O "Diário do Rio de Janeiro" e seus usos na historiografia
O periódico, Diário do Rio de Janeiro, circulou na Corte carioca por longos anos. De forma ininterrupta, esteve atuante entre os anos de 1821 e 1844. Após uma pausa de quase dois anos1, retornou com força até o ano de 1878. Por sua extensão cronológica e histórica, nas palavras de historiadores, “o Diário era mais velho que o Império”2.
Como espaço de trabalho de inúmeros redatores, escritores e editores, o Diário testemunhou inúmeras transformações ocorridas na cidade, bem como as mudanças tidas no próprio fazer jornalístico da época. Entre os muitos elementos disponíveis em suas páginas, destacam-se detalhes acerca do movimento de evolução urbana; do crescimento dos comerciantes; das maneiras de apreensão das notícias por seu público; das novas relações sociais daí resultantes... Enquanto folha periódica, o veículo surgia como incentivador do ofício de editor e de redator, como integrante de um movimento crescente de uma escrita que se fazia pública. Essas e outras noções apresentadas pelos periódicos, se expressavam no bojo de fortalecimento de valores vinculados à Modernidade3 nos trópicos, como expressão da peculiar absorção das Luzes em terras americanas. Um contexto que deixava de ser colonial para “vestir-se” sob novas roupagens... Dito de outro modo, após uma leitura atenta, o veículo foi compreendido enquanto “expressão de um iluminismo”4 tropicalizado, o qual, uma vez mitigado pelos intelectuais lusos, apresentou na Corte impactos específicos, relevantes, entretanto, para a ampliação do diálogo e participação da sociedade na incipiente esfera pública que se formava. Para tanto, e diante da impossibilidade de analisarmos o jornal em toda sua extensão, escolhemos balizar a análise no período compreendido entre 1821 e 1825.
A periodização foi escolhida em função do Diário estar inserido, ao menos inicialmente, em contexto de intensa atividade jornalística, participando da construção de uma espécie de arena da cidadania que começava a se delinear por meio também da imprensa5. Da mesma maneira, era através desse importante impresso que a Tipografia do Diário, mantinha-se em constante interação com a sua sociedade. Afinal, uma publicação regular era fonte representativa para manter o sustento das tipografias. A análise deste importante documento, portanto, possibilita-nos melhor compreensão sobre as condições que permitiram a sobrevivência da Tipografia do Diário, haja vista que a família Meireles vivia dos recursos advindos especialmente desse empreendimento.
Uma das características fundamentais encontradas nas páginas dos periódicos situados no contexto de separação do Império luso-americano era, sem dúvida, seu diálogo com a política. Como demonstra a epígrafe do periódico A Malagueta, muitas eram as referências teóricas de que lançavam mão os redatores para convencer o público-leitor acerca da necessidade de sua participação nas questões mais prementes da política. Autores como Montesquieu, Benjamim Constant, Adam Smith e, mesmo, Rousseau6, figuravam na lista dos mais utilizados, na perspectiva de embasar os diferentes argumentos para muitas das questões postas pela ação da imprensa. A vigilância sobre o exercício do poder estatal – alvo de ataque de alguns grupos e da defesa de outros – e, da mesma maneira, a intervenção dos redatores nos assuntos que diziam respeito à feitura da primeira Constituição Lusa, constituir-se-iam temáticas das mais relevantes e que consumiam o maior espaço em suas poucas páginas. Diante desse vasto conjunto documental e peculiar caminho de análise das relações entre imprensa, comunicação e política, muitos historiadores, ao longo dos séculos XIX e XX, matizados por diretrizes teóricas diversas, voltaram-se para seu estudo, especialmente no período inicial, que diz respeito à passagem do “Brasil”, de Reino Unido a Império independente. Tais estudos, constituem uma tentativa de compreender as origens da palavra pública nos trópicos e, portanto, de encontrar explicações para muitos de seus próprios questionamentos.
Entretanto, centrados em análises que privilegiavam os jornais tidos como essencialmente políticos, muitos historiadores acabaram relegando para segundo plano as “folhas” entendidas como culturais e/ou comerciais. Em outros casos, tais periódicos foram utilizados apenas como fonte documental, não recebendo, assim, tratamento que considerasse sua importância enquanto objeto de estudo aprofundado, capaz de revelar-nos aspectos fundamentais para uma compreensão mais detida das transformações dadas tanto no campo das relações sociais, quanto no que respeita à própria história da imprensa no Império do Brasil.
Nesse sentido, e no que toca ao tema desta seção, o periódico, Diário do Rio de Janeiro, foi contemplado pela historiografia tradicional - situada mais especificamente na segunda metade do século XIX, mas que deixou marcas, contudo, ao longo de quase todo o século passado -, como “jornal de anúncios”. Segundo essa visão, o periódico teria se desenvolvido à margem dos assuntos entendidos como urgentes. É interessante ressaltar, que tal noção revelava uma visão mais restrita da noção do político, acabando por delimitar suas preocupações na busca de apreender os fatos sob uma óptica vertical, pautada na hierarquia de poder do Estado. De acordo com essa vertente, a hierarquia social era o ponto chave do discurso. Conseqüentemente, do mesmo modo era necessário o respeito e a obediência dos súditos ao rei a sua Corte, chegados para “civilizar” os trópicos.
Nessa perspectiva, destaca-se o pioneiro estudo do historiador Manuel Duarte Moreira de Azevedo, cuja ênfase estava voltada para a evolução de uma linha cronológica dos periódicos; com destaque para seus precursores e suas origens. Em seus estudos, destacou que o Diáriodo Rio de Janeiro foi a primeira “folha” a publicar anúncios e notícias locais, posto que, como era de costume em uma sociedade intensamente movida pela oralidade, até aquele momento, segundo o autor, os avisos manuscritos eram afixados nas portas de igrejas ou nas esquinas das ruas7. No que respeita à análise do conteúdo do periódico, nossa pesquisa verificou que ao autor não foi possível realizar a leitura do jornal, haja vista sua afirmação equivocada do valor de venda, tanto no que diz respeito ao exemplar único, quanto de seu valor por meio de assinatura mensal, o que invalida ainda o epíteto criado, Diário do vintém, encontrado em sua obra e seguidamente repetido por outros autores8. Conforme observado em nosso estudo, o Diário do Rio de Janeiro iniciou sua publicação custando quarenta réis9, o dobro do que pregou a historiografia10.
Alguns anos depois, no século XX, além da valorização dos aspectos característicos de uma imprensa ligada à política de governo, alguns estudos situados na década de quarenta, centraram suas atenções também na escrita dos redatores. Sendo assim, enquanto dispensavam constantes elogios a algumas iniciativas, condenavam outras, em uma espécie de julgamento dos impressos, devido ao caráter veemente e “violento” presente na linguagem11. Em tais estudos, considerados clássicos por fornecerem manancial de informação sobre as condições históricas de desenvolvimento da imprensa, os redatores são vistos sob vários ângulos: heróis12, mártires13 ou agitadores dos pasquins14.
Posteriormente, já na década de sessenta, dada à ascensão de noções vinculadas ao marxismo, a análise sobre a imprensa voltou-se para os aspectos inseridos no jogo de poder, oriundos, assim, da luta de forças antagônicas. Visto ainda como veículo de anúncios, o Diário do Rio de Janeiro, foi ressaltado a partir da ênfase na sua contraposição à política, ou seja, enquanto participante de uma imprensa “neutra”, cuja existência não teria interferido na cena pública, constituindo, portanto, uma “folha omissa”15. Sua importância, em contrapartida, residiria no fato de representar órgão inspirador dos jornais de informação. Alguns periódicos ganharam maior notoriedade nos trabalhos que se esforçavam em considerar as relações entre imprensa e as condições econômicas do período, reflexos, por sua vez, de acordo com essa linha, da disputa por espaço de ação entre grupos econômicos na busca pela hegemonia16.17. Quase vinte anos depois, em 1985, o historiador brasilianista, Laurence Hallewell, resgatou algumas dessas considerações, ao tratar o Diário do Rio de Janeiro, “por seus pequenos anúncios”18. Por ter resultado na morte de seu redator, o periódico foi entendido pelo autor como “um desastre”, no que diz respeito ao seu papel enquanto instrumento público19.
Mais recentemente, a partir do início da década de 1990, outras noções passaram a ser a tônica das pesquisas. Resultado das comemorações do bicentenário da Revolução Francesa20, tais estudos promoveram um repensar das relações entre cultura e poder. Desenvolveram-se, assim, estudos que se debruçaram sobre os rumos tomados pelos meios de comunicação, com especial destaque à produção, bem como à influência da cultura. No que toca ao nosso objeto, neste novo cenário, no qual nos vemos imersos, o Diário é utilizado como uma das fontes documentais de suma importância, auxiliando a compreensão das transformações sociais advindas com a Modernidade21. Entretanto, apesar do afrouxamento da noção de política, vertida, agora, na noção da existência de um amplo campo do político, e da consideração da importância de seu diálogo com as diferentes esferas sociais, o Diário do Rio de Janeiro ainda não foi contemplado com análise mais aprofundada, a qual almejasse compreender sua importância tal qual produto e agente de seu tempo, influenciando e sendo influenciado pelas novas diretrizes liberais, recém chegadas na América Portuguesa.
Buscando preencher tal lacuna, a partir da leitura exaustiva de suas matérias, seus anúncios e “notícias particulares”, objetivamos compreender o periódico enquanto veículo de difusão do iluminismo nos trópicos - em sua dimensão racionalista e pragmática -, que abrigou, no valor da informação e da noção utilitarista da imprensa, uma missão esclarecedora frente à sociedade. Ao contrário do que pregou a historiografia, seu redator, Zefferino Vitor de Meireles, através do Diário do Rio de Janeiro, criou um meio no qual apresentava e discutia preocupações sociais mais amplas, em que o público leitor, colaborador e anunciante, interagia, participando da construção de uma nova sociedade, imersa nos rumos da modernização. Em busca de uma análise que ultrapasse sua dimensão comercial, contemplaremos também uma abordagem acerca dos conceitos de pátria e nação, bastante difundidos pelos colaboradores especialmente nos anos de 1821 e 1822.
1 No ano de 1845 saiu à luz nos meses de julho e agosto. Cf. Catálogo de jornais e revistas do Rio de Janeiro existentes da Biblioteca Nacional (1808-1889). Anais da Biblioteca Nacional. Edição fac-similada, 1881.
2 Marcello de Ipanema & Cybelle de Ipanema. Imprensa Fluminense: ensaios e trajetos. Rio de Janeiro: Instituto de Comunicação Ipanema, 1984.
3 Na concepção do professor François - Xavier Guerra, o advento da Modernidade teve como essência a invenção do indivíduo. Nesse sentido, o indivíduo concreto, agente empírico presente, segundo o autor, em toda a sociedade, converteu-se, a partir da Ilustração, no que chamou de “sujeito normativo das instituições”. Sobre a Modernidade e seus impactos políticos e culturais na América espanhola, ver: François-Xavier Guerra. Modernidad y independências: ensayo sobre los revoluciones hispânicas. Madrid: MAPFRE, 1992, p. 85.
4 A expressão é utilizada por Maria Lúcia Palhares-Burke, a respeito do periódico inglês The Spectator. Maria Lúcia Palhares-Burke. The Spectator. O Teatro das Luzes. Diálogo e imprensa no século XVIII. São Paulo: Editora Hucitec, 1995, p. 27.
5 No aspecto quantitativo, o movimento da imprensa em 1824 e 1825 na cidade imperial declinou, voltando a erguer-se somente a partir do ano seguinte, proporcionada pela instalação da Assembléia Geral do Brasil, em 1826.
6 O historiador Marcello Basile, em sua dissertação de Mestrado, ressaltou a carência de estudos que analisem a influência de teóricos europeus no discurso e nas práticas da imprensa no Império brasiliense. Marcello Otávio Néri Campos. Anarquistas, Rusguentos e Demagogos: os liberais exaltados e a formaçãode uma esfera pública na corte imperial (1829-1834), 2000. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Cap.V.
7 Alguns historiadores, como Nelson Werneck Sodré e Brasil Gerson, reafirmam estas características como mera reprodução de Azevedo. Cf. Manuel Duarte Moreira de Azevedo. “Origem e desenvolvimento da imprensa no Rio de Janeiro”. Revista do Instituo Histórico, Geográfico e Etnográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: quarto trimestre de 1865, p. 186.
8Nelson Werneck Sodré. A história da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad,1999, p. 50; Carlos Rizzini foi, talvez, o único a destacar o valor avulso correto. Cf. Carlos Rizzini. O livro, o jornal e a tipografia no Brasil: 1500-1822. Rio de Janeiro/ São Paulo. Kosmos,1945, p. 372.
9 A análise do preço de venda dos jornais da época verificou que em sua maioria, custavam o valor de $80 (oitenta réis). Alguns exemplos são: A Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1822); O Espelho (1821-1823); Sabatina Familiar dos Amigos do Bem Comum (1821-1822); Compilador Constitucional e Político Brasiliens (1821); O Constitucional (1822)l; Correio do Rio de Janeiro (1822-1823), entre outros. Alguns custavam o valor de $120 (cento e vinte réis), como: Reverbero Constitucional Fluminense (1821-1822) e alguns exemplares extraordinários d’O Espelho (1821-1823). O Diário do Rio de Janeiro, portanto, oferecido na forma avulsa, a $40 (quarenta réis), acabou por ser o jornal mais barato, possivelmente por isso, o mais popular. Todavia, nenhum registro documental mostrou correspondência ao que a historiografia chamou de Diário do vintém ou Diário da manteiga. Alguns exemplares do Diário do Rio de Janeiro, compostos por um maior número de páginas, chegaram a custar $60 (sessenta réis).
10 De acordo com Licurgo Costa & Barros Vidal, o Diário do Rio de Janeiro “gozava de grande popularidade não só pelo seu preço, - “vinte réis o exemplar” – como também pela independência com que seu redator escrevia seus artigos”. Licurgo Costa & Barros Vidal. História da evolução da imprensa brasileira. Rio de Janeiro: Imprensa nacional, 1940, p. 19.
11 Os elogios eram direcionados aos redatores: José da Silva Lisboa e Frei Tibúrcio José da Rocha. As críticas à linguagem utilizada nos pasquins, foram dirigidas especialmente aos redatores: Cipriano Barata e a Antônio Borges da Fonseca. Cf. Helio Vianna. Contribuição à história da imprensa brasileira. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1945. Gondin da Fonseca. Biografia do jornalismo carioca(1808-1889). Rio de Janeiro: Editora Quaresma 1941, p. 283. Carlos Rizzini. O livro, o jornal e a tipografia no Brasil: 1500-1822. Rio de Janeiro/ São Paulo. Kosmos, 1945, p. 372.Laurence Hallewell. O livro no Brasil: sua história. São Paulo: EDUSP, 1985.
12 Gondin da Fonseca. Biografia do jornalismo carioca(1808-1889). Rio de Janeiro: Editora Quaresma 1941, p. 283.
13 Laurence Hallewell. O livro no Brasil: sua história. São Paulo: EDUSP, 1985, p. 45.
14 Hélio Vianna. Contribuição à história da imprensa brasileira. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1945, p. 405.
15 Nelson Werneck Sodré. A história da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad,1999, pp. 50 -51, Carlos Rizzini também considerou o Diário enquanto “omisso a questões políticas”. Carlos Rizzini. O livro, o jornal e a tipografia no Brasil: 1500 -1822. Rio de Janeiro / São Paulo. Kosmos, 1945, p. 372
16 Um traço comum destes pesquisadores com os da década anterior, no entanto, foi a preocupação em dar conta de uma vastidão de informações, a partir da confecção de uma única obra, em que o mote era conferir destaque aos chamados “periódicos políticos”.
17 José Honório Rodrigues. Revolução e contra-revolução no Brasil. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves editora S.A, 1975, pp. 164 -166.
18 Laurence Hallewell. O livro no Brasil: sua história. São Paulo: EDUSP, 1985, p. 45.
19 Idem. Ibidem.
20 Sobre a participação da imprensa como agente histórico, ver: R. Darnton & D. Roche (orgs.) Revolução Impressa. A imprensa na França 1775-1800. São Paulo: Edusp, 1996.
21 Anúncios do Diário do Rio de Janeiro, circunscritos nos anos de 1821 e 1822, foram utilizados por Lúcia Bastos. Como documentos históricos e atores políticos, e testemunhas das transformações de seu tempo. Cf. Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves. Corcundas e constitucionais: a cultura política da independência, (1820-1822). Rio de Janeiro: Revan / FAPERJ, 2003. Marcello Basile utiliza-se da contextualização dos jornais da época para traçar e analisar o panorama da imprensa e sua relação com a esfera pública literária e política, no tempo do Governo Regencial. Cf. Marcello Otávio Néri Campos Basile. O Império em construção: projetos de Brasil e ação política na Corte Regencial, 2004. Tese de Doutorado. Rio de Janeiro. Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. Universidade Federal do Rio de Janeiro.




