioso, intimitativa, número, propriedade notável de linguagem, elegância e pureza, de uma parte; de outra o abuso das alegorias, das antíteses, as subtilezas, os trocadilhos, os maneirismos, que inflamavam a literatura da época, e sobretudo a eloquência” (1992,v. I,p.34).
Seu engenho retórico encantou auditórios por toda parte em que viveu. Em Lisboa, se dizia que se costumava lançar tapetes na madrugada para ouvi-lo na igreja de São Roque. A sua oratória encantou a Rainha Cristina da Suécia, que em Roma o convidou para ser seu pregador e depois para ser seu confessor (SALOMÃO, 2001, p.480). Tais postos, o Pe. Vieira os recusou. Mesmo assim, o Pe.Vieira pregou na Corte de Cristina da Suécia. Em carta a Duarte Ribeiro Macedo, datada de 26 de dezembro de 1673, Vieira dizia: “O que passa em Roma é que a rainha da Suécia, contra todas minhas repugnâncias, e com obediência expressa do padre-geral, me tem nomeado seu pregador, e eu fico com o encargo de fazer na sua capela todas as pregações, duvidando qual seja a maior dificuldade, se haver de falar em italiano, se haver de satisfazer a um tal juízo, que aqui se reputa sem controvérsia pelo mais ardente e sublime utriusque sexus. Costuma achar-se naquele lugar tudo o maior e melhor de Roma, e eu acho-me com os meus anos e com o nosso pouco gosto” (CARTAS,1997,T.II,p.670-671).
Apesar das suas alegações em pregar em italiano, Vieira pregou e dedicou à Rainha a série de sermões intitulados As Cinco pedras da funda de David. A performance do Pe. Antonio Vieira já se notabilizava, quando na Bahia subiu ao púlpito para proferir o Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda. Com as armas da eloquência, ele não se dirigia ao público presente na igreja da Ajuda, mas a Deus com quem se afrontava, indagando de qual parte Deus estava tomando partido, se dos holandeses ou dos sitiados. Esse artifício com característica de teatralização retórica intencionava persuadir e elevar os ânimos dos ouvintes. De acordo com Alcir Pécora, o sermão que “descobre e opera argumentativamente esses índices, ele é mesmo uma ‘retórica de coisas’, mas é mais: é uma hermenêutica factual cuja interpretação preenche os lugares da invenção retórica. O sermão é uma ação que descobre e movimenta verbalmente os sinais divinos ocultos na ação do mundo: retórica análoga à retórica divina que a hermenêutica descobre no avanço dos tempos” (1994, p.170-171).
Com a restauração de Portugal e a aclamação de D. João IV, Pe. Vieira partia da Bahia para Portugal acompanhando D. Fernando Mascarenhas para levar adesão ao novo monarca. Segundo João Lúcio de Azevedo, Vieira recebera a simpatia de D. João IV instalando-se na Corte. Em 1º de Janeiro de 1642, Vieira pregou na Capela Real o Sermão dos Bons Anos. Com engenhosidade alegórica afirmava que D. João IV era o esperado Encoberto (AZEVEDO, 1992, p.55). Esse sermão e mais outros dois sermões, o de S. Roque e o de S. Antonio, foram logo impressos. A oratória de Vieira se difundia na Corte, nos púlpitos e na imprensa. A composição dos sermões de Vieira conferia uma unidade teológica-política através de alegorias bíblicas e dos acontecimentos da realidade. Em 26 de maio de 1644, Vieira foi nomeado pregador régio.
Para Vieira o sermão tinha a função de edificar os fiéis (CARTAS, T.II, p.97). O principal requisito era saber teologia. Os conventos e colégios asseguravam com suas livrarias a preparação intelectual dos padres e dos noviços “onde nunca faltava uma boa secção dedicada à oratória sagrada” (MORÁN, ANDRÉS-GALLEGO, 1995, p.130). A ordem dos inacianos através da Ratio Studiorum, que era o modelo e programa de estudos para formação do pregador, possibilitava o exercício da retórica, baseada em autores clássicos, sobretudo Cícero, Aristóteles e Quintiliano. O pregador deveria saber o latim, conhecer a doutrina e os escritos dos doutores da igreja. De acordo com Serafim Leite o ministério da pregação do Evangelho era um hábito dos jesuítas, quer como oratória sagrada, orações fúnebres e panegíricos. Com relação a Vieira, Serafim Leite dizia que averiguando os numerosos sermões desse padre, observava a sua facilidade e elevação com que pregava às gentes do Brasil, à corte na capela real de Lisboa e à corte pontifícia em Roma (LEITE, 1993, p.228-229).
Para Aníbal Pinto de Castro, o Pe. Vieira era possuidor de uma grande cultura sagrada e profana, e arguto observador da realidade nos contextos que ele viveu. Possuía grande competência da escrita e ele “apostou deliberadamente em fazer do verbo a arma mais poderosa da sua intervenção em todo aspectos que lhe pareceram susceptíveis de transformar o mundo em função desse objectivo ideal ”(1997, p.18). De acordo com Pécora, o discurso de Vieira era essencialmente militante (1994, p.111). O seu sermão procurava convencer, mover, persuadir os diferentes públicos a que se dirigia, construindo conceitos. Os seus argumentos retóricos se construíam nos exemplos, na multiplicação de imagens e de conceitos em cadência rítmica. Apelava ao ouvinte por meio de metáforas e por meio do maravilhoso. Para Antonio José Saraiva o discurso de Vieira era engenhoso (1996, p.7). Esse intelectual analisou o Sermão da Sexagésima, afirmando que para Vieira, a palavra era um instrumento de ação.
O Sermão da Sexagésima foi pregado na capela real no ano de 1655, após o retorno de Vieira das missões no Maranhão. Segundo João Lúcio de Azevedo esse sermão foi pregado por Vieira como provocação a forma de pregar dos frades dominicanos (1992, v.I, p.221). Estavam consignadas nesse sermão a forma de pregar e como deveria ser sua composição. Vieira criticava os pregadores do seu tempo fazendo comparações e para tanto ele utilizava-se de alegorias. O tema eleito para a ocasião era a parábola do semeador “Semen est Verbum Dei” narrada no evangelho de Lucas e “Ecce exiit qui seminat, seminare” narrada no evangelho de Mateus.
Nesse sermão Vieira falava do pregador que saiu a semear a palavra divina, interpretando a palavra de Cristo na parábola. Sair e Semear. Segundo Vieira há uns que semeiam sem sair e outros que saem a semear. Aqui, Vieira fazia alusão aos missionários pregadores que saíam a semear a palavra divina na Ásia e na América e os que pregavam em Portugal. Os que saíram a semear a longos passos encontraram grandes dificuldades. Vieira se referia aos missionários que saíram a semear a palavra no Maranhão. Ele dizia “Houve missionários afogados, porque uns se afogaram na boca do grande rio das Amazonas: houve missionários comidos, porque a outros comeram os bárbaros da ilha dos Aruãs: houve missionários mirrados, porque tais tornaram os da jornada do Tocantins, mirrados de fome e da doença, onde tal houve, que andando vinte dous dias perdido nas brenhas, matou sómente a sede com o orvalho que lambia das folhas” (SERMÃO, T.I, p.6) e concluía que para esses semeadores todas essas dificuldades eram glórias.
Em seguida, Vieira dizia que, como aquele auditório vinha enganado dele, ele o desenganaria com o sermão que serviria de prólogo aos sermões daquela quaresma. Porque todas as dificuldades de semear a palavra encontravam-se nos diversos corações dos homens. Os corações embaraçados na riqueza. Os corações duros e obstinados. Os corações perturbados das coisas do mundo. Mas nos corações bons o semeado frutificaria a palavra divina com abundância. Mas com tanta pregação nos púlpitos por que os frutos eram poucos? Vieira indagava. Seria a causa da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus? Vieira concluía que a palavra divina não frutificava era por culpa dos pregadores (SERMÃO, T.I, p.13).
Devia-se considerar no pregador cinco circunstâncias: a pessoa, a ciência, a matéria, o estilo, a voz. Mas uma coisa é o pregador, e outra o que prega. Vieira destacava que, antigamente, pregavam-se palavras e obras e que no seu tempo pregavam-se palavras e pensamentos. Porém, “palavras sem obras, são tiro sem bala” (SERMÃO, T.I, p.14). Vieira salientava que pregar semeando se fazia com as mãos e para falar aos corações são necessárias obras. Vieira perguntava por que os sermões faziam pouco abalo e, respondia que era porque se pregavam só aos ouvidos e não para os olhos. A pregação deveria ser para os olhos e não de estilo afetado: “O estilo há de ser muito fácil e muito natural” (SERMÃO, T.I,p. 18), e com queda , com cadência, e com caso. A queda era para as coisas, a cadência era para as palavras e o caso para a disposição. Com queda, cadência e caso as coisas haveriam de vir bem trazidas, as palavras não haveriam de ser escabrosas, e a disposição haveria de ser natural. Vieira, ao falar contra os estilos modernos, resgatava o estilo do mais antigo pregador que era o céu. No céu as palavras eram as estrelas e os sermões eram a composição, a ordem, a harmonia e o curso delas. As palavras deveriam ser como as estrelas, muito distintas e claras. Vieira condenava o estilo culto, e portanto recomendava a clareza e a ordem.
O estilo da pregação deveria ser claro e distinto para que se pudesse entender o que não soubessem e tão alto para se entender nele os que sabiam. Portanto o sermão deveria de ter sómente um assunto e uma só matéria. O pregar era entrar em luta contra os vícios pela persuasão. A voz do pregador deveria ser como um trovão para que se faça tremer. Deveria se pregar a palavra de Deus e não fábulas. O púlpito não era lugar de comédias e nem o pregador um comediante. Para que a pregação se fizesse fruto, não era agradando o ouvinte, mas quando a cada palavra do pregador, o ouvinte tremesse e ficasse atônito.
Os ouvintes deveriam sair após o sermão não contentes do pregador, mas descontentes de si. Que lhes parecessem mal os seus costumes, as suas ambições, as suas vidas, os seus vícios e suas cobiças. Numa carta de Vieira para Duarte Ribeiro Macedo, o jesuíta dizia que o sermão se louvava as virtudes e se vituperava os vícios, mas naquele tempo tudo estava corrupto, tanto pelo pouco zelo dos pregadores,“como pelo estragado gosto dos ouvintes, que eles deveram mais curar que seguir”(CARTAS, t.III,p.414).
REFERÊNCIAS
AZEVEDO, J. Lúcio. História de Antonio Vieira. 3ª ed. Lisboa: Clássica, 1992.
CASTRO, Aníbal Pinto de. Introdução. In: Padre Antonio Vieira, 1608 – 1697. Lisboa: Biblioteca Nacional, p.13-19, 1997.
LEITE, Serafim. Breve história da Companhia de Jesus no Brasil, 1549 – 1760. Braga: Apostolado da Imprensa, 1993.
MÓRAN, Manuel; ANDRÉS-GALLEGO, José. O pregador. In: VILLARI, Rosario (org.). O Homem Barroco. Lisboa: Presença, 1995, p.115 -142.
PÉCORA, Alcir. Teatro do Sacramento. São Paulo: Edusp, 1994.
SARAIVA, Antonio José. O discurso engenhoso. Lisboa: Gradiva, 1996.
VIEIRA, Antonio. As Lágrimas de Heráclito. SALOMÃO, Sonia. (Introdução e notas). São Paulo: Ed. 34, 2001.
______________. Sermões. Porto: Lello e Irmãos, 1959. 5 v.
______________. Cartas. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1997. 3 T.




